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Sejam bem-vindos. O viajante desta semana não é político, mas acaba de realizar uma viagem com propósitos políticos. Pedalou mais de 6 mil quilômetros para entregar em mão, a 278 autarcas ou responsáveis camarários de Portugal continental, uma carta. Na missiva, o nosso viajante pediu que se considere o transporte de bicicleta como uma prioridade nas políticas de mobilidade urbana. Na viagem de 25 dias, quis ainda mostrar que Portugal é um destino de excelência para o cicloturismo. Não foi a primeira aventura do nosso viajante. Ele já tinha pedalado o país todo, já fez a Nacional 2 em modo descoberta ou modo fast forward e já pedalou as nove ilhas dos Açores em nove dias consecutivos. Então, e países? Muitos, quase 100, à boleia da música. Já vamos perceber por quê e como. Tiago Cação, bem-vindo às "Conversas do Fim do Mundo".
Olá, obrigado pelo convite.
Valente, 6 mil quilômetros de bicicleta pelo país.
Sim, foi uma grande irresponsabilidade.
Irresponsabilidade.
Sim, não foi tão fácil como eu estava à espera.
O que foi mais difícil, a dureza?
Foi o Alentejo.
O Alentejo? Curiosamente, é a parte mais plana do país.
É um engano.
É, não é?
É um engano, é um falso plano. Apanhei 38 graus. Estava na zona mais desértica do Alentejo. Acho que foi a primeira vez que eu pensei em desistir do projeto.
Do projeto 278, não é?
Sim, porque fisicamente eu estava destruído. Optei por dormir à tarde e pedalar mais à noite.
É porque não se descansa. Como é plano e tem muitas subidinhas, estás sempre a pedalar. Lá para cima, não. Sobes muito, mas desces, descansas.
No Alentejo, não. No Alentejo são retas intermináveis, tu estás sempre a ver a estrada, que nunca mais acaba e psicologicamente abala-te um pouco.
Vês a estrada lá ao fundo. E depois entras naquele loop: "É para ali que eu vou."
Não acaba. Psicologicamente, foi muito difícil.
Boa. Esta tua grande viagem tinha um propósito, entregar uma carta aos presidentes de câmara ou aos responsáveis camarários. Recebeste muitas palmadinhas nas costas?
Algumas, sim. Já estava à espera, mas também recebi bons feedbacks e acabou por ser importante, porque o objetivo do projeto 278 era, acima de tudo, colocar esta questão da mobilidade urbana no debate público e político durante a campanha autárquica. E de certa forma, foi conseguido. E, ao mesmo tempo, também consegui fazer um retrato do país sobre esta questão. E o retrato não é nada giro.
Estamos muito atrasados.
Estamos completamente atrasados em relação ao resto da Europa. Sim, é curioso que são os pequenos municípios-
Mas também somos um país desordenado, já por natureza, isso também não é bom.
Mas também não é isso que pode impedir ou que deva impedir. Porque curiosamente, são os pequenos municípios que estão um pouquinho mais avançados ou que têm melhores políticas de mobilidade urbana, ou que estão a começar a desenvolvê-las, que são os Planos Municipais de Mobilidade Urbana, são os PMMU, que a União Europeia pediu para serem discutidos e o país está atrasado na discussão desses planos. Há um exemplar, que eu considero, que é o de Albergaria-a-Velha. Fui tendo muitas surpresas ao longo da viagem, nessa questão. Apesar de tudo, Lisboa é a cidade que está mais avançada nesta questão. O Porto é um desastre. Do Margem Sul nem se fala. Lisboa, sim, apesar de nos últimos quatro anos terem-se suprimido ciclovias e não termos visto nenhum avanço nesta questão, esperemos que isso entretanto mude. Apesar de tudo, Lisboa continua a ser a cidade que está mais desenvolvida nesse aspecto. Para o resto do país, na generalidade, está muito atrasado.
Muito atrasado. É um país muito velho também.
Essa questão da velhice é interessante, porque nós temos centros históricos que foram desenhados pra caber carroças.
Isso.
As ruas eram pra caber carroças e hoje teimamos em enfiar por lá milhares de carros. Eu fazia sempre uma pergunta quando chegava a uma cidade era: "Quantas ruas pedonais conhece na sua cidade?" Há uma em Braga. Responderam-me na Guarda da seguinte maneira: "Sim, olha, eu conheço uma, mas passam carros".
Uma rua pedonal onde passam carros. Então não é pedonal. Engraçado.
E é engraçado, porque nós temos centros históricos tão bonitos, com um patrimônio cultural riquíssimo, e nós nem conseguimos olhar para eles com calma. Há ruído.
Estão sujos, há que dizê-lo.
Sim, estão sujos.
Estão sujos de viaturas.
Esteticamente é horrível, não funciona. Eu tive a oportunidade de ir a 278 municípios.
Desculpa, vou ser manifestamente tendencioso no comentário. Nós vamos aqui ao lado da Espanha e funciona.
Claro que funciona.
Eles fazem diferente e funciona.
Claro que funciona.
Do ponto de vista social, do ponto de vista económico, do ponto de vista cultural, do ponto de vista turístico.
Aqui mais próximo de nós, talvez Porto Vedro, que foi um exemplo, retirou completamente os carros do centro. O comércio está cheio, as ruas estão cheias de pessoas, há uma vida. Devolveram a rua às pessoas. Acho que exageramos muito no carro, nos centros das cidades. E isso tem que ser mudado, porque traz benefícios.
É o que as pessoas também pedem hoje em dia.
Perdão?
As pessoas também pedem.
Temos vários exemplos. A propósito da pandemia, as pessoas conseguiram aproveitar melhor a cidade. Agora quando foi o apagão, de repente as pessoas perceberam que conseguiam. Víamos crianças a brincar na rua, a jogar futebol na rua Porque é que isto não pode acontecer sempre? É um retrato que estamos muito atrasados em relação ao resto da Europa. Até para não falar aqui com os nossos espanhóis.
Temos que arrepiar caminho. Senhores autarcas, vamos lá fazer trabalho de casa e ter a coragem de tornar as cidades mais humanas, mais centradas na pessoa e não tanto no uso do automóvel.
E que governem sem olhar para os comentários das redes sociais. São julgados só ao fim de quatro anos, portanto não tenham medo de executar as suas ideias.
É agora, porque agora é que estão com a posse.
Claro que sim.
As medidas impopulares tomam-se agora. Tu pedalaste 25 dias por Portugal, norte, sul, enfim, foste a todos os concelhos de Portugal continental. O que é que descobriste que não sabias sobre o nosso país, Tiago?
Por motivos de trabalho, eu já conhecia minimamente bem o país. Aliás, dos 278 municípios, havia umas 60 cidades que eu não tivesse visitado. O que é que eu descobri?
Mas não é a mesma coisa. Ir às cidades ou atravessar os concelhos de bicicleta.
O que é que eu descobri? Eu descobri que o nosso país é, de facto, muito esquizofrénico geograficamente, porque numa questão de 20, 30 km, a paisagem muda drasticamente. Constantemente. Nas autoestradas não se tem muito essa perceção.
Estás a pedalar numa zona de granito e de repente está um xisto.
Sim. A diversidade.
Passas de um pinhal para um montado.
Sim, é muito assim. Estás num pinhal na zona centro, depois tens o montado também em Castelo Branco e depois voltas a encontrar também no Douro Superior. É um país tão pequeno, mas com uma diversidade tão grande. E é superseguro para pedalar. Só tive medo numa única estrada, que foi a chegar a Saíra. Era uma estrada sem berma, com imenso trânsito.
Saíra lá em cima da Serra da Estrela?
Não, Nelas. A chegar a Nelas.
Nelas, distrito de Viseu.
Sim, distrito de Viseu, que foi na zona industrial e estava um bocado assustador. De resto, eu senti-me super seguro e não é assim tão difícil.
Quando diz seguro é do ponto de vista rodoviário?
Rodoviário, sim.
E também seguro...
Sim. E depois viajar de bicicleta tem uma coisa que é diferente de viajar de carro. É que quando nós viajamos de bicicleta conseguimos parar a bicicleta a qualquer momento para apreciar uma paisagem, um momento, uma situação. De carro já não conseguimos ter essa versatili-
Versatilidade.
Sim, porque não há assim tipo a parar ou se vem alguém começa a apitar. Então de bicicleta conseguimos parar e apreciar algo que nos despertou a atenção muito mais facilmente.
Ainda que tendo feito 6 mil km em 25 dias, eu deduzo que não tenhas tido muito tempo para parar, pois não?
Não, não tinha muito tempo.
Foi sempre andar. Quantos quilómetros fazias em média por dia?
Era 240.
Ui!
Sim. Acordava às 6:00, começava a pedalar às 7, 8. Depois comecei a pedalar um bocadinho mais tarde, à medida que ia ficando mais frio e terminava às 8, 9 da noite. Doze horas a pedalar.
Uau! Isso tudo com paragens nas câmaras de concelho.
Sim, parava um pouco o ritmo e baixava a média.
Mas foste bem recebido em todas as 278 câmaras municipais do país?
A dada altura que o projeto ia ficando a ser conhecido, já as câmaras diziam: "Estávamos à sua espera. Estávamos a perguntar quando é que viria." Começou a ser interessante.
Começou no Porto, não foi?
Começou no Porto em junho e tive que suspender no dia a seguir, por questões de saúde. Apanhei uma pneumonia bilateral com derrame alveolar.
Caramba!
Eu nunca tinha tido lesões deste gênero, só musculoesqueléticas, braços partidos, rutura de ligamentos. Agora uma doença assim, nunca tinha tido. Fui para os cuidados intensivos, fiquei internado 14 dias. Assim que saí do hospital, comecei a pedalar para conseguir retomar o projeto antes das eleições. À medida que o corpo foi dando sinais que eu conseguia recuperar, marquei a segunda etapa.
Estás completamente recuperado.
Fiquei completamente recuperado. Até fiquei melhor, eu acho.
Ai é?
Sim, curiosamente até fiquei melhor.
Olha.
Meti lá um bicharoco que me andava a chatear. Começou uma coisa muito estranha, porque eu no primeiro dia tinha feito 260 km, eu acho. E acordei no segundo dia, 6:00, ótimo. Às 10:00 comecei a tossir um pouco sangue. Eu liguei à minha médica e ela perguntou se eu tinha um sabor metálico na boca. Eu disse que sim.
Sabor metálico indicia sangue.
E ela disse: "Olha, abandona o ritmo, hidrata. Isso pode ser do esforço de ontem. Se isso não passar, liga-me". Só que eu liguei-lhe passados 130 km. E quando eu lhe liguei a dizer que não tinha passado, ela mandou-me imediatamente ao hospital. E assim que eu cheguei ao hospital, já não saí de lá.
Ficaste lá quantos dias?
Estive 14 dias.
14 dias.
Primeiro fui para Barcelos, depois passei para os cuidados intensivos em Braga. Até quero aproveitar para dizer que fui muito bem tratado, tanto em Barcelos como em Braga. Acho que tive sorte, se isso tivesse acontecido em Faro, não sei se estava cá para contar a história.
Mas correu bem, não é?
Correu bem.
E agora estás aí.
Estou a 100%.
Estás para as curvas. Começou lá no Porto e acabou em Lisboa.
E depois acabou em Lisboa. Fiz uma escada simbólica, Cascais, Oeiras, Lisboa.
E foste recebido por todos os presidentes de câmara?
Não. Até porque muitas autarquias, eu quando chegava, era fim de semana ou já não estavam. Uma coisa que eu descobri, não há caixas de correio nas autarquias.
Não há?
Não há. Isso é para não receberem correspondência deste gênero. Mas não há, então muitas vezes tinha que deixar a carta debaixo da porta. Mas sim, maior parte eu consegui entregar em mão Foi interessante.
Boa. Já disseste aqui que a parte mais difícil foi o Alentejo. Tu já tinhas pedalado, já fizeste umas brincadeiras, vamos ter a oportunidade de falar sobre elas, mas qual foi a zona nesta viagem que tu descobriste melhor e que achaste mais impactante?
Foi o que estávamos a falar antes de entrarmos no ar. A Serra da Estrela.
A Serra da Estrela.
Eu tinha pedalado muito pouco lá nessa região. Curiosamente, é muito fácil. É mais fácil do que aquilo que eu pensava.
Tu subiste da Covilhã pra Torre e depois da Torre, não?
Não, eu fiz Saia-Manteigas.
Saia-Manteigas.
E depois fiz direção à Guarda, eu acho, foi pelo vale. Portanto, foi mais rápido, não houve assim muita subida. A Covilhã eu tinha feito noutro segmento. Tive que dividir muito bem o país na rota que eu desenhei. Coloquei como máximo uma altimetria até aos 4000 por dia. Obrigou-me a desviar muito da Serra da Estrela também.
Que ali sobe muito.
Ali sobe muito.
Na serra e aquela zona do Pinhal Interior.
Essa é horrível.
E aquilo é sempre a subir, sempre a descer.
É muito duro. O Douro também é assim, só que a paisagem compensa.
Ok, então foi a Serra da Estrela que tu descobriste aqui nesta-
Sim, eu só tinha feito a subida à Torre e tinha feito a zona das aldeias históricas. Todas, fiz as 12 de bicicleta também, seguidas. Também foi uma malqueira dessas.
Desculpa, não percebi.
Fiz as 12 aldeias históricas seguidas de bicicleta também.
Sem parar?
Sem parar.
Os 500 e não sei quantos quilômetros.
São mais.
550 quilômetros.
Acho que são mais. Não me recordo, isto já foi há cinco, seis anos.
Caramba!
Foi um pouco antes da pandemia. Eu estudei Turismo e um dos trabalhos que eu fiz foi sobre as aldeias históricas e nunca as tinha ido visitar. Então aproveitei.
Fizeste um trabalho sobre uma coisa que não conhecias.
Só a ler. Não havia recursos para viajar na altura.
Então lançaste nessa empreitada de fazer a Rota das Aldeias Históricas.
Sim.
Ok, boa.
Foi um desígnio.
Muito bem. Como é que nasceu este projeto, o 278, de ir entregar cartas às Câmaras Municipais do país?
Eu fui a Manchester em trabalhos. E quando cheguei a Manchester, fiquei chocado com a transformação que a cidade sofreu. Não havia trânsito, transportes públicos, bicicleta, pessoas na rua. Estamos a falar de uma cidade que foi um dos berços da Revolução Industrial, eu estava tudo menos à espera que fosse Manchester que estivesse ali na vanguarda da mobilidade urbana. E eu penso: "Se em Manchester é possível, por que não se faz também em Portugal? Por que não é possível?" Cheguei a Portugal com isso na cabeça. Depois apareceu o número 278. Foi um acaso. Eu lembro-me: "Espera aí, 278 só é o número de municípios em Portugal continental." Neste dia à noite, enquanto estava a dormir, começou-se a desenhar na minha cabeça o projeto e no dia a seguir tinha o projeto desenhado e comecei a contactar as entidades todas para poder executar. Foi uma coisa muito rápida. Eu viajei em novembro e em janeiro tinha o projeto praticamente fechado. Foi assim muito rápido.
Uau, muito bem. Inclusivamente com o apoio institucional do Presidente da República.
Eu pensei por que não, e assim ele concedeu o alto patrocínio. O que reconhece alguma seriedade ao projeto e também obrigava um bocado os presidentes de câmara a olhar pra carta de outra forma.
E olhavam?
E olhavam, sim.
Ok.
Até porque isto também tinha o apoio da Associação de Municípios, da Federação Portuguesa, do IMT, da ABIMOTA, do SNF e do Turismo de Portugal. Acho que a seriedade estava garantida.
Tinha o carimbo institucional de grandes organizações do país.
Depois isto é traduzir que de fato isto é importante mudar.
Claro que é. É possível. E as cidades, e citavas há pouco o exemplo de Manchester, são completamente diferentes.
Completamente.
Silêncio.
Há uma paz de rua.
Andar de carro é espetacular, porque é confortável.
Eu adoro, mas fora das cidades, aqui em Lisboa eu só me enervo a andar de carro.
Ainda por cima tu és uma aberrada.
Eu moro no centro, sou uma aberrada. Eu sou quase um tipo de fotografia, porque eu moro ali na zona dos restauradores, devo ser o único português.
Exato, senhores ouvintes, estão a ouvir a voz do único português que vive nos restauradores.
Qualquer dia começo a cobrar por cada fotografia que me tiram.
O único português e cheio de humor. Olha, Diogo, estamos aqui a chegar ao final da primeira parte, vamos abrir o álbum de viagem. Diogo Cação, guardas contigo ou tens contigo ou guardas em casa algum objeto que tenhas trazido das tuas viagens e que seja especial?
Não tenho comigo, já o tentei ter de novo. É um crucifixo de madeira que eu comprei à saída da catedral em Buenos Aires, depois de acidentalmente ter visto uma missa, na altura ainda não era papa, do Bergoglio. E quando eu saí, comprei o crucifixo e a partir daí a minha viagem mudou, nunca mais tive problemas nem com voos, nem com bagagens.
Estavas a viajar.
Estava a viajar. E entretanto conheci alguém durante a viagem que me deu estadia e fomos inclusive de férias pra uma casa de campo dela, que mais tarde vim a descobrir que era de um primo do Bergoglio.
Ok.
Porque a mãe dela estava casada com alguém da família do Bergoglio, não interessa. E eu dei-lhe o crucifixo pra agradecer A hospitalidade toda. E sim, que lhe dei o crucifixo. Comecei a perder autocarros, comecei a perder voos. Isso já foi há 20 e tal anos e eu voltei a me encontrar com ela aqui em Lisboa e eu perguntei a ela se ela ainda tinha o crucifixo e ela disse que sim, que ainda tem.
Boa.
O guarda também religiosamente.
Já o conseguiste reaver?
Eu pedi-lhe que consegue me enviar.
Sim, e ele enviou?
Não, ainda não, porque ele está em Sevilha. Isso foi há relativamente pouco tempo.
Ok, e vai enviar.
E vai enviar.
Isto envolve um objeto de cunho religioso que te aporta alguma sorte. Tu és um homem religioso ou supersticioso?
Não, sou um ateu convicto.
Místico?
Místico, sim. Aquilo na altura foi importante pra mim.
E ainda te atribuis essa importância?
Sim, eu vi ali uma coisa diferente depois daquele crucifixo.
A cautela é melhor ele estar do teu lado, no teu bolso.
A minha vida não tem corrido lá assim muito bem, consegue me devolver o crucifixo.
Muito bem, estamos na conversa com o Tiago Cação. Fazemos aqui uma curta pausa nas Conversas do Fim do Mundo. Até já. Estamos de regresso pra segunda parte das Conversas do Fim do Mundo, esta semana com o Tiago Cação. O Tiago pedalou 6 mil quilômetros para entregar uma carta em todas as 278 sedes de conselho de Portugal continental. O Tiago dedica-se às ultramaratonas. Já fez algumas aventuras épicas, por exemplo, o Heading South West, uma corrida de mil quilômetros por Portugal que completou em 79 horas. Valente!
Foi giro essa.
Essa deve doer. Essa assusta.
Essa assusta. Mas eles fazem o percurso tão bem. E lá está, o nosso país está-nos sempre a surpreender, porque tem umas paisagens, de facto, lindíssimas.
Era também um dos propósitos do teu projeto 278, este de ir bater à porta, entregar uma carta aos presidentes de câmara de Portugal continental, que era precisamente comunicar-lhes que há um potencial turístico em Portugal em torno do cicloturismo. Sentes isso?
Gigante. Sim, é gigante. Viajou comigo um realizador belga, que produziu um documentário ao longo da viagem. Vamos apresentá-lo no Bike Film Festival, em Nova York.
Da viagem do projeto 278.
Com o objetivo de promover um bocado o país como destino de cicloturismo. Sim, vamos tentar. Pronto, foi também um dos propósitos. Já que íamos estar no país inteiro, por que não fazemos também uma outra coisa paralela?
Ok, muito bem. Boa. Tiago, isto das bicicletas, tu já te dedicas a isto há algum tempo, de fazer viagens ou aventuras de bicicleta. Tens também uma veia solidária, não é? Em plena pandemia, também realizaste uma viagem grande pra angariar comidas. Explica lá isso.
Sim. Eu decidi deixar de ser tour manager. Viajava imenso e estava muito cansado já de viajar. Na altura tinha nascido o meu sobrinho, cada vez que eu o via, ele era uma pessoa completamente diferente.
Porque passavas muito tempo fora.
Passava muito tempo fora. E eu percebi que o tempo estava a passar demasiado rápido. E então decidi abrandar, isso foi em novembro. Em janeiro eu assinei contrato com uma editora e em março fomos fechados em casa. Portanto, eu tive sorte porque eu tinha contrato de trabalho e continuei a ser pago. Se eu não tivesse tomado aquela decisão uns meses antes, eu iria ficar numa situação muito desconfortável, porque não havendo concertos, não teria trabalho, porque eu era freelancer. E muitos dos meus antigos colegas ficaram numa situação muito complicada e eu decidi ajudá-los.
Então o que é que fizeste?
Então na altura estava se a formar a União Audiovisual, que tinha o propósito de fazer cabazes de alimentos pra distribuir por famílias afetadas pela pandemia. Eu desenhei o mapa do país de bicicleta, pela costa, pela zona raiana de Espanha, numa recolha de alimentos, foram 2 mil quilômetros em oito dias, salvo erro.
Uau!
Conseguimos angariar, se não estou em erro, acho que foi 4 toneladas. Já não me lembro. E depois mais tarde, eu percebi que a partir daí a União Audiovisual começou a crescer e ainda um pouco antes do Natal, fiz a Nacional 2 em 48 horas, em parceria.
Os 700 quilômetros da Nacional 2?
Sim.
Ufa!
Eu fiz um pouquinho menos. Na verdade, eu fiz um pouquinho menos. Foram 36.
Ah, foguete.
E conseguimos angariar 8 mil quilômetros, foi quase 10 euros por quilômetro.
8 mil euros.
Sim, 8 mil euros. E depois isso aumentou muito mais a visibilidade da União Audiovisual e eles começaram a ser apoiados por várias instituições.
Incrível.
Sim, e aí conseguimos, durante quase dois anos, fornecer alimentação a várias famílias.
És uma pessoa solidária.
Senti-me na obrigação de.
Boa, é a tua Costa Alabeira a falar, é isso. Tu és de Montemor...
Sou de Montemor-o-Velho.
Montemor-o-Velho.
Sou metade Mondeguino, metade Gandarês. É uma zona plana, é boa zona pra andar de bicicleta.
É verdade.
Inclusive é a única zona do país onde podes ver velhinhos de 80 anos a andar de bicicleta.
Pois é.
É a única zona do país onde ainda consegues ver isso com muita frequência.
Com muita frequência, fantástico.
E é por causa disso que elas estão vivas. Porque andam, fazem muito exercício.
Olha, também sentiste nessas duas viagens solidárias, digamos assim, que realizaste para ajudar os teus colegas do setor audiovisual afetados pela pandemia Que Portugal quando quer supera.
Claro, quando quer supera. Temos o exemplo dos incêndios.
A maior parte do tempo não, não é?
Quando toca a sério, as coisas são bem feitas.
A malta dá os braços.
Dá os braços. Temos o exemplo quando foi os incêndios de Pedrógão. No dia a seguinte, estava a escrever mensagens à malta toda para organizarmos um evento solidário. Conseguimos algo inédito, que foi as televisões transmitirem as quatro ao mesmo tempo, as rádios. Aí angariamos uma porrada de dinheiro nesse evento. Entregámos à União das Misericórdias para ajudar na reconstrução. Isso foi um belo exemplo de como o país conseguiu unir, apesar depois do caos todo.
Se calhar devíamos inventar aí umas catástrofes sem grandes consequências. Umas catástrofes virtuais periodicamente.
Quando nós queremos, conseguimos.
Conseguimos. Muito bem. Tu falaste da tua ligação ao mundo do espetáculo, foste tour manager de alguns artistas conhecidos e por causa disso viajaste muito. Faltam dois países para chegar aos 100.
Chegar aos 100. Eu já não viajo há algum tempo, porque eu não decidi qual é que vai ser. O número 100 eu não decidi qual é que vai ser.
Isso tem que ser em grande.
Talvez seja Cuba, eu acho.
Ok, por alguma razão especial?
Nunca fui a Cuba e estou a precisar um bocado de praia e de cultura ao mesmo tempo. E para fotografar, que eu gosto de fotografar. Fiz já algumas reportagens para algumas revistas também de viagens e ainda não perdi esse hábito de fotografar.
Ok. Conseguiste fotografar agora nesta viagem dos 25 dias do 278? Nada.
Nada, zero.
Foi pedalar, olhar pra frente e ir às câmaras municipais.
Sim, tinha que fazer uns vídeos de vez em quando pra um jornal desportivo e já o fazia como um sacrifício.
E pouco mais. Muito bem. Olha, há muita diferença. Tu foste tour manager, portanto, eras a pessoa que-
Faz acontecer
...que faz acontecer o espetáculo para alguns artistas, nomeadamente o António Zambujo.
Sim, trabalhei muitos anos com o António Zambujo. Depois fiz algumas coisas esporádicas com a Mayra Andrade, com tantos, com o Diego Piçarra. Trabalhei com os maiores artistas nacionais, praticamente.
Trabalha-se diferente lá fora? Como é que é?
São mais práticos. Tecnicamente, em Portugal somos melhores, eu acho. Apesar de termos menos recursos.
Fazemos melhor com o que temos, é isso?
Sim. Mas lá fora a produção tem outra seriedade, que aqui não tem.
Nós somos muito ainda do desenrasca, é isso?
Somos muito aldrabões na produção.
Dá-me lá um exemplo.
Muitas vezes-
Rapamos os orçamentos todos, é isso?
Não, muitas vezes está confirmado o material X e quando chegamos ao local é tudo menos aquilo. Isso lá fora não acontece. Em Portugal é essa chico-espartisse.
"What you pay is what you get".
Em Portugal é essa chico-espartisse ainda nesta questão do mundo do espetáculo.
Qual foi o país que te impressionou mais do ponto de vista da produção audiovisual?
Os Estados Unidos.
Os Estados Unidos.
Muito fácil produzir seja o que for lá, porque eles são superprofissionais. Porque lá se não fores, és despedido na hora, porque não há contratos de trabalho, não há nada. Os horários são cumpridos, é tudo cumprido, não falha nada. Depois o Japão, também por excesso de zelo. O Japão por excesso de zelo. Mas foi Estados Unidos em primeiro lugar.
Excesso de zelo significa o quê?
Tudo muito-
Se o espetáculo é às 20:00, às 17:00 tem que estar tudo feito, é isso?
Sim, os prazos são cumpridos ao milímetro, é tudo muito perfecionista. É ao milímetro, não falha nada.
Ok, e se houvesse por aí algum país parecido conosco pelo mundo?
Espanha.
Também.
Sim, Espanha, claro. Aí somos iguais. O Irão também trabalha como nós.
Também desenrasca muito.
Sim. E não é por falta de recursos, que eles por acaso até têm. Sim, mas Espanha somos mais parecidos nesta questão.
Ok.
Aldrabamos um bocadinho o cliente.
Olha, tu não és artista, mas deduzo que tenhas assistido a milhares de concertos e de espetáculos. Essa história dos públicos serem diferentes, uns serem melhores, mais calorosos, outros mais frios.
Isso tem muito a ver com questões socioeconômicas e culturais, etc. Temos o exemplo claro no país, em que o público alentejano é o mais difícil para o artista, porque é o que menos se manifesta.
O público alentejano?
Sim, é o que menos se manifesta.
Ninguém diria, eu não diria isso.
É o que menos se manifesta.
É fácil entablar uma conversa com um grupo de alentejanos na rua.
É o público que menos interage, mas que está a sentir o concerto e está a interpretá-lo de uma forma diferente do que uma pessoa do Norte interpreta. Se calhar até de uma forma mais profunda.
Ok. O público do Norte é mais festivo?
É mais festivo, sim.
Do Norte de Portugal?
De Portugal, sim.
Ok, e fora do país?
Fora do país, sei lá, o público francês é ótimo.
É?
O público francês. Eu tive a oportunidade de viajar quase por todas as cidades de França. França é um país incrível. E é um público maravilhoso. Talvez porque está habituado a estas questões da cultura, tem o hábito de assistir concertos, vão assistir mesmo a concertos que não conhecem o artista, têm esse hábito de ir assistir. Há uma cultura criada.
Sim.
E eles respeitam imenso É muito giro.
Queres partilhar connosco alguma história inusitada que te tenha acontecido no âmbito da produção de espetáculos pelo mundo?
As melhores histórias eu não as posso contar porque foram sempre partilhadas com alguém que está na praça pública. Dou o exemplo do Zambujo, que sempre foi muito reservado na sua vida pessoal, então eu evito sempre falar sobre. Mas há uma que nós contamos, tanto eu como ele, que posso contar aqui.
Conta.
Foi um dia que saímos dos prêmios da música brasileira, no Rio de Janeiro. Íamos com o Andrucha no carro, que era o marido da Fernanda Torres. Íamos os três no carro, já quatro da manhã, salvo erro. Vem um outro carro que nos trava e saem com umas armas para nos assaltar, para nos roubar o carro.
Olha lá.
E o nosso motorista começou a fazer marcha atrás. Eu ia à frente, ao lado do motorista, e só pensei: "Bom, vou levar um tiro. Ora bem, como eu sou baixinho, a probabilidade é só na cabeça que me acerta, porque mais pra baixo é o motor do carro, portanto, vai ser rápido, não vou sentir nada".
Tu pensaste isso?
Sim. Vai ser rápido. O Andrucha ia com um copo ainda de uísque na mão, deixou cair o copo. Ficamos mesmo à espera que eles começassem a disparar.
Bolas, mas é incrível, porque se isso tivesse acontecido, mudaria a história da cultura do Brasil e de Portugal. Porque mataria um grande artista português.
E um grande realizador.
Sim, e o mato. Ia lá a Fernanda Torres.
Não, era o marido.
Era o marido, a Fernanda Torres não ia lá. Eu pensei: "Bom, matava também um Oscar".
Depois escapamos ilesos. Saímos os quatro do carro, o motorista, que não fumava há 20 e tal anos, pediu-me logo um cigarro, claro. Ficamos todos sóbrios, obviamente. O choque de adrenalina foi tanto. Eu nesse dia ainda não consegui dormir. Fui correr para o calçadão, porque estava com a adrenalina ainda toda no ar.
Pois imagino. Sobreviver a uma coisa dessas.
Acho que nunca tive tanto medo na minha vida, confesso.
E bem se percebe que a história mexe contigo, porque estás a coçar-te todo.
Durante algum tempo traumatizou-me, confesso.
Foi? Não percebi.
Durante algum tempo fiquei um pouco traumatizado com isso.
Traumatizado ao ponto de ter medo de sair?
Não de sair, mas ficou mesmo comigo, porque eu poderia perder a vida por uma coisa tão estúpida. Em segundos. Fiquei um bocado a pensar sobre o sentido da vida.
Nunca sentiste isso nas tuas grandes viagens de bicicleta?
Não, nem de bicicleta, nem em trabalho, porque foi um caso pontual. Nem no México, nem em lado nenhum, nem em África, nunca tive problema nenhum. Nem na Indonésia, nem no Vietnã. Nada, zero.
Muito bem. Explica-me lá de onde é que surgiu a ideia de fazer as nove ilhas do arquipélago dos Açores em nove dias consecutivos.
Nós montámos uma turnê única para fazer nove concertos nas nove ilhas dos Açores. Até àquela data, nunca ninguém tinha conseguido realizar isso.
Quando dizes nós, era para quem?
Era eu com o Zambujo.
Com o Zambujo. António Zambujo.
Acabámos por fazer 14 concertos nessa turnê, porque dobrámos em algumas cidades, e passámos lá 23 dias. Eu fiquei a conhecer os Açores, depois regressei lá de férias e aquilo assustou-me, porque estava a haver um aumento de turismo desenfreado. Assustou-me mesmo. Eles estavam a receber mais turistas em algumas ilhas e não tinham capacidade de resposta para elas. Restaurantes, alojamento, renda de carros, estava um bocado descoordenado. Então tive a ideia de fazer um documentário, foi durante a pandemia, curiosamente, sobre sustentabilidade das ilhas dos Açores. Fui fazendo uma pesquisa sobre quem é que eu poderia entrevistar e escolhi uma ou duas pessoas por ilha. E à medida que eu ia dando a volta às ilhas de bicicleta, encontrava-me com essas pessoas.
Giro. E o documentário chama-se "Horizontes", não é?
Foi a Aldina Duarte que deu o nome ao documentário.
Que giro. A fadista?
A fadista, sim.
Muito engraçado. E emprestou a voz também?
A Lúcia Moniz.
A Lúcia Moniz. Ok.
A Lúcia Moniz narrou. Foi produzido e escrito por mim, o André Tintunal filmou e realizou.
Ok.
Sim, estreou na RTP no Dia dos Açores, curiosamente.
É um bom sítio para pedalar, os Açores?
É ótimo, é incrível. São Jorge é muito duro, portanto, cuidado.
Grandes rampas.
Grandes rampas. São Miguel é incrível, é ótimo. Claro, a mais fácil, obviamente, é Graciosa. O Corvo é rápido, porque só tem uma estrada. E sabes que quando chegámos ao topo do Corvo, aquilo era a última ilha, era a chegada simbólica.
Quantos quilômetros é que fizeste no Corvo?
Sete, eu acho. Seis, sete quilômetros. Sete ou oito. Mas é engraçado, que quando estávamos a chegar ao Corvo, estava uma névoa muito grande, não conseguias ver o topo, e à medida que íamos subindo, de repente, vimos uma operação stop.
Uma operação stop?
Uma operação stop.
No Corvo?
No Corvo. A GNR estava a fiscalizar as carrinhas que transportavam os turistas. Uma operação stop no Corvo.
Muito pitoresco isso. Pronto, não se pode deixar um quilômetro quadrado do território sem segurança. Muito bem. Estamos a chegar ao fim, Tiago. Vamos fazer check-out.
Vamos a isso.
Vamos embora. Então vou pedir-te para completares as habituais frases: na minha mala vai sempre...
A minha máquina fotográfica.
Gostas muito de fotografar, não é?
Adoro fotografar. Estive algum tempo sem fotografar, mas agora regressei.
Muito bem. O que é que gostas mais de fotografar?
Pessoas na rua.
Street photography.
Sim, mais.
Ok.
Já fiz algumas coisas de estúdio, mas não tenho muita paciência.
A viagem com mais peripécias que realizei até hoje.
A primeira, a Argentina. Foram 20 e tal dias Desde que fiz 18 anos, disse à minha mãe: "Olha, vou para a Argentina." Ela nem sequer sabia onde é que era. Sim, e essa viagem mudou a minha vida.
Boa. O que te trouxe essa viagem?
Para já, conheci a diferença entre a pobreza e a miséria. Pode parecer que é uma coisa muito parecida, mas não é. Enquanto na pobreza, sempre que tens alguma base que te sustenta e posso ter acesso à alimentação, na miséria não tens nada disso. E curiosamente em Portugal eu não tinha visto isso. Tinha visto a pobreza.
Aí deu para ver. Muito bem. Foi um bom wake up call aos 18 anos.
Sim.
Eu recomendarias a todos os jovens de 18 anos a fazerem uma viagem?
18, 19, 20, que façam uma viagem grande.
A entrada na idade adulta deve ser feita com uma maluqueira positiva dessas.
Acho que é importante. Conhecer o mundo.
Isso. O carimbo de passaporte ou o visto mais difícil de obter?
É o que eu gostava de ter e não tenho, que é o do Irão, porque eles não carimbam o passaporte.
Ok.
Por causa dos embargos. Eu com o carimbo do Irão depois não conseguia entrar em Israel.
Pois.
Por exemplo. Não carimbam. Gostava de o ter.
Levas um passaporte à parte. Ou um papelinho.
Eu tenho seis passaportes. Eu nunca entreguei os meus.
Seis? Já os preencheste todos? Valendo.
Não gosto de entregar. É sempre como perdidos.
Recordação de viagem mais cara?
Eu tenho o péssimo hábito de nunca comprar nada, nem trazer nada para oferecer a ninguém. Portanto, não tenho.
Nada disso. Muito bem. A refeição mais estranha?
Fiquei a pensar nisso. Foi certamente uma, eu já não me recordo o que foi, mas foi num mercado de Hanói. Um daqueles mercados que facilmente pode eclodir um novo vírus. Num mercado desses pouco higiénicos.
Onde clientes e produtos se misturam.
Sim. Foi uma coisa um bocado questionável.
Muito questionável. Olha, gostavas de viajar com?
Com a pessoa que estávamos a falar um bocadinho antes de entrarmos no ar, com o Tom Waits.
O Tom Waits! Tom Waits press conference. Vão ver, senhores ouvintes, porque vale a pena. O Tiago mostrou-me esse clipe no YouTube. Muito desconcertante esse Tom Waits, não é?
Sim, eu adoro. É um dos meus atores favoritos.
Olha a música, Tiago, o que é que escolheste para fechar a nossa conversa?
O Guia, do António Zambujo. Não, perdão. Na verdade, escolhi Mr. Tambourine, do Bob Dylan. O Guia era para ser uma, mas eu optei pelo Mr. Tambourine.
Mr. Tambourine, do Bob Dylan. Grande música.
Não é? Acho que era perfeita para a nossa conversa.
É excelente. É para viajar, não é? Dá logo vontade.
Dá vontade.
Vamos a isso. Olha, António, disparate, é o António Zambujo.
Claro, está há muito tempo na conversa.
Tiago, foi um gosto. Muito obrigado. Qual é a próxima viagem de bicicleta que tens já na cabeça?
É já domingo, é uma viagem curta, é a Rampa do Vale de Santo António.
Aqui em Lisboa. Vais subir aquilo tudo?
Vou subir.
Maluco.
É muito giro.
Vou para a serra, depois conta.
Depois te conto. Obrigado.
Um abraço. Tiago Cassão nas Conversas do Fim do Mundo desta semana. Escolheu Mr. Tambourine de Bob Dylan. Já sabem, estamos de regresso de dois a oito dias. Sejam bons e boas viagens.
Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me. I'm not sleepy and there is no place I'm going to. Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me. In the jingle jangle morning, I'll come following you. Though I know that evening's empire has returned into sand, vanished from my hand, left me blindly here to stand, but still not sleeping. My own weariness amazes me, I'm branded on my feet. I have no one to meet and the ancient empty street's too dead for dreaming. Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me. I'm not sleepy and there is no place I'm going to. Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me. In the jingle jangle morning, I'll come following you. Take me on a trip upon your magic swirling ship. My senses have been stripped, my hands can't feel to grip. My toes too numb to step, wait only for my boot heels to be wandering. I'm ready to go anywhere, I'm ready for to fade into my own parade. Cast your dancing spell my way, I promise till the wonder is. Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me. I'm not sleepy and there is no place I'm going to. Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me. In the jingle jangle morning, I'll come following you. Though you might hear laughing, spinning, swinging madly across the sun. It's not aimed at anyone, it's just escaping on the run. And but for the sky, there are no fences facing. And if you hear vague traces of skipping reels of rhyme, to your tambourine in time, it's just a ragged clown behind. I wouldn't pay it any mind. It's just a shadow you're seeing that he's chasing. Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me. I'm not sleepy and there is no place I'm going to. Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me. In the jingle jangle morning, I'll come following you. And take me disappearing through the smoke rings of my mind, down the foggy ruins of time, far past the frozen leaves, the haunted, frightened trees, out to the windy beach, far from the twisted reach of crazy sorrow. Yes, to dance beneath the diamond sky, with one hand waving free, silhouetted by the sea, circled by the circus sands, with all memory and fate driven deep beneath the waves, let me forget about today until tomorrow. Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me. I'm not sleepy and there is no place I'm going to. Hey, Mr. Tambourine Man, play a song for me. In the jingle jangle morning, I'll come following you.