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A nossa autoestima influencia, e muito, a nossa felicidade e a relação com os outros. Qual o impacto que a cirurgia plástica pode ter no nosso bem-estar? Se no caso do cancro da mama, por exemplo, se compreende de que forma a reconstrução mamária restabelece a confiança da mulher, não será igualmente válida qualquer outra intervenção que contribua para o aumento da autoestima? Por que é que, por vezes, ainda se olha pra cirurgia plástica como um capricho ou uma futilidade? Ou por que se associa ainda a estética ao universo feminino? É sobre o estigma e os mitos associados a esta disciplina da medicina que nos vai falar João Bastos Martins. Ele é especialista em cirurgia plástica, reconstrutiva e estética. O seu trajeto profissional passa tanto pelo setor público como pelo privado. Há quatro meses abriu a sua clínica no centro de Lisboa, mas também passou, por exemplo, pela Cidade das Luzes, onde conheceu a mulher, ou por um campo de refugiados sírios, onde operou crianças atingidas por explosões. Olá, João, bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo ao "Observador".
Obrigado.
É um prazer estar aqui contigo. A tua família é ligada à medicina, a tua mãe dentista, o teu único irmão também é dentista, o que é curioso. E numa vida, desde pequenino, onde ela foi mãe e pai, aprendeste que o sacrifício é uma coisa importante e que a entrega são duas palavras, dois conceitos, que modelaram sempre muito a tua vida. O sacrifício pelos outros, que vale a pena, e a entrega, que é uma coisa que a tua vida, no fundo, todos os dias tem os atos de entrega das pessoas nas tuas mãos, por exemplo.
Sim, é algo que ainda hoje faz-me alguma confusão ou sensibiliza-me, que é a capacidade que uma pessoa tem de confiar em nós, cirurgiões, para se anestesiar e possibilita-se ficar horas inconsciente e entrega-nos o corpo pra nós moldarmos e trabalharmos na expectativa de ter um resultado que a faça mais feliz, mais satisfeita.
Houve uma altura em que tu querias ser arquiteto. Tu, aliás, estiveste no teu liceu com alunos de artes e portanto focaste sempre, apesar de estares em ciências, mas acompanhaste uma turma de artes e, portanto, sempre gostaste das formas. Ainda hoje desenhas e desenhas muito. E não é só abdominais, tu desenhas. Também esculpes. Tu gostas das artes, muito.
É, gosto. Sempre gostei muito do traço, da proporção, da recriação. Pode ter tido influência nesse período no colégio com a turma de artes ou não, se bem que foi sempre uma coisa um bocadinho mais reservada, porque tipicamente também era aquele miúdo com boas notas e tudo, e na altura facilmente: "Ah, boas notas, família de médicos, vais pra medicina" e ok. Mas de qualquer forma sempre ficou aquele bichinho. Se posso, faço.
Exatamente.
No entanto, cheguei a ter um período na faculdade. Nós em medicina começamos com uns anos muito teóricos, mais maçudos.
As anatomias e aquelas coisas.
Exatamente, e a bioquímica e a farmacologia.
As ferramentas.
E eu, de facto, precisava das mãos a mexer. Sempre senti essa necessidade de produzir algo com as mãos. E no terceiro ano, que é ali o último ano dos mais teóricos, ou era na altura, não sei se o programa foi reformulado, questionei se era isto. Aconselharam-me a continuar, porque havia muitas especialidades, iam começar os anos mais práticos e, de facto, no ano seguinte descobri a cirurgia e aí percebi que estava no caminho certo.
Depois o teu ar nos passou por Paris, onde conheceste a tua mulher. Vocês namoraram sete anos. Apetece-me cantar "Eu não sou o único", mas não vou cantar. Casaram em 2014. Fizeste depois também os internatos que passaram pela Suíça, pela Holanda, por Paris outra vez. E acabaste como médico especialista em cirurgia plástica, reconstrutiva e estética, que depois te especializaste no Hospital de São José. A medicina é realmente um sacerdócio?
É. É um sacerdócio, mas nem sequer há um ato consciente de fazer um sacrifício. Nós a partir do momento em que escolhemos medicina, estamos logo a assumir que vamos nos entregar também. Voltando a falar da entrega. E essa disponibilidade tem que ser a 100% e a todas as horas e dias, porque não há dias pra ficarmos doentes e às horas X a doença fecha e vamos pra casa.
Exatamente.
E aí há sacrifícios que se fazem, é uma profissão que se vive todos os dias, evolui todos os dias e a qualquer hora, a qualquer momento, podemos ser chamados, dependendo do ramo em que estamos a trabalhar também. Socialmente também, familiarmente, são profissões pesadas. Há a expressão do filho de médico, que é o que vê o pai quando chega para dizer boa noite ou vê-lo de manhã.
Exatamente.
E há uma razão pra isso.
Esta entrevista é aos tempos do Fernando Nobre, ele como médico da AMI, que me dizia que tirou medicina em Lovaina. Aliás, ele tem duas especialidades. E dizia ele: "O método de seleção cá é mal feito, porque escolhem os grandes marrões, com grandes notas. E em Lovaina, onde ele tirou, por exemplo, as pessoas iam com uma média razoável, 13, 14, e depois faziam um ano no curso de Medicina. E ao fim de um ano já tinham contactado com alguns doentes. E depois é que havia um júri que decidia se eles ficavam ou não no curso de Medicina, porque ele diz que tem a ver com o nosso contato com o doente. E tudo isso é importante pra saber se é mesmo a vocação ou se é só fruto das boas notas. Se gosto de marrar muito, de repente vou pra isso. E isso não chega pra ser um bom médico. Este método de seleção que nós temos, só pelas notas mais altas, achas que devia se mudar ou devia se adaptar mais?
Sim, acho que sim. É difícil limitar um método perfeito, porque todos vão ter falhas. E ainda por cima estas escolhas eu acho que se fazem numa altura muito cedo na nossa vida. Mas acho que sim. O método acaba por ser um modelo de seriação e não de seleção, em que se tens notas vais. E escolhemo-lo numa altura, falo por mim, em que eu não sabia muito bem o que era ser médico, tanto que eu nem sequer tinha uma especialidade em vista e não tem nada a ver ser cirurgião ou ser médico ou pneumologista, o que for. Acho que há uma componente humana, que é nossa, que é fundamental para conseguirmos desempenhar a função de médico bem ou da melhor forma, pelo menos. E isso, de facto, é difícil aferir-se apenas por ter decorado mais páginas de um livro do que outra pessoa.
Sim. Tornaste-te cirurgião plástico. Cirurgião, como tu costumas dizer, vem do grego. Cirurgia vem de mão e de trabalho, portanto, é um trabalho muito manual. Tu em 2014 chegaste da tua lua de mel e no mês seguinte partiste com esta LEAP, a Global Mission, para integrar um banco de médicos internacionais disponíveis para ajudar em situações de catástrofe. E chegaste a estar num campo com refugiados sírios na Jordânia, perto de Amã, se não me engano.
Sim.
Aí foste voluntário, ajudaste pessoas em situações muito complicadas. Foi uma lição de vida tratar daquela gente e se calhar muitos com estilhaços e baleados. Qual foi a tua experiência como cirurgião? O que te ficou dessa experiência?
Foi, sem dúvida, porque eu tenho a noção que nós quando vemos notícias ou informações do que se passa nestes cenários de catástrofe, tenho a sensação que eu próprio também absorvo a notícia, reajo, pode-me revoltar, mas cinco minutos depois vou à minha vida e passou como se fosse um filme que eu vi. E ao estar ali e presenciar essas coisas, ver o desespero, a incapacidade que aquelas pessoas têm. Estamos a falar de pessoas que perderam tudo sem razão nenhuma, têm o país que conhecem destruído, estão inválidos, muitos deles. Não têm cenário para recuperar empregos, porque estão com deficiências físicas. Sobreviverem já é bom. E isto é extremamente pesado. E há pouco falaste em crianças, e sendo pai agora, quando se toca em crianças, o peito fica mais pequeno. É algo que é injusto, é altamente injusto. E aprendemos a relativizar muito as coisas e acho que nesse aspecto fez-me crescer. Fez-me crescer.
Estiveste também com um cirurgião, um médico sírio, se não me engano.
Exato.
Tinha a família longe há tempos, sem eletricidade no sítio. Também o desespero disso.
O pai do projeto lá na Jordânia era um cirurgião, era maxilofacial, e ele teve que fugir da Síria porque era perseguido pelas forças do regime, porque operou também pessoas do povo que eram considerados rebeldes e por essa razão passou a ser persona non grata. E teve que sair do país mesmo. Deixou a mulher e a filha, que já não via há uns anos, na altura há dois anos. E no coração dele resolveu tentar ajudar alguns, porque de facto as condições depois vão para o campo de refugiados, mas daí não passam, continuam com as suas mutilações e trata-se de um beco sem saída. E de facto a história dele é um exemplo. Do ponto de vista humanitário e de relação com a vida ou como ver a vida, acho que me abriu os olhos um bocadinho também, numa idade boa. E molda, claro que molda.
Muito bem. João, nós temos que ter aqui um brevíssimo intervalo. Até já. Estamos a conversar com o João Bastos Martins, cirurgião plástico, sobre esta especialidade da cirurgia, que ainda carrega algum estigma. É uma futilidade ou é uma questão de saúde? João, ainda antes de passar para a tua especialidade, sei que tu, além de teres sido coautor em livros de cirurgia plástica, e de fazer diversos congressos, mais de meia centena, e dares formação, por exemplo, em microcirurgia e cirurgia da mão. Além disso, tens um livro, e eu também entrevisto muitos autores, um dia voltas nessa condição, um livro que nunca publicaste. Por quê? E é sobre quê?
Estudaste-me bem. Para já gosto muito de ler e gosto de livros. E quando vim de Paris, foi quando vim de Paris, na altura que conheci a minha mulher. Acho que sem uma razão, comecei a escrever pequenos textos. Sabiam bem, esvaziava-me a cabeça e resolvia muitos problemas, se calhar. E a pouco e pouco comecei a converter esses textos em textos mais longos, que eram histórias, que eram capítulos. E depois acabei por compilar tudo numa matéria mais ou menos comum. Cada capítulo era uma pequena história com personagens e todo o livro se passava no mesmo espaço, as personagens iam mudando e em capítulos iam se cruzando. Alguns, as histórias cruzavam-se. Havia assim uma malha. Eram histórias independentes curtas. Se eu chamasse um gênero ao livro, se calhar era mais perto a um romance.
Feito um retalho de pequenos contos.
Exatamente. E que se interligavam em algumas partes.
Estou curioso.
E houve ali um período que disse: "Planta-se uma árvore, tem-se um filho e escreve-se um livro. Vamos escrever um livro". E mandei o livro para alguns sítios, pedi a algumas pessoas que mo vissem. E era ok, era um livro ok. E houve uma editora que mo publicava, mas eu depois acho que fui um bocadinho Muito cabaço. Porque para mim era: se acham que tem qualidade, publiquem. Se acham que não tem, não publiquem. Eu aceito um não, sempre aceitei, é tranquilo. E havia um: "Ok, publicamos, mas vais avançar com a compra de não sei quantos volumes do pagamento." E eu: "Eu não vou pagar para publicar um livro, prefiro que me digam que não tem qualidade." E guardei na gaveta.
Portanto, está ainda em standby.
E lá ficou.
Tiveste mais sorte que eu, que na altura plantei por acaso duas árvores num jardim, dois loureais, que pediram para eu plantar. Quando quis filhos, tive gémeos e o livro acabou por ser dois volumes.
Dois, para acertar.
Nada a ver. Foi tudo a dobrar. Muito bem, falamos agora desta tua especialidade, a cirurgia plástica. Há uma coisa que começas sempre a avisar: deve-se confiar no médico, não fazer a cirurgia plástica com qualquer um. E por isso, há um site, que é esta Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética. E tu dizes sempre: não façam a operação, posso ser eu ou não, mas não façam sem ir ao ISAPS. ISAPS. Aí tem a lista de todos os cirurgiões plásticos que são documentados, autorizados e que pelo menos passam este crivo, e não um charlatão qualquer que apareça.
Sim. Essa sociedade é uma sociedade acreditada internacionalmente, é uma sociedade de peso e todos os que lá estão são pessoas com uma formação considerada muito válida.
Claro!
Não estão lá absolutamente todos. Nós em Portugal, por exemplo, temos o site da Ordem dos Médicos, em que é possível, pelo nome ou pelo número de cédula, verificar a formação de um médico. E aí acho que qualquer pessoa acede facilmente e o médico não precisa de estar nesta associação internacional, mas pelo menos a pessoa fica com a certeza que o médico é especialista na área que está a oferecer.
Claro, nessa área, exatamente. Há esta ideia, e tu tens a noção que ainda é um bocadinho tabu as pessoas dizerem que fizeram uma cirurgia estética, ainda hoje. Mas tu quando atendes alguém, um doente, um paciente, tens sempre este crivo que é: mas isso incomoda? Ou essa malformação, ou essa coisa que acha que tem mal no nariz, ou peito, incomoda ou chateia todos os dias? Chateia de manhã quando olha para o espelho? Fica chateado? Estraga-lhe o dia?
Exatamente.
E aí sim, tu recomendas fazer e fazes.
É aí que temos que fazer a cirurgia.
Mas ainda há este estigma.
Há, há um estigma grande. Vem a mudar. Acho que cada vez a cirurgia estética é mais compreendida, cada vez nos dedicamos mais à saúde mental e ao bem-estar, e são assuntos cada vez mais em cima da mesa. E acho que nós, na cirurgia estética, temos um papel que tem um peso importante. Eu não consigo ver estético e fútil ou superficial na mesma frase, porque acho que não encaixa. Porque no fundo, quem sou eu para julgar se o aumento da mama daquela rapariga, ou aquele pneu, ou aquele papo no queixo, ou nariz torto, quanto é que isto influencia o dia a dia desta pessoa? Se o nariz torto faz com que eu não apareça num vídeo, não tire fotos, tenho vergonha, isto não é nada fútil. É muito menos fútil que ir ao ginásio, ou mudar o perfume, ou pôr maquiagem, ou usar uma foto no Instagram com filtro.
É sanidade mental.
É bem-estar.
E relação com os outros. Autoestima.
Certo. E aí entra o registo das expectativas da realidade. É adequado ao doente, não é? E eu tenho que ter a sensibilidade, por mais que eu ache às vezes que é uma coisinha que: "Oiça, você está tão bem, que esse pormenor não tem grande importância." Eu nunca me posso pôr nesta posição, porque para aquela pessoa tem.
Exatamente.
E se de facto eu consigo resolver aquilo, não pondo em causa a integridade ou as expectativas da pessoa, vamos a isso, e com toda a seriedade. Em relação a ainda ser considerado um bocadinho fútil. É uma tendência a mudar, nota-se nos homens muito também, que cirurgia plástica inicialmente era uma coisa de modelos, celebridades e mulheres. De repente, passou a ser uma coisa mais acessível a todos nós. Já não é só para pessoas que vivem da imagem. Lá está, tornou-se o bem-estar também. E de repente os homens começaram a entrar. Veio atrás da sociedade. De repente temos cremes de homem, temos revistas masculinas, temos moda masculina e temos cirurgias para homens também.
Claro. E não quer dizer uma grande operação. Às vezes são coisas pequeninas, como tu disseste, uma pequena coisa pode ser life changing. Uma pequena assimetria no lábio, como tu dizes, tudo isso pode ser o suficiente. Tu consegues olhar para alguém e não estar logo a analisar aquele peito está grande demais, ou aquele nariz está torto. Ou só realmente quando tu cortas a primeira pessoa, aí é que reparaste que está um bisturi a entrar pela pessoa e, portanto, o teu olhar muda?
Não, não vou comentar quando te conheci, se interpretei alguma coisa para cirurgia. Não é assim tão direto.
"Ui, internada esta durante um mês."
Mas às vezes acontece sim.
Defeito profissional.
É. Distraído ou a ver um filme, facilmente passa pela cabeça: "Aquele nariz, olha, fazia isto." E é um bom exercício até, porque me ajuda a interpretar melhor e estimula-me a encontrar soluções. Mas é inevitável, sim, acho que é inevitável.
Esse olhar técnico, espontâneo. Quais são as mais comuns de todas que tu fazes na tua carreira profissional?
A mamoplastia de aumento continua a ser a cirurgia considerada a estética mais frequente em Portugal. No mundo, se calhar.
E por também silicones e assim?
É aumentar a mama. Atualmente não é preciso utilizar silicone, podemos utilizar gordura ou só subir a mama sem materiais.
Puxando a pele.
Puxando a pele, exatamente, moldando a mama. As lipoaspirações têm crescido muito também.
Em homens e mulheres.
Em homens e mulheres, era o que eu ia dizer.
Estávamos a falar do médico colombiano.
Em homens houve um boom grande, mas de facto a lipo e a mama continuam a ser as mais frequentes, sendo que por influências sociais Vou dizer aqui um nome, Kim Kardashian. Vemos glúteos enormes e hoje em dia é uma tendência, sem dúvida, o aumento do glúteo também. Não só o levantar, mas pedem-nos o aumento. Passou a ser uma área que chamou a atenção e muitas vezes é por: "Eu não sabia que isto se fazia, então passei a querer fazer" e automaticamente vai aumentar o número de pessoas que procuram uma coisa que passou a ser possível fazer.
E depois é bom também para tirar estes mitos. Mesmo aumentando a mama, depois pode-se dar a mesma de mamar e muita gente não sabe.
Pode. Hoje em dia pode dar de mamar a mesma, não tem problemas na detecção de cancro da mama. Não é um problema. A sensibilidade, na grande maioria dos casos, normalmente é mantida. Estão descritos casos em que perde um pouco de sensibilidade, é verdade.
Tu fazes também rejuvenescimento das mãos, isso é o quê?
Rejuvenescimento das mãos. Isso aí passamos para a medicina estética, não cirurgia. Por exemplo, imagina uma senhora de 60 anos que faz o seu facelift. Tem uma cara esticadíssima. Está a jantar fora, mete as mãos em cima da mesa e as mãos têm aquela pele fininha, com os tendões a aparecer.
Isso dá para se fazer também no pescoço?
Muitas vezes o facelift também dá para puxar o pescoço e ainda conseguimos mascar isso.
É preciso fita-cola, como eu vi na televisão, às vezes.
Antigamente.
Punham fita-cola atrás, quando iam aparecer na televisão.
E ainda há umas fitas para pôr nas mamas, nos vestidos, para puxar para cima, que fazemos abaixo. É o nosso concorrente.
Então pelas mãos vê-se a idade de uma pessoa.
É. E acabamos por injetar substâncias que rejuvenescem, o ácido hialurónico, a hidroxiapatita de cálcio.
Isso é o que se põe nos lábios.
Usa-se mais na cara, mas também utilizamos, por exemplo, nas mãos, que são uma área muito exposta, sempre, manga comprida ou curta.
Que tapa rugas.
Torna a pele mais espessa, tapa os tendões, alguns produtos melhoram manchas, faz com que deixe de ter aquela mão esqueletizada, de pele fininha, quem a vê assim mais.
Muito bem. Depois há outras coisas, as otoplastias, arranjas também orelhas, as papadas, harmonização labial, os sorrisos gengivais. Tu fazes uma série de coisas. As diástases, aquelas mães que tiveram filhos e que isso acontece também muito, não é? E ficam com aquelas pregas.
Uma grande massa de pessoas que recorre à plástica são as mães, porque de fato são super-heróis que sofrem ali no corpo transformações grandes. Em termos de autoestima e de imagem, elas lembram-se de como eram antes de ser mães e num ano ou dois, de repente, tudo muda. E às vezes por elas sozinhas não conseguem recuperar. Então aí sim, tanto a nível da mama como do abdômen, a diástase, que até traz alguns problemas funcionais, acabam por ser cirurgias muito realizadas.
E podemos ir para a bioestimulação com hidroxiapatita de cálcio, mas não vou para esses pormenores, não vale a pena. Hoje em dia, há cada vez mais homens também, porque em 2005, um médico colombiano, Alfredo Hoyos, descobriu este método de lipoaspiração de alta definição. Tu fazes uma escultura. Quase todas as barrigas podem ser tiradas, já percebi. E tu até desenhas o six pack, que é o que muitos homens desejam. Cada vez há mais homens a fazer isso? Vê-se no teu site, no teu Instagram.
Cada vez há mais homens e mulheres. Homens sobressai, porque mulheres a arranjar a barriga já existia há alguns anos.
A fazer igual à Carolina Patrocínio.
Ainda não chegamos aí.
E eles a fazer igual ao Ronaldo.
É o desafio na consulta que temos. Tenho uma fotografia de cada um.
Enganinhas lá os clientes.
Mas, de facto, a evolução teve a ver com a lipo deixar de ser remover um saco de gordura. Então vamos trabalhar a pele também e vamos remover a gordura de forma a conseguir fazer um jogo de sombras, que mostre de facto os abdominais da pessoa.
Que estão lá, podem estar sempre escondidos por gordura.
Exatamente. E muitas vezes, se estávamos mais gordos, a pele está mais esticada e mesmo que se perca peso, a pele não acompanha depois, não retrai ali. Há vários homens que dizem: "Eu até sou magro, mas eu não consigo que se vejam os meus músculos." E aí trabalhamos de forma mais seletiva, em que vamos esculpir a musculatura, não só diretamente o six pack, porque depois não encaixa no pack todo. E temos que trabalhar os oblíquos, o ombro, o peitoral, dar um ar mais atlético. Depois há vários termos: a lipoescultura, lipodefinição, lipo 4D, 3D, 5D, 360. São tudo nomes para a mesma coisa, acho eu. Atualmente às vezes dizem-me: "Doutor, quanto é que custa uma lipo de alta definição e uma lipo normal?" Eu já não sei fazer uma lipo normal, porque acho que não faz sentido.
Que é só o aspirador de gordura.
Uso o mesmo material, só mudo a maneira como a faço. Por isso, acho que a diferença está nas mãos do cirurgião, a tecnologia não faz.
Esta HD, tu foste o pioneiro entre nós a fazer isso.
Sim, acredito que tenha sido o primeiro ou dos primeiros cá a fazer.
Portanto, não é a mesma coisa que uma abdominoplastia.
Não.
É mais avançado e é um passo à frente, porque consegue ir buscar aquela forma, porque a abdominoplastia apenas esvazia.
A abdominoplastia, nós estamos a remover excesso de pele. O exemplo mais fácil: eu pesava 100 quilos, agora peso 70.
Claro, se emagrecem muito, a pele fica pendurada.
E aí tenho que tirar a pele. Pode-se é combinar. Tira-se a pele e, além disso, fazemos uma lipoescultura para tentar definir os abdominais, não ficar só sem o excesso.
Tens cada vez mais clientes a fazer isto, não tens? Este do six pack.
Tenho cada vez mais clientes, cada vez é mais procurado. Lá estava, é na tendência daquilo que eu também disse em relação ao glúteo, quando se sabe que se faz: "Isto faz-se? Então quero." Não sabia, faz-se, quero.
Muito bem. Este caso, por exemplo, o bebé, o Rodrigo, esta bebé que nasceu em Setúbal em 7 de outubro de 2019, sem olhos, sem nariz, sem um bocado do crânio. Para reconstruir a cara dele, era uma operação que tu, se calhar iam ser várias, mas era o género de coisa que te iria desafiar ou não?
Acho que todos nós teríamos vontade intrínseca de um desafio desses. Em cirurgia, eu costumo dizer que nós, contra mim, somos um bocado narcisistas e temos um bocadinho o complexo de Deus e achamos que podemos tudo e que conseguimos tudo. E por isso, óbvio que sim, dava-me vontade e tenho algumas saudades do que fazia no público, obviamente. Mas acho que esse tipo de coisas também deve ser feito, especialmente numa criança, por quem faz muito. Não hão de ser muitos no mundo. Mas teria vontade de fazer parte? Claro que sim. Conscientemente, não poderia ser eu o responsável, porque seria o meu primeiro caso.
Muito bem. Neste momento, em tempos de pandemia, tu já estás outra vez a receber pacientes, mas tiveste muitas videoconsultas. Ainda continuas? Isso foi só para desenrascar mesmo ou se calhar é uma tendência e ainda fazes?
Um bocadinho apareceu para desenrascar. No entanto, é uma coisa que eu utilizo. Cada vez tenho mais doentes de fora de Lisboa e de Portugal. E os estrangeiros, de facto, é uma necessidade. Não vão fazer uma viagem apenas para vir falar comigo para ver se querem fazer a cirurgia comigo. E uso para alguns também que moram mais longe. Eu estou só em Lisboa, vou a Leiria de vez em quando, 15 em 15 dias, mas depois há aqui margens que estão muito longe. Bragança, o Algarve, às vezes facilitamos e fazemos uma videoconsulta. Não é a maioria, é uma minoria, de facto, mas mantenho.
João, qual é o número máximo de vezes que operaste uma pessoa só?
A mesma pessoa?
A mesma pessoa.
Eu?
Tu.
Duas.
Ok. Mas já recusaste operações, não já?
Já.
Mas do género porque não fazem sentido? No fundo, é para não assinares um quadro que não queres que seja teu?
Exatamente. Já usei essa expressão e é isso mesmo. Eu aprendi que o bom cirurgião sabe operar, o muito bom cirurgião sabe quando não operar. E é uma diferença importante.
Não está preocupado só com faturar.
Porque vai trazer chatices. E aí temos duas coisas. Temos a doente que de facto continua numa busca de cirurgias, achando ou procurando na cirurgia a solução para um problema mais interno, mais emocional, e aí a cirurgia não vai ser a solução e por isso ela continua a procurar cirurgias, porque ainda não encontrou a solução, nem vai encontrar. E enquanto não resolver esse problema mais interior.
Um loop cirúrgico.
Um loop cirúrgico sem sentido, porque às tantas não há mesmo nada para fazer.
E chega a ter aquelas pessoas que querem ficar igual a não sei quantas, ou ficar como um gato ou com filtros.
Pronto, no começo traziam-me fotografias para a consulta e dizia: "Eu quero o nariz de não sei quanto." E aí o trabalho era de explicar que aquele nariz fica bem naquela cara e que não ia correr bem. E às vezes não é possível sequer, e às vezes corre-se riscos que ok, até pode ficar assim, mas se não ficar, vai ficar mesmo muito mal.
Como aquele que é as Barbies e há os Kens lá fora.
São coisas que não encaixam. Nos Estados Unidos vemos muita coisa, agora recebemo-la também na televisão, nas redes sociais. Hoje em dia, tenho algumas pessoas com os filtros. Existe uma patologia já cunhada como dismorfia do Snapchat. O Snapchat é aquela rede social que tem imensos filtros. Que são pessoas que passaram a publicar uma foto com filtro, duas, três, e de repente só publicam fotos com filtros e só se identificam. Já não acreditam que elas são como são, são como no filtro. E este extremo, assim tanto nunca tive, mas não é raro aparecerem com uma foto deles filtrada. "Olha, eu queria o meu lábio assim, como este filtro faz" ou "o meu nariz pode ser mais assim, posso ter os olhos maiores como este filtro?" E aí são bandeiras vermelhas. E temos que tentar ajudar a perceber.
Dissuadí-los.
Ou convencê-los a podemos fazer aquilo, mas não é assim. Primeiro, soali logo porque é que estamos a fazer isto. E se de facto houver uma razão válida, que há quase sempre, é perceber qual o caminho que podemos e onde podemos chegar. Porque não é possível ter uma foto e querer ficar igual. Um filtro é um filtro e há riscos que não se correm, não vale a pena.
E porque há também aquela coisa das pessoas que põem uns implantes e umas massas sobre a pele.
Sim, pronto. Estamos no caricato.
Tu achas sempre que temos de parecer humanos.
Eu acho que sim. Às vezes há procedimentos que até têm nomes de animais e logo aí eu acho que a coisa está mal.
Sim. Também se fazem estes botox e estes ácidos hialurónicos. Isso existe e continua a ser para preencher rugas, para encher a pele. São temporários.
Sim, é grande parte do meu movimento. Acho que são estratégias que feitas quando devem ser feitas, fazem todo o sentido. O botox, o ácido hialurónico, a hidroxiapatita de cálcio, são substâncias que nos ajudam a evitar envelhecer mais depressa, a evitar que daqui a uns anos precisemos de soluções mais agressivas e muitas vezes dão-nos um bem-estar muito bem. Há pessoas que usam um creme porque quando o metem, de facto, acham que ficam maravilhosas de manhã e se não metem, têm a pele muito seca e estão mal. Um botox funciona da mesma maneira, não quer ter tantas rugas na testa, não é preciso ficar como um boneco de porcelana. Podem manter a sua mímica, a sua expressão, a personalidade. No entanto, estou com menos rugas, a minha pele está melhor.
Sente-se melhor.
E ganhamos aí.
Muito bem, João. Tu tens um canal do YouTube, portanto ficam só estas indicações. Take the Lift com o João Martins. Tem também tego no Instagram, JM Martins Cirurgia Plástica. As pessoas podem contactar-te também na tua clínica Lift, ali em Lisboa. Não temos tempo para mais, mas quero te agradecer pela tua disponibilidade e falares do Observador. Oxalá continues inspirado e de mãos firmes a fazer o que fazes tão bem, a restaurar a autoestima de tanta gente, uma vida melhor, mais saudável, mais positiva. Mantém-te seguro tu, os quatro lá de casa e mais o teu buldogue francês. Que corra tudo bem com vocês.
Obrigadíssimo.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto