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Aproveito agora para dar as boas-vindas ao convidado extra de hoje, o editor António Lobato Faria, que vai ficar conosco até às 21h, e que nos vem falar da origem dos livros, como nasce um livro, como se faz um best-seller, como se fareja um best-seller, como se lida com o autor, o que fazer se tem talento pra escrever, o que, na realidade, faz um editor. É isso que nós vamos querer saber tudo. Boa noite, António, bem-vindo ao "Observador".

Boa noite. Obrigado, João Paulo.

Obrigado por teres aceitado este nosso convite. Vou começar com uma citação de uma jornalista aqui do "Observador", Joana Emídio Marques, que escreveu há dois anos aqui no "Observador": "O livro será provavelmente um dos objetos mais polêmicos de todos os tempos. Entre a glória dos seus autores e as fogueiras inquisitoriais, entre o silêncio das bibliotecas e a música das feiras, os livros de papel continuam a fazer o seu caminho alheios aos radicalismos humanos. Há os que sobrevivem aos milênios, há os que morrem poucos meses depois, defeitos nas lâminas de guilhotinar papel. Há quem os adore como sagrados, os cheire, os exiba numa estante encerada. Há quem os compre nos supermercados entre batatas fritas e congelados". Já agora, fica aqui uma pérola do conhecimento. Aquele nome dado à mania que certas pessoas têm de cheirar o interior dos livros chama-se bibliosmia. No caso de não saberem. Tu por acaso sabias?

Não sabia.

Olha, pronto.

Mas é uma prática muito comum.

Tenho que cortar já isto. Eu gosto muito, pessoalmente. Tu és alguma coisa à Rosa Lobato Faria ou não?

Sou, mas não diretamente. Ela é primeira direita do meu pai.

Ainda por cima ela foi mulher de um editor.

É verdade. Eu gostava muito dela.

Joaquim Magalhães, fundador da Ulisseia. Pronto, o António, que é o nosso convidado hoje, tem três filhos: tem o mais velho, que terá agora, não sei.

21.

21 anos. E tem o pequenino Henrique.

E dois.

Exato. O Henrique fez dois anos há muito pouco tempo. E uma coisa também muito importante, mas que não vem pra conversa de hoje, é que tu és um especialista em vinhos, ouvi dizer.

Não sou especialista. Quanto mais percebo de vinhos, mais sei que-

Que nada sei.

Exatamente.

O que tu achas deste teste, também não tem muita a ver com a tua área. O que tu achas deste teste que dizem que foi feito, teste cego a enólogos, que lhes deram a provar à mesma temperatura um vinho tinto e um vinho branco e não distinguiram?

É perfeitamente possível.

Porque à mesma temperatura saberão realmente.

Depende do vinho tinto, depende do vinho branco, mas há vinhos brancos que se confundem facilmente com vinhos tintos. Se tiverem madeira, então, é fácil de confundir.

Muito bem. O António é editor e gestor.

Era só para juntar.

Era só para juntar. Sim. O António é editor e gestor. Ele licenciou-se em Economia, depois tirou um mestrado em estratégia industrial pela Universidade Técnica e foi professor durante 12 anos de Economia. Chegou depois a dar aulas em pós-graduações a ver com edição de livros e estratégia editorial, este género de coisa já na tua área. Porque tu és editor já há 23 anos, desde 96, se não me engano, que és dedicado tempo inteiro à edição de livros e assumes a responsabilidade na distribuição e na edição. Tu criaste, em 1999, esta Oficina do Livro, que foi uma pedrada no charco. Lembro que tu e o Gonçalo Bulhosa mudaram completamente o meio editorial. Entre as tuas grandes conquistas e descobertas, é claro que estamos a falar do nosso amigo Miguel Sousa Tavares, porque foram vocês dois que descobriram Miguel Sousa Tavares como romancista, porque ele não era romancista até aí. Tinha escrito umas coisitas ou outras, acho eu, nem pressa muita, mas não como o grande romance de fôlego, que foi das coisas mais vendidas em Portugal até hoje. E deve continuar.

Nós tivemos a sorte de estar no momento certo, porque o Miguel Sousa Tavares já tinha publicado alguns livros nessa altura, nomeadamente o livro do Sul.

O do Croquete.

O livro do Segredo do Rio, que é um livro conhecido de infância dele. Depois nós trabalhamos com ele num livro chamado David Crockett.

Exatamente.

Que foi lançado antes.

Contos, se não me engano.

Exatamente, que era um conjunto de contos e alguns textos que ele tinha escrito, alguns deles publicados, outros inéditos, onde publicamos pela primeira vez uma ficção pra adultos do Miguel Sousa Tavares. E foi ele que nos disse, na sequência desse livro e de ter gostado de trabalhar conosco, que estava a pensar escrever um romance. Aliás, chamou-nos lá à casa uma noite, lembro perfeitamente, e contou-nos em três penadas a história.

A trama.

Central, o trama central.

Estamos a falar em 2003. 2003 foi quando saiu, portanto fez 20 anos.

Fez, talvez, final de 2001, início de 2002. Porque o livro ainda demorou algum tempo a ser escrito, mas ele já tinha o livro todo na cabeça. A história era fascinante já nessa altura, quando ele nos contou a história. Não nos contou o fim. Eu também não vou contar aqui.

Sim, pra as pessoas continuarem a vender. Já vai nas 30 ou 40 reedições, se não me engano. Há pouco tempo eram 35.

Acabaste de dizer uma coisa muito engraçada, que é um hábito que as pessoas têm, que é olhar o sucesso do livro pelas reedições. Nós olhamos pelo número de exemplares vendidos, porque uma reedição tanto pode ter 100 exemplares como pode ter 100 mil exemplares.

Não diz nada. Mas agora terá nos quanto? Nos 400 mil?

Terá ultrapassado já o meio milhão de livros vendidos. Ele teve algumas vendas nalguns países fora de Portugal, nomeadamente a Itália e no Brasil, onde foi um sucesso. Na Itália ganhou um prêmio muito reconhecido. Certamente já ultrapassou mais de meio milhão de livros vendidos. Pra esse meio milhão, que já sabem o fim.

Exato.

Que já sabem.

Não vamos revelar mais.

Não vou revelar mais.

Como é lidar com o Miguel Sousa Tavares como escritor? Eu estou a dizer isto porque sei que foi um caso de sucesso convosco, porque ele não deve ser uma pessoa fácil ao nível de escritor. A gente sabe que ele não é uma pessoa fácil ao nível de escritor. Eu também o conheço. Mas, por exemplo, ele escreve, ele próprio, que quando teve bloqueios, que ele teve bloqueios. E ele diz: "Os editores António Lobato Faria e Gonçalo Bulhosa tiveram papel importante pra que escrevesse o livro, sobretudo quando o tão falado bloqueio do escritor. Eu bloqueei durante oito meses", diz ele, "e achei que não era capaz de acabar, mesmo que já tivesse feito umas 300 páginas. E eles nunca me pressionaram, disseram que ia haver um dia em que ia ser capaz de voltar a escrever devagarinho e sem preocupação. E foi de fato o que aconteceu". Vocês têm que ter essa sensibilidade e com ele não deve ser fácil.

Mas vamos lá ver.

Tu também tens o Mário Zamorral. Com ele deve ser fácil. Com o Miguel Sousa Tavares não acredito. Isto é importante. Quando andas nisto há 20 anos não é fácil.

Sim, quando andas nisto há 20 anos, faz parte da tua vida e da tua maneira de ser. É evidente que o editor tem que ter esse lado de conhecer o seu autor e de perceber os seus momentos. E tem que os respeitar, nunca desistir. A minha filosofia é essa em relação ao autor. Tu conheces aquilo que é o valor do autor, o seu talento e tens que esperar pelo momento, e ir provocando esse momento também, não é só esperar quietinho. Não é esquecer a pessoa, é provocando quando tens que provocar. E acho que essa interação, essa empatia ajuda. Mas no fim do dia, o autor ou quer fazer o livro ou não quer fazer o livro, não há milagre.

Sim, mas esperaram oito meses, António. Oito meses é brutal, é quase um ano. É dois terços de um ano. Esperado. Nada apareceu. Isso consumiu-lhe algum tempo. Algum do seu tempo útil. António Lobato Faria, já voltamos a conversar. E voltamos à conversa com António Lobato Faria, um editor que nos está a revelar os segredos da sua profissão. Afinal de contas, o que é que faz um editor e como é que se descobre um autor e como é que se acompanha um autor? Depois de ter dito que tu estudaste economia, gestão e tu és bastante perito nisso, tu agora és diretor-geral e editorial do Clube do Autor. Não tens nada a ver com aquele livro dos charutos, não é nada teu. Pois não, porque é um António Lobato Faria. És tu próprio? Outro prazer que tu tens é também o charuto, além do vinho? Esta conversa vai acabar por ser os segredos da edição de um livro. Um livro chamado "Puro Prazer: Histórias". Aliás, é de vocês dois, é do Gonçalo Veloso e teu. Estreia literária.

Não é estreia, foi aí que eu aprendi tudo, porque esse livro foi todo feito por nós. Na altura nós queríamos fazer qualquer coisa nesta área. Lembramo-nos de fazer um livro sobre charutos, que era um prazer que nós tínhamos há muito pouco tempo. Nós não éramos fumadores de cigarros, portanto o prazer de charutos para nós, ainda hoje, é um prazer completamente gastronômico. Se fumar um charuto por semana é muito. É uma coisa que se faz muito de vez em quando. Mas gosto bastante. E gosto da cultura que está por trás, é muito engraçada e tenho uma coleção, uma biblioteca de livros sobre isso. Mas, na altura, achamos que não havia nada em Portugal sobre esse prazer. E como achávamos que éramos miúdos, que não podíamos escrever sobre ele, éramos muito novos para inventar, decidimos fazer um livro que é essencialmente uma edição de textos de outras pessoas.

E é uma edição vossa, no fundo, é uma edição de autor.

A edição foi uma edição de autor, exatamente, patrocinado na altura por uma marca. Nós acabamos por ser editores do livro, porque convidámos uma série de personalidades que partilhavam conosco esse prazer para dar o seu testemunho, e compilamos aquilo. Portanto, foi uma experiência de edição, que depois foi o nosso curso superior, o nosso mestrado em edição, e a partir daí é que depois lançamos a ideia de fazer uma editora.

Tu trabalhas há mais de 20 anos na edição, como eu disse antes, e portanto, com esses autores, além do Miguel Sousa Tavares, com a Margarida Rio Lobo Pinto, a Helena Sacadura Cabral. A Helena Sacadura Cabral, por exemplo, diz que já não escreve uma linha sem falar contigo. O Gonçalo Cadilho, Batista Bastos, com quem tu trabalhaste, Clara Pinto Correia, Eduardo de Sá, Laurinda Alves, Hugo Gonçalves, Maria João Lobo de Carvalho, muita gente. No fundo, o teu trabalho, o trabalho de um editor é diferente do trabalho de um revisor, e muita gente confunde as duas coisas, mas não tem nada a ver. O revisor é aquele que pega no texto e corrige o português e a pontuação. É mais isso, não? O editor não tem nada a ver. Vocês estão atrás dos autores e às vezes sugerem por onde é que a trama deve ir. Chegam a fazer isso?

Completamente. O papel do editor diverge muito de autor para autor e de obra para obra. Há obras que podem ser quase de sugestão do editor, porque quando tu começas a trabalhar com um autor durante muito tempo, há uma relação quase de agente literário, ou seja, uma relação muito próxima e às vezes discute-se qual é o caminho que se vai seguir, discute-se ideias à mesa.

E chegas a convidar autores a propor temas. " Olha, porque é que não escreves um romance sobre não sei o quê?"

Completamente, claro, isso é normal. Tudo pode acontecer. Há casos desses, como há casos em que o autor gosta de trabalhar o livro e depois numa fase mais avançada fala com o editor, e aí o editor pode propor alguma, não diria uma reestruturação.

Alterações de fundo.

Sim, melhorar a estrutura do livro, da teia do romance.

Da trama.

Se for a trama. E pode dizer ao autor: "Olha, esta personagem está mais fraca, podia ter um pouco mais de força". Há uma interação que se cria, obviamente, que isto já quando tens alguma intimidade e proximidade com o autor, isso pode começar a acontecer. Essa parte é muito interessante.

Tu lês profundamente tudo o que te vão mandando e os autores vão escrevendo e vão te enviando o que vão escrevendo? Ou já tem gente que faz isso pra ti?

Eu acabo por ter uma equipe que trabalha comigo. Eu leio a fundo alguns autores que eu acompanho há muitos anos.

Os que dão mais à casa, sejamos justos.

Não é obrigatoriamente esse o critério, mas também é, como é evidente. Não é só esse o critério. Às vezes há temas que eu me sinto mais confortável e outros que não me sinto tão confortável Dividindo o trabalho. É mais o editor ir mais a fundo do livro e depois o próprio editor acompanha o trabalho do revisor. Porque, ao contrário do que as pessoas pensam, a revisão não é um trabalho de computador.

Já é uma coisa automática, robótica.

Exatamente. Não é objetiva. Ou seja, a revisão, apesar de tudo, tem muita discussão, porque na língua, e quem é especialista em línguas percebe perfeitamente que a mesma frase pode escrever de várias maneiras e portanto há pormenores de construção das frases.

Os verdadeiramente bons revisores estão a acabar. Eu conheci um que era velhinho e que fazia as coisas à mão. Era uma coisa antiga, era um homem extraordinário, que já acompanhava várias editoras ao longo dos anos, mas para mim aquilo ia acabar.

Não te consigo responder essa pergunta de forma objetiva, mas há uma certa tendência, porque como é evidente, os corretores automáticos simplificam muito as pessoas e as pessoas entre uma frase relativamente bem escrita e uma perfeita, vai uma distância, mas que já se nota pouco. E esses revisores do nível de apuramento e exigência elevado.

Da velha guarda.

Não há muitos hoje em dia. Eu conheço dois, no máximo. São, de facto, muito poucos. Mas é fascinante trabalhar com eles. Uma pessoa aprende todos os dias.

Como é que se escolhe um livro para ser publicado, António? Te devem chegar propostas de todo lado, por e-mail, por amigos, por tudo. Não estou a falar de publicações internacionais, porque aí vocês devem ter agentes ou contactos que depois leem os resumos e se interessam. É toda uma conversação diferente, uma conversa diferente e uma negociação diferente. Os nacionais. Chegam-te manuscritos, chegam-te originais de vários lados. Vocês escolhem como? Conforme o tema? Tem que ter a percepção do mercado, o que se vai vender. Interessa mais a forma, interessa mais a linguagem, interessa mais se está escrito de maneira escorreita ou o tema que está na moda. Como é que tu selecionas um pouco isso? Tu és uma empresa privada, quer dizer, como tu disse: "Eu sou o gestor, tenho que pagar os ordenados dos meus empregados". Tu não estás num grande grupo.

Essencialmente, não posso editar o que me apetece.

Exatamente. Tens os pés muito assentes na terra, ainda bem que és gestor e estudaste isso. Economia, isto tudo.

Há muitos critérios que vão variando de época para época. Tu queres ter um livro bem escrito, mas infelizmente o que não falta no mercado dos livros são livros bem escritos que nunca ninguém leu, ou que meio dúzia de pessoas leram. E portanto, a nossa missão, no nosso caso específico do Clube do Autor, tem sido editar livros que nós sabemos que à partida vão ter leitores.

Que há uma procura por eles.

Sim, nós sabemos que à partida vamos conseguir.

Escolar.

Não tem que ser escolar, evidentemente, mas vamos conseguir que ele crie no mercado, nas livrarias, apetência suficiente para que as pessoas o levem pra casa. Porque vamos lá ver, numa livraria existem centenas de livros de muita grande qualidade, não tenho dúvidas nenhumas disso. Alguns poderão dizer dezenas, os mais exigentes, etc. Mas existem vários. E o leitor não vai conseguir comprar todos.

Tem que selecionar.

Tem que selecionar em função de critérios muito pessoais, do seu estado de espírito, da sua disponibilidade financeira.

Do momento.

Do que já leu para trás, do que quer ler para frente, etc. Há n fatores que tu não controlas. Tu tens que colocar no mercado um livro bom. Eu não sei o que é um livro muito bom ou excelente, porque é muito subjetivo. Mas um livro bom é um livro que esteja bem escrito, bem organizado e que tenha um tema minimamente diferenciador. Ou seja, tu podes ter um livro muito bem escrito, bem organizado, mas já foram feitos 40 iguais. É bonito, mas não chega. Isso é a mesma coisa com a música. Já há n músicas bem feitas.

Quando diz o tema, mas, por exemplo, o romance histórico, é uma coisa que vende há bastante tempo. As vidas dos reis, das rainhas. Isso sai imenso.

Sim, isso é um tema mais fácil de expressar e de identificar enquanto romance. Porque percebe-se logo se tem um fundo histórico ou não num romance. Mas depois dentro do romance contemporâneo há muita especificidade. Romances que são sagas familiares, romances que são de intriga, romances que são de questões amorosas. Depois há os mais literários, também alguns muito parecidos uns com os outros.

Primeira receita.

Tentamos que isso aconteça, mas não é muito fácil. Como te disse, eu acho que a produção dos últimos 20 anos do século XX, não só nos livros, mas também nos livros, foi uma produção avassaladora.

A nível de quantidade?

A nível de quantidade. Devem ter sido produzidos mais livros de qualidade nos últimos 20 anos do século XX do que provavelmente em toda a história da humanidade, porque a quantidade de pessoas a produzir, a editar, ou seja, generalizou-se a prática. Há pessoas que não percebem bem isso, porque todas as épocas tiveram escritores de referência e as pessoas pensam que os anos 50 tiveram o mesmo número de escritores de referência da década de 70 de 1870. Não é verdade. Era uma elite que lia livros, não há comparação. E não há comparação com o final do século XX. O final do século XX é um boom nas artes em geral, na produção em massa das artes em geral. Digamos que hoje em dia não é difícil fazer a diferença. A literatura, por acaso, é uma arte particularmente aberta e permite muitos estilos e muita inovação, mas não é fácil hoje em dia um escritor criar a sua identidade. Aquela lógica de que tu estás a concorrer com os melhores. Porque hoje em dia tu vais a uma livraria e estão lá os grandes escritores. Os clássicos continuam a ser editados. Quando edito um livro, o leitor, se quiser, pode comprar o Dostoiévski ou o meu.

Exatamente. Por isso a concorrência.

Não é fácil ser autor no século XXI.

Normalmente, o processo de trabalho do editor vai até que etapa? Vai a todas? Vocês, por exemplo, estão envolvidos na capa, há um capista que faz a capa e que discute as alternativas. Vocês depois falam da capa com o autor e ele vê. Desde o princípio até à distribuição e até ao marketing, vocês estão em todo lado?

É muito raro teres um autor que não queira estar envolvido na capa do livro, porque para o próprio autor a capa do livro é uma componente do livro. E como tal, o editor também tem que liderar esse processo, independentemente desse processo depois envolver os designers, envolver os comerciais, muitas vezes. Há mais pessoas envolvidas no processo.

Mas realmente há livros que são assinados, eu acho, completamente pela capa, por entrar numa livraria e não dares por ele, ou por ser uma coisa tão apagada ou tão feia que não chama.

Concordo totalmente.

E há outros que têm uma capa maravilhosa e que depois são um desastre.

Uma capa não faz um best-seller e não faz com que o livro apareça e surja, etc. Mas uma má capa pode estragar um livro, pode estragar o percurso de um livro. Pode impedir que o livro chegue às pessoas, especialmente às pessoas certas, que tinham gostado daquele livro. E essa é a nossa preocupação. Ou seja, isso é uma responsabilidade primeiro do editor e depois, às vezes, é partilhada com o autor, porque o autor, pelo menos no nosso caso, as capas são sempre aprovadas também pelo autor.

E nesse caso, a propósito de conselhos a futuros autores, imagina que alguém tem um super best-seller na gaveta neste momento e que nos está a ouvir. Como é que isto se processa? Enviar a quem? Vocês têm equipas? Se enviarem para o Clube do Autor, para a Porto Editora, para a Leya.

Todos os livros que são enviados para o Clube do Autor são lidos.

Alguém os recebe e alguém os lê?

Nem todos são lidos.

Se o pavio.

É impossível. Nós recebemos, em média, cerca de 20 por semana. Não temos estrutura para ler os livros todos, mas fazemos uma triagem sobre todos os livros que nos enviam. Aqueles que depois nós percebemos pela leitura das primeiras páginas, pelo tipo de temas ou de estrutura, dos dados que o livro nos mostra. Muitas vezes o autor também nos envia o seu próprio currículo, uma própria síntese do livro, etc. Isso também nos ajuda a decidir, mas lê-se umas primeiras páginas e com base nisso depois decidimos se vamos fazer uma leitura integral ou não. Diria que há uma primeira fase, uma primeira triagem, que se lê só o essencial para perceber se vale a pena ou não. Porque, como podem imaginar, quando tu recebes 20 manuscritos por semana, há muitos manuscritos que tu percebes à partida que não têm condições para ir para o mercado, por várias razões. Isto é uma via aberta, tu recebes todo o tipo de manuscritos. Muitas pessoas têm muita vontade e eu digo sempre que gosto muito, que fico muito contente que as pessoas não são nada daqueles que digam: "Ei, hoje em dia qualquer um escreve um livro". Não, para mim, todas as pessoas têm o direito de escrever o seu livro. Agora, eu enquanto editor, tenho que ter a noção daquilo que infelizmente pode ir para o mercado ou não, porque não faz sentido eu criar uma expectativa num autor e dizer: "Ai, não, eu vou editar o seu livro" e depois as pessoas vão para o mercado e vendem três ou quatro livros. É uma alta frustração para as pessoas. E para mim, por mais que algumas pessoas, no fundo, querem ver o seu livro publicado para dizer aos amigos que era o seu livro publicado. A verdade é que depois é muito estranho ter um livro que ninguém liga nenhuma.

E que não vendeu.

Acho que nesse sentido eu prefiro que a realidade chegue depressa às pessoas.

Eu tinha esta pergunta preparada: se alguma vez tiveste a surpresa de ter um manuscrito que te enviaram, de alguém, que tu supostamente não conheces, e sobre o qual tinhas dúvidas, não sei se deve editar ou não, editaste e afinal foi muito bem aceito pelo público. Surpreendeu-te? Já te aconteceu?

Já me aconteceu, eu acho que já me aconteceu várias vezes. Eu confesso que neste momento não estou a lembrar de um caso evidente.

Um nome concreto.

Vamos lá ver. Uma coisa que se tenha transformado num verdadeiro fenômeno, não é muito vulgar, mas aconteceu, aliás, aconteceu nos anos 2000, porque era muito mais propenso a fenômeno. A própria Margarida surpreendeu-nos até certo ponto.

A Rebelo Pinto?

A Rebelo Pinto. O primeiro livro da Margarida Rebelo Pinto foi uma surpresa para toda a gente. E já aconteceu várias vezes com vários autores. Mas acontece frequentemente a uma escala mais controlada. Ainda agora, este ano me aconteceu, com o livro do jornalista José Manuel Barata Feio, que fez um trabalho de investigação muito interessante sobre Os portugueses que estavam em França e que lutaram pela resistência francesa, um livro chamado "A Sombra dos Heróis".

Durante a Segunda Guerra.

E ele falou-me do livro e eu disse-lhe que achava que os portugueses não se iam interessar por aquele tema.

E afinal?

Portanto, aqui.

Deste o braço a torcer.

Mea culpa. Achei que os portugueses não iam ligar, que os portugueses queriam lá saber dos portugueses que estavam na resistência, etc.

Se fosse a batalha de Alike.

Mas a verdade é que o livro...

Saiu?

Para o livro, que teve bastante sucesso, fez uma edição, nós tivemos que fazer uma segunda edição do livro. Fizemos uma edição bastante pequena e fomos obrigados a fazer uma segunda edição. E eu tive que dar o braço a torcer ao José Manuel Braga de Ferreira, um grande abraço pra ele, que eu acho muito bom.

E o contrário, já te aconteceu alguém que tu apostaste imenso, adoraste o manuscrito, achaste que ia ser fabuloso e depois não vendeu nada de especial?

Nove em cada 10 livros que nós editamos.

É sim? Não vendem o que tu estás à espera, portanto.

Não diria nove, mas...

Uns poucos.

Repara, vamos lá ver. O editor nunca sabe qual é que é o livro que vai ter... Há uns mais ou menos óbvios, mas mesmo os óbvios, tu não sabes qual vai ser a dimensão do sucesso e estás verdadeiramente sempre a ter surpresas. O mercado é muito surpreendente e é isso também que nos dá um certo gozo e faz com que este setor, apesar de tudo, tenha uma alma diferente de outros setores industriais. Mas sim, acontece muito, nós quando editamos o livro temos sempre alguma fé nele. São poucos os livros que nós dizemos à partida: "Olha, vamos editar, mas isto não vai dar nada". Hoje em dia, quando editamos, temos alguma esperança que ele possa pelo menos vingar alguma coisa.

Descobriste algum talento? Alguém que possas dizer: "Olha, o Tordo", sei lá, um escritor desses mais recentes, que possas dizer: "Eu estou orgulhoso". Já falámos do Sousa Tavares. Como romancista, eu acho que foste tu e o Gonçalo. Ninguém me tira isso. Mas há algum que possas dizer assim: "Olha, este hoje em dia está a escrever muito e é um pouquinho graças a mim". Mesmo que já não esteja contigo. Ou o topo do pessoal.

Eu não acho que haja ninguém que eu possa dizer de uma forma tão taxativa isso. Mas sim, eu acho que potenciei a carreira de alguns autores e, por exemplo, recuperei a carreira de outros. Um deles é o Márcio Abujam.

Márcio Abujam.

O Márcio Abujam, quando nós reeditamos um livro na altura, que era uma compilação de contos, fora de mão em 2002, se não estou em erro, 2001, 2002, ele não publicava livros há mais de 10 anos. Estava completamente esquecido. E essa publicação fez com que ele-

O nosso bom Malandro de livro de eleição.

Exatamente. E fez com que ele depois publicasse, passado dois anos, publicasse o primeiro romance da segunda leva em 15 anos.

E que está imparável.

E depois nunca parou.

Sim, nunca parou.

A própria Helena Sacadura Cabral também foi um pouco assim, a nossa interação também fez com que ela, hoje em dia, já não precisa de mim para nada, ao contrário do que tu dizes.

Exato. Lembro dela dizer isso. Ela é muito simpática, mas acho que ela não precisa de mim para nada. É uma grande senhora.

Mas sim, mas no início, obviamente que há uns inícios mais tutubiantes em que tu estimulas mais as pessoas.

Tu publicas cerca de 10 títulos por mês, é possível?

Não. Já publiquei.

Hoje em dia menos, já?

Não, hoje em dia publicamos por mês, eu diria cinco, seis títulos por mês, mais ou menos.

Em Portugal está-se a ler mais ou menos? É que isto nem sempre, como dizia o Carlos Marques, não tem tudo a ver com as vendas. Estou a dizer de ler. Nem sempre corresponde ao número de vendas de um livro. Achas que se lê mais do que há 20 anos, 30 anos, quando apareceste, quando começaste neste meio?

Isso é uma tricky question.

É.

Eu acho que nós-

Qual é a tua ideia? Farol de Livro é cada vez mais sucesso, isso é, mas será que as vendas refletem isso? E depois os leitores também?

As vendas hoje em dia nos livros estão um bocadinho paradas, condicionadas. Ou seja, há aqui um fenómeno interessante que é: há dois anos, se calhar, se me fizesses essa pergunta, eu diria que estamos a caminhar para o calabouço e os livros vão desaparecer. Hoje em dia, há alguns sinais de resistência do livro e dos leitores. Ou seja, aquela ideia do e-book, que eu por acaso nunca me convenceu, está totalmente ultrapassada no sentido em que o e-book iria substituir os livros, que era impossível, nunca iria acontecer, mas a verdade é que o e-book hoje em dia tem uma cota pequena e é um utilitário, ou seja, há muitas pessoas que usam e bem o e-book.

Só para viagens e férias.

Mas geralmente são pessoas que já leem muito.

Mas não botam o livro como se vaticinava há uns anos.

E já têm muitos livros em casa. É muito difícil encontrares um leitor de e-book que não tenha muitos livros em casa.

Exatamente. Concordo contigo.

O e-book serve de appliance, de instrumento para ler.

Gadget. Exatamente.

Para quem gosta muito de ler. Agora, não substitui a leitura e ninguém fica um leitor de livros.

Hábitos de leitor, graças a um e-book. Alguém que inovou uma coisa assim.

Não acredito. Tenho dúvidas que isso possa acontecer. Não sei, sei lá, mas no nosso tempo não vai acontecer isso, de certeza. E a verdade é que o e-book hoje em dia tem uma cota e já deixou de crescer. Em Portugal nunca foi significativo, mas mesmo no mundo inteiro não tem grande papel. Mas tem o seu papel e é bom que haja e-books e eu sou a favor da existência dos e-books, mas não substitui de todo o livro. Agora, o livro, estamos aqui numa situação um pouco esquizofrênica, porque o livro hoje em dia tem muita concorrência. Ou seja, o smartphone, as Netflix desta vida. As pessoas que são mais cultas e que são mais leitores têm muito pouco tempo para os livros, porque a pressão dos conteúdos, da criação de conteúdos é difícil. E isto causa outros desafios, mas vamos continuar a ser criativos e a desafiar os leitores.

Muito bem, e acabamos em cheio com uma mensagem de esperança que é importante. Nós não temos tempo para mais, infelizmente. Resta-me agradecer-te, António, mais uma vez, obrigado por teres aceitado este nosso convite.

Obrigado eu.

Este serão com o cheiro a livros e a transbordar talentos e grandes escritores. Boa noite, sou o João Paulo Sacador e regresso amanhã ao serão, às oito e pouco, com uma convidada extra, Margarida Magalhães Ramalho, historiadora, que nos vem falar de um museu, o Museu Vilar Formoso, Fronteira da Paz, e de uma biografia de Tomás de Mello Breyner, médico e amigo pessoal do rei dom Carlos, avô de Sofia, bisavô de Miguel Sousa Tavares. Vai querer saber tudo, não pode perder. Fica com o encontro marcado comigo aqui no Observador.