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Esteve aqui há quase seis anos e nessa altura já celebrava 30 anos de carreira. Diogo Infante, ator, encenador e diretor artístico do Teatro da Trindade, mas também pai dedicado, homem culto e atento. Qualquer pretexto é bom para conversar com este agitador de consciências, como ele gosta de se definir, que tem o nome na Calçada da Fama, na Praça da Alegria, em Lisboa. É o grande culpado deste sucesso que está a fazer história no teatro deste país. Depois de quatro meses em cena, com salas esgotadas e mais de 40 mil espectadores, eis que em boa hora regressa "Sonho de uma Noite de Verão". Uma ode ao amor, à vida e à felicidade, que cruza Shakespeare com o cancioneiro pop português no chiado lisboeta. Estamos a celebrar o texto clássico e intemporal de Shakespeare e pelo meio, sem outro aviso, ouvimos a Agatha em "Comunhão de Bens", o Clemente no "Vais Partir", Salvador canta "Amar pelos Dois", Simone traz "Toalha de Inverno", Dulce Pontes lembra a lusitana paixão. Ouvimos Marco Paulo com "Ninguém, Ninguém" e até Rui Veloso com o "Não Há Estrelas no Céu". Há estrelas na Terra também e uma delas veio hoje à Rádio Observador. Olá, Diogo. Bem-vindo de volta a esta casa.
Obrigado, João Paulo, é um prazer.
É um grande prazer estar aqui a falar contigo. Tu que já moras em Sintra, que é um sítio fantástico para morar, não é?
Bom, eu sou suspeito, eu estou lá há 30 anos sensivelmente e já saltitei um pouco ali pela serra, mas gosto muito daquele espaço verde, obviamente, gosto de reclusão.
Património Mundial, se não é mais nada, tem uma paisagem cultural que o mundo se leva.
Mas sinto-me protegido no meio das árvores e no meio das aldeias. E é bom sair da azáfama de Lisboa e poder ter meia hora de viagem para descomprimir.
Exatamente. Isso é muito importante. Também saí de Lisboa há 30 anos e já não voltava hoje. Tu ainda fazes hipismo? Tu fazias a sério, era saltos.
Certo, competia, mas reformei-me.
Foi há uns anos?
Reformei-me há um ano, um ano e pouco.
Está lá, puxa.
É recente, porque as costas começaram a dar sinal e eu pensei: "É lá, ou continuo a representar ou continuo a saltar". E acabei por me reformar, mas continuo muito ativo, porque faço jogoténis com regularidade, é outra das minhas paixões. E, portanto, estou com outro tipo de dores nos tornozelos, no ombro, no braço, mas enfim.
Se fosse padre era a mesma coisa, era o cotovelo, era os joelhos.
Sinto com muito entusiasmo.
Agitador de consciências, tu gostas de dizer, e é muito curioso, porque o teatro é um bom meio para isso, obviamente. Tu tens uma história de amor, a tua vida nasceu de uma história de amor com um pai inglês e daí o teu lado meio inglês, muito anglo-saxónico, tu és, que tens suas preferências, que tu já conheceste em adulto.
Certo.
Isso já tinhas 34 anos quando o conheceste. Achaste parecido com ele?
Não.
Nada? Criança.
Não muito. Quer dizer, fisicamente eu sou mais parecido com a minha mãe, mas temos uma estrutura física, de resto, parecida. Somos da mesma altura, consigo ver-me nele daqui a 20 anos. Mas, sobretudo, conheci o meu progenitor e hoje é um amigo.
Continuaram ligados.
Sim, estamos ligados. Ele vive em Portugal, de resto, e portanto mantemo-nos em contacto e foi tudo muito tranquilo, mas foi importante, foi uma fase muito importante e ajudou-me a amadurecer e a resolver algumas questões pessoais e profundas.
Porque tu és muito um homem de família, o que é curioso. Tens muito esta ligação à família. Tu até a Carmen Dolores e o Nice para ti são família, além da tua mãe e da tua avó que te criaram.
A família são muito aqueles que nós escolhemos e que nos acolhem e que nos acompanham, e que estão lá nos momentos mais importantes. E é isso que eu acho que é ser família, é cultivar a proximidade, a relação, o afeto, a confiança, nos bons e nos maus momentos. E portanto, todas essas pessoas que mencionaste foram muito importantes numa determinada fase da minha vida, porque me deram aconchego, me deram colo, acreditaram em mim e disseram: "Não, vai, porque vale a pena".
A tua mãe e a tua avó iam aos teus exercícios todos no conservatório e às tuas estreias, sempre.
Não tive que as subornar, mas elas iam de bom grado. Sempre foram fãs orgulhosas e testemunhas muito presentes da minha evolução e do meu crescimento. E o meu pai também, a partir de certa altura, passou a ir e a estar presente e a envolver-se. E isso é muito agradável, porque nos dá uma retaguarda emocional.
Muito bem. Tu formaste o teu estudo, digamos, em guia-intérprete, era a tua profissão, mas foi uma profissão que tu abandonaste para perseguir um sonho. Hoje falamos de sonhos. Completamente, o teatro para ti, quando é que foi esse fascínio que: "É isto que eu quero fazer"?
Bom, na verdade, há pouco dizias que já são 30 e muitos anos, e são efetivamente como ator profissional, mas hoje, curiosamente, vinha a lembrar-me que me estreei com 17 anos no teatro amador. E foi aí o ponto de viragem.
Em Faro era esta.
Em Faro, no Teatro Lethes. Considerando que tenho 57, portanto, na verdade, este ano são 40 anos de atividade, de uma paixão, de um sonho. Claro que foi preciso dar ali um salto de fé a certa altura, porque muito embora eu tivesse uma carreira, avizinhava-se uma carreira no turismo já com alguma expressão, mas eu senti que no fundo de mim próprio, que merecia dar a mim próprio uma oportunidade De poder ir atrás de uma coisa que me tocava muito e que era esta ideia de representar. E foi isso que fiz. Eu, na altura, vivia no Algarve e não tinha qualquer relação com Lisboa, embora tenha nascido cá. Portanto, acabei por regressar à capital e arriscar largar tudo que tinha conquistado até aí. Estamos a falar que eu tinha 21 anos. Vim para o conservatório e a verdade é que passado um ano, no final do primeiro ano do conservatório, fiz a primeira peça de teatro, fiz o primeiro filme e acho que desde então não parei até hoje.
Depois fizeste as Sabichonas do Molière, exatamente, estamos a falar aqui no Teatro Nacional. Estavas em nós, estudaste, se não me engano.
Sim, estava no final do primeiro ano, teria 22 anos.
E a Nuvem também, da Ana Luísa Guimarães.
Exato.
Onde, aliás, foste logo premiado, prémio de melhor ator e o Séptio de Ouro, ganhaste nessa altura. Depois passaste pelo Carlos Avilez e aí foi também um deslumbrar. Aí contactaste com o Shakespeare, por exemplo, foi com ele?
Sim.
O "Rei Lear"?
O "Rei Lear" foi o primeiro contacto com essa dimensão de texto e com a responsabilidade que o personagem acarretava já na altura. O Carlos confiou que eu tinha alguma capacidade e deu-me um papel delicioso. Mas foi, sobretudo, o contacto com o meio profissional, exigente, toda uma dinâmica que me obrigou também a posicionar-me enquanto artista e enquanto pessoa. Aprendi muito, aprendi coisas que queria muito fazer e outras que não queria reproduzir. Foram tempos de formação e que me moldaram e que me deram instrumentos que depois vim a utilizar ao longo da vida e que ainda hoje prezo e guardo como muito especiais.
Aqui foi teu primeiro contacto com o "Sonho de uma Noite de Verão", com o Rui Mendes, encenado pelo Rui Mendes.
Logo a seguir, depois do Rei Lear, no Teatro Experimental de Cascais, o Rui Mendes desafiou-me para ir fazer o Sonho.
Foi no ano seguinte.
No ano seguinte. E acho que foi em 91.
Sim.
E pronto, foi maravilhoso.
Primeiro contacto.
Contracenava com a extraordinária Maria João Luis, eu fazia o Oberon e ela a Titânia. Ela já era uma atriz com mais experiência que eu. Eu já a tinha visto em palco e tinha ficado absolutamente fascinado por ela. O Rui Mendes era o Rui Mendes, obviamente, e já estava rodeado também de atores de peso. E essa experiência foi muito feliz e guardei-a no coração até aqui agora.
Sim, tu dizes isso. Gosto de voltar onde fui feliz. Revisitar.
E aquela tradução foi tão bonita do Augusto Sobral, que quando surgiu a oportunidade de montar esta produção deste espetáculo, tive que buscar a mesma tradução. Eu tinha na memória ainda do texto.
Aliás, é muito curioso tu dizeres, não tinha que trair, por exemplo, não houve aquela preocupação do verso.
Não.
Tinha que traduzir o verso. Não, o que interessa é o espírito da peça.
Claro que sim.
E tu fizeram questão de ser fiéis a isso.
Alguns tradutores são mais acadêmicos, digamos assim, e fazem muita questão de manter o verso do original, mas na verdade, para a fruição do espetador, é importante que o texto flua e não seja apenas um exercício de oratória.
De língua, de forma.
De língua, de linguagem, exatamente. E quando a forma se sobrepõe ao conteúdo, depois alguma coisa se perde.
É uma traição.
Exatamente.
Uns anos depois, 10 anos depois, de Sexo, Drogas e Rock'n'Roll, este do Bogosian, com a Natália Luísa, que te encenou, também é outra grande figura. Estamos só para falar de figuras que marcaram o teu caminho e que foram mentores extraordinários. Esta tua peça, se não me engano, tinha uns 12 monólogos no original e aqui fizeram-se sete?
Nós fizemos sete.
Tu fazes todas as personagens.
Tudo, sim.
Foi um ponto de viragem tremendo na tua carreira, não foi?
Foi um ponto muito importante, porque na altura-
Até pela intensidade e pela quantidade.
Seguramente pelo desafio, mas sobretudo porque eu senti a necessidade de me testar. Ou seja, muitas vezes o próprio mercado de trabalho tem uma certa tendência para nos categorizar, para nos catalogar. E eu estava sistematicamente a fazer o mesmo tipo de personagens: o jovem galã, simpático, bom rapaz. E essa imagem estava a sacolar um pouco a minha pele e eu sentia que tinha mais para dar. E, portanto, eu fui à procura de textos que me tirassem dessa zona de conforto e que ao mesmo tempo contrariassem uma imagem de marca que se estava a criar, seguramente, também por minha responsabilidade. E, portanto, eu procurei destabilizar-me. E acabou por ser um projeto de enorme sucesso, no qual eu tive um enorme prazer em fazer. Tive dois anos a representá-lo.
Vários turnês.
Foram vários turnês.
60 mil espetadores.
220 espetáculos, foi uma loucura, mas deu-me um enorme gozo.
Até que decidiste: "Vou parar."
Decidimos parar, porque eu já estava tão cansado de fazer 220 espetáculos é muito.
Serias quase como a ratoeira.
Quase um bocadinho. Mas foi, como tu disseste, um ponto de viragem. Foi uma altura em que eu percebi que tinha mais para dar, podia arriscar mais, fiquei com muita confiança em mim e também ajudou a que os outros me olhassem de outra maneira. "Ele não é só uma coisa. Portanto, ele tem, de facto-
Essa versatilidade.
Essa versatilidade. Isso foi importante.
Como encenador, gostava de falar de ti como encenador, que aliás, já estamos a falar deste "Sonho de uma Noite de Verão". Há muita gente que te chama controlador, porque tu, de facto, gostas de estar a par de tudo que tiver a ver com espetáculo, tudo. Desde do batting, da venda dos bilhetes, da direção de atores, os cenários, tudo. És muito picuinhas como encenador?
Eu não sei se picuinhas é a palavra, mas eu trabalho com muita antecipação. E portanto, quando eu chego ao primeiro dia de ensaios, eu já vou com uma ideia muito clara daquilo que vai ser o espetáculo. Muitas vezes tenho até o cuidado de um mês antes dos ensaios começarem, me reunir com a equipa, nomeadamente com o elenco, dar-lhes já diretivas do que vai ser a abordagem dramatúrgica do espetáculo, para que quando eles começarem a preparar o seu trabalho em casa, porque um ator tem que fazer trabalho de casa, já possam ir com essa visão e, portanto, quando chegarem há um alinhamento de ideias e de linguagens que é muito importante. Sou controlador na medida em que, sendo o comandante do barco, cabe-me a mim orientá-lo e dirigi-lo naquilo que me parece ser o objetivo. Agora, não sou autista, sou muito recetivo a propostas.
Dás alguma liberdade aos atores?
Dou bastante liberdade. E dentro desses critérios e dessas linhas de ação, sou muito permeável às propostas dos atores, da equipa criativa. Acho que é desse contributo que o teatro vive, é desse Coletivo. Portanto, procuro não ser tirânico. Agora, tenho convicções, claro.
Claro, é isso. Cada caso é um caso e, portanto, se deixas um ator fazer o que lhe apetecer, vai desencadear uma confusão daí em diante. Tu assistes muito agora nesta retomada do sonho. Já não estás lá, já não és ator, portanto, assistes a muitas ou a quase todas as apresentações?
Não.
Tomas notas e depois fazes um feedback aos atores?
Não. Eu vejo o espetáculo, digamos, uma vez por semana.
Ok. Sorte.
Embora confesse que tenho diariamente feedback. A direção de cena manda-me o tempo que o espetáculo teve, está cronometrado e, portanto, se há variações que ultrapassem dois minutos, eu penso assim: "Mas por quê? O que aconteceu?"
Sério?
Sim.
Olha.
Portanto, eu recebo isso e se há mais do que dois minutos, eu digo: "O que aconteceu?" Às vezes o público é muito interventivo, bate muitas palmas.
Pode não ser mau, necessariamente.
Não necessariamente, mas tento perceber o que se passa. Se passar dos dois minutos, então eu vou lá ver o que está acontecendo. Alguém se está a esticar. Mas eles são todos muito profissionais.
E é muita gente, é muito físico, as músicas e tudo. Não deve ser fácil de gerir aquilo. É tempo, é muito tempo também.
É, o espetáculo tem duas horas. Mas como te disse, quando nos juntámos para o primeiro ensaio, aquilo já estava tudo planificado. Tenho, obviamente, a enorme cumplicidade do Artur Guimarães, que é o diretor musical e que abraçou esta aventura e este desafio de misturarmos um texto clássico com o nosso cancioneiro pop.
Dos anos 30 e 40. Não é só coisa recente.
Exatamente. E, portanto, ele fez as adaptações e algumas orquestrações e acabou por funcionar de uma forma muito surpreendente e acho muito feliz.
E foi neste espetáculo, Diogo, que tu sentaste todo o elenco na plateia e depois disseste: "Foste para o palco e vou fazer isto tudo corrido para vocês verem mais ou menos como é que isto vai ser."
Não foi neste.
Não foi neste?
Isso foi no Chicago.
Ah, ok.
No Chicago eu fiz isso, embora neste eu já fosse com uma ideia muito clara, mas não quis repetir a piada, porque na altura eles gozaram muito comigo, porque eu fiz um espetáculo para eles, basicamente.
Exato.
Mas sim, vou com ideias já muito definidas, porque acho que é preciso maximizar os recursos, otimizar o tempo que temos e dar-lhes a eles também a possibilidade de poderem dar o seu contributo e desenvolverem a sua criatividade. E é isso que faço, é essa a maneira que gosto de trabalhar.
Falávamos há bocado em Eunice Muñoz e não posso deixar de lembrar esta bonita homenagem, não só ao filme que tu fizeste, a tua realização como realizador, como este "O Ano do Pensamento Mágico", da Joan Didion, que tinhas visto em Londres à procura de uma peça para ela. Ela já com alguma idade. Não foi como o filme, que aí já não tinha voz, praticamente. Quiseste homenagear ela também, esta mãe, digamos, entre aspas, e que tinhas visto em Londres com a Vanessa Redgrave. Ela já tinha o quê? 80 anos, por aí?
80.
Estava aqui em Nice que fizeste isso e ela foi porque tu lhe propuseste. É incrível essa confiança.
Eu fiquei muito aflito, porque quando lhe propus o texto, temi que ela pudesse não gostar. E ela nunca teceu um comentário. Disse-me: "Se é este o texto que tu queres, é este o texto que eu faço."
É extraordinário. A Eunice Muñoz, quer dizer.
Nós tínhamos uma relação muito próxima, que nasceu desde "A Banqueira do Povo" e que depois, ao longo dos anos, se foi desenvolvendo como uma amizade genuína, de colegas. Ela era muito atenta, vinha ver tudo, almoçávamos, jantávamos. Depois fizemos um espetáculo com Maria Matos, que foi "A Dúvida", e fizemos uma digressão pelo país e foi incrível. E depois quando fui para o Dona Maria, fiz questão de a trazer de volta àquela que era a sua casa e homenageá-la com um espetáculo que ela pudesse honrar-nos com aquele brutal talento. E ela entregou-se sempre, sem questionar. Tudo o que eu lhe pedia, ela fazia com uma generosidade e uma humildade que foi uma lição que até hoje guardarei para sempre.
Exatamente. Agora estou a pensar aqui no cinema, passaste também pelo cinema, mais de 20 filmes que tu fizeste. Falámos já do teu papel como realizador, com esta Olga Dromond, que é ela, no fundo. A tua parte em "A Banqueira do Povo", falaste que eras o sobrinho, como tu dizias, o Álvaro. Fizeste dezenas de personagens até hoje, Diogo. Há uma ou duas que te marcaram muito mais profundamente que outras?
Olha, as do teatro, seguramente, porque no teatro temos esta enorme vantagem de estarmos a interpretar textos que muitos deles são obras-primas. Eu sempre me senti muito atraído pelos clássicos e portanto, tive a felicidade de fazer, sei lá, já fiz o Édipo, já fiz o Hamlet, já fiz o Cyrano, já fiz personagens que são muito icônicos, que são maiores que a própria vida e que me deram uma dimensão sobre-humana daquilo que nós podemos e conseguimos fazer. Eu já interpretei "A Ode Marítima" do Álvaro de Campos e, portanto, tive textos nos lábios que são marcas extraordinárias. E portanto, esses personagens foram muito marcantes. Mas no cinema há dois ou três que me foram muito queridos. Um dos primeiros foi "A Sombra dos Abutres", do Leonel Vieira. Foi uma personagem que eu fiz, porque era completamente atípico. Eu fazia uma personagem de composição, o que em cinema é sempre arriscado e deu-me muito gozo. E depois também fiz a "Jangada de Pedra" do Saramago, uma adaptação do Georges Sluzier, que foi uma experiência cinéfila muito bonita e gostei muito de interpretar isso.
Incrível. Estava agora a pensar aqui neste avanço. Ficas ao fim de 30, quase 40 anos de prática, ainda tens este nervoso miudinho quando sobes a um palco? Tu chegaste a ter crises de ansiedade, umas horas antes ou uns dias antes: "Meu Deus, isto vai correr tudo mal."
Normalmente os nervos batem-me uns minutos antes do palco.
Ok. O que é bom, já me disseram colegas teus: "Isto é bom, ainda bem que te acontece."
Porque acordas, é um shot de adrenalina e o teu corpo reage. Claro que a experiência e o tempo já me permitem enfrentar estas situações com alguma tranquilidade, sabendo que tenho sempre uma enorme responsabilidade e quanto mais o tempo passa, maior é a expectativa, não só do público, como também a minha própria. Portanto, ninguém é tão crítico de mim como eu. Eu sou o meu pior crítico. Mas dito isso, depois deixo-me ir. Eu acho que com "A Ode Marítima" aprendi o que é lançar-me do precipício E voar sem medo. Portanto, tudo agora, por comparação, me parece, não é menor.
Não é apenas.
Vá lá. Já passei por aquilo, portanto, a corda deixa de coisas. E portanto, tento sempre relativizar e não deixar que os nervos e o medo me controlem.
Muito bem, Diogo Infante, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Aqui estamos a conversar com Diogo Infante, ele é ator, encenador e diretor artístico do Teatro da Trindade, que nos fala da sua vida e do regresso ao Teatro da Trindade, até 4 de maio, deste musical "Sonho de uma Noite de Verão", que cruza Shakespeare com o cancioneiro pop português, depois de quatro meses em cena, com salas esgotadas e mais de 40 mil espectadores. Estamos a falar de musicais. É engraçado que tu tens esta ideia, ser diretor artístico, no fundo, tens que escolher tudo, a programação, os elencos, como isto tudo vai. Não é só bastidores, é também uma gestão corrente que tens de fazer. Também a nível financeiro, que ao fim destes oito anos que estás aqui, no fundo, a ideia é, já estiveste em três casas, Maria Matos, depois no Teatro Nacional e agora no Trindade. Três casas, um projeto, ou não?
Antes de responder, deixa-me só fazer uma pequena correção, porque muito recentemente, se calhar não sabes disto, o espetáculo foi prolongado, o "Senhor Ministro".
Ah, boa.
Vai até dia 6 de julho.
Ainda bem.
Há novas datas. Portanto, todos aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de ir, vão poder fazê-lo agora. Sim, é muito bem observado, porque efetivamente eu sinto que é um mesmo projeto. Ele foi sendo adaptado em função das circunstâncias e em função das estruturas que eu dirigia, mas na base ele tem denominadores comuns. E sobretudo aquilo que eu sempre acreditei é que era possível fazer um teatro de qualidade, mainstream, para um público mais alargado, mais generalista, sem fazer concessões à qualidade e que ele fosse sustentável. E portanto, esse tem sido um dos propósitos que aqui eu pude, de alguma forma, levar até mais longe, porque a premissa do Trindade passa exatamente pela sustentabilidade, ou seja, tudo aquilo que é investido e gasto em produção, ou seja, que é despesa, tem como desafio ter o seu retorno na receita para cobrir esses gastos. E portanto, a programação, digamos, o projeto artístico, tem na base um modelo de gestão para que isto possa funcionar. E a verdade é que ao fim destes quase oito anos, todos os anos temos conseguido cumprir essas metas. Tenho ao meu lado um diretor executivo, que é no fundo um gestor do teatro, que entendeu muito bem este pressuposto e que me tem ajudado a viabilizar, a concretizar e a pôr na prática esta visão, com os resultados que têm estado à vista. E portanto, é por isso que nós temos tido sucessivas temporadas em que temos que repor espetáculos de grande sucesso, porque eles reclamam esse espaço de visibilidade.
É o caso da Noite Reis, por exemplo, também.
Da Noite Reis, outro espetáculo.
Foi um sucesso louco.
Enorme.
Conheço muita gente que ficou com pena de não ter visto e depois adorou quando voltou.
Exatamente.
É incrível. Teve esta temporada em 2023 e voltou depois em 24, de maio a julho. E também mais de 18 mil espectadores, dois meses com salas completamente esgotadas, impunha-se voltar. E acho uma ideia excelente, e continuaram depois a esgotar. É uma ideia excelente, como o Sonho agora, com certeza.
Muito bem, e o Diário de Ana Frank foi outro espetáculo que também fez um enorme sucesso. Teve quatro meses em cena, depois acabamos por repor no ano seguinte no Maria Matos.
O Chicago teve três temporadas também.
O Chicago teve três temporadas.
É impressionante.
Para mim não faz sentido estar a investir tanto tempo, dinheiro e dedicação num espetáculo, que depois está a esgotar e retirá-lo de cena ao fim de algum tempo.
Exatamente. Temporadas curtas, que faz muito sentido.
Isso faz muito sentido.
E depois é engraçado que tu vais a outros aspetos que normalmente as pessoas pensam que o diretor artístico não vai tanto, mas é: por que tantos convites? Por que esse preço dos bilhetes? Tu dizes, as pessoas gastam dinheiro em porcarias muito mais caras e isto é um bem que se está a vender às pessoas. Mas isso é uma coisa, Diogo, que nem sequer o governo acho que ainda percebeu. As autoridades, quando ligam à cultura, é sempre o parente pobre, quanto mais barato melhor, e ninguém investe como devia ser.
Sim.
As pessoas, se calar nunca seja ministro da Cultura, não acontecia nada. Tu dizes tu, mas de facto as pessoas não olham com olhos de isto pode ser rentável, isto pode ser importante. E é importante para as pessoas serem melhores pessoas e pensarem melhor.
Eu obviamente subscrevo tudo o que acabaste de dizer. Eu acho que nós infelizmente não temos uma cultura da cultura, ou seja, nós não promovemos a atividade cultural, a fruição cultural, desde uma tenra idade, e portanto, isso acaba por não ser uma necessidade. Dito isto, devo admitir que hoje em dia nós temos muito mais público, temos muito mais oferta, temos muito mais produções, temos muito mais atores, temos muito mais qualidade. E isso deixa-me muito feliz de sentir que há, de facto, um tecido teatral, artístico, que não se conforma, não baixa os braços e não desiste de lutar por aquilo que acredita, porque como tu dizes, é um contributo efetivo, é um contributo importante, porque eleva-nos do ponto de vista humano, do ponto de vista espiritual e do ponto de vista intelectual.
Claro que sim. Muito curioso, e já agora é só uma curiosidade, o Teatro Trindade, onde tu estás, agora, aliás, em mandato prolongado, com esta história de século e meio, que foi cinemia, foi teatro, mas tem este fundador que eventualmente é teu primo. Tu és o Diogo Infante, mas também és o Nuno Lacerda, se eu quiser.
Exatamente. E o Francisco Palha também era Lacerda.
O Francisco Lacerda, este fundador, também defendia coisas como tu. Há muitos pontos de coincidência.
É verdade.
Para não ser tão elitista.
Quando comecei a ler a história, achei muito curioso, porque ele também tinha sido diretor do Teatro Nacional Dona Maria II e depois saiu em conflito e sentiu necessidade de criar uma estrutura que pudesse ser mais generalista, que pudesse dar ao povo a arte e a cultura que eles mereciam. Porque há esta ideia preconceituosa de que a arte é para uma elite. E isso é uma coisa que me confrange imenso e deixa-me mesmo angustiado.
Claro que não. É muito giro porque musicais também nós não tínhamos, eu já digo que tínhamos, porque não tínhamos nada de tradição nisso e hoje em dia já começamos a ter algumas coisas, além do La Féria, estou-me a lembrar que eu gosto muito e sigo todos, o Toli Áudio, a Contracanto, também faz uns espetáculos fabulosos ali na Lapa do Lobo. O último Into the Heights, que eu fui ver, incrível. Os irmãos Feist, o Ricardo Neves Teves, o Martim Sousa Tavares. Já começa a haver uns musicais muito curiosos e a prova foi este, o Chicago, que teve três temporadas. Estas audições que vocês fizeram, chegaram a ter 400 pessoas, escolhemos 80. Como é que foi para o Sonho? Houve umas audições também muito concorridas?
Não, não houve audições desta vez.
Não? Foram convites?
Foram convites diretos. Eu já tinha um manancial de pessoas com quem tinha trabalhado noutros espetáculos e, portanto, eu sabia exatamente com quem queria trabalhar. Aliás, devo mesmo dizer que este sonho, este espetáculo, surge da vontade de trabalhar com estas pessoas.
Ah, ok, boa.
Ou porque tinha trabalhado com elas no Chicago, ou porque tinha trabalhado com elas no Amor é Tão Simples, em vários espetáculos. E, portanto, é uma espécie de uma equipa que tem vindo a congregar à minha volta e com quem gosto muito de trabalhar.
Talentosa.
Muito talentosa. E, portanto, essa vontade fez com que eu juntasse estas peças todas e foi a força motriz para levar à frente esta ideia.
Tu és fã dos clássicos e és fã concretamente de Shakespeare. Em 90 tinhas feito o Rei Lear, no ano seguinte o Sonho de Uma Noite de Verão, depois voltaste ao Teatro Nacional com o Rei Lear em 98, Romeu e Julieta, o Hamlet, o Ricardo III. Aliás, aqui citado pelo Marco Medeiros, que até tinha Billy Hayes na banda sonora, muito curioso. E 2023, então, este Sonho de Uma Noite de Verão foi quando voltou. O que Shakespeare tem de especial, diferente de muitos outros dramaturgos?
Ele, de facto, é genial na maneira como faz um retrato da natureza humana nas suas várias vertentes. Ele trata temas que à época eram extremamente populares. O teatro isabelino de Shakespeare era um teatro para o povo, eles ficavam em pé. Nós sabemos isso hoje.
Do Globe.
E portanto, há nas suas peças, para além da poesia, para além da enorme capacidade de ler o ser humano, uma capacidade de nos transpor e nos elevar a outras dimensões. E a sua obra é tão vasta e tão rica que temos tanto por onde escolher, que não há como não voltar a ele.
Ciclicamente.
Ciclicamente.
Até que um dia foste a Londres, onde vais de vez em quando. Vais com que periodicidade ver musicais?
Aliás, eu vou ver poucos musicais.
Ah, é?
Eu vou ver mais teatro.
Teatro. Puro e duro.
O normal. Vou tipo dois em dois anos.
Achava que ia todos os anos mesmo.
Quando posso, mas diria dois em dois anos.
De facto, é uma partição. Não há ida a Londres que a gente não possa ir a um teatro ou a um musical, aos Mormons ou o que for.
Porque eles têm, de facto, uma capital de produção teatral tão diversificada e de tanta qualidade. Eu às vezes vou lá para ver ou esse texto em particular, ou quero ir ver aquele ator a fazer aquele personagem, ou vou ver aquela encenação. Ainda agora fui ver a Gaivota com a Cate Blanchett no Barbican. E foi uma experiência muito marcante, até porque tenho em vista um dia poder visitar esse texto. Mas são tudo, eu acho que nós temos que ver bom teatro para nos inspirar a fazer bom teatro também.
Um dia foste ver então o Moulin Rouge lá em Londres. Tu disseste: "Que boa ideia".
É verdade, mas os direitos não estão disponíveis.
Mas gostavas de fazer cá o Moulin Rouge?
Claro que sim.
O sonho era esse.
Gostava de fazer à minha maneira, porque nós não temos teatros, infelizmente, com aquele tipo de maquinaria e equipamento que nos permitam aquelas transformações.
Eu lembro que uma vez vi, acho que em Londres, por exemplo, a Mary Poppins já há uns anos, e perguntei ao Paulo lá Ferreira: "Quando é que traz isto cá?" Ele disse: "Ó João Paulo, primeiro antes de 10 anos, tem que passar 10 anos ou 15 anos até a gente conseguir ter os direitos." E depois outros como o Tony Hall fez os Miseráveis, mas era a school edition, portanto tinha que ser miúdo até aos 18 anos. Eles autorizaram e foi uma coisa deslumbrante. Portanto, é uma questão de direitos. Um dia que isso esteja disponível, se calhar agarravas. É uma boa ideia.
Eles têm uma visão muito económica das produções e não querem outro tipo de produções que possam competir com a deles, mesmo que seja numa outra língua. E portanto, só ao fim de não sei quantos anos é que eles libertam os direitos para Portugal.
Muito bem. Moulin Rouge, então deu-te esta ideia também de usar as músicas no meio moderno, não é? Porque achavas que era um texto, apesar de ser um clássico, muito musical, que pedia estas músicas.
A maneira como eles integravam todo aquele imaginário pop naquela história passada em Paris, fez-me pensar se não seria possível fazer o mesmo em português, num outro contexto. E foi a partir daí que eu comecei a cozinhar esta ideia do Sonho, comecei a lê-lo de outra maneira, comecei a identificar os temas, os momentos que eventualmente poderiam caber uma música e que música seria e que personagem cantaria.
Ficaste um ano e tal a fazer isto. Tu dizes: "A minha família odeia-me por causa do meu carro, eu só ouvia músicas em português".
No carro e em casa, aos gritos.
E o horror, coitados.
Sim.
Mas de facto ouviram. Onde é que há aqui músicas? E temos muitas que falam de magia, de floresta, de sonho, de amor. E tens milhares.
Imensas.
Devias ter deixado fora alguns, com certeza.
Com certeza, fui editando, fui escolhendo.
E são muitas.
E depois fomos fazendo uma seleção.
Deve ter sido um trabalho duríssimo.
Em função da dramaturgia e do contexto.
Tu e o Artur gaminaram também os dois aí já a parte musical?
Claro que sim. Eu ia fazendo propostas, ele ia fazendo outras. Quando foi da música da Agatha e do Clemente, eu queria usar as duas. E eu pensei: "Não é possível fazer assim uma espécie de um confronto entre..."
Um mashup.
E ele olhou para mim e disse: "Tu sabes que o tempo musical das músicas é igual e que a gente pode fazer um medley." "Estás a brincar?" Eu disse: "Sim". E então foi assim que surgiu.
Esse diálogo é extraordinário. As músicas, de facto, colam na perfeição. Eu aqui ao vivo e a cores, Diogo, quero te agradecer publicamente, porque de facto é um momento que a pessoa passa, como tu dizes, que sai de lá diferente. É giro porque é isto que gostas que um teatro faça. As emoções, gosto que provoque nas pessoas. Adoraram, como eu adorei, riram, apetece cantar e há muita gente que canta com certeza no público. Ou então sais de lá revoltado ou zangado, mas o teatro tem que fazer isso conosco, não tem?
É isso que eu acredito. Eu acho que não podemos sair indiferentes, nem que seja de uma provocação, ou porque ficamos muito incomodados, ou porque nos tocou num nervo qualquer, ou porque simplesmente saímos felizes e bem-dispostos. Há pouco falavas do Sonho.
Do Chicago?
Não.
Do Moulin Rouge?
Do mono que eu fiz.
Do sexo.
Sexo, drogas e rock and roll. E lembro-me que um dia uma senhora, uma mulher, veio ter comigo e disse-me: "Eu queria lhe agradecer, porque eu há muitos anos fui ver o seu espetáculo e nessa noite eu e o meu marido tivemos uma chatice e aquilo estava muito tenso e fomos ver o espetáculo e saímos de lá tão bem-dispostos." Que fizemos amor e nasceu um filho que hoje chama-se Diogo.
Grande!
E eu pensei: "Uau!" É a coisa mais bonita que me disseram, porque de alguma forma aquela energia inspirou-os, por um lado, a reconciliarem-se e a produzir uma vida. Portanto, não é preciso tanto, mas eu já fico feliz quando as pessoas saem elevadas e felizes e com vontade de voltar.
Este clássico, ou quase todos os clássicos, têm esta elasticidade. Pode-se brincar e deve-se brincar com eles ou não?
Eu acho que sim, sobretudo já foram tão revisitados. Há uma espécie de uma licença para podermos ser audazes. O que seria se estivéssemos sempre a fazer uma mesma encenação de um mesmo texto? É por isso que lembro-me quando fiz na primeira temporada, uma colega tua perguntou-me se eu não receava, se eu não temia os puristas, os classicistas. E eu disse: "Confesso que não, não estou nada preocupado com eles." Porque embora possa haver alguém que se sinta ofendido de alguma falta de respeito pelo texto, eu acho que abordar um texto com uma frescura, leva-nos a olhar para o texto e redescobri-lo e sobretudo pensar que há tanta gente nova que foi ver o espetáculo e que se calhar nunca tinha visto ou nunca tinha ouvido Shakespeare. E portanto, tudo é válido desde que seja feito com dignidade, com bom gosto e com respeito.
Exatamente. E de facto, é como tu dizes, é também a mensagem, a história que passa, e o Shakespeare era muito bom nisso. A história que fica e que muitos não se lembram, e portanto, é importante revisitar, porque tragam histórias. Eu vivo de histórias, como tu uma vez disseste isso, que é muito curioso. Nesta reprise tu já não entras. Como tu dizes: "Eu sou a minha terceira escolha." Uma semana antes da estreia chegaste a ter um pequeno ataque de pânico, também desta vez. Nesta versão já não entras. Tu eras o Nicolau Miadas, eras o Tecelão, que às tantas se transforma em burro. E agora preferiste ficar: "Não, agora vou dar lugar a outro, lugar às novas."
Também. Ele não é propriamente novo.
Pois não.
Mas eu decidi não fazer, porque eu estou com um espetáculo em digressão, que é os Telhados de Vidro. E o espetáculo ainda com a Benedita Curta um pouco mais para borda. E estamos ainda em digressão. Aliás, vou agora para as Caldas e depois vou para a Madeira e depois vou para a Almada. Portanto, não era possível conciliar os dois espetáculos. E portanto, quando eu próprio coloquei em cima da mesa a reposição do espetáculo, eu fui o primeiro do elenco a dizer: "Eu não entro."
Já dei para esse peditório.
Mas este elenco renovado, temos novos quatro atores, são brilhantes, vieram acrescentar uma nova energia que também contaminou o restante elenco. E portanto, é sempre uma oportunidade para também eles se animarem e poderem desfrutar de um texto que é tão contagiante.
O que é para ti, Diogo, o sonho de uma noite de verão ou uma noite de verão de sonho? É fazer o quê?
Eu diria que é não fazer nada.
Estar no ócio puro.
É, o ócio também é muito importante, desfrutar o calor e os grilos. Não sei se os grilos ouvem-se à noite, mas ou as cigarras, e estarmos na companhia de amigos, a tomar um copo e a contar histórias. Essa é uma noite de sonho.
A propósito de sonhos, falaste agora de um ou dois. Há outros musicais que tenhas gostavas muito de pegar cá? Vais vendo e vais dizendo: "Tenho uma listinha que eu tenho, um dia quiçá."
Não muito. Não é a ideia do musical, é a ideia do texto que está na base do musical.
Então peças, nesse caso.
Peças, sim. Peças, seguramente. Eu há 10 anos encenei o Cabaré no Maria Matos e era um texto que eu não me importava de voltar a encenar. Adoro a partitura, adoro a história e o Cabaré é um texto que é fortíssimo. Adoraria revisitá-lo outra vez. Mas tenho uma série de peças na gaveta. De resto, já em junho irei anunciar a programação da próxima temporada do Trindade. E é uma temporada, quanto a mim, muito forte, no seguimento daquilo que tem sido a nossa identidade, a nossa afirmação. E quero acreditar que nos vai permitir dar continuidade a este impulso de tanto sucesso e de tanto prazer, não só para o público que nos visita, mas como para os artistas que têm vindo ao Trindade.
A propósito de temporada, já agora, aproveitando que estás aqui para falar disto, o Eutanasiador vai começar aqui a 8 de maio, até 29 de junho, de Paulo Guimarães, aqui encenado por ti, também o espaço cênico é teu. Aqui com o Sérgio Praia, que nós vimos como António Varições no cinema. Fala um bocadinho desta peça. O que é que isto fala? Isto é um serial killer?
Este é um texto que me apareceu há uns anos. Como imaginas, vêm-me parar muitos textos em cima da mesa. De resto, nós promovemos anualmente o prémio de dramaturgia Novos Textos Teatrais, que se chama Miguel Rovisco. Mas este texto apareceu-me fora de concurso e eu comecei a folheá-lo e não consegui parar de ler, o que é logo um bom sinal. E fiquei muito impressionado com a escrita, com a fluência, com a pertinência. O título já indicia: eutanasiador é alguém que ajuda a eutanásia ou a eutanasiar. Mas é sobretudo uma enorme provocação numa altura em que há uma lei que ainda está a gerar muita polêmica, é fraturante, ainda não foi sequer votada. E o texto, achei que era a altura de o fazer. E o Sérgio Praia tem sido um ator absolutamente incrível. Ele também se apaixonou por este personagem, que é um sociopata, mas com Com uma inquietação, porque como muitos sociopatas, parece um de nós. E é alguém que embora possa parecer não ter nenhuma moral, tem. Ele tem princípios e, sobretudo, ele criou, segundo ele, no atual contexto, na nossa atual sociedade, uma oportunidade de trabalho. Portanto, ele não só facilita e ajuda as pessoas que querem morrer de uma determinada maneira, como ganha algum dinheiro com isso. Claro que o faz à margem da lei. Mas é toda uma circunstância de histórias que ele nos vai relatando.
É um interrogatório.
É um interrogatório. São desconcertantes, porque estamos a falar de situações que são limite, mas ao mesmo tempo nos levam a pensar o que faríamos ou como nos posicionaríamos se fôssemos nós.
Impressionante, porque no fundo fala-se do direito à escolha, da dignidade da morte, do peso da culpa e é engraçado. Eu estou muito curioso, mais sabendo que a Paula Guimarães, que também é de Direito, é jurista, mas que é especialista em literatura infantil, ganhou prêmios, banda desenhada, contos e contista. É muito curioso. Portanto, de facto, estou curioso com este "Eutanasiador", que vai ser de 8 de maio a 29 de junho, aqui na sala estúdio do Teatro da Trindade, a não perder. Apósito de eutanásias e mortes, tu és uma pessoa religiosa, Diogo? Tens alguma relação com o transcendente ou com Deus?
Eu diria que sou uma pessoa espiritual, não sou propriamente religioso. Tenho fé na nossa capacidade de mudar o mundo, tenho fé nas pessoas e tenho um lado que é espiritual, porque sou sensível às energias, sou sensível a coisas que não conheço, mas isso não faz de mim necessariamente um crente. Mas tenho um enorme respeito por essas diferenças todas. Acho que o importante é cada um de nós encontrar um espaço onde se consiga apaziguar, onde se consiga serenar, onde consiga encontrar tranquilidade e, sobretudo, encontrar a motivação para abraçar a vida com todos os desafios que ela nos coloca.
Sobretudo com amor, que é uma coisa que te fez muito.
E com muito amor.
Porque esta também é a mensagem deste sonho, é a última música. Amar é que é preciso. Ainda continuas a dizer ao Filipe todos os dias que o amas?
Todos. Todos os dias e ele devolve-me e é uma prática que nunca é vazia, nunca é oca, é sempre cheia de sentimento e é um calorzinho tão bom que eu recebo e dou. E tento promover isso nas relações que tenho com os meus amigos, com os meus colegas, porque acho que com amor tudo é mais fácil. E pode-se dizer coisas duras com amor. Mas acho que quando retiramos esse elemento das nossas vidas, então a vida deixa de fazer sentido.
Exatamente. Muito bem, Diogo Infante, quero agradecer muito a tua disponibilidade. Ficou aqui mais esta conversa fantástica. Mais uma vez agradeço publicamente todos os bons sentimentos e todas as boas emoções que senti ao ver as tuas peças. Para si que nos ouve, já sabe, o "Sonho de uma Noite de Verão", na sala Carmen Dolores, Teatro Trindade, Inatel, de quarta a sábado às 21:00, domingo às 16:30, até 6 de julho. Fica esta nova data. Não perca, se viu, vá ver outra vez, se ainda não viu, o que é que está à espera? Aproveitamos então e marcamos encontro numa próxima, quando se calhar para lançar a nova temporada. Bem-hajas, Diogo.
Quer sempre, obrigado.
Obrigado.