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Quando tu és interrompido por uma notificação qualquer das redes sociais, isto custa ao cérebro humano 25 minutos para voltar a recuperar a produtividade anterior.

A que estava antes da notificação.

A que estava antes.

É talvez o maior mistério da humanidade contemporânea. Por que dizemos: "Vou só ver uma coisa no telemóvel" e passamos 47 minutos a ver vídeos de gatinhos e de pessoas a cair no gelo ou a arrumar frigoríficos? O que perdemos quando nos perdemos num ecrã? Será que ainda há vida para além dos ecrãs? Até ao fim do mês, no Café Teatro da Comuna, Maria Clementina e Miguel Lambertini desdobram-se em personagens em "Ecrã Total", uma comédia sarcástica e surpreendente sobre as nossas vidas hiperconectadas, a ditadura dos smartphones e do digital, e as relações humanas em modo multitasking. No fundo, uma espécie de terapia de grupo, mas com gargalhadas. Olá, Clementina. Olá, Miguel. Bem-hajam por terem aceitado este meu convite. Bem-vindos à Rádio Observador.

Muito obrigada, João Paulo.

Tu é um regresso.

É um regresso, é um grande regresso.

Tu já estás há um ano e meio. O "Não Disfarces", mesmo assim, no Vilaré, faz um ano e meio, é impressionante.

Faz um ano e meio, sim.

Como o tempo passa.

Quase um ano e meio. Viemos em maio aqui, talvez. Abril, maio, é um ano e meio.

Eu gosto imenso dos vossos nomes, apesar de eu te chamar de Cléme, mas eu gosto imenso do teu Clementina, porque Clementina e Lambertini é o nome de uma série: Clementina e Lambertini vão ao circo. Eu estou a ver numa série do Estúdio Anitta.

É o Tina e Tina.

Vão à praia.

Sim, ou uma loja de doces também dá.

A Maria Clementina já é nossa conhecida, esteve cá há um ano e meio. Ela que nasceu em Paris e passou por Londres, por Roma, pela Austrália e por todo lado e mais algum. E que tens quatro filhos.

Quatro filhos, sim.

Os adolescentes de 14 anos.

Exatamente. Agora já tem 15, 13, nove e cinco.

E a Vera tem cinco.

A Vera tem cinco.

A Vera é aquela que nós falámos da outra vez, que acompanha esta metodologia norte-americana de aceleração neurológica, este método Dolman.

Sim.

Porque nasceu com uma-

Uma malformação cerebral

No cerebelo, não é?

No cerebelo, sim. Uma malformação da envoltura.

E quando toda a gente deu os prognósticos: "Coitadinha, vai ser muito limitada". No entanto, com estes novos métodos e também com os pais e uns genes maravilhosos que tem, ela suplantou todas as expectativas de toda a gente. É extraordinário.

Sim, é verdade. Neste momento, já não estamos a aplicar o método com ela. Foi durante os primeiros dois anos, exclusivamente.

Porque eu lembro que eram as letras.

Foi até aos três anos de idade. Sendo que o último ano já foi um "face out", em que ela também já estava a frequentar uma creche Montessori, que também é superestimulante.

Foi também onde eu frequentei.

Aqui em Ovar, aliás, espetacular.

Que giro, boa.

Os primeiros três anos foram cruciais e foi aí que implementei em casa com ela um programa, que é baseado num método, que é o método Dolman, de origem norte-americana. Não vamos saber nunca qual é o mérito desse método versus tudo o resto.

Naturalmente, a neuroplasticidade.

Se não tivéssemos aplicado o método, como é que teria sido? Nunca vamos saber.

Mas mais vale ter uma ferramenta que deu prova.

É verdade, mas o que é facto é que ela está-

A evoluir lindamente

Ela teve um desenvolvimento neurológico 100% normal.

A falar e tudo, cognitivamente notas.

Sim, nunca apresentou nenhum atraso, em nenhuma área, nem cognitiva, nem motora.

Agora vai aprender a ler e a escrever.

Sim, já está. Ela já reconhece imensas palavras, escreve várias palavras, faz contas de matemática.

Eu gosto dessas coisas que suplantam, e os pais lutam. Tive também cá um casal há pouco tempo com isso. Eles é pior, porque eles é uma coisa neurodegenerativa diferente com o filho. Tem cinco ou seis anos e não reconhece os pais. Há coisas que não sabem como ensinar a dar um beijo, como ensinar a dar um abraço. É diferente, é uma coisa muito mais fechada, muito mais complicada. Mas de facto, há 10 doentes no mundo, aquelas doenças raríssimas. E ela, porque eu conheço por causa da tua tia, tem acompanhado esta evolução e é extraordinário.

Sim, é mesmo um caso de sucesso.

É ótimo isso. Muito do vosso amor também conta muito para esta coisa, eu acho sempre.

Eu também acredito nisso.

Há uma pessoa, o Bruno, que quis fazer um documentário sobre a evolução dela. Vocês sempre sonharam e prepararam tudo.

Nós temos a documentação toda, de filmagens profissionais.

Precisam de angariar fundos.

Precisamos de angariar financiamento, porque temos um guião escrito, temos todo um projeto preparado, uma produtora, um realizador. E temos tentado candidatar-nos a várias linhas, mas sim, havemos de conseguir.

Muito bem, a tua parte do teatro já falámos, de vocês dois. Curiosamente, conheceram-se na faculdade, na Católica.

Exatamente.

Porque vocês são licenciados em Comunicação Social e Cultural.

E Cultural.

E Cultural.

Hoje em dia, já não se chama assim o curso. Como é que se chama, hoje em dia?

Agora estamos a aplicar.

Não sei, é uma belíssima pergunta, João, mas se calhar ainda é Comunicação Social e Cultural, tem é mais vertentes, que no nosso tempo não havia, por exemplo-

Havia a vertente digital

Tinha acabado de começar, sim, mas agora já há mais uma ou duas.

Ainda bem, bom. Vocês entraram o quê? Em 1999?

1999.

Exatamente. Ainda no século passado.

Exato.

Parece que não somos superantigos.

Não, eu andei na escola com o Ás como aquele tambor. Tu também, entretanto, escreveste uns livros, tens dois livros infantis que estão no plano nacional de leitura.

Sim. Já foi noutra vida, mas sim.

Atriz, dubladora, copywriter. Este podcast, tu tiveste o "Não Disfarces", que depois deu origem à peça.

À peça de teatro, que tivemos no Vilaré.

Cinema, também entraste com o David Bonneville no "Uma Noite de São João".

É verdade, ainda não estreou.

Ainda não.

Ainda não estreou essa curta.

E depois tens o teu carrossel. Fala no teu carrossel em 12 segundos.

É um segundo single que eu lancei. Lancei um primeiro no âmbito até do "Não Disfarces", que apresentei no espetáculo ao vivo. E depois o meu carrossel.

Gravaste mesmo num estúdio, uma música tua.

Gravei num estúdio, sim.

Compuseste letra e música tua?

Sim, letra e música minha e gosto bastante dela, mas foi uma coisa que eu escrevi de rajada.

É muito boa, é muito bonita.

Foi assim um ataque que eu tive e pensei: "Tenho que escrever isto". E foi assim muito rápido.

É engraçado isso, teres esses ataques de criatividade.

De vez em quando tenho um ataque e tenho que escrever. E assim fica, não é com qualquer estratégia por trás. Mas sim, gostava muito que as pessoas pudessem ouvi-la.

E até porque é complicado quando é independente, um independente fazer isto.

É verdade.

Como esta peça também, não é?

Precisamente.

Quando você não tem o peso de uma grande máquina por trás, um teatro aberto, um lugar assim, é diferente. Quando são independentes, é que têm de lutar por um lugar ao sol e por isso é que é importante estas divulgações e que nunca parem.

Sim, sobretudo uma música isolada, quando não se é um músico, é mais difícil que ela vingue, mas sim, espero que possa ser partilhada, está disponível em todas as plataformas.

E muito em breve estará acompanhada de mais três músicas.

Exatamente, fala-se sobre isso, Miguel. Esta peça, Miguel, o "Ecrã Total" tem-

Tem três momentos musicais.

Vocês fizeram-me rir muito, eu gostei muito da vossa peça. Ri-me.

Obrigado, ficamos contentes.

Fiquei com o filho que riu às lágrimas. Ele é psicólogo, ele gostou dessa parte também. Ele percebeu e achou muita piada este alerta que vocês fazem contra a dependência das redes sociais e os telemóveis, é muito importante. Mas tem, de facto, uns momentos até para fazer rir. À Bollywood, claro, até ao fim.

Sim, um dos temas é exatamente de estilo Bollywood. Outro é mais género musical, e o primeiro é um género de pop.

Mas que um dia a ideia é gravar se calhar num estúdio.

Não, gravámos.

Já gravámos.

Já?

E por isso é que eu estava a dizer, em breve estará no Spotify e noutras plataformas.

Pensámos que era um desperdício não ter isto no ar. Até partilhar com as pessoas, com o público que viu e mesmo quem não viu, não sabemos.

Até porque estas músicas têm a ver com a mensagem que vocês estão a passar no "Ecrã Total". Portanto, é uma coisa que fica. A peça é de 29 de novembro, acaba a peça, digamos, antes de começarem a digressão mundial.

Mundialíssima, universal.

Mas a música é uma coisa que fica e portanto se impõe prolongar no tempo.

Queremos registar isso.

Muito bem, tu é que és estrear aqui, Miguel Lambertini, bem-vindo.

Muito obrigado.

Tens 1,82 m e com um bocadinho de sorte chegarás.

Sim, se Deus quiser. Com trabalho, vou chegar aos dois metros, um dia.

Espero que sim.

É a minha ambição.

O que é que tu és ao Palacete Lambertini, na Avenida Liberdade? Era teu avô, tio-avô?

Era meu teresa avô.

Trisavô?

Sim, Michelangelo Lambertini.

Michelangelo Lambertini. Extraordinário, era um homem maravilhoso. Eu conheço uma tiinha que morou lá. Terá que ser família? Joana Ferreira da Costa, não interessa?

Sim, é minha tia.

Então pronto. Ela disse que me viu em conversa há muitos anos, que ela passava férias conosco em Ferradoso.

A Joana é capaz de ter vivido lá.

E que disse: "Olha, eu já morei naquela casa". E eu assim: "Tá bom". A casa é linda, é uma menção honrosa do Prêmio Valmor, mosaicos venezianos, estilo lombardes, muito bonito. Fez pelo Nicola Bigaglia, que fez coisas maravilhosas por Portugal inteiro.

Por acaso acabei por nunca ir lá.

Nunca passaste lá dentro?

Não.

Hoje em dia deve ser uma empresa.

Era uma empresa, mas vai mudando.

Engraçado, eu acho que ele é muito bébio. Tens que pedir uma visita guiada a esse edifício. É bonito, vale a pena e foi um prêmio.

Já vi fotografias.

Tem graça que foi menção ao Prêmio Valmor, que é os melhores edifícios mais bonitos da Câmara de Lisboa, em 1904. E o dono ficou furioso, e o arquiteto ficou furioso.

Eu queria ter ganho o prêmio.

Claro, e nesse ano não atribuíram a ninguém. Disseram: "Não há nada assim de qualidade, mas vamos dar uma menção honrosa a este", por exemplo, que era o teu trisavô. Que, aliás, é muito bonito. Engraçado, falando dele já agora, homonágio ao Michelangelo Lambertini, pianista, o homem dos sete instrumentos, chamavam-no o homem dos sete instrumentos. Era pianista, era maestro, organizava eventos, professor de canto coral, tinha uma revista de arte musical, vendia instrumentos musicais.

Um dos grandes responsáveis pela coleção do Museu da Música.

Exatamente, aquilo era o sonho dele. Ainda juntou 500 instrumentos. Incrível, um homem extraordinário. E há o Largo Lambertini, ali no Lumiar, também.

Exatamente.

Tens um passado extraordinário, mas tens uma mãe pintora também.

Também.

As artes não te saem.

Sim, de certa maneira, esse ADN passou, de alguma forma.

Gosto muito. E tens três filhos?

Tenho três filhos.

Todos juntos. Se correr mal estas obras, fico com sete órfãos nesta. Com os meus nove. Muito bem. Tu andaste nos Ternatos da Luz.

Sim.

Que é de franciscanos.

É exatamente.

O que ficou desta educação católica? Vem de casa ou foi daí também?

Muito daí também, sim.

Porque foi a primeira vez que pisaste um palco, por exemplo.

Foi, eles tinham um auditório e acho que hoje em dia ainda têm.

E ficaste fascinado.

E promoviam muito isso. Sim, promoviam muito a questão do teatro e das peças, desde a infantil.

E a parte de imitador também. O Frei Albertino foi a tua vítima também.

O João sabe muitas coisas.

Porque tu tinhas cinco anos e já fazias rir.

O João Paulo é um investigador exímio. Eu também fiquei impressionada.

O Frei Albertino foi uma das minhas primeiras imitações.

Tinhas apenas cinco anos, como é que é possível?

Tinha cinco, seis anos, mas fascinava-me imenso a forma como ele cantava o "Paz e Bem", que era o hino de São Francisco e também dos Ternatus. E foi aí que eu comecei a minha carreira, entre aspas, de imitador.

É giro, porque tu tens essa história incrível. Foste para política e vereações, assessor de vereadores nas câmaras, junto com o frigir de carnide.

Exatamente. Três mandatos na Assembleia de Freguesia.

E como o curso que tinhas, de comunicação, assessor extraordinário. Pois é alto, eras o único farol daquela conferência de imprensa que ia tudo.

Exatamente.

Mas depois, houve o momento em que mudaste completamente de vida. Porque tinhas este sonho, eu falei nos franciscanos, porque vem daí o palco e as imitações. Já eras muito talentoso, eras o palhacinho da turma.

Era, sim. Era aquele clássico. Mas é verdade.

Eras muito alto em relação aos teus colegas, em pequenino.

Sim, já era um bocadinho mais alto. Na altura os miúdos não eram tão altos e portanto diferenciava um bocadinho.

Porque tu tinhas uma timidez crônica, sempre tiveste.

Sim.

Foi uma luta também contra isso.

Sou bastante tímido, é verdade. Mas tinha esse chamamento do palco e se calhar também essa timidez fez-me afastar um bocadinho e pensar que podia ser, se calhar, uma vida por aí.

Isso seguiu a tua carreira mais institucional.

Exatamente.

Com os pais muito contentes.

Claro, exatamente. Curso na Católica.

Exato.

Depois a pessoa fez o curso e pensa: "Faz sentido, agora tenho que trabalhar nesta área, vou seguir o meu caminho". E assim foi, até que um dia disse para mim mesmo: "Não, não faz sentido. Vou fazer aquilo que eu sempre quis".

Eu lembro-me sempre aquilo que me contaste, muito giro, esta questão do assististe a tudo que há sobre desenvolvimento.

Sim, vi muitas coisas.

Pronto, e havia aquela coisa curiosa daquele americano que vocês acreditam que quando a gente nasce, antes de nascer, devia estar numa fila.

Exatamente.

Só vai nascer quem escrever num papel.

Sim, só tem direito a nascer quem escrever num papel aquilo que efetivamente pretende fazer na vida e que é mesmo o seu motto.

Ser genuíno, ser verdadeiro.

Exatamente.

Este Nicholas Boothman.

Nicholas Boothman. Foi uma conferência que eu fui, curiosamente, com a minha ex-chefe, com a Rita Nabeiro.

Tu estavas, na altura, no grupo Nabeiro.

Estava no grupo Nabeiro.

Comunicação.

Exatamente. E ela convidou-me e fomos os dois. Eu nessa altura talvez já tivesse uma sementinha a pensar: "Se calhar tenho mesmo que mudar a minha vida". E curiosamente, depois, um ano mais tarde, ela foi a primeira pessoa quem, depois da minha mulher e dos meus pais.

Porque te quiseste despedir e despediste-te, acabaste dessa carreira.

Exatamente. E ela foi a primeira pessoa quem eu informei, me deu uma imensa coragem também.

Grande família também.

É verdade.

Exatamente. E isto é muito giro. Tu, há oito anos, mudaste o teu rumo profissional, tu decidiste tornar-te CEO do teu projeto pessoal. E o teu projeto pessoal passa por impactar positivamente, pelo humor, as pessoas.

É, exatamente.

O que é extraordinário, porque tu fazes isso com uma mensagem por trás, o que é muito giro. Mudar as pessoas para melhor. Há tipos de humor que eu fujo, há outros que eu agarro. No caso desta peça é grande total, é extraordinário. Enquadra-se imenso. Ainda bem que foi muito bem apanhado, Clementina, o Miguel nisso, porque é a cara dele.

É.

Sim, de certa maneira. Por acaso é um comentário que muita gente diz: "Isto é mesmo aquilo que tu..."

Mas é o que tu vias fazer sempre.

Pois, exatamente. Mas lá está, às vezes não é fácil e para quem, de certa maneira, já estou a fazer isso há algum tempo, mas para quem está a começar também, para quem não tem uma carreira de 10 anos, de 15 anos, temos que gerar estas oportunidades. E é um bocadinho isso que estamos a fazer.

Adoro isso. Só este bocadinho para trás, quando tu mudaste para a escola pública, depois de vir dos colégios e disseste: "Era como ir para a guerra", disseste isso. Era como ir para a guerra, fui para a escola pública, vindo de um colégio menino, e permitiu-me passar a ser colega dos mitras, que antes me assaltavam à porta do colégio.

Exatamente.

Mas acabei por fazer grandes amizades e ainda consegui recuperar um par de tênis Reebok.

É verdade. Foi muitíssimo bem.

Compraste?

Recuperei, depois ficamos amigos. Eu disse: "Eu acho que estes tênis..." "Não é ok". "Então toma, leva".

Recupera aí os termos. Muito bem. Teatro e música, fizeste uma série de coisas, marketing e comunicação onde tu estavas, mudaste de vida então. Tinhas 33 anos, por aí. A idade que o Jesus fez. Mas acontecia um facto que era: estavas muito bem posicionado ali no mercado de trabalho, no Grupo Nabeiro, e eras casado, e ia nascer o primeiro filho.

Foi.

Portanto, tudo indicado para não deixares de estar onde estás.

Completamente.

O Francisco ia nascer naquela altura.

O Francisco estava quase a nascer, sim. De certa maneira foram duas circunstâncias muito fortes que até estão interligadas.

Uma positiva e uma negativa.

Uma positiva e uma negativa, exatamente, que foi a morte de um grande amigo meu, também nosso colega na Católica, com quem eu tinha uma relação muito forte e com quem também fazia muitos planos e criação mais artística. Nós criamos séries de televisão, criamos coisas, mas depois como nenhum de nós se dedicava 100% a isto-

Estavam nas carreiras paralelas.

Exatamente. E essas coisas acabavam por ficar sempre...

Na nuvem, como eu chamo, na nuvem platônica.

Exatamente. E um dia que eu soube, de facto, da notícia dele, que foi ainda por cima uma morte parva.

As pedras no rim, uma coisa complicada. Hepatician, mesmo e coisa?

Sim. E ele era uma pessoa com um talento brutal e foi um bocadinho um oleiro de olhos.

Exatamente. Alertou-te um bocadinho e sabias que ele tinha aquele sonho, que a carreira, se calhar, era outra. E pensaste: "Eu não vou morrer sem dar outra vida."

Essencialmente foi isso.

O pai queria ser outra coisa, desculpe.

Pois, exatamente. E pensei isso também quando o meu filho depois nasceu, penso: "Eu quero passar também valores importantes, de autoconfiança, de coragem."

E ser genuíno, seres tu próprio.

Ser genuíno, fazer aquilo que realmente se gosta e depois com o cara que eu também vou olhar pra ele daqui uns anos.

Já que não tinha controle sobre a morte, pelo menos ia ter total controle sobre a forma como vou viver a minha vida.

Exatamente. Foi isso que fiz.

Foi um exemplo tão giro.

É, claro que as pessoas normalmente dizem: "Parabéns, grande coragem". A minha mulher chamou-lhe inconsciência na altura.

Teus pais já te falam? Teu pai, ainda.

Não, felizmente. A minha mãe ainda me apoia.

A minha mãe já morreu, também já está no céu. Mas que dizia: "Ô filho, mas tens noção que vai ser um febril?"

Exatamente.

Isso vai ficar ao humor.

Pois, da boca deles saíram realmente palavras de encorajamento.

As coisas hoje estão um bocadinho diferentes. Já ganharam processos em tribunais.

Exatamente, extraordinário.

Já não é o que era há oito anos.

Sim.

Têm já grandes referências. Aliás, estagiaste com o Bruno José, não é? Com o Arantes e não sei quê.

Estagiei, sim.

É fantástico.

Isso foi ótimo. Foi um estágio em produção, ou seja, estava perto deles, mas a fazer uma coisa completamente-

Foi o fim da escravatura.

Exatamente.

Também é forçou, tens gente para ensinar. No teatro, finais, eu lembro disso. Na televisão, trabalhaste com a Esperança. A Esperança é ótima, não vai morrer. O César Mourão é extraordinário.

Sim.

E és da casa da NIT também, continuas na NIT com NIT TV, na NIT Rádio também, tiveste um alto-falante.

Digamos que é a minha casa. Me sinto muito bem e com eles vou sempre fazendo diferentes projetos.

Clementina, tu cozinhas bem?

Não.

Nada especial?

Até tenho jeito, sou criativa nas ideias pra cozinhar. Mas não sou uma executante do dia a dia. Depende.

E ele? Porque é um dos teus hobbies.

É, mas nunca cozinhei pra ti, Maria. Qualquer dia temos que combinar.

Mas é um dos teus hobbies, cozinhar? Não é o teu todo hobby. Eu acho que até depois cozinho bem, tenho alguma sensibilidade, mas não é uma coisa que adoro, não tenho imenso prazer em cozinhar.

Qual é a comida que tu gostas, que relaxa-me imenso?

Eu gosto muito de fazer arrozes.

Também eu. Engraçado.

Sou assim, essas coisinhas assim.

Eu devo a minha razão de ser à minha mulher, que Deus tem também. Não tinha jeito de fazer arroz, coitada, e então eu aprendi a fazer arroz muito bem. Depois fazer arroz bom diz fácil, mas aprendi. Só o arroz. Dizia ela: "Não fazes arroz." Eu faço os bifes, as coisas.

Pois. Não, eu gosto muito de coisas de tacho.

De facto, ela acabava o arroz e nós acabávamos um bocado a obra que era preciso acabar. O arroz era sempre Unidos Venceremos, uma marca que já não existe.

A minha mãe falava nele muitas vezes.

"É que vais fazer o teu arroz ou ficamos por aqui?"

Exato.

E então eu aprendi a fazer bem, mas arroz é arroz, nunca dizem moqueca.

Não, gosto de coisas assim de tacho, um arrozinho de frango.

Comida confortável.

Sim, coisinhas assim desse gênero, os guisados também gosto muito.

E piano também tocas, porque tu és músico, não és autorizado.

Toco mal, mas aprendi quando era pequeno, tive aulas e depois fui por mim e vou tocando muito do ouvido, entretendo-me assim. Meu filho hoje em dia já toca muito melhor que eu.

A sério?

Sim, o teu filho é encantador.

Que idade tem?

Tem 10.

E já toca melhor que tu?

Toca.

Como é que ele se chama? António Mozart?

Francisco.

Francisco Mozart. É claro, total, a vida atrás das aps, portanto, de fato até ao fim. Eu digo sempre até ao fim do mês, mas não é bem até ao fim do mês, é até dia 29, não é?

29.

Não tem dia, não é por quê?

Se calhar até pode ser.

Dia 30 é um domingo. Pois, porque está de quartas a sábados.

Está bem.

29 é um sábado. Por acaso, agora estamos a equacionar fazer uma data extra.

Uma matinée aos domingos é que devia ser, como todos os teatros.

Lá aos domingos. Não, isso até seria possível.

Por causa dos miúdos mais novos.

Mas estamos a pensar, vamos ver, se calhar na semana seguinte mais uma data, vamos ver. Talvez, mas pra anunciar em breve.

Então esta ideia vem um bocadinho de onde, Miguel e Clementina? Vem um bocadinho de vocês e da vossa experiência?

Sim, partiu da nossa própria observação, da nossa própria experiência enquanto utilizadores de telemóveis.

Já está planeado há um ano.

Está. Nós começamos a pensar nisto em junho. Olha, logo a seguir a eu ter estreado o "Não Disfarces" no Vilarê, e o Miguel até foste à estreia. E ficaste com imensa vontade.

Para já fiquei super rendido à atriz Maria Clementina.

Não, mas despertou-te ali: "Ai, também quero voltar a fazer isto." Não foi? Tu já tinhas feito uma peça.

Estavas no palco e viste lá aquela cabeça lá ao fundo.

Foi, precisamente, vi a cabeça do Miguel.

Mas ficaste com esse bichinho.

Fui ter com a Maria e disse: "Bora, temos que fazer qualquer coisa." Mas não fazíamos a mínima ideia o quê. Sabíamos que tínhamos que fazer uma peça, sabíamos que era comédia, mas sobre o quê não sabíamos. E de repente, nesse brainstorming, começamos a ser bombardeados com as nossas notificações digitais constantes. A Maria com os redes.

Exato, um código multibank pra ir ao Assaí.

Exatamente.

Coisas desse gênero.

Etcétera. E percebemos aí que era a nossa temática e que tínhamos que agarrar nisso. E depois foi começar a escrever.

A sinopse desta peça nos diz: "O Mário e a Ana estão casados há 15 anos, mas a rotina e os ecrãs separam-nos para mundos diferentes. Enquanto esperam por uma consulta de terapia de casal, os telefones começam a vibrar, literalmente. Ele esconde um amante e um grave diagnóstico de saúde. Ela mantém um flerte virtual com um tal Carlos P. que está prestes a sair do chat pra vida real. E tudo escondem um ao outro e tal, até a verdade implodir e tudo isto se resolver." Mas vivemos, de facto, entre notificações, likes e mensagens instantâneas. É impressionante.

É impressionante. E eu acho que a nossa produtividade está constantemente a ser ameaçada, porque eu vejo isso e penso: "Bem, agora tenho duas horas em que vou fazer isto." E nunca consigo cumprir, porque depois entra isto, entra aquilo, há sempre um imprevisto, depois entra o telefonema.

Exatamente.

Eu sinto isso.

Tens de pôr a coisa no completo silêncio e longe de ti, mas as pessoas ficam furiosas que tu não viste, não atendeste e não respondeste logo.

Porque se nós damos resposta aos grupos de WhatsApp, são tantas as solicitações, é uma anarquia total em que vivemos.

Da distração. E tudo muito superficial.

E sabes que isto até tem um nome. Por acaso eu sei: tecnoferência. É a interferência. Tecnoferência é o nome científico atribuído a isto, que tem a ver com uma interferência no nosso dia a dia, na experiência humana, devido ao aparelho.

Porque não é um aparelho qualquer. Antigamente, quando era para fazer chamada, um Nokia 331, só quando precisávamos de ligar. Agora vais ver o e-mail, vais ver os Instagrams, os TikToks, vais ver tudo mais alguma coisa. Por isso é muito diferente.

Há muitas pessoas a adotarem exatamente esses modelos antigos para conseguirem fazer um pouco o seu detox.

O seu detox. Engraçado.

E por acaso uma outra news também que a Fundação para a Ciência e Tecnologia fez um estudo e segundo o estudo, uma em cada 100 pessoas já assume que tem dependência digital. Parece pouco.

Não, é muito. Dez milhões são para aí 10 mil.

E outra coisa engraçada sobre isso, que eu não tinha noção, que é quando tu és interrompido por uma notificação qualquer das redes sociais, isto custa ao cérebro humano 25 minutos para voltar a recuperar a produtividade anterior.

A que estava antes de receber a notificação.

É impressionante, 25 minutos.

Li uma coisa a falar nisso, exatamente por causa desta peça, da vossa peça, e é exatamente isso. É assustador.

Pois é.

O teu cérebro interrompe, os neurónios param naqueles segundos, ficam ocupados com outra coisa que pode não interessar tanto. Às vezes pode ser grave, uma coisa de um filho, também tenho sempre toque especial se for um filho meu. É diferente, mas não é toda hora. E de facto a pessoa quebra ali o fio do pensamento.

Mas claro, também traz coisas ótimas. Tantas coisas que nós resolvemos por causa de existir internet, coisas à distância que consegues resolver, etc.

Vocês fazem isso, mesmo na peça vocês fazem isso. Não vamos viabilizar.

Não, não vamos viabilizar.

De facto é importante, mas como tudo, a tecnologia toda. A coisa deve ser bem usada e então é tudo bom. Energia atómica é ótima, mas bombas atómicas não. Mas fez imensa falta e faz para energia, para coisas no mundo. Hoje em dia já é limpa. Agora, de facto, é uma tecnologia que tem que se usar com cabeça.

Nós no fundo é isso, levamos para o lado do absurdo, do ridículo e do cômico estas situações, estas constantes solicitações e interferências, criando aqui até quase mini sketches dentro da plot central. E é por isso que depois acabamos por nos desdobrar noutras personagens, além da Ana e do Mário.

Como é que faz a homenagem aos teus disfarces? Ou não disfarces, e tens lá a Paula.

Há uns cheirinhos de não disfarces. É a Paula Carinho, temos Mel Morango, temos Felizmina. O que temos mais? Temos estas.

Trouxeste lá da outra peça, está muito giro.

Ai, Aura Sereno, aquela do vídeo viral, do vegetal de poder.

Amei a questão da vossa solução com as cabeças.

Isso é um exemplo interessante da importância.

Vocês fazem de repente os pais dos colegas do teu filho.

Ah, sim, dos capaline, exatamente. E depois também dos fatos que também colocamos com velcro, e que foi uma solução que conseguimos precisamente criar com inteligência artificial e que sem ela dificilmente conseguiríamos ter.

Foi mesmo.

Fomos para o Gemini, para o ChatGPT, e pedimos para ele desenhar aquelas personagens que nós tínhamos, as roupas das personagens que íamos imaginar.

Neste caso são pais do grupo de WhatsApp, sim, exatamente.

Podia ser o que fosse, e as outras também.

Depois é o grupo de família, temos o grupo dos grunhos da bola, os grunhos da SLB. E essa ideia é do Hugo Franco.

O vosso encenador, tem que se pôr de joelhos.

Espetacular também a forma como aquilo que estava no papel, as ideias que depois tiveram de como reproduzir isto em palco.

Concretizar.

Faz toda a diferença.

Um beijinho ao Hugo.

E merece, é merecido.

E é também um teatro, uma peça muito física. Vocês não ficam cansadíssimos no fim?

Ficamos. Mas eu acho que já nos estamos a habituar.

É muito dinâmico, tem danças, tem coisas, andanças, correria.

Eu nos ensaios ficava cansadíssima, Miguel.

Nos ensaios era mais duro, porque não estávamos ainda com o ritmo no corpo. Agora já está com o chip daquela peça.

É impressionante como já estamos mais oleados. Mas sabes que houve uma amiga minha que foi ver agora há uns dias e dizia: "Maria, eu estava cansadíssima a ver a peça, a tentar acompanhar." Mas a conclusão que eu cheguei foi: mas isto é realmente o que acontece numa hora e meia na minha vida. Entra isto, entra aquilo, entra aqueloutra. E ela fiquei com esta reflexão e é muito giro chegar a esta conclusão. Giro e interessante, curioso e barra assustador.

Mas o objetivo é um bocadinho esse. O ritmo foi também para ser exemplificado.

É frenético de propósito. Foi giro escrever isto, construir isto?

Foi.

Foi muito divertido.

Nós rimo-nos tanto.

Rimo-nos bastante. E foi uma coisa que acabou por ser muito natural.

Foi saindo organicamente.

Sessões e sessões.

Nós rimo-nos muito a escrever isto. E ainda me lembro de nós também a inventarmos a melodia para o Bollywood. Estou a ver estas imagens, foi muito giro o processo.

Como é que acham que isto afeta diferentemente as gerações? Muito crianças, muitos jovens. Com as crianças vocês têm cuidado.

Mas estás a falar do fenómeno dos telemóveis, não a peça em si. Porque a peça eu acho que só mais a partir da adolescência é que percebem mais.

Identificam-se mais. Mas estou a dizer, no que vocês veem e do que vocês conhecem, não são psicólogos, mas vocês acham que crianças, jovens e depois mais adultos afeta de maneira muito diferente o telemóvel?

Eu acho que sim, até porque também o cérebro das crianças está em total formação, versus o nosso, por isso eles são muito mais permeáveis às ameaças que isto traz, mesmo a nível de vícios e de adição Do que nós, que somos pessoas que ainda por cima viemos de um mundo analógico e por isso temos muito mais capacidade de autocontrole e também quase até um certo saudosismo de como era a vida antes dos telemóveis.

Eles já são nativos. Aquilo para eles já é uma coisa totalmente-

Mas desde muito novinhos, não já com sete anos: "Oh, pai, deixa a gente fazer que a gente é mais rápido."

Pois.

Sem olhar para o telemóvel.

Não têm telemóvel ainda.

Certina são novinhos.

São, mas têm 10. Já me pergunta quando é que poderá ter telemóvel.

Depois a escola também não ajuda, porque os miúdos já têm muito mais cedo.

Não, mas por acaso ele ali no colégio não tem. Não podem ter.

Mas eu até faço a menção a uma associação. Desculpa, mas fala sobre o teu filho. A propósito das crianças e dos jovens, é a Associação Mirabilis, que aliás já houve pessoas da associação que foram assistir à nossa peça.

Que está ligada à tua peça também, não está?

Sim, são nossos parceiros institucionais. E eles também trabalham com várias empresas e até com a MEO, no sentido de dar informação e informação às famílias, às comunidades, às escolas, no sentido de como utilizar o telemóvel de forma mais correta e mais equilibrada. E isto baseado em estudos científicos, é isso que eles fazem, eles fazem investigação científica também.

Se os senhores forem à net podem procurar Mirabilis.

Mirabilis.

Pronto, já está bem. Eu contrato-os.

O impacto dos smartphones, mesmo ao nível neurológico das crianças e jovens. Fazem um trabalho espetacular de capacitação, no fundo dos educadores, sejam famílias, sejam as escolas, de como lidar com isto junto das crianças e jovens.

E vocês dois, Miguel, Comendina, as vossas relações com os telemóveis e com as redes, vocês eram muito agarrados ou assim assim?

Eu acho que sou um bocado.

Usou alguma estratégia para ter uma utilização mais racional?

Eu por acaso fiquei contente porque fui fazer no outro dia o teste da MEO.

Há um teste da MEO.

Que dá o score de utilização, o grau de dependência. Portanto, aquilo é dar E, penso eu, e eu fiquei no C. Eu também fiquei no C. Não é assim mau de todo. Não é mau de todo. Eu também fiz o teste da MEO. Aliás, a MEO tem agora uma landing page só sobre isso, porque está baseado na campanha deles, que tem muito a ver com isto de alertar para a utilização mais equilibrada dos telemóvel, também em conjunto com a Associação Mirabilis, e eles têm esse quiz engraçado.

É engraçado. Mede o teu grau de dependência.

Mas eu acho que sou um bocado dependente. Não sei se sou disciplinada em estratégias para me policiar.

É engraçado terem esta coisa da caixa nas mesas. Eu usei, fui logo o primeiro a pôr. E depois as outras pessoas da mesa também puseram uma caixa que a MEO deu para pôr aqui o seu telefone dentro. E depois no fim tiro para as fotos ou o que quiser.

Sabes por quê? Porque nós escusamos um bocado na coisa de: "Ah, mas eu uso isto como instrumento de trabalho" e de facto usamos.

É verdade. Mas uma pessoa depois perde-se a certa altura.

É, perdes-te.

Eu, no meu caso, como trabalho muito com conteúdos de humor acabo por precisar de fazer pesquisa também e ver o que está a ser feito. Mas dou por mim às vezes e estou demasiado tempo a fazer scroll.

E um bocado essa ideia de se as pessoas reconhecem esta dependência ou se continuam a ver isto apenas como um hábito normal nos tempos modernos, que as pessoas precisam disso para trabalhar, ver se os e-mails já chegou, se já está reservado o hotel. É óbvio que é uma ferramenta. Agora, o que se perde por a gente estar sempre a um passo de uma notificação, de uma coisa. Portanto, o somatório de horas desperdiçadas, quando a gente começa a ver, é assombroso. Do passeio da natureza e pisar a relva, como dizia o outro. Pisar a relva. Sim.

A leitura, o desporto.

O estaleiro.

Meu Deus, a minha filha adora isso. Os jogos sociais, que fomos só nós irmãos já velhos, com a minha mãe ainda mais velha, 95, fomos só passar nós os seis um fim de semana, foi só jogos o tempo todo, mímicas e coisas e com a minha mãe e ela a fazer. Ela é ótima, só a rir.

E faz tanta falta.

Os tyrãs familiares, o tocar, o abraçar os outros, as interações cara a cara, tão importante. De facto, o telemóvel rouba-nos isso.

É interessante porque eu acho que o teatro acaba por ser cada vez mais, o teatro e enfim, os espetáculos ao vivo, um bocadinho o último reduto para as pessoas poderem contactar cara a cara quer com artistas que gostem, quer uns com os outros durante aquele tempo, porque hoje em dia, com inteligência artificial, precisamente, cada vez mais a tendência é haver atores, atrizes criadas digitalmente e qualquer dia, se calhar, em CGI. Sim, o teatro ainda está salvaguardado, eu acho. E espero que continue.

Outro dia tive aqui também os Raposos, os irmãos Raposo e o pai, José Raposo, exatamente a dizer isso, porque a peça deles é sobre um talk show em 2027.

Ok, uma distopia.

Como é que será o teatro nessa altura? E o Miguel Raposo dizia muito essa questão que é das poucas coisas, é difícil de ser substituído.

Espero que esteja a salvo.

As pessoas pagarão para ir ver ao vivo um ator e uma atriz a fazer uma peça. E não aquela coisa do holograma que aparece a fazer as coisas.

Claro. E foi por isso que nós também tentámos renunciar a ecrãs e a tudo para espelhar este mundo digital.

Também é engraçado, que ideia gira, eu reparei nisso.

E daí estas ideias criativas dos charriós, das caras. Tentámos só através da voz, do movimento do corpo.

Os GIFs.

Sim, nós mostrámos GIFs através de cartazes, usamos cartazes, bandeiras.

Isso é engraçado, que ideia gira.

Os emotes, tudo isso.

Eles podiam pôr num ecrã, era mais simples.

Não, não usámos ecrãs de propósito.

Não usámos ecrãs. Muito bem pensado, isso é muito coerente, eu gostei imenso.

Isso foi, no fundo, passar o digital através do analógico.

Exatamente. E adorei outra coisa, que é que foram buscar todas as apps. Eu conhecia todas. Meu filho João, mais novo, não conhecia.

O RIP, o Casal, o LimeWire, o Teletexto.

Sei lá quem foram.

Os IPs, as CDs, as cassetes. Faltou o Skype. Imensa gente diz: "Faltou o Skype." Pois é, RIP ao Skype.

Mas eu achei imenso engraçado vocês terem buscado essas mais antigas. Eu conhecia todas! Mesmo os Napsters, das músicas.

Sim.

Eu fui feliz com isto.

O RIP, o The Dawn of Teclas, o Mirc, que foi a primeira rede social

Mas por acaso é interessante, porque da última vez que estive lá na plateia, sobrinhos meus muito novos, entre os 17, 18, 20. E depois a minha prima mandou uma mensagem a dizer: "Olha, primo, parabéns, gostámos muito, mas olha, o comentário cá em casa é: não foi nada cringe". E portanto, eu fiquei supercontente.

Maravilha, não foi cringe.

Eles, os novos, estão a dizer que não é cringe, portanto, conseguimos chegar a todos os targets.

E a filha do Hugo disse o mesmo: "Isto está superatual, vocês estão muito atuais". Até eu acho que ela estava impressionada. Dois veteranos já com 40.

Isso é engraçado, dizerem o mesmo. O TikTok já é muito das gerações novas, já não chega aqui. Eu também não tenho. E que o X vocês dizem que é só muito ódio hoje em dia, não é?

Sim, o X.

E que o X é que faz um bocadinho de impressão nesse aspecto, que é um estelar de julgamentos sumários. Horrível.

Leva-nos para a prática que é inevitável fugir, que é a do algoritmo, que também temos na peça.

O algoritmo é extraordinário.

Exatamente.

Muito bem feito.

E o algoritmo privilegia precisamente esse tipo de conteúdos. Os conteúdos de ódio, de confronto, de conflitos.

Ali o algoritmo é importante, é uma espécie de coro grego, vai revelando o que se passa nos vossos telemóveis, é muito importante.

É o nosso narrador.

Os nossos narradores.

Às vezes a terceira personagem aqui.

A terceira personagem, exatamente.

E é engraçado, eu vi uma coisa sobre ti, Miguel, que dizias: é um dos poucos comediantes que admite que o algoritmo conhece-o melhor do que a própria família. É verdade, ao mesmo tempo é assustador.

Sim.

O algoritmo que age por aí não está empenhado em que a gente fique melhores pessoas e coisas que a gente quer aprender.

Exatamente, eles querem prender a atenção. Sim, esse é o objetivo fundamental.

Que é como a indústria alimentar, que tem que pôr açúcar, sal e gordura e está agarrado. Pronto, é o que é preciso.

Sim.

De facto. Muito engraçado. Presos aos ecrãs, não diabolizam, o que é muito importante. De facto, as notificações interrompem a vida. Cá está uma simples notificação, como tu disseste, uma coisa de neurociência, está aqui: custa ao cérebro humano em média 25 minutos para recuperar totalmente o anterior nível de concentração e de performance cognitiva. Extraordinário.

Ah, sim, tínhamos isso num enquadramento que tínhamos quando começámos a escrever.

E os segredos digitais, as coisas que os pais têm nos telefones, ou o marido e a mulher.

Neste caso, os segredos ocultos.

Os dedicados que eu tenho tido aqui, o Daniel Sampaio, o DG Amaral, dizem todos: "Não, nunca se faz por editar um telemóvel de ninguém". Porque há sempre segredos e é bom que haja algum segredo. Mas aqui falam disso, e a peça é muito à base disso.

Sim, fala-se muito sobre invasão de privacidade.

Que é esta mensagem que tu recebeste.

As burlas também. As burlas digitais.

Aliás, esse é um dos temas centrais da peça.

Sim. O cibercrime acaba por, hoje em dia, estarmos todos muito vulneráveis.

São iguais a tudo o que é verdadeiro, e depois a gente cai nas coisas, levamos hitos e pronto.

Precisamente. Aliás, temos um deepfake a certa altura na peça, em que a Ana recebe um vídeo do professor Marcelo, mas que não é.

Mas que não é. Está a vender casas.

Mas a voz é igualzinha. É extraordinário. Tem os seus talentos. E pela via do humor, dizer verdades destas é tão importante.

Sim.

O que o humor pode ser de mais importante, Clementina e Inês Moura? É uma boa ferramenta para dizer verdades, para evitar pelas pessoas.

Eu preciso de me rir todos os dias para sobreviver. O humor é importante para tudo, para vivermos, inclusive. E não como fuga às coisas tristes que atravessamos, mas como um aliado. Eu acho que a coisa mais importante é rirmos de nós próprios. Eu se passar um dia sem me rir, é um consolo tão bom saber que nos podemos rir. É a única coisa que temos. É o riso. Ninguém nos pode tirar isso.

Isso é uma coisa do humor que para ti também é uma ferramenta de trabalho.

Sim. Mas eu acho que é interessante porque acaba por funcionar um bocadinho como uma caricatura. Se nós fôssemos para cima do palco dizer: estamos sempre em notificações ou agarrados aos grupos de WhatsApp e que chatice isto de estar sempre a enviar parabéns ou whatever. Se calhar não tinha tanto impacto como exagerar, como nós fazemos. Criar aquele momento e aí as pessoas de facto dizem: "É mesmo assim". Claro que não é mesmo assim, está exagerado, mas esse exagero é o que faz com que as pessoas se revejam e percebam que de facto isso nos acontece.

Se todas aquelas pessoas saíssem da vossa peça só com uma ideia na cabeça, que ideia que vocês, Clementina, gostavas que elas saíssem? Só com um projeto ou com um objetivo. "Epá, tenho que fazer isto" ou "ainda bem que me alertaram para isto", o que tu achavas? Uma ideia.

Olha, não sei.

Já valeu a pena se...

Eu acho que já valeu a pena se se riram de si próprios. Eu acho que isso é o mais importante.

Por exemplo, sempre importante.

Não é?

Claro que sim.

Se se riram de si próprios.

E no quanto ao uso dos telemóveis, alguma coisa que tu achas que as pessoas saiam daqui ao menos com uma ideia do que devem o quê?

Que devem pelo menos refletir sobre como é que podem fazer uma gestão mais equilibrada. Sim, eu acho que sim, no fundo, são esses os dois grandes objetivos. É a questão de rirmos de nós próprios, rirmos em conjunto e alertar aqui para uma utilização mais consciente.

Exatamente, muito importante. Então é isso. Por isso é extraordinário.

Agora uma só é difícil, às vezes, de elencar, porque cada pessoa é diferente.

Claro que sim.

Todos vamos sentir isto de maneira diferente.

Diz lá, Miguel.

Se os pais, depois de verem esta peça, deixarem de enviar mensagens a sugerir presentes que não combinam.

Não, presentes coletivos.

Aqueles presentes coletivos que nós brincamos.

Exatamente.

Eu uma coisa de grupos é que eu não gosto muito, exceto obrigatoriamente da família e trabalho, assim é diferente. Agora, aquela coisa do grupo do almoço da Maria Antônia que faz 46.

Cria-se um grupo para um almoço, um grupo para um presente de anos.

E depois ficam, e eu não posso, irrita-me.

E de vez em quando, de repente, entra um plim disso ao fim de um ano e meio.

Quando, por exemplo, tu tens uma peça de teatro e aproveitas e partilhas nesse grupo que já não ias lá há um ano e meio.

Exato. E vais lá fazer spam. Sim, vais lá fazer spam.

Muito bem. Maria Clementina e Miguel Lambertini, até 29 de novembro, já sabe, do quarta a sábado, às 21:00, no Teatro da Comuna, café teatro, muito simpático, ali à Praça de Espanha, em Lisboa. Então, "Ecrã Total". A não perder, sobre esta dependência que nós temos dos telemóveis. Estes 90 minutos são uma autêntica terapia de grupo em que se vai rir às pampas. E vale muito pena. Muito obrigado, Clementina, e muito obrigado, Miguel, por terem vindo.

Muito obrigada a vocês.

Obrigado.