Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Uma criança com um ano, eu constatei isso com os meus netos, distingue um cão de um gato perfeitamente, até mesmo em silhueta, mesmo como esboço. Quando são dois animais que em termos de biodiversidade são praticamente a mesma coisa.

Exato.

E nós conseguimos distinguir, qualquer criança consegue distinguir. Já a informação geológica não nos é dada. Não nos é dada em casa, de uma maneira geral, não nos é transmitida e só muito tarde, quando já temos outras motivações, quando já estamos interessados noutras perspectivas da vida, é que nos vêm muitas vezes falar, e da maneira às vezes menos interessante.

Sabia que a pedra das nossas calçadas e monumentos é benéfica para o ambiente e absorve a poluição? Sabe qual é e onde fica a única mina de pedras preciosas do país? Agora que as férias se aproximam e vamos poder passear, que monumentos geológicos, absolutamente únicos no mundo, existem em Portugal? Mário Cachão, geólogo, paleontólogo, professor e investigador, é especialista em áreas como micropaleontologia, em que investiga nanofósseis calcários e outras áreas com nomes igualmente complicados. É fascinado pelo lioz, mas será verdade que o monumento como os Jerónimos ou a Torre de Belém, por exemplo, equivalem, na pegada ambiental, a uma floresta? E a propósito de pegadas, como é que está o abandono de Carenque, onde tantos dinossauros passearam? Mário Cachão estudou a única mina de pedras preciosas em Portugal e vou lhe pedir que nos recomende geoparques e monumentos naturais absolutamente imperdíveis e únicos no mundo, que estejam no nosso país e que nós possamos conhecer quando sairmos este verão. Olá, Mário, e bem-hajá por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Muito obrigado. Boa tarde a todos.

Disse alguma mentira aqui nesta apresentação, ou não?

Não, foi bastante factual.

A primeira coisa que eu quero estar com o pé é que tu fazes anos, tu és o CR7 da geologia. Porque fazes anos no 5 de fevereiro, dia de anos do Cristiano Ronaldo.

Sim, tenho esse privilégio, ou ele tem esse privilégio.

E o Neymar também, eu não sabia, fiquei a saber hoje que o Neymar também faz anos nesse dia, e uma das minhas irmãs. Portanto, por isso é que eu também me lembrei e quis falar nisso. Tu em pequeno, tal como eu, por exemplo, no meu colégio, ali no Lumiar, passava recreios a apanhar fósseis, depois é que me ensinaram: "Estás a ver? É que isto foi mar, há muitos anos. E aqui estão estas torritelas, essas coisas", que eu apanhava e colecionava e punha debaixo da minha secretária no colégio, até que um ano ou seis meses depois, ou nove meses depois, uma empregada de limpeza deitou tudo fora, pegando apenas nas minhas, que eu só selecionava os maiores, mais bonitos, mais perfeitos. Tu também colecionavas fósseis em miúdo?

Sim, tive esse privilégio. Vivia numa região um pouco mais periférica de Lisboa, ainda não totalmente urbanizada como acontece hoje, ainda com muitos montes e vales.

Tafundo, é para aquela zona.

Tafundo, sim. Para lá de Algés, já no limite do perímetro urbano de Lisboa. E ainda existiam, hoje cada vez menos, terrenos baldios, onde apareciam rochas e realmente um dos elementos mais notáveis eram os fósseis. Nessa altura, eu era um pouco bicho de mato, dava-me melhor andar por montes e vales sozinho do que muitas vezes no meio da confusão do resto da rapaziada. E aos poucos fui ganhando esse gosto e essa motivação.

Este apelo da geologia vem de onde? Concretamente a geologia.

A geologia foi entrando de mansinho. Eu não sabia o que era verdadeiramente a geologia. Naquele tempo, não tinha acesso a essa informação. Eu não sabia o que era essas áreas temáticas. Gostava de realmente colecionar tudo um pouco. Eu diria que era mais um naturalista à moda antiga. Gostava tanto de ver um inseto como observar as nervuras de uma folha, uma rocha, um mineral. Era tudo, o naturalista à moda antiga. Tudo isso eu recolhia de informação. Agora, o que era verdade era que a componente geológica, no meu caso, os fósseis, as rochas, era aquilo que eu tinha menos informação. E uma das coisas que eu acabei por ir constatando é que eu interesso-me, sobretudo, por aquilo que eu não tenho tanta informação. Portanto, eu parto para a pesquisa. Da biologia, nós somos bombardeados, passa a expressão.

Vi um post teu em que tinha isso, aquela tabela que diz: biologia, imenso, botânica, não sei o quê. Arqueologia, depois geologia era muito pouquinho.

Eu costumo dar esta analogia, que eu vou tentando procurar analogias para ser mais fácil transmitir este tipo de motivação e de sentimento. É que nós somos completamente rodeados de informação biológica desde que nascemos. Inconscientemente. Eu costumo dizer, uma criança com um ano, eu constatei isso com os meus netos, distingue um cão de um gato perfeitamente, até mesmo em silhueta, mesmo como esboço. Quando são dois animais que em termos de biodiversidade são praticamente a mesma coisa.

Exato.

E nós conseguimos distinguir, qualquer criança consegue distinguir. Já a informação geológica não nos é dada. Não nos é dada em casa, de uma maneira geral, não nos é transmitida e só muito tarde, quando já temos outras motivações, quando já estamos interessados noutras perspectivas da vida, é que nos vêm muitas vezes falar, e da maneira às vezes menos interessante. Das rochas, dos processos geológicos, mais pela sistemática.

A maneira como se divulga. É patriar ou não? Exatamente.

Se nós incidimos só na classificação, quando as abordamos ao nível de sétimo ano, a rapaziada está despertada, está acordada, quer é outros aspetos.

Vou dar um pulo para o fim da conversa, para falar exatamente é um dos teus hobbies, como tu dizes, este programa de divulgação de ciência Rocha Amiga. Cá está, é uma maneira curiosa. Tu és coordenador disso, das imensas atividades que têm, e depois aquilo também Há Uma Só Terra. Estas atividades, palestras, o apoio ao público, a divulgação que têm, que é uma coisa pedagógica para mostrar as diferenças, as maravilhas, o jogo dos seis, estou-me a lembrar, imensas coisas que podem se fazer à volta disso.

Sim, acabei por achar que esse nome era um nome catchy, que ficava no ouvido e despertava a atenção. Na realidade, este programa nasceu quando uma comissão de colegas nossos fomos indigitados para definir a celebração do Ano Internacional da Terra. Portanto, este programa, este Rocha Amiga, nasce dessa necessidade que nós tivemos de encontrar atividades, programas para as escolas, no contexto da celebração desse ano internacional. Só que uma vez terminada essa efeméride, verifiquei que continuavam a existir razões para manter.

E diversificar e ter novas ideias.

E é o que existe.

É incrível, é uma ideia muito boa para suscitar as crianças. E os jovens para esta área. Estou a lembrar de uma coisa: tu, por exemplo, em miúdo, Mário, nem sequer sabias que se podia ser paleontólogo.

Não.

Não te passava pela cabeça?

Nem sabia o que era ser paleontólogo, é verdade. Colecionava, era mais numa perspectiva colecionismo, de encontrar elementos naturais e trazê-los. E só muito tarde, no equivalente do 11º, atualmente, é que eu tomei consciência e entrei em contato com paleontólogos e geólogos profissionais. Só nessa altura.

Aqui temos como exemplo uma professora tua que te mandou visitar os Serviços Geológicos.

Exatamente.

É extraordinário. E conheceste o George Zbizevski?

George Zbizevski.

Este polaco russo extraordinário, que é tudo isso. "Levei os fosseizinhos na minha mão, entrei por aquele..." Hoje é o Museu Geológico do Porto, ali na Rua Caminha e Chelles.

Sim, continua a existir. Continua a ser ainda pouco conhecido da população. É um museu dentro do museu.

Pois, porque é uma relíquia, da museografia oitocentista.

Exatamente. Portanto, aquilo tem vários layers de informação, tem vários níveis de interesse.

Tu entraste para ali com um pedaço do fóssil.

Que eu agora reconheço um pouco, até com algum pudor, de que os fósseis que eu levei não eram nada de especial, eram coisas normalíssimas. Mas recordo-me perfeitamente e procuro transmitir essa informação, esse sentimento que ele me transmitiu, sabendo perfeitamente que se tratavam de fósseis normalíssimos, mas reconhecendo e transmitindo a importância que eles continham. E eu tento fazer isso, desde aí que tento retribuir pra sociedade um pouco desse gosto e do que me marcou esse primeiro contato e que me fez realmente chegar a casa e dizer que: "Olha, é isso que eu quero fazer, porque afinal é possível ser profissional nesta área".

Este geólogo, paleontólogo, nascido na Rússia em 1909, depois morreu cá em 99, e que foi um grande pioneiro do estudo dos dinossauros cá em Portugal, nas décadas 40 e 50. Há até um dinossauro, o Usbiatlanticus, que é em homenagem a ele.

Estamos a procurar retomar, descobrir os outros fósseis.

Na Laranhinha, faz agora 30 anos. Muito bem, então chegaste a casa, anunciaste que queres ser geólogo, eras muito bom aluno. Reação dos seus pais? A tua mãe achava que tu ias ser médico.

A minha mãe achava que eu devia ser médico.

Não tenho grande história com a minha mãe, só até a quarta classe. Mas disseram: "Com as tuas notas tu podias ser médico, pelo amor de Deus, o que é isso, os geólogos?"

E a dada altura foi isso que eu alimentei. E a certa altura era isso que eu achava que era o meu destino, era um pouco isso. Ser médico era uma profissão de prestígio. Eu tinha boas notas, realmente, era um nerd, era um aluno com boas médias. Mas quando tomei consciência, divergi e podia ser mais um daqueles médicos, como nós encontramos vários, que têm na parte de trás dos seus consultórios.

Os tais fósseis.

As coleções de minerais e fósseis, eu podia ser mais um desses.

O Mário conta isto para os nossos ouvintes, ele conta que muitas vezes vai aos gabinetes médicos, como pediatra do meu filho ou o que fosse, e então tem fósseis colecionados, coisas, quadros pendurados ou um trilobite ou uma coisa assim. 50 minutos da entrevista é conversa só sobre os fósseis, com o Mário, que é especialista, e depois 10 minutos a correr a consulta sobre o filho.

Exatamente.

Geologia, então. Foste licenciar-te em Geologia e naquele período em que foi, pós incêndio de março de 78.

Um pouco, logo na sequência disso.

Logo a seguir, e houve aquela confusão, depois tiveram que se dividir entre 24 de Julho e Politécnica, até o campus do Campo Grande só nos anos 2000 é que apareceu. Onde tiveste também António Ribeiro, por exemplo, o professor Galopino Carvalho, que ias ter contacto, tem esta cena extraordinária com um cobertor na cabeça, ele e um contino e um bombeiro a salvar livros durante aquele incêndio. Tem histórias extraordinárias durante este incêndio, que de facto destruiu tudo o que era nestas áreas da zoologia, da matemática, da mineralogia. Foi uma grande pedrada no charco em todas estas coleções que tínhamos lá tão importantes. Tu fizeste depois provas de aptidão científica e capacidade pedagógica, em Geologia também, já na especialidade de Paleontologia, e depois doutoraste-te em Paleontologia e Estratigrafia, não foi? Nestas duas áreas.

Essas são as áreas.

O que é que faz um geólogo exatamente, Mário? Além de, estou a pensar nos homens das obras que sabem quais os solos que estão por baixo, são importantes. Mas depois o quê? O estudo da crosta terrestre?

O estudo do planeta. Nós estudamos o planeta nas suas várias e diferentes funções, desde os fenômenos como os que recentemente abalaram a Venezuela. Portanto, nós estamos conscientes desses fenômenos sísmicos, da sua perigosidade, das suas causas.

Portanto, a tectônica, este tipo de coisas.

A tectônica, que é uma das áreas dinâmicas e cujos fenômenos, como se passam à nossa escala, somos muito mais sensíveis. Por exemplo, quando falamos e estudamos também processos que levam à formação de uma cadeia de montanhas, à abertura de um oceano ou fecho do oceano, são processos de grande longevidade que ultrapassam a nossa capacidade de entendimento temporal e, portanto, sai fora do entendimento do cidadão comum. Já os sismos dão a expressão real e material e adam com a nossa dinâmica, à nossa escala temporal, e aí somos mais sensíveis e sofremos mais esses aspectos. Nós trabalhamos com o tempo em rápidos fast forward e fast backward.

E de milhões de anos, de repente. Eu tenho sempre uma ideia que eu sempre aprendi, a questão dos Himalaias, por exemplo, que é das cadeias mais recentes da Terra. Que foi a placa indiana que chocou com a asiática e nasceu aquela. Isso foi há uns milhões de anos.

Sim.

E por isso é que são mais altas, porque a erosão ainda não deu cabo.

Exatamente. Ela continua ainda ativa e é das mais recentes, daí a sua expressão morfológica ou geomorfológica, como nós dizemos, ainda está particularmente vibrante. Mas a maior parte de Portugal já foi uma cadeia de montanhas dessa, só que já foi arrasada. E nós temos as provas disso.

Os vales glaciares, por exemplo, da Estrela, é outra coisa que eu me lembro, que é quando é arredondada.

Isso para nós acabou de acontecer.

Foi depois da última glaciação há 10 mil anos, portanto?

Exatamente.

Então é muito recente.

É muito recente. Antes disso, a serra da Estrela teve que se erguer, que também é um fenômeno muito recente. Antes disso, as rochas que constituem a serra tiveram que se formar como raiz de outras cadeias de montanha. Isso já demorou mais tempo. Portanto, há aqui vários tempos. Há o tempo da formação das rochas, que são o suporte, o substrato da serra. Outra coisa é a sua expressão morfológica, que é muito mais recente.

O relevo, em volume.

É um relevo muito recente do ponto de vista geológico.

É recente, exato.

E outra coisa foi o seu trabalhar pela última glaciação, que esse foi um fenômeno ainda mais recente. E agora são os vales a entalhar, são os vales a cortar.

Normalmente são as águas que vão furando.

O sistema fluvial, que é o processo atual.

Outra ideia que eu tenho, não sei se é um mito ou se não, é que grande parte da nossa região Oeste era inundada até há uns séculos, e não há milhares de anos. Porque ainda há muitas terras perto de Óbidos que são Porto do Rei, Porta da Rainha, e estão a 100 km do mar.

Isso é verdade.

Por isso é que eu acho que há vestígios de que isto já foi mar. E não em tempos geológicos.

É o tema de trabalho da minha esposa, que também é geóloga.

Não sabia.

É o trabalho dela e eu acompanho muitas dessas áreas também. Sim, depois da última glaciação, a glaciação terminou de um modo abrupto. Nós chamamos de uma terminação. Terminou de um modo abrupto, levou a uma subida.

Isso pode acontecer?

Sim, as glaciações entram de mansinho e depois terminam abruptamente.

Isso quer dizer que no dia a seguir já está calor?

Não no dia seguinte, mas à escala, poderia ser sentido à nossa escala. Portanto, é um processo semelhante ao que estamos a experimentar agora por causas antropogênicas.

Estas alterações sempre houve, climáticas, mas o homem veio acelerar um pouquinho essa mudança.

Veio se juntar à festa, como eu costumo dizer. Veio se juntar à festa e veio trazer novas variáveis para isso. Mas na última glaciação, quando ela terminou, foi de um modo muito rápido, de tal maneira que como resultado, ou um dos resultados, foi a subida do nível do mar com taxas dupla da atual.

Ah, ok.

Houve durante um intervalo de uns sete, oito mil anos, a subida do nível do mar atingiu taxas pelo menos o dobro das atuais. Portanto, houve um momento em que houve uma alteração muito rápida, significativa de toda a linha de costa, em que foi inundada com processo bastante acelerado, é o que nós chamamos uma transgressão. Transgressão flamengriana. O mar vai subindo e, numa primeira fase, ele entra e entrou para dentro da linha de costa atual, formando uma série de baías, de lagunas, de rias, como as rias galegas, que ainda continuam. Nós tivemos cá, na sequência disso, muitas outras rias. Todos os rios, a dado momento, converteram-se em rias, ou seja, foram inundados pelo ambiente marinho. Portanto, os vales fluviais foram inundados.

Ficavam como a Ria Formosa ou Ria de Aveiro, grandes extensões.

Não, a Ria Formosa e a Ria de Aveiro, apesar de nós chamarmos ria, não é neste sentido. São lagunas costeiras, mas a linguagem comum atribui a expressão de ria. Ria, em termos geológicos, são as galegas, são vales fluviais inundados. Isso é que são rias do ponto de vista geológico. E todos os rios, o Tejo, o Sado, todos os sistemas fluviais que existiam durante a glaciação, que estavam bastante encaixados, já que a linha de costa estava 120 metros abaixo, ou melhor dito, o nível do mar é que estava 120 metros abaixo do atual. Portanto, a linha de costa estava projetada muito para oeste. Ela rapidamente regrediu, foi inundada e portanto, numa primeira fase, tivemos várias rias e temos estudos em sondagens, temos vários estudos feitos nisso, que mostram que a dada altura eram ambientes marinhos bem para o interior da atual linha de costa. O que é que acontece? A partir de certa altura, o nível começou a estabilizar, já que não existia gelo a derreter em quantidades enormes, como acontecia no princípio, e portanto o nível do mar começou a estabilizar. No momento em que o nível do mar começa a estabilizar, o sistema fluvial, o sistema costeiro, começa a recuperar terreno e começam a se definir barras, começam a se definir praias e começam então a isolar todos esses sistemas de ria. E aos poucos convertendo-os em lagunas, que algumas delas acabaram por colmatar. Ainda temos algumas, existem lagunas ainda no nosso sistema costeiro, mas a tendência delas, se fizermos rápido fast forward, é virem a ser colmatadas. Todas elas. Do ponto de vista geológico. Os sedimentos acabam por colmatá-las e aos poucos convertem-se em ambientes pantanosos.

Baú.

Baú.

Outra coisa que eu também tinha ideia, não sei se é verdade ou não, mas tu saberás, porque é na região Oeste, onde Lourinhã. A Nazaré, uma vez disseram: "Sabes que esta praia cá embaixo, não é recuar muito, no tempo do Marquês de Pombal, não havia". Era água. Todas aquelas casas têm menos de 200 anos, menos de 100 e tal anos. Portanto, dizem, via-se cá de cima do sítio e que era água, aquela parte era toda água e não havia aquela praia tão pronunciada.

Sim.

É possível que tudo aquilo tenha ficado-

O processo natural está a ser comprometido, por quê? Porque estamos a cortar a fonte de alimentação das areias com as mini hídricas. Porque os sistemas fluviais, naturalmente, vão transportando para a linha de costa e vão depositando junto da linha de costa todas as suas areias, que depois são retrabalhadas pelas correntes costeiras e vão alimentar as praias. Portanto, a tendência é que as praias vão engordando, digamos assim, de areias, naturalmente. O que acontece hoje em dia é que nós estamos a restringir o acesso das areias ao litoral e, portanto, começamos a emagrecer os sistemas costeiros e as praias. É um processo que agora estamos a procurar inverter com a alimentação artificial.

Muito bem, Mário Cachão. Temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com Mário Cachão. Ele é geólogo, paleontólogo, professor e investigador. E especialista em áreas como a micropaleontologia, onde estuda nenófósseis. Vamos falar do lioz, tão importante nas calçadas e monumentos portugueses. Vamos falar de carenc, de geoparques, outros geomonumentos. Começando aqui pelo lioz. Tu tens até uma palestra que é: "Olha o lioz", por exemplo, eu lembro-me. Isto é traduzido a um calcário, com vários tons. Aqui vais falar com sede dos fósseis de rodistas, que o enche. É verdade que o lioz devia ser levado a patrimônio material da cidade. De facto, todos estes monumentos são feitos com lioz, as calçadas, os nossos monumentos.

A calçada, não.

A calçada, não? É só os monumentos mesmo?

Só as fachadas. A calçada é um outro tipo de calcário.

Conquífero. É esse que é o das conquífero, que chamava-se antigamente, que era cheio de conchinhas. Ou isso é outro nome pro lioz?

Não, conquífero é uma designação que se dá a um calcário quando ele é particularmente rico em conchas. Poderíamos dizê-lo pro lioz, mas muitas vezes utilizamos para quando essas conchas são mais expressivas e são mais visíveis as suas faces côncavo-convexas. Geralmente, quando as mineralizações das conchas ficam mais expressas na rocha e ficam com superfícies côncavo-convexas, é mais aí que nós costumamos dizer calcário conquífero. Mas o lioz, sim, é conquífero. As pedras da calçada, digamos assim, o vulgar pedra calçada, é um outro tipo de calcário. Às vezes é conquífero, às vezes é fossilífero, mas vem de outro contexto. Geralmente vem do maciço calcário serrano.

É verdade isto de que o lioz absorve a poluição?

O lioz, por um lado, absorve poluição como qualquer rocha, mas não é dos melhores a absorver a poluição. Do ponto de vista de absorver a poluição, uma rocha porosa é a mais que retém mais impurezas, mais fuligem. Mas eu penso que a questão não era tanto a poluição, mas o CO₂. Quanto ao CO₂, sim.

Porque uma vez alguém me disse que tinhas dito numa conferência que o Mosteiro dos Jerónimos ou a Torre Belém equivalem a um bosque de 50 árvores, que têm a mesma pegada, digamos assim. Então, ia a ver com o absorver o CO₂?

Por absorver o CO₂. Porque, na realidade, o lioz está a ser desgastado em contato com a água das chuvas, em função da temperatura a que está sujeito, da quantidade d'água, ele está a ser desgastado e ao desgastar, a ação de desgaste é feita através das gotas da água levemente acidulada, que comporta CO₂, levemente acidulada exatamente por atravessar a atmosfera e se enriquecer na componente de CO₂. E em contato com o calcário, vai o dissolvendo e ao dissolver, o CO₂ fica retido. Em vez da água evaporar, em vez desse CO₂ ser devolvido à atmosfera, ele mantém em suspensão e através da dissolução do cálcio. Portanto, o cálcio mantém esse CO₂ em suspensão.

Isso vai deteriorando a pedra, digamos assim.

Em certa medida, sim, vai aumentando o seu desgaste.

Tiveram também uma atividade de verão, no programa Geologia de Verão, há uns anos. O Paleo Memorial do Convento de Odrêitas, em Mafra, é muito curioso, porque cá está, aqui tem muito lioz com estes fósseis rodistas. Isto é uma espécie com 120 milhões de anos.

Neste caso, menos, à volta dos 100 a 90 milhões de anos, mas sim, é um grupo que vem de trás. É um grupo que nós não estamos habituados a reconhecê-los porque está extinto. Portanto, ele extinguiu-se contemporaneamente com a extinção dos dinossauros. Eu costumamos dizer a brincar que os rodistas é como se fosse o marisco dos dinossauros. E foi uma das razões porque eles extinguiram, acabou o marisco e eles extinguiram. Isto obviamente que é brincadeira. Mas há uma coincidência, não só os dinossauros, como os rodistas, como muitos outros grupos.

Foi uma das grandes mass extinctions, das grandes extinções em massa que houve. E é bem verdade, hoje acha-se que foi o tal meteorito que caiu na zona do Caribe, aquela coisa.

Sim, o meteorito foi, digamos assim, a machadada final. Muitos destes grupos já estavam em um processo de declínio, por várias razões, e o meteorito terá dado aquele caráter súbito no registro.

O Monte Soimo é também uma área que te é querida. Ouvi falar isto há pouco tempo, que uma amiga minha, arqueóloga, Inês Vaz Pinto, encontrou umas joias romanas com granadas e estão se a analisar, diga Diz. Então, se analisasse essas granadas seriam talvez da única mina.

Há uma coisa agora que depois trago.

Não se sabe se é daqui ou não, mas os romanos já exploravam essas granadas ali em Belas.

Eu tenho o compromisso de manter esse tema ainda por falar.

Ainda é um segredo industrial.

É por força das vossas necessidades jornalísticas.

Mas a questão de saber se há uma mina de granadas em Belas, isso é possível, que tu estudaste. E tu não descobriste porque os romanos já exploravam. Mas dizem que é a única mina de pedras preciosas que há em Portugal, tirando umas turquesazinhas lá pro lado de Vila Viçosa, mas de resto, seria a única coisa que tu estudaste muito. Mas que já não está ativa.

Não, já não está.

Já está sem nada. Ok. Portanto, haverá estas granadas romanas de Belas aqui no Monte Soimo. Aliás, eu acho que o Plínio, o Velho, já falava delas. Até o teu antecessor, Paul Chauffag, também eu acho que estudou.

Foi através dele que eu tomei conhecimento da ocorrência delas.

O pai da estratigrafia em Portugal, o tal que fez o mapa geológico em 1899. Carenque, é a última cruzada, eu digo a última porque é a última, porque eu tenho sempre mais uma, do Golpino Carvalho, esteve cá falar disso, o professor. Mas de facto é aquela descoberta extraordinária, fez 40 anos em maio deste ano.

Exato, já se passou bastante tempo.

Descobriu, separou-se, conseguiu separar uma coisa extraordinária, mudar uma obra grande.

Fez-se aquilo que nós nunca pensamos que seria possível.

E conseguiu, e bem feito.

E bem feito.

E depois o dignificar a coisa é que falha ainda.

Ficou pelo caminho.

O que é que falta?

Falta praticamente tudo.

Voltar à política.

Sim, de alguma maneira, faltam recursos.

A sociedade pediu, tu dizes que aquilo merecia pessoas a tempo inteiro a trabalhar naquilo.

Há um problema que às vezes acaba por ser uma desculpa real ou não.

Estavas a falar das pegadas de dinossauros na zona de Carenque.

Que é o facto de ser propriedade privada.

Ok.

Isso levanta alguns problemas do ponto de vista de gestão.

Sim.

Portanto, tem trazido algumas questões. Mas nós procuramos dignificar neste momento o local e estamos a criar massa crítica junto das populações, junto das autarquias, junto de várias entidades que tutelam, em parceria, obviamente, com o ICNF. Procuramos sensibilizar a Brisa, que esteve desde o primeiro momento empenhada e foi em boa parte devido ao interesse manifestado pelos seus engenheiros que a obra se pôde realizar. Não fomos nós que definimos que seria um túnel, nem nos passou pela cabeça que podia.

E fizeram dois, que era pra ter ali um pilar central.

Para evitar que houvesse o colapso.

Lá está um pouquinho empinado, aliás. E eu não fazia ideia, isso aprendi contigo, Mário, a ler coisas tuas, que é muito importante, porque daquele período é talvez a única.

É a mais recente.

É a mais recente. Há várias, eu estou me lembrado daquelas que se veem em Praia Grande, por exemplo, aí em risco iminente, tu dizes que é uma coisa perigosa, pode cair.

Sim, infelizmente está em risco de colapso e merecia também uma atenção especial.

Como se fez na Pedreira do Galinha, na Serra d'Aire.

Tem outros desafios, porque precisa de-

Está bem feito aquilo.

De intervenção. Já Carenque, por exemplo, tem condições de visitação semelhantes à Pedreira do Galinha.

Pois, também tem uma bancada mais alta, dá pra ver tudo.

Que se pode ver, portanto, pode-se aceder.

E por exemplo, é bonito, tem o chamado salão de baile, eu não sabia disto, tem umas sobrepostas com outras. A Vanda Santos é que estudou isto muito a fundo.

Sim, foi ela que o desejou.

É a única daquela idade e, portanto, é mais recente, tem grupos de dinossauros que não estão representados noutras jazidas.

São os mais recentes.

Isto tem um nome, como é que se chama? Icnofósseis?

Icnofósseis é a designação que damos a este tipo de fósseis que são produzidos por atividade biológica, resultam da própria atividade, ou seja, são produzidos em vida.

Ok, portanto, ninhos de ovos, por exemplo?

Ninhos de ovos, sim, também.

Coprólitos.

Coprólitos, marcas de predação.

E as pegadas.

E as pegadas.

Portanto, não é mesmo os fósseis, mas é sinal da atividade.

É muito complementar da informação que os restos osteológicos nos dão.

Portanto, falta esta preservação. Preservação, quer dizer, aquilo tem um geotêxtil por cima, aquilo neste momento está tapado.

Está preservado. Há pegadas que são possíveis de observar atualmente, porque existiam várias pegadas isoladas para além do trilho principal, para além das outras aglomeração do dito salão de baile. Há pegadas isoladas, as quais ainda hoje se podem ver que ficaram fora da tal proteção da tela. Essas são aquelas que nós neste momento estamos a trabalhar para obter elementos para fazer moldes, réplicas, que nos permitam depois pôr à vista de quem depois o irá visitar.

Tu dizes com razão. Falta esta, um dia, se calhar, fazer aqueles passadiços como tem a outra, um centro interpretativo, qualquer coisa. Mas tu dizes, o mínimo, por exemplo, era a Brisa pôr uma sinalética na estrada a dizer: "Pegadas a 100 metros", já pra pessoas terem interesse de irem visitar. As pessoas não sabem, veem aquelas cabeças e caudas dos dinossauros que fez o Francisco Assina, uma coisa bonita, até é engraçado, eu lembro-me sempre quando passo ali, acho aquilo piada.

Eventualmente vão ser retiradas por questão de segurança.

Ah, é? Não sabia. Naquele é tem piada.

Mas é sim, é um símbolo e acaba por ser um dos melhores exemplos.

É, sim.

E que é utilizado como exemplo até pelos próprios engenheiros, como exemplo único.

Mas de facto, a parte melhor falta.

Sim, mas muito mais informação podia ser adicionada e nós temo-la, portanto, agora é preciso encontrar os meios para concretizar.

Para divulgar e pra poder chamar mais pessoas, que era muito importante. É a cruzada do Carenque, que é muito importante, dignificar aquilo que já lá está. Há outros locais, por exemplo, a Lisboa Romana, também tem muito a ver contigo. Houve este segundo volume do Território e a Memória, uma edição da Calêndula Silva.

Sim, resultou de colaborações que temos vindo a manter com os colegas arqueólogos, já com tradição nos nossos mestres geólogos, como o Jorge Bizewski, que também fazia muita atividade ao nível da arqueologia. E nós tentamos manter. Não temos a força de lei dos arqueólogos, isto é, nós não conseguimos parar uma obra para recuperar achados paleontológicos. Fazemo-lo em circunstâncias especiais, por especial deferência Dos próprios donos da obra, mas não temos essa força de lei. Mas colaborando com os colegas da arqueologia, que têm essa necessidade e essa força, nós tornámo-nos parceiros e fazemos trabalho de colaboração. Nessa perspetiva, eles depois chamaram-nos também para nós compormos a informação que se conhecia sobre o substrato geológico. Portanto, a nossa história começa antes da história romana. Diz respeito às histórias antes da ocupação romana e é isso que nós procuramos.

Geologia é uma coisa extraordinária. Tu visitas quando vais de férias, muito. Além dos congressos que te levam às Filipinas, ao Japão, aos Estados Unidos, duas vezes ao Havaí, à Islândia, talvez duas vezes em breve. Sempre que há estas atividades vulcânicas, estou a pensar nas Ilhas Canárias, El Hierro, que tu investigaste, as lavas com nanofósseis calcários. É extraordinário, uma descoberta extraordinária. Os postos de tsunamis, que tu depois investigas também, atividades vulcânicas. Quando vais de férias, a minha também é geóloga, portanto acredito que sim. Vão sempre procurar sítios: "Vamos hoje visitar..."

Não sempre, mas é natural. É impossível desligar do que nos rodeia. Quando estamos, sobretudo, mesmo em contexto urbano, nós temos elementos geológicos que escapam ao comum cidadão.

O professor Galinho Galpão Carvalho falava nisso. Em Lisboa, eu consigo fazer um passeio lindíssimo.

Temos várias atividades.

Sampaio Bruno tem não sei o quê na Rua Sampaio Bruno e tem um afloramento não sei onde. Consegue estudar isso.

Nós mesmo em percurso urbano. Claro que fora da cidade, estamos constantemente a ser bombardeados com informação e somos treinados em decodificá-la. E em alguns casos, até nos é útil para termos como exemplos para as aulas, para motivar a rapaziada para este tipo de área.

Nas aulas de campo, que os alunos dizem: "Ninguém o acompanha", porque lá vai o professor Marco Cachão. Desaparece.

Aqui para nós, ninguém nos ouve. Nós tentamos manter um pouco o brio. Quando conseguimos deixar os alunos ficarem para trás, ainda continuamos a achar que nos mantemos bastante ativos. Ainda somos úteis à sociedade.

Eu, que moro ali em Oeiras, também fiquei muito contente de saber que Oeiras tem ali no Pardão do Oeiras, ao pé do Forte São João das Minas, ou das Maias, que tem ali uma zona muito interessante.

Toda a zona litoral. Esse é um que nós estávamos a procurar tentar sensibilizar.

Era recife, era coral, e depois houve grandes vulcões.

Exatamente.

Tudo ali está plasmado, onde eu passo a correr às vezes. Não fazia ideia.

Exatamente. E nós temos informação sobre tudo.

Devia lá uma placa a explicar.

Nós temos informação sobre tudo, menos disso. Ou seja, aquilo que se vê...

Então, mas Isaltino, é todo o gente querer pôr isso, porque isso é importante.

Já tentámos várias vezes, já esteve quase com um projeto.

Projeto Isaltino.

Mas a verdade é que ainda não avançou.

Mas isso tinha piada, achei muita piada saber. Como a coisa do Galinha, também a mesma história. É uma lagoa, pois há umas construções de presença artificial. Era uma laguna tropical com recifes e coisas. Depois isto tudo aconteceu, estes movimentos, tudo isto mudou. E de facto, como hoje, ficou assim. E como era antigamente, com os dinossauros a passear por ali. É muito curioso estes levantamentos e estas placas indicativas e explicativas. Era muito curioso ver ali.

E é o nosso maior desafio. Porque, por exemplo, nós temos que mudar de estratégia, porque não conseguimos transmitir informação da maneira como os nossos colegas biólogos fazem. Eles aí têm o processo mais facilitado, porque põem uma imagem do animal, põem a informação científica e ninguém questiona. Mesmo que esse animal, naquele local...

Nas praias todas.

Nas praias, exatamente. Têm essa informação toda. Esses animais existem, claro, ninguém põe em causa. Só que não estão à vista, mas toda a gente reconhece e interpreta que eles estão ali, estão dentro d'água, hão de aparecer um dia uma dessas a voar por ali. A geologia que está presente.

Está ali na mão.

Não há informação nenhuma. Às vezes, a informação que existe, também é verdade, não está devidamente decodificada. Esse é o desafio principal que se coloca para nós. Nós não podemos fazer, ou não deveremos fazer, aquilo que ainda se encontra nalguns locais, que é tirar informação direta de teses de doutoramento ou de artigos científicos e colocar diretamente para o público em geral. Ninguém vai ler, ninguém vai decodificar. E hoje em dia, até com a inteligência artificial, fazem-se uns diagramas, uns esquemas, com alguns erros, é preciso ter cuidado, há muitos erros da inteligência artificial.

Eu vi um post teu que mostrava isso. A mostrar uma planta, eu li desde psicólogo, disso tudo. A mostrar um mineral, disse que era um meteorito não sei de onde, e não era nada, não tinha nada a ver.

Por quê? Porque a verdade é que a informação geológica está menos disponível na internet e nos meios.

Do que a biológica ou a arqueológica.

Como tal, é mais difícil para a inteligência artificial decodificá-la.

Se eu tiver dois minutos agora, agora que vêm as férias, as pessoas podem sair e passear. Eu, por acaso, sabia que havia estes geoparques, não sabia que havia tantos. Mas além do Douroca, por exemplo, que é famoso e tem estas jazidas de trilobites, que são uma coisa única em Canelas. Vale a pena, e já também tem este centro de classe mundial. Isto é uma coisa extraordinária, estes bichos com quase 500 milhões de anos que viveram ali. E tem este centro de interpretação geológica de Canelas, além que tem a ponte 516 e o passadiço, é um sítio lindo para visitar. E há também este Geoparque Naturtejo, que tu recomendas muito, não recomendas? Penha Garcia.

O Naturtejo foi o primeiro Foi o primeiro que nós tivemos. Começou pela Naturtejo e depois foi crescendo com bons exemplos, que também têm temas muito parecidos, temáticas semelhantes, mas também complementares. O motivo central, por exemplo, na Naturtejo, onde começou o interesse científico, eram trilhos, os tais icnofósseis, trilhos de trilobites. Enquanto que Arouca tem os trilobites, os somatofósseis, na Naturtejo têm os icnofósseis. Estes são os dois exemplos.

Um é só trilhos, mas o outro é mesmo os próprios bichos.

Exatamente.

O fóssil dos bichos. Mas Arouca também tem as pedras parideiras, por exemplo, que é muito curioso.

Continua a ser um exemplo único e interessante para o país.

Quase único. A pedra de São Petersburgo, na Rússia, acho que também tem algumas coisas deste gênero.

Há coisas semelhantes.

E também tem o centro de interpretação, a Casa das Pedras Parideiras, vale a pena conhecer. O que tu recomendas mais? Há alguns que eu não conheço. Terras de Cavaleiros, geoparque, em Trás-os-Montes.

Esse também tem uma tectônica e tem todo um conjunto de temas muito interessantes, mais geologia pura e dura. Temos o litoral oeste, agora, o Geoparque Oeste.

Inclui o Dinoparque, em Lourinhã.

Sim, todos esses achados paleontológicos no sol. Temos o Algarve, também, que foi ultimamente reconhecido, os Açores.

E a Estrela, o geoparque da Estrela.

Exatamente.

Os Açores também têm muito a ver com Santa Maria, que é uma coisa que eu gosto. O Porto Santo e Santa Maria são duas petites sobre o oceano.

Para mim são duas ilhas particularmente interessantes. Por quê? Porque têm um registro fóssil muito significativo.

A pedra que pica, em Santa Maria, por exemplo. Mas Santa Maria é vulcânica como as outras, ouvi dizer que não.

Sim.

Uma vez alguém me disse: "É a única que não é". Cometeu um erro. Ou está noutra placa.

Todas elas são vulcânicas. Agora, como são as mais antigas, elas mostram aspectos da sua evolução geológica de momentos em que já tiveram registro, em que já estiveram parcialmente submersas.

Com coisas sedimentares acontecendo.

Com depósitos sedimentares, em outros momentos em que eram ambientes mais tropicais ou subtropicais, portanto, têm um registro fóssil particularmente exuberante. E como são mais antigas, esses níveis reaparecem outra vez no registro à superfície. Mas sim, são ilhas de origem vulcânica.

E depois nunca mais acaba o geomonumento do Monte Santa Luzia, o Museu do Quartzo. O Museu do Quartzo, aliás, o Golpino de Carvalho, que falávamos aqui, em Viseu. O monumento natural do Cabo de Mondego, que também tem pegadas de dinossauros, o Alto de São Bento, em Évora, as Calheiras de Escuda, o tronco fóssil de Cardigiceira, o lapedo, o Penedo de Lechinha, em Mafra. Há muita coisa. Onde é que as pessoas podem consultar isto? Há algum site que a gente possa ir, Mário? Eu vou de férias para Trás-os-Montes. O que se pode visitar lá a nível geológico?

Existe um inventário que está agora a procurar ser sintetizado entre a entidade ProGeo Portugal, que é o grupo de proteção do patrimônio geológico, grupo português dessa associação europeia, e em parceria direta, neste momento, com o Laboratório Nacional de Energia e Geologia.

O tal LNEG, que era o antigo tal museu.

O antigo serviço geológico.

Que vale muito a pena. E depois foi instituto.

Neste momento, ir aos sites destas duas entidades têm a listagem de tudo.

Lembro-me do atual Museu Geológico, que também teve uma exposição que era as 27 maravilhas. Isso é muito curioso. As pessoas vão lá, não têm o dia todo. Ou vai ao Louvre. Há 10 coisas que eu tenho que ir ver obrigatoriamente, só tenho uma manhã. E isso são boas ideias. Mário Cristão, ficamos mais uma vez fascinados com a geologia e paleontologia. Quero agradecer muito a tua passagem por aqui e sugiro a esses alunos que mais investigadores haja. E nestas férias aproveitem, deem uma volta por um destes geoparques, que temos seis ou quase sete, que vale muito a pena conhecer, se ainda não conhece algum deles. É um bom motivo para sair de Lisboa, sair de casa, ir com a família conhecer as maravilhas. Tem na cidade de Lisboa se pode fazer esses passeios, portanto, já ficamos a saber. Bem-haja por ter vindo, pela tua disponibilidade. Muito obrigado.

Muito obrigado.