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Eu acho que o conceito que tenho para mim próprio de viagem é viajar para sair de mim. Há pessoas que dizem: "Fiz uma viagem extraordinária, fui à China" e confundem essa deslocação no espaço com a ideia de viagem. Porque viajar para mim é viajar por pessoas, através dessa migração da minha própria identidade.

Olá, muito boa tarde e bem-vindos a esta sessão no 20º LEV. É impressionante, já 20 edições de Literatura em Viagem e nesta casa belíssima do Centro Português de Arquitetura, a Casa da Arquitetura, que também para o ano celebra 20 anos. Portanto, é um grande privilégio. E bem-vindos também a esta emissão especial do podcast "Convidado Extra," da Rádio Observador, que nestes sete anos já soma 1300 entrevistas. Passo já a falar um bocadinho dos meus convidados e a apresentá-los, que é para os ouvires que estão aqui. Um angolano, um moçambicano, uma brasileira e um português chegam a um armazém de vinhos. E aqui estamos. Parece o princípio de uma anedota, mas é a vida real e estamos muito contentes por estar aqui, este agradável cruzamento e encontro de nacionalidades, de três continentes, que vamos falar aqui. E são estes três convidados que eu tenho a honra de falar. O Mia Couto, à minha esquerda, na ponta, moçambicano, que é biólogo e que esteve há um ano e meio lá no "Convidado Extra" a falar da "Segueira do Rio," um estranho episódio que aconteceu com o envolvimento da Primeira Guerra Mundial em África, do envolvimento português. Prémio Camões 2013. Ele diz que é um escritor do sulúrbio. Sabem que ele gosta de inventar a língua. Na língua portuguesa, há a língua portuguesa e a língua que o Mia enriqueceu. Mais de 40 livros nestes 40 anos de carreira, extraordinário. E já agora, só para quem ainda não sabe, o António Emílio Leite Couto, é o nome dele, e escolheu este pseudônimo do Mia Couto porque tinha uma grande paixão por gatos. Mas já não tem. Hoje, a grande paixão é por cães. Mas já não foi a tempo de mudar para Au Au Couto. Já não soava bem. O José Eduardo Agualusa, aqui, angolano, é quase silvicultor também, tem muito a ver com agronomia. Esteve também há um ano e meio no "Convidado Extra" para falar do "Mestre dos Batuques." Uma conversa muito gira. Aliás, se não me engano, lançado pelo Mia. Foi, não foi? Que escreve no prefácio: "De súbito, numa savana angolana, soldados europeus surgem mortos de forma absolutamente misteriosa. Não há sinal de violência, não há vestígio de crime." Isto é só para aguçar o apetite, para quererem ler, quem ainda não conhece, o "Mestre dos Batuques." Viajar para o José Eduardo Agualusa é a melhor forma de se inspirar. Vive em todo o lado em que respira, é um vício para ele. Ele diz que é um angolano em viagem, quase sem raça. Gosta do mar, de um céu sem fogo ao fim da tarde e quer morrer no mar aos 150 anos. Diz ele. Está quase lá, diz ele. Se for antes, morro sob protesto. Só me faz lembrar o Woody Allen, que dizia-

Mais uns anos.

150 estás a chegar lá. Então pronto, quer morrer aos 200? No mar. O Woody Allen que perguntaram: "O que acha da morte?" E ele: "Sou contra." Ok. A Tatiana Salem Levy é brasileira, é investigadora, é uma estreante no "Convidado Extra", é investigadora na Nova.

Eu te ensinei a falar meu nome direito no restaurante. Você falou errado.

Salem Levy.

Levy.

Levy. Agora já sei. Muito bem, escreveu este primeiro romance fantástico da "Chave de Casa" e ainda este romance ainda mais extraordinário, "A Vista Chinesa", que está aqui à venda, e que eu vos digo que me perturbou imenso. Há livros que nos perturbam, às vezes, muito. E este, como por exemplo, o ensaio sobre a "Segueira," é daqueles livros que perturba mesmo, e é sobre uma violação. Vale muito a pena ler, "Vista Chinesa." Está lá ao fundo, não percam. Já estão várias pessoas a comprar, eu estou a ver daqui. E é, de facto, uma escrita extraordinária, como ela consegue retratar toda esta questão, todo este problema. E temos muito a falar disto. Eu já vi e a Cristina Ferreira não está, portanto, posso falar à vontade. Escritores em viagens. Os três convidados, provavelmente, viajam mais dentro das palavras do que de avião propriamente dita. E para fugir a este clichê de viajar pela leitura, eu queria perceber um bocadinho o historial de viagens deles e pedia a cada um destacar uma viagem especial que tenha feito. E para não começar pela Tatiana Salem Levy.

Quase.

Eu até ao fim vou conseguir dizer bem?

Salem Levy.

Salem Levy. Vou começar exatamente pelo Agualusa, que nos vai falar um bocadinho da passagem tua, José Eduardo, pela Malásia, que eu sei que foi uma aventura. Tu ias para o encontro dos jovens ecologistas e foi uma aventura de descoberta em descoberta. Por que foi uma viagem tão especial à Malásia?

Olha, porque não tinha dinheiro.

Ah, pronto, aí é especial.

Foi há muito tempo, eu era muito jovem e não tinha dinheiro. E, portanto, as aventuras surgem exatamente naquelas viagens em que tu não tens condições nenhumas, não tens dinheiro. Foi bom porque conheci um personagem que depois eu tive que usar no "Vendedor de Passados," que é a Óska. É verdade!

É famosa a tua amizade com a Óska, conta a história. É famosa.

A Tatiana está a rir, mas é verdade.

Não vai ser possível fazer essa merda.

Real, além do livro, é a osga que eu conheci na Malásia, porque fui a este encontro de ecologistas e ficamos alojados em bungalows. Eu estava com um rapaz espanhol e, a meio da noite, acordamos com o som de uma gargalhada e pensamos que era algum outro colega a fazer uma partida. Acendemos as luzes, fomos à procura, não encontramos ninguém. Assim que voltamos pra cama, cada um na sua cama.

Eu vou repetir, cada um na sua cama, para ficar registrado.

Ouvimos outra vez aquela gargalhada e finalmente encontramos aquela osga na parede, rindo.

Que tinha este riso, não é? Extraordinário.

Isso eu usei no "Vivendo do Passado", muitos anos mais tarde.

O Mia Couto também diz que é um contrabandista entre a Europa, a África, o Ocidente e o Oriente. É um ser de fronteira, o Mia. Eu lembro-me sempre, Mia, daquela história. Tu já vais falar de uma viagem bonita que fizeste a Niassa há um tempo, há dois anos. Mas antes disso, eu lembro-me sempre de uma história que se passou contigo quando foste a Cuba, e estamos a falar há alguns anos, nos anos 80, se não me engano. 82, pra ser mais específico, com o Samora Machel. Ele ia na comitiva presidencial e foram a Cuba. Recebidos pelo Fidel Castro, se não me engano, na altura. E em Cuba, se não me engano, eles ofereceram presentes a toda a comitiva. E então, Mia Couto, tenho certeza que é uma mulher, deve ser africana, deve ser gorducha, deve usar aqueles turbantes e aqueles vestidos compridos, e deram-te um presente muito especial, que tinha o quê?

Eram vestidos, eram brincos, eram colares, etc.

Que ela usa até hoje.

Às escondidas.

Não.

De noite.

Mas aí você sabe que tudo presentes pra mulheres, nós ficávamos: "Desculpa, achávamos que era uma senhora". E aparece um loiro, olhos azuis, diferente de quem estava à espera. O Moçambique é um dos poucos moçambicanos completamente brancos, lá pra ir 230.

Na altura não era.

Na altura, não. Ok.

Não era branco com olhos azuis.

Mas há uma viagem a Niassa que fizeste há dois anos, que ias pesquisar pra um livro que estavas a escrever. E, de fato, tornou-se uma viagem a outro mundo. Por quê, Mia? O que é que foi tão especial?

Bom, na verdade, eu acho que o conceito que tenho pra mim próprio de viagem é viajar pra sair de mim. Há pessoas que dizem: "Fiz uma viagem extraordinária, fui à China", e se confunde essa deslocação no espaço com a ideia de viagem, porque viajar, pra mim, é viajar por pessoas, através dessa migração da minha própria identidade. Eu tinha esta ideia de ir a Niassa já. Não por causa do livro, mas para conhecer uma pessoa que me encantou e, pra dizer a verdade, já tão poucas pessoas me encantam neste mundo. Encantam-me as pessoas em geral, mas uma pessoa que tenha corpo, tenha nome, tenha uma identidade concreta. Conheci um tal Giuseppe Frisi, era um sacerdote que me mandou um e-mail do meio do nada, de Niassa, e eu procurei saber quem era. Este homem era um homem absolutamente extraordinário. Estava em Niassa há 50 anos, tinha 80 e tal anos. E ele, quando chegou a Niassa, disse: "Eu não quero falar macua, que é a língua local, eu quero ser um macua". E ele fez essa viagem, já que estamos a falar de viagem, e ele transformou-se num macua. E a prova disso é que os próprios macuas da região o reconheciam, olhavam-no como alguém que era próprio daquela região. Então este homem dormia no chão, deslocava-se com uma bicicleta, como toda a gente daquela área, e falava em macua. De manhã, fazia a missa na sua igreja, à noite participava na mesquita, na cerimônia religiosa dos muçulmanos, e à noite participava na cerimônia dos antepassados da região ancestral daquela zona. Portanto, ele promoveu essa viagem entre identidades religiosas e criou ali uma coisa extraordinária, porque eu estou a falar dele, já vou chegar ao assunto, mas só que eu sinto que tenho que celebrar esta pessoa, porque eu não sou religioso. Ou, pelo contrário, sou tão religioso que não tenho nenhuma religião, mas aquele personagem, pra mim, tinha o valor, o estatuto, a imagem que eu tenho de Cristo, que eu construo de Cristo, porque ele se entregou àquela missão de uma maneira total. Começa a guerra civil, a consulado diz: "Regresse, você não está em segurança". E ele diz: "Vocês não perceberam o que eu estou aqui a fazer. Eu estou aqui não por causa de vocês, eu estou aqui pelas pessoas com quem estou a trabalhar". E esse homem diz que ia voltar consigo a Maputo. Eu estou à espera dele no hotel onde ele deveria chegar e no hotel me informam que ele morreu no aeroporto de Lichinga, porque estava doente com Covid. E eu pensei: "Eu tenho que ir lá. Ele não chegou até Maputo, eu vou percorrer o lugar onde ele viveu". E só pra terminar, as igrejas onde ele trabalhou tinham todas uma espécie de ocupação de religiosidades diferentes, a religiosidade daquele lugar quase que comandava a arrumação, a arquitetura da igreja. E Cristo não estava numa cruz, porque a cruz é uma coisa morta, é uma coisa feita. Estava num galho d'árvore, descansando, um galho em formato de Y, descansando sobre uma coisa viva. E esses Cristos tinham seios de mulher, porque pra aquela comunidade, Deus é uma mulher, portanto, era a filha, e não o filho de Deus que estava ali. Portanto, foi uma viagem, pra mim, absolutamente extraordinária.

Incrível. Entretanto, o José Eduardo também hoje chegou, estamos a falar de literatura em viagem, mas a tua viagem de Lisboa, quase não chegavas.

Uma viagem épica.

Foi muito atabalhoada também.

Foi muito. Pensei que não chegasse.

Chegaste com saúde e ainda almoçaste.

Os lisboetas não me queriam deixar.

A Tatiana tem várias viagens também muito bonitas que fez, nomeadamente essas pelos desertos, por Machu Picchu, pelo Peru, pelo Chile, Patagónia. O que é que mais te fascinou neste fim do continente onde tu estiveste?

Foi uma viagem que eu fiz há muito tempo, eu tinha para aí uns 21 anos.

Então não foi há muito tempo.

Não. Há dois anos.

Há dois anos.

Eu tinha acabado de perder a minha mãe, a minha irmã estudava arquitetura e foi para um encontro de estudantes de arquitetura no Chile. E começou a namorar um chileno e voltou falando: "Acho que a gente está precisando de uma viagem, vamos para o Chile?" E eu nunca tinha pensado nisso, porque embora a gente faça parte da América Latina, os brasileiros quase não viajam pelo resto da América Latina. Então foi uma viagem completamente improvisada e fizemos o Chile inteiro, numa época em que eu nem tinha telemóvel ainda, muito menos telemóvel com internet. Eu acho que a viagem antes do telemóvel com internet, tinha uma definição completamente diferente da viagem hoje, porque a gente se perdia, porque a gente tinha que perguntar para as pessoas onde é que fica isso, indicação de um lugar para comer, tudo era muito mais ao acaso, o sabor do acaso. E a gente foi até o extremo sul do Chile, na Patagônia, onde a gente fez uma caminhada de cinco dias, que é uma paisagem realmente incrível. E tem uma coisa da comunidade das pessoas que estão viajando. Eram muitos latino-americanos viajando. E da Patagônia subimos até o deserto, mas sempre parando e às vezes de autocarro, às vezes das formas mais variadas de transporte, às vezes de avião também. Até o deserto do Chile, mas também o da Bolívia. Eu sou apaixonada por desertos e pelos desertos do Salar, que é lindíssimo. Eu tenho uma pancada por desertos e por ilhas. Eu acho que tem uma coisa de dar para a gente uma certa suspensão do mundo, uma certa suspensão do tempo. É uma coisa muito extraordinária esse sentimento de estar um pouco fora. E de lá seguimos para o Peru, onde fizemos a trilha Inca. Talvez eu tenha uma certa saudade da época em que eu fazia caminhadas. Mas tem essa coisa da viagem, da caminhada mesmo. De você caminhar durante dias. E eu acho que esse encontro com uma cultura que dialoga muito com a cultura brasileira. Então o brasileiro tem sempre uma coisa de ir para os Estados Unidos ou de ir para a Europa.

Exato.

Então essa viagem foi muito especial para mim, com essa primeira conexão, que depois chegaria também muito pela literatura, com o resto da América Latina.

Também falaste no deserto e nas ilhas. Eu sei que também tiveste uma viagem interessante à Ilha dos Lençóis. Isto tem a ver com os Lençóis Maranhenses, certo?

Não tem.

É separado?

Todo mundo confunde, mas é bem separado. É uma ilha onde se passa o meu próximo romance, que eu estou escrevendo.

O município de Cururupu.

Exatamente, é um projeto muito antigo.

Porque eu lembro-me dele.

É um projeto de 2011, 2012, é um livro que eu tentei escrever várias vezes e nunca consegui, e no intervalo ia escrevendo outros. Mas agora eu falei: "Não, é a vez" e agora está indo. Agora eu já tenho mais da metade. Mas que é uma história incrível dessa ilha, porque é uma ilha muito afastada de tudo, é muito difícil chegar lá, são dias de viagem naquela precariedade mesmo do estado mais pobre do Brasil. E é uma ilha onde vivem 300 pessoas que se dizem sebastianistas.

Há uma lenda que o Rei Dom Sebastião passou lá.

O Rei Dom Sebastião saiu de Alcácer-Quibir, entrou no barquinho com uma parte do exército, chegou lá, tinha um montinho de areia, fincou a espada, então emergiu a Ilha dos Lençóis e Dom Sebastião então encantou, significa que ele não morreu, ele ficou encantado, submerso. Então ele mora, hoje em dia, no Reino do Fundo, que é esse reino embaixo da ilha, onde ele se casou, tem filhas.

Não era um castelo? Tinha lá um castelo?

Tem um castelo, tem tudo isso. E diz a lenda que ele aparece de vez em quando em forma de touro, com uma estrela na testa, e no dia que se atingir esse touro, o Reino do Fundo sobe, São Luís, que também é uma ilha e que é a capital do Maranhão, afunda, e o reino de Dom Sebastião vira a nova capital do Maranhão.

Ok, espero já não estar cá. Deve ser assustador. Mas que ele está no Reino do Fundo, isso está. É extraordinário, uma ilha onde as pessoas acreditam que são sebastianistas. É incrível. Mia Couto, José Eduardo Agualusa, Tatiana Salem Levy. Temos de fazer aqui um breve intervalo e já voltamos à conversa. Estamos a conversar com Mia Couto, José Eduardo Agualusa e Tatiana Salem Levy, em pleno LEVE Literatura em Viagem, que celebra a sua 20ª edição, aqui na Casa da Arquitetura, em Matosinhos. Eu também perguntei aos nossos convidados a que destinos ainda gostavam de ir, porque era uma curiosidade que eu tinha. E José Eduardo Agualusa disse que gostava de visitar o Iémen.

É verdade.

É um dos meus sonhos também, curiosamente. E por que o Iémen? E é muito perigoso lá ir? Não se pode, não é?

Agora não, mas porque é muito diferente. Eu acho que o que me interessa viajar é encontrar a diferença. E o pouco que eu conheço do Iémen, que me fascina, tem a ver com essa arquitetura.

Aquela Shibam, a Manhattan do deserto, que é patrimônio mundial, tem prédios em lama com 10 andares, 11 andares. É impressionante, é muito bonito.

Tenho muita vontade de ir.

Mas, de fato, aquela política e aqueles terrorismos não deixam, às vezes, as pessoas desfrutarem. E o povo também queria lucrar com este intercâmbio, é muito difícil. Mas eu lembro que numa entrevista uma vez me disseste que gostavas muito de visitar o Delta do Okavango com o Mia Couto.

O Okavango também nunca fui. Com o Mia seria melhor, porque o Mia conhece tudo da biologia local. Eu já visitei várias vezes o Kruger.

Sim.

E é muito bom, porque ele conhece os leões pelo nome. Aquele é o Manuelzinho, aquele é o Joãozinho. Estão ali, quase.

É verdade, é muito bom.

Tem uma intimidade com as famílias dos leões e dos outros bichos todos. E, portanto, visitar o Okavango deve ser-

Seria um sonho. O Mia também conta essa história, que eu lembro, se não me engano, Mia, estavas num programa de televisão, talvez a gravar, com o vigilante do parque ao lado, e te ouvimos identificar os pássaros pelo canto.

Ah, sim.

Isto foi aonde? Também em Moçambique?

Isso tem a ver com a maneira como os moçambicanos têm a dificuldade de dizer não. E dizem qualquer coisa assim, por exemplo, eu chego a lugar, preciso saber se a maré está a subir ou está a descer. Se eu pergunto: "A maré está a subir?" Ele diz: "Está a subir, sim, senhor, mas já começou a descer há meia hora." Para quem tem que ter uma resposta clara.

Para dar o contexto.

Só para fechar a história que o João começou. Eu ia numa excursão biológica e estávamos à espera do especialista de pássaros, e o homem não veio. E olharam para mim, isso já foi há muito tempo, olharam para mim e disseram: "Tu és poeta, sabes de pássaros." E eu fui às 4:00 da manhã com um velho da aldeia para identificar os pássaros daquela região. E estava muito frio e aquilo era muito incômodo, eu com os calhamaços na mão, porque não sabia nada da matéria. O primeiro pássaro que eu ouvi por trás de uma árvore, eu disse: "Este pássaro, como é que se chama?" E o homem disse: "Não estou a ouvir um pássaro." Eu disse: "Sim, mas não, esse pássaro aqui, não está a ouvir?" "Ah, esse pássaro." Disse: "Esse pássaro. Esse pássaro aqui nós não chamamos bem pássaro, chamamos sapo."

É extraordinário, eu vi essa história, adorei.

Era só uma questão de investir.

Como é que vocês chamam o que é este? "Nós chamamos sapo." Achei extraordinário. Há uma coisa que o Mia diz, muito curiosa, que o destino que mais lhe apetece não é tanto lugares, mas pessoas. E que entre, por exemplo, o México e a Índia, gostavas de regressar, porque provavelmente quando visitaste foi uma coisa muito efêmera, muito rápida. Logo, o México e a Índia são muito diferentes. O que é que te atrai mais nesses dois países, que seja tão diferente assim?

Há ali uma vitalidade, uma efervescência, uma combinação de coisas que parecem impossíveis de conciliar, que me apaixonam. Eu fui numa viagem bastante turística, muito curta, mas chega um momento, por exemplo, na Índia, em que a gente percebe que não sabemos ver, não sabemos olhar. Só há uma coisa que nos pode salvar, que são as pessoas, digamos assim, porque os contrastes são de tal maneira chocantes, quase. Eu lembro-me que uma das vezes eu estava de tal maneira alterado com aquilo que estava a ver, porque a cidade tem uma arrumação completamente diversa daquilo que é a lógica que a gente espera de um espaço urbano. Então entrei num restaurante e as pessoas são muito simpáticas e eu andei ali como se fosse da família. E falando em inglês com eles, eu quis dizer uma coisa simpática, sendo tudo muito mal, porque eu disse, como vocês sabem, usa-se muito picante lá, muito piripiri. E eu disse: "Sabem que o piripiri não é originário da Índia, foram os portugueses é que trouxeram." E eles olharam para mim e de repente desataram uma risada geral e eu fui objeto da maior chacota do mundo. "Este homem está nos a dizer uma coisa que é absolutamente obscena. Como é que foram os portugueses que trouxeram o piripiri para aqui?" Estes encontros que eu tive, agora apetece-me que eu volte e tenha tempo e tenha a possibilidade de ir. São lugares que se tem que entrar pela mão de alguém que pertence ao lugar. Esses são os lugares que me apetece visitar.

E outro dia eu vi uma coisa, tive um convidado gourmet e crítico gastronômico, me disse outra coisa que é: o picante não é um sabor, é uma queimadura. Portanto, é uma reação da língua a uma coisa que queima.

Não diga isso nas-

Pois, não vou ainda dizer, mas de certeza. Tatiana, gostas muito de ilhas, mas há uma coisa que tu dizes: "As ilhas do Caribe, gostava de conhecer, porque nunca fui."

Nunca fui. Pois é, e não sei por que eu falei. Eu gostava de ir para lá, mas gostava de ir para muitos lugares. Mas eu acho que durante muito tempo eu viajei pelas pessoas, como o Mia fala, mas eu agora viajo muito pelaEu tenho muita vontade de viajar pela paisagem e pra ver menos pessoas, porque tem muita gente no mundo. A gente que mora em cidade grande, fica vendo gente o tempo todo. Então, eu acho que até essa minha paixão por ilhas e por deserto tem a ver com essa ideia de ver mais mar.

A Nova Zelândia também é um dos destinos que tu gostavas de conhecer. Aí só vê tu ovelhas, não é pessoas.

Não é. Tenho vontade de ver essas paisagens, aí Nova Zelândia mais, que foram pouco destruídas pelo ser humano. Eu tenho menos vontade, hoje em dia, de fazer as viagens que eu gostei muito, de museus, de exposições, de capitais europeias, e tenho mais vontade de me isolar do ser humano e conversar um pouco com outras espécies. E conversar com as montanhas, conversar com os rios, conversar com os animais um pouco mais. Eu acho que é uma experiência. Ouvir a Ósgga gargalhar.

A Ósgga, exato.

Em Lisboa.

Eu sei que ele vai agora pra Ilha de Moçambique.

Pois é, isso que eu ia falar. Esse é o meu próximo projeto, é visitar a casa do Zé na Ilha de Moçambique.

Mora numa casa linda de morrer, aliás, há uns anos, um palacete recuperado.

Palacete não é, mas

Uma casa apalhaçada, como dizia a outra na televisão. Na Ilha de Moçambique mesmo, que já a convidaste algumas vezes, também é um dos meus sonhos, porque é, de facto, aquela concentração de património. Mas já me disseram outro dia que como está agora não tem nada a ver com o que estava há 20 ou 30 anos. Hoje em dia está cuidado e é muito bonito de ver. Diz que há uns anos era demasiada solidão e demasiado decaimento, em pior estado.

Eu fui pra ilha pela primeira vez, mas já conhecia a ilha através da poesia. Mas fui à ilha pela primeira vez pra escrever "As Mulheres do Meu Pai", que é um romance que se passa em várias cidades da África Austral e termina na Ilha de Moçambique. Portanto, eu fiz aquela viagem e, naquela época, a ilha estava pior, de facto. Estava quase toda em ruína. E, entretanto, recuperou um pouco, mas continua muito abandonada.

Mas este teu "Os Vivos e os Outros", por exemplo, este livro, passa-se um bocadinho como se fosse na Ilha de Moçambique, os escritores que ficam confinados no meio.

É passado na Ilha de Moçambique.

Mesmo. Eu lembro disso, este livro tem seis anos. E tinhas este sonho, eu lembro disso, quando esse livro foi lançado, de fazer lá uma biblioteca pública. Isso é uma coisa que está a andar, querias instituir lá uma biblioteca.

Estou a convencer o Mia a comprar espaço. O problema, realmente, da ilha é o isolamento. Agora consegui convencer os portugueses, vão fazer uma biblioteca camoniana.

Ok. O Instituto Camões e tal, ligado a isso?

Viveu dois anos. Terá terminado de escrever "Os Lusíadas" na ilha, então realmente faria todo sentido. Existe até uma casa tombada que se diz que foi a casa onde viveu Luís de Camões. Mas como eu dizia, eu conheci a ilha primeiro através da poesia, porque foram muitos os poetas que nasceram na ilha, uns, outros viveram e, sobretudo, um grande número de poetas que escreveu sobre a ilha.

A Ilha, de qualquer modo, está ligada ao continente, tem uma ponte, não é?

Tem uma ponte muito comprida.

Comprida, está ligada. Esta ideia da literatura e também o ser viagem e obrigar-nos a sair de nós próprios, por exemplo, eu lembro que perguntei ao Mia a questão de alguns livros que o tenham deslocado para fora dele próprio, e ele deu duas ou três exemplos. Um deles foi, por exemplo, o livro do "Desassossego", que também é um dos seus livros preferidos. Tu também disseste que lês todos os dias ou quase.

É verdade.

E pro Mia também. Mia, este é, de facto, um dos livros, como o "Pedro Páramo", por exemplo, ou o "Grande Sertão: Veredas", do João Guimarães Rosa.

Era o que eu estava aqui pensando.

Tu estavas a pensar também nisso. Sim, ainda hoje ao almoço falámos disso. De facto, é um livro também que nos levam a sair de nós próprios. Escolheste um bocadinho porque são livros completamente marcantes na tua carreira também. O "Pedro Páramo", por exemplo, do Rulfo.

Absolutamente.

O mexicano.

Eu relia cada livro, quer dizer, se é que a gente pode chamar aquilo de ler. Eu não sei se aquele livro é um livro feito para ser lido. É um livro feito pra gente perceber que há uma outra maneira de construir uma linguagem. O objeto principal da minha atividade não é exatamente contar histórias, mas é encontrar formas de expressão que sejam inovadoras, que tenham outra maneira de abordar a relação com o mundo. Então acho que o "Pedro Páramo" é absolutamente uma obra-prima.

Este livro mágico que mistura a vida e os mortos e o romance e o poder.

Esse livro é considerado o fundador do realismo mágico. Mas ainda ontem eu estava a ouvir uma entrevista com um estudioso, não um brasileiro, já não me recordo quem, que defendia uma ideia que eu já defendo há muito tempo, que é: o Brasil antecipou-se, porque o Jorge Amado já fazia realismo mágico antes do Juan Rulfo.

Do Juan Rulfo. E do García Márquez e esses todos, que também promoveram.

Exatamente, baseando-se na mitologia africana.

Há este "Esa Juás", é assim que se diz, Mia?

"Esa Juás".

Da Argentina, Sara Gallardo.

Sim, é muito pouco conhecido. Não sei se está traduzido em português.

E que é sobre um indígena.

Não está traduzido em português, foi publicado no Brasil. Sim.

E que é sobre este indígena. A história deste índio.

Sim, que encontra um fulano branco e acha que ele é enviado por Deus e acha que ele tem que o salvar. Portanto, há uma espécie de inversão do papel de quem é que vai salvar quem. Mas, mais uma vez, não é a história que interessa, mas é a forma absolutamente fantástica como ela constrói uma linguagem que é dela, que é única, é isso que me interessa.

Tenho que fazer uma pergunta, vou começar pela Tatiana. Tatiana, se te proibissem de viajar a partir de agora, ou se tivesses que ficar confinada dois, três, quatro ou cinco anos, como por exemplo na pandemia aconteceu, não poder viajar, assustavas-te muito com isso? Isso te faria falta pra tua escrita? Ou, pelo contrário, agradecias ter ficado centrada num sítio?

Não, me assustaria muito não poder ir ao Brasil, que é a minha casa, onde estão as minhas pessoas.

E neste momento estás a morar em Lisboa, certo? Estás lá em residência.

Eu moro em Lisboa há 13 anos. Eu falei que é a minha casa, mas não é a minha casa em Lisboa.

Eu nasci em Lisboa.

Nasceu, mas nasceu porque os pais estavam cá exilados, digamos assim. Foi um acidente de percurso.

Sim, mas por conta disso também sou brasileira e portuguesa desde o primeiro dia. Para mim entraria em pânico se eu não pudesse ver meus sobrinhos, minha irmã, as pessoas. Mas de resto, não. Eu acho que, de fato, a literatura, por mais clichê que isso seja, nos faz viajar por lugares, por pessoas e por linguagens. Pensando no "Grande Sertão: Veredas", que você falou, que talvez seja o grande livro da minha vida, eu acho que é uma experiência. Eu não consigo imaginar o que seja ser português e ler "Grande Sertão: Veredas", deve ser muito diferente. Você ser qualquer outra coisa que não brasileiro e ler "Grande Sertão: Veredas", eu não sei como é que é essa experiência, porque é todo um contorcionismo com a linguagem e esse mergulho mesmo por essa travessia do Sertão de Minas e ao mesmo tempo que reconfigura isso tudo. Ao mesmo tempo, trabalhando com uma tradição literária, trabalhando com a questão do diabo, e tem todo um lado romanesco muito forte, de mistério, etc. Eu poderia perfeitamente ficar quatro, cinco anos sem viajar se eu tivesse perto das pessoas que eu amo e fazendo o que eu faço, que é lendo e escrevendo. E eu acho mesmo que a viagem, hoje em dia, para mim, de forma geral, não é a mesma coisa. Ela perdeu uma certa graça. Para mim, faz sentido. O Agualusa me chamou para ir pra casa dele na ilha. Aí faz sentido. Mas de resto, você chega nos lugares e de fato, os lugares estão muito parecidos. E eu odeio aeroporto, avião, etc. A idade vai chegando, os 25 estão logo ali.

Verdade.

Eu poderia perfeitamente.

Perdeu um bocadinho aquele misticismo da viagem, que era uma coisa que se preparava com tempo.

Exatamente.

Era uma coisa muito recorrente.

Você não sabia muito como é que ia ser, pra onde mesmo você ia. Você ia decidindo no lugar. Algumas viagens que eu fiz que era assim: "Gostei daqui, vou ficar aqui". Aí, de repente, você descobre que tem um outro lugar pra esquerda e você ia pra direita.

E não para.

Mas eu acho que o confinamento, não, mas quando as viagens foram interrompidas durante a pandemia, até fez um certo bem pro planeta.

Sim.

Lisboa também ficou bem mais agradável.

Respirou um bocadinho naquela altura. É verdade, uma das poucas coisas boas.

É porque eu adoro viajar, mas o turismo é uma praga. O turismo é diferente.

É porque há essa coisa do viajar, como por exemplo, teres que ir a feiras ou festivais, é uma coisa. E outra coisa é viajar como viajante, como vou para um deserto ou vou passear pra conhecer uma paisagem diferente, uma coisa gira no interior da China, faz de conta. Isso é diferente, e esse viajar aí já faz mais sentido pra um escritor, por exemplo.

Claro.

Pra conhecer.

Pra um escritor ou pra qualquer um.

Sempre pra qualquer um. Devia ser assim, obviamente. Tu escreves muito, consegues escrever em aeroportos e hotéis. Tu viajas muito mesmo, José Eduardo.

Estou como a Tatiana, também cada vez tenho menos vontade de viajar. Até porque agora tenho o meu palácio, como tu sabes. Apetece ficar no meu palácio.

Apetece ficar lá. No sítio lindo.

Mas temos que escrever, não temos alternativa. E os quartos de hotéis, devo dizer que são bons espaços pra escrever, que são uma espécie de bolhas.

Não é?

E a pessoa fica ali. Ainda agora vou pra um quarto de hotel daqui a pouco com o Mia.

Em cama separada.

Vamos pro Alentejo escrever daqui a uns dias.

Mas em camas diferentes. A viagem de autocarro que vocês vão é essa, não? Uma viagem com escritores que vai acontecer.

Não.

É outra coisa.

É um projeto nosso.

Às vezes tu tens que escrever que é remédio, não estás mal com isso.

Os aviões mais ou menos. Quer dizer, se a pessoa viaja em executiva, como é o caso do Mia, já é mais fácil. Agora, viajando em teladinho.

Com os joelhos no pescoço.

É um pouco difícil de escrever e com os vizinhos olharem pra aquilo que você está a escrever, não é muito agradável. Mas viajando em executiva, como o Mia, a coisa é outra. Aí pode-se escrever, e eu gosto de escrever, até porque temos bastante: "Olhe, quer uma coca-cola?" O que não acontece em casa.

Exatamente.

Em casa ninguém nos traz coca-cola.

Exatamente. Não te perguntam em casa chá, café ou laranjada.

Ainda bem que ninguém te leva coca-cola.

Ninguém me traz nada. E a paisagem, ainda por cima, é bonita, da janela do avião.

Exatamente.

Mas nos aeroportos, sim, se a pessoa consegue um lugar pra escrever, escreve, é uma maneira de sair dali.

Exatamente.

É uma maneira de sair dali. Eu acho que quando nós estamos realmente a escrever muito dentro do livro, conseguimos escrever em qualquer lado. Aquilo está dentro de nós.

Absorve-se.

É uma exigência. É uma urgência. A pessoa escreve em estado de urgência, então escreve em qualquer lugar.

Tu como é contigo, Mia? Consegues, hotéis, aeroportos e simpatia é tranquilo quando tens que acabar um texto, um livro?

Tu perguntaste à Tatiana se proibissem de viajar, eu adorava que me proibissem de viajar. Não estou a falar de barriga cheia, mas, na verdade, a viagem tornou-se uma coisa muito cansativa. No aeroporto não consigo, mas eu entro no avião, eu acho que eu tenho um medo profundo, que não confesso nem a mim próprio, de viajar de avião. Então eu entro no avião e as histórias começam a surgir. Eu acabo um caderno inteiro com histórias, com ideias, resolvo problemas que são bloqueios do texto, porque exatamente como disse o Zé, eu não quero estar ali, é uma maneira de eu fugir daquele lugar, de escapar daquele lugar. E, portanto, a melhor parte da viagem para mim é essa em que estou a sofrer, porque eu não durmo no avião, porque penso arrogantemente que sou eu que estou a conduzir o avião e se eu estiver a dormir, aquilo não vai funcionar.

Nos aeroportos não consegue escrever porque de minuto a minuto tem alguém que senta ao lado dele.

Ah, e pede selfies.

Para pedir coisas. Sempre a pedir coisas. Mas é verdade isso, ainda agora viajamos juntos no aeroporto de Maputo e é impossível estar com o Mia, andar na rua com ele.

Nem eu consigo.

Vou começar aqui com a Tatiana. Já te aconteceu de alguma viagem teres cruzado com alguém que tu pensaste, ou uma paisagem, ou um lugar: "Isto só por si é um livro, eu vou aproveitar isto". Ou conhecer alguém que disseste: "Vai ser uma personagem de um livro meu, esta pessoa".

Eu fui trazendo para os meus livros muito das minhas viagens. Teve uma viagem que eu fiz por Marrocos também, nesse esquema de antigamente, da juventude, em que eu fui para o Saara e conversei muito com alguns berberes e teve um deles que eu fiquei mais próxima, ouvi mais as histórias, que me contou uma história que me impressionou muito na altura, que ele era apaixonado por uma menina, meio Romeu e Julieta, mas as famílias não queriam que casassem. A família dela não permitia, de jeito nenhum. Então ela se jogou num poço e se matou. E ele contou aquilo com uma tristeza. E era uma pessoa jovem, era alguém que devia ter 20 e poucos anos. Aquilo devia ter acontecido não tinha muito tempo. E quando eu escrevi "A Chave de Casa", que é o meu primeiro romance, eu trouxe essa história para o livro como sendo parte da história da família da personagem. Tem muito da experiência. Eu trabalho muito com as minhas experiências. Esse romance da "Ilha dos Lençóis" é fruto de uma viagem para a Ilha dos Lençóis. O "Dois Rios", que é o meu segundo romance, também é fruto de uma viagem para Córciga e para Ilha Grande, no Brasil. Então eu diria que muitos dos meus livros nascem pela imagem de um lugar, por uma paisagem. E muitas dessas paisagens são de lugares, muitas vezes de ilhas ou de desertos.

Ia perguntar também isso ao José Eduardo, essa questão de chegares a um sítio, uma paisagem, que tu dizes: "Isto vai ser o cenário de um livro ou esta pessoa". Tu diz que quem mora em Angola acontece isso a toda hora. Chovem-te as histórias, vais de elevador com alguém e ficas com uma história para contar. Isto acontece muito, não é? As pessoas têm isto.

Sim, acontece. Em Angola, em Moçambique também. Quer dizer, na rua. Por isso é que também é bom eu falar com as pessoas na rua, porque de fato, cada pessoa que vem ter conosco tem uma história e as histórias dessas pessoas são quase sempre muito melhores do que aquelas que nós conseguimos imaginar. Então, sim, acontece o tempo todo.

E entregam-te essas histórias para seres tu a contá-las.

Não, às vezes não é nem com essa intenção, a pessoa simplesmente nem sabe que eu sou escritor, mas começa a contar uma história, a história da sua vida, alguma coisa que se passou. E basta estar atento. Vivendo agora onde eu estou, na ilha de Moçambique, ou de cada vez que vou a Luanda, basta estar disponível, atento para colher aquelas pessoas e aquelas histórias.

Tu andas com um caderninho ou uma coisa assim para tomar nota, ou o telemóvel, ou qualquer coisa? Para tomares umas notas.

Atendo uns caderninhos, mas hoje, realmente, o telemóvel é a coisa mais prática. Porque a gente não precisa nem de escrever.

Sim, pode ditar.

Dita. É o que eu faço hoje. Até porque se não faço, esqueço logo imediatamente. Então tenho que fazer.

Mas isso é porque já passou dos 30.

Já tenho.

Pouquinho.

Tu sabes, vou te contar uma história horrível que estava pensando agora, que às vezes mesmo nos aviões as pessoas vêm ter conosco. E numa dessas últimas viagens que fiz, veio um comissário de bordo ter comigo e dizer: "Olha, eu também sou escritor, até queria que você visse aqui algumas coisas que eu tenho". Eu disse: "Com certeza". E ele disse: "Não, vou lhe mostrar, eu costumo ler para a minha filha que tem sete anos". E eu disse: "Olha, que engraçado, porque eu também tenho uma filha que tem sete anos". E ele ficou-me direito e disse: "Que horror". Eu disse: "Que horror?" Ele disse: "Coitadinha, já não a vai ver crescer".

Que horror!

E eu levei um pouco tempo para recuperar. "Mas olhe que a minha mãe tem 103 anos".

Se eu chegar à idade da minha mãe, a minha filha já terá uma certa idade.

Exato. Mas não foi contigo que aconteceu, já te fizeram proposta de casamento num aeroporto? Alguém que chegou e que queria casar contigo?

Tatiana.

Era tu, Tatiana?

Eu tenho um cartão postal que guardo até hoje, que é uma coisa assim: "Você quer casar comigo?" Aí tem a opção sim, não. E o Agualusa marcou sim e assinou. E está lá guardado.

O que a gente fica sabendo dessas-

Não me lembro disso, a sério. Pode ser, mas não me lembro. É por isso que eu tenho que apontar.

Pois. A mesma pergunta, Mia, este cruzamento entre as pessoas que se cruzam contigo e te dão histórias, acontece de encontrar as pessoas que dizem: "Ele vai estar no meu próximo livro, ou ela vai estar no próximo livro." Tu, de fato, tens uns personagens extraordinários.

Tem razão. Eu acho que um país como Moçambique, não falo de Angola porque não conheço tão bem, mas é difícil não ser escritor. Porque as pessoas que nos encontram na rua, e é preciso dizer que os escritores em Moçambique são realmente até estranhamente respeitados. Porque as pessoas param, pelo menos a mim param, mas param os outros também. Ainda há bocadinho estava aqui um escritor que teve que sair há pouco, o Eduardo Kief, que está aqui a lançar um livro. As pessoas param o escritor na rua para lhe dar um recado, para dizer assim: "Olha, eu tenho uma história, escreva lá essa história". Portanto, de repente, eles oferecem como se fosse uma flor, como se fosse uma dádiva qualquer. Eu tenho uma história do Zé, que pouco tempo depois de chegar à ilha. Tu não vais dizer que não é verdade.

Disclaimer. Isto é verdade.

E o presidente da Câmara da Ilha.

Não contes essa história.

Não queres que eu conte?

Isto está sendo gravado.

É um podcast.

Ele já não é o mesmo presidente da Câmara. Não, não era o presidente da Câmara, era uma outra pessoa.

Era uma força viva local.

Uma pessoa ilustre. Vinha cumprimentar o Zé, reconhecendo, etc. E o Zé olhou pra ele e pensou: "Não sei quem será esta pessoa". E disse: "Não, agora não". Pensou que o homem lhe queria vender alguma coisa. E disse: "Não, agora não".

Já vem.

E o homem atrás do Zé: "Mas olha, senhor Zé Agualusa". Ele disse: "Não, eu não tenho nada". Finalmente, pra se ver livre do homem, deu-lhe umas moedas.

Muito bom.

Essa história é boa.

Não é verdade.

Não é?

Não. Mas em vez de contares isto como se fosse o Zé, diz outro nome, a Cristina Ferreira.

Exatamente. Ele próprio. Eu presto comigo.

Exatamente.

Então como se não é que o Zé guardo, vou contar como se tivesse passado com ele.

Essa é extraordinária, mas de fato é uma história boa. Parece a minha mãe que recebe aquelas pessoas que vão à porta em Lisboa pedindo. Uma vez eram duas velhinhas e então minha mãe: "Quem é?" E responderam: "Somos as Irmãzinhas de São José". E minha mãe: "Mas que bem conservadas". Era uma comunidade.

Percebe de onde é que vem o sentido de humor.

Muito bem. Hoje viaja-se demasiado, como já disse a Tatiana, quer dizer, há muitas viagens. Tens essa noção que se viaja demais ou nunca se viajou mesmo o suficiente?

No geral, você está falando? Eu acho que se viaja demais e de menos no sentido da qualidade da viagem, porque é isso, as pessoas não estão abertas a ouvir as histórias dos outros. E eu estava aqui ouvindo o Zé e o Mia e pensando que essas coisas, no Brasil, isso também acontece muito, não é só em Angola e Moçambique, claro, das pessoas contarem as histórias. E realmente muitas histórias chegam até mim. E eu acho que é isso, é uma disponibilidade de ouvir. Então o escritor, antes de ser aquele que escreve, é aquele que lê e aquele que ouve. E eu acho que hoje as pessoas têm cada vez menos disponibilidade pra ouvir, porque estão na tela do telemóvel. Inclusive a quantidade de pessoas que têm vindo morar em Portugal, pessoas de outras línguas que se recusam a aprender português, que não fazem o mínimo esforço pra ouvir as histórias dos portugueses, é uma coisa que me assusta, porque você está aqui, mas podia estar em qualquer outro lugar. Na verdade, está no cafezinho trendy.

Igual em todo mundo.

Igual em todo mundo. Então mesmo a experiência de viver fora, essa experiência também já perdeu muito do seu sentido, porque se você não se relaciona com as pessoas do lugar, não aprende outra língua, não ouve as histórias, na verdade, você continua dentro de si mesmo. É como você ter um livro fechado. Então o livro só se realiza quando você lê o livro.

Claro.

Eu realmente concordo com a Tatiana. Eu acho que está começando a ficar impossível viajar, porque o mundo está a ficar todo igual e porque aquilo que é a viagem, que é essa procura pelo outro, pela surpresa.

Está a desaparecer ou está a diminuir muito. Mia, como é que é? Estamos a viajar muito ou ainda falta viajar muito?

Eu concordo, mas é preciso ter aqui uma ressalva. Eu acho que talvez a maior parte das pessoas no mundo não tenham saído do seu próprio lugar. Nós estamos a falar de uma certa camada de pessoas, mas se olhar pra um país como o meu, eu fui aos Estados Unidos algumas vezesE aqueles estados mais interiores, que a gente chama os Estados Unidos mais profundos, nunca saíram do seu lugar, não querem sair, não têm nenhuma ideia do que é o mundo, e isso explica um pouco o que está acontecendo nos Estados Unidos da América. Essa ausência de vontade de sair do seu próprio ser um outro. Não sei se isso pode ser generalizado assim. A um certo nível, sim, mas a outro nível, não. Há outro mundo que está por outro.

Mas é um pouco o contrário disso, que é tu vais, tu, Mia Couto, vais viajar e viajar é isso, é tentar encontrar o outro e encontras o mesmo. Entendes? É aquela mesma pessoa que estava.

O que vocês dizem está certo. Mas o que eu estava a dizer é que é preciso pensar, há uma outra dimensão desta situação.

Sim, as duas dimensões estão. E essas pessoas que também não saem dos Estados Unidos da América, por exemplo, mas não só, também são as mesmas que não abrem um livro. No geral, não viajam de maneira nenhuma.

Vivem na sua bolha e ali querem ficar, e estão bem. É verdade. Não abrem horizontes.

E se puderem matar o resto do mundo, também.

Na verdade, a maior parte desses turistas que vão nessas viagens que são feitas em pacote, eles vão na sua bolha e voltam. Eles não foram a lugar nenhum.

Também, é a mesma coisa. Provavelmente, também não leem.

Provavelmente, também não leem. Há uma última pergunta que eu gostava de fazer a cada um, que tem a ver só com isto. Imaginando que eu não conhecia, Tatiana, vou começar por ti, não conhecia a tua obra, o que é mentira, eu gosto muito. Tem que ver as coisas dela, quem não conhece. São extraordinárias. Espero que esgotem, não tenho nenhuma comissão. Espero que esgotem lá o fundo. São extraordinários como ela escreve, é uma coisa única. Mas alguém que não conheça a tua obra de modo nenhum, que livro é que tu recomendarias como uma viagem? Alguém que precisasse de viajar contigo, algum livro teu que seja uma espécie de passaporte, que livro tu recomendarias teu, para essa pessoa começar a conhecer a tua escrita, que tenha a ver com uma viagem, com uma saída, com o ambiente.

É difícil essa pergunta, recomendar um livro próprio.

Era mais fácil se perguntasses para mim.

Ah, também pode ser. Tu e ela recomendaria um livro teu?

É mais fácil.

Será? Não vem cavar cal.

Pode ser.

Mas isso é giro.

Eu já conheço a Tatiana há 50 anos.

De duas vidas atrás.

Há 50 anos ela ainda era um óvulo, por amor de Deus.

E assisti à Tatiana crescendo como escritora, afinando-se, crescendo como escritora. E há várias maneiras de viajar. Uma delas é viajar para o coração do outro. E nesse sentido, o livro que tu falaste, "A Vista Chinesa", talvez eu recomendasse. Foi um livro que eu resisti muito a ler, porque a Tatiana tenho que ler por obrigação. Sou obrigado a ler ainda que não queira.

Que maldoso.

É verdade, porque os amigos a gente tem que ler os livros.

Sim.

E àquele livro eu resisti muito, porque eu conhecia a história. Era a história de uma violação, conhecia a pessoa, e aquilo eu resistia, não queria. Vai ser duro. E depois é uma coisa extraordinária que talvez só uma brasileira conseguisse fazer, e em particular a Tatiana, porque sendo um livro sobre uma tragédia, uma coisa horrorosa, porque é uma descrição muito explícita de uma violação. É um livro que consegue ser divertido, consegue resgatar, porque ela acaba resgatando até o sexo e a alegria do sexo. E faz isso de uma maneira prodigiosa, de fato. Extraordinária. Eu adorei o livro por isso, porque estava à espera, agora vou ser esmagado por este livro, e a pessoa é esmagada pelo livro, mas depois é resgatada. É incrível isso que tu conseguiste fazer.

É engraçado, que é exatamente isso, é curioso.

Obrigada.

É verdade, é bom. Repito, não tenho comissão.

Eu tenho.

Recomenda um livro dele, se te lembrares de algum.

Deixa eu ver. Bom, o Aguinaldo tem uma obra bastante extensa, tem vários livros que eu adoro, escolher um é difícil, mas "O Vendedor de Passados".

Desde que não digas "A Jangada de Pedra".

Nem "Ensaio sobre a Cegueira".

Exato. Não, mas "O Vendedor de Passados" é uma boa ideia.

É, mas tem um outro livro um pouco mais recente dele, que eu gosto muito, que é o "Teoria Geral do Esquecimento". Eu amo aquele livro.

"A Teoria Geral do Esquecimento". Aquela mulher que mora naquele apartamento lá em cima.

Você discorda disso?

Eu concordo.

Você concorda? Eu amo aquele livro.

Já são dois votos.

Mia Couto já respondeu da parte dela. Era um bom livro para falar da obra do José Eduardo.

"As Mulheres do Meu Pai" também. Eu acho que é um livro que-- mas é porque depois tem a subjetividade de cada um. Então "A Teoria Geral do Esquecimento" me tocou em particular.

É de fato extraordinário.

Agora, "O Vendedor de Passados", o personagem dele depois vira personagem do "Oração para Desaparecer", que é um livro da Socorro Acioli, que é uma escritora brasileira que também é publicada aqui. E agora, esse último livro dele, eu também roubei um personagem para esse livro "Dos Lençóis".

Está tudo ligado.

É, eu te falei.

Outra vez o Félix Ventura?

O Félix Ventura não.

O outro.

O personagem, já me esqueci o nome.

De qual? Do "Vendedor de Passados"?

Não, do último.

Ah, do último. Sim, do último, o "Tudo Sobre Deus".

Isso.

O geólogo, o poeta.

Isso, exatamente.

Ele não se lembra.

Veio parar no meu livro.

Está a pagar o preço dele.

Nem ele lembra, nem eu lembro. E eu roubei pro meu livro.

Maravilha, fico super feliz. Com a Socorro Acioli, "O Vendedor de Passados" está começando a vender agora por causa dela. Porque a Socorro teve um sucesso enorme no Brasil, acho que já passou de 200 mil exemplares.

Então, mas por que você acha que eu estou...

Exatamente. Agora é assim que eu vou vendendo um pouquinho ali, um pouquinho aqui.

José Eduardo, um livro do Mia que sejaO livro que tu recomendarias para quem não conhece a obra do Mia, que é muito difícil o Mia.

Teria geral do esquecimento.

É o que nos vai atingir a todos com a idade.

Ele escreveu sob heterônimo. É difícil, porque o Mia fez uma coisa absolutamente extraordinária que poucos escritores conseguem fazer. O Mia começou a escrever com um estilo muito particular. Nós conhecemo-nos porque eu escrevi sobre o primeiro livro de contos dele para o Expresso, na altura eu escrevia para o Expresso, e o Mia gostou daquela recensão e pediu a uma amiga que nos apresentasse, uma amiga comum, e foi assim que nos conhecemos. Até hoje tenho uma foto desse dia. E eu lembro-me que aquele primeiro livro de contos para mim foi uma coisa, eu lembro-me disso.

Uma descoberta.

Uma descoberta.

Uma epifania.

Sim, foi como ler pela primeira vez o Borges ou o García Márquez.

Incrível.

Foi uma coisa muito forte mesmo. Recomendo os primeiros livros de contos, se vocês quiserem, e depois recomendo os outros para verem um outro Mia, quer dizer, como um escritor se pode transformar.

Exato. São 40 livros.

"Histórias abençonhadas"? É desse que está falando?

O primeiro é- "Voz anoitecida". "A voz anoitecida", exatamente. Mas "A voz anoitecida", "Histórias abençonhadas", todos aqueles primeiros livros de contos.

"Histórias abençonhadas", eu adoro esses títulos do Mia.

E depois os últimos livros. "A Cegueira do Rio" é um livro absolutamente extraordinário. É uma outra escrita, é um outro escritor já. E é um livro de uma densidade. Na verdade, a pessoa tem que ler várias vezes e de cada vez vai descobrindo alguma coisa. Eu acho que o Mia ganhou em densidade e mantendo o humor, porque o humor mantém-se, mas ganhou densidade, realmente, muito.

Eu acho que todos temos muita sorte de ter estado aqui hoje a falar com vocês três. Mas eu quero agradecer já, em primeiro lugar e em público, que eu viajei imenso com vocês nesta conversa. Foi maravilhoso ter estes convidados, três escritores, três geografias, uma língua, e a prova, de facto, que talvez a melhor forma de viajar seja ainda ouvir e, sobretudo, ler. Quero agradecer muito a vocês três, Mia Couto, José Eduardo e Tatiana Salem Levy.

Salem Levy.

Melhorou.

Quero agradecer muito à Câmara Municipal de Matosinhos, claro que sim, e à The Book Company. E claro, agradecer a presença de todos os que estão aqui presentes e que vieram, fizeram o esforço de vir até aqui neste dia ensolarado. E, sobretudo, às pessoas também que nos ouvem através do "Convidado Extra". Bem-hajam a todos. Muito obrigado por esta tarde.