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Hoje falamos de passado comum entre Portugal e Angola, das raízes e memórias que insistimos em apagar. Que figuras proeminentes de africanos ou seus descendentes na história de Portugal são reconhecidos pelos portugueses? O Marquês de Pombal, por exemplo, seria mesmo quinto neto de uma escrava? Quantos autores de língua portuguesa e origem banto são referenciados pelos acadêmicos portugueses? João Ricardo Rodrigues, fotógrafo ou, como ele gosta de dizer, construtor de imagens e editor, vem nos falar da exposição "Bobacanga Mutuuzela - Em Kibundu, aqui é proibido falar", que está patente no Museu Nacional de Arte Antiga até o fim do mês e que evoca com filmes e fotografias encenadas a presença das culturas africanas em Lisboa desde o século XVI. Aliás, desde o século XV. Para o João Ricardo, é tempo de estabelecer pontes para um sincero reencontro cultural entre África e Europa. Eu sei que a exposição se chama "Aqui é proibido falar", mas estamos na Rádio Observador e por isso hoje, aqui e agora, é obrigatório falar. Olá, João Ricardo. E bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo ao Observador. É muito curioso, porque tu tens uma editora, a Perfil Criativo, aqui em Lisboa, em Alvalade, bem perto do Observador, e em Angola também, a Alende Edições, também em Alvalade, o bairro de Alvalade em Luanda.

Exatamente.

Tu gostas do bairro, já vamos falar muito do Mocambo, mas Alvalade é para ti uma sina, não é um trabalho.

É muito interessante este ponto de comunhão entre as duas cidades. Tem a ver com a história em comum. E é muito interessante porque mesmo na arquitetura, tanto Alvalade, Lisboa, como Alvalade de Luanda são muito próximas. Portanto, a única coisa que muda são as pessoas e a temperatura, porque de resto é como se estivéssemos em casa.

É muito engraçado, porque tu nasceste num sítio completamente poético. Tu nasceste ao largo da Ilha de Santa Helena, numa língua de terra que penetra no mar, que há muito tempo é conhecida por Catumbela das Ostras ou Olupitu. É assim que se diz?

Hoje em dia é conhecido por Lobito.

Olupitu é que deu Lobito?

Exatamente.

Que era o passadiço das caravanas de Benguela. É impressionante este sítio, não pode ser mais romântico.

A África tem dessas imagens que são imagens históricas que nos ficam na memória, que estão na memória e que são lindíssimas.

Tu és uma pessoa que junta esta parte da construção das imagens e da fotografia, a tua licenciatura em Fotografia e Cultura Visual, com a parte do desenho e da pintura, sobretudo da pintura flamenga, que tu gostas muito, e isso tem a ver com a exposição que está neste momento patente na Sala dos Passos Perdidos, no Museu Nacional de Arte Antiga. És editor em Angola, nesta então Alende, onde já faz alguns anos, mais de 80 autores que tu publicas, como por exemplo, esta nova geração de poetas de Angola, e uma obra que foi muito importante, uma edição já do ano passado chamada "Angola, desde antes da sua criação pelos portugueses até ao êxodo destes para nossa criação". Portanto, é uma monumental história de Angola em dois volumes, três?

Três volumes.

Três volumes grossos, grandes.

2200 páginas.

Impressionante, de um professor, doutor Carlos Mariano Manuel, ele é professor de catedrático de Patologia e investigador de História. Uma obra que foi apresentada aqui em Lisboa, no Padrão dos Descobrimentos.

Correto.

E que há pouco tempo teve uma distinção muito importante para ti também.

No passado dia 8 de janeiro.

Dia da Cultura Nacional Angolana.

Angolana. O Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente certificou o nosso trabalho, um trabalho independente, e é a primeira grande obra organizada e publicada nestes 46 anos de independência do país, por um investigador que nasceu em Angola, viveu sempre em Angola, trabalhou sempre em Angola e que traz informações que são muito relevantes, como por exemplo, o segundo volume, que trata a Conferência de Berlim para África, que é um marco importantíssimo na história do continente e que não existia até hoje nenhuma publicação em língua portuguesa tão completa como este trabalho.

Tu disseste que é uma obra independente e não é a somenos. Qual é a liberdade de se editar em Angola? Isto é quase, eu ia dizer, uma lança em África, mas é um plenário neste caso.

Angola é um país muito recente, é um país em construção e é um país que passou já situações muito complicadas e, portanto, tem na sua organização económica muitas debilidades que também se revelam na edição de livros. Eu penso que hoje não há o problema de publicar em termos de censura, isso não existe. O que existe, sim, é a ausência de editores devidamente organizados que possam revelar realmente personalidades que estão escondidas ou apagadas e que devem ser mostradas ao público.

E divulgadas.

Divulgadas. Queria só também chamar aqui um ponto que é extremamente interessante, que é: Angola tem 30 milhões de pessoas, mas tem tantos leitores como Cabo Verde, cerca de 300 leitores habituais, o que é muito pouco.

Trezentos?

Trezentos. O que é muito pouco e é preciso mudar as coisas. E os livros têm essa função que para o país encontrar soluções no futuro, deve apostar na publicação de livros. A nossa contribuição junto da República de Angola é exatamente nesse sentido.

É curioso, porque tem um bocadinho a ver contigo, esta tua missão que tu tens, João, eu sinto isso, João Ricardo, de promover também. Tu pontuas isso. Quantos escritores da língua banto, das línguas banto, no fundo estás a incluir também os cabo-verdianos e os moçambicanos.

Não, Cabo Verde não. Sim, Cabo Verde pode ser, mas Cabo Verde não pertence ao grupo banto.

Só os subsaarianos de África para baixo. Moçambique, Angola e, pelo menos, que tenham a ver conosco, esses dois mais próximos. Mas tu também editas escritores de Cabo Verde, de Guiné.

Sim, de Cabo Verde, sim, mas maioritariamente de Angola. Este grande grupo banto, já agora só para ajudar os nossos ouvintes a entenderem um bocadinho melhor. Este grupo banto é um grande grupo étnico e linguístico da África, da zona central da África. Eles vêm originalmente da zona dos Camarões.

Eu tinha ideia que era tudo subsaariano para baixo, tudo.

Muito perto da Nigéria. E depois houve uma circulação para leste.

Até às Etiópias.

E para sul. Sendo que há uma zona da África do Sul que não chega a ser ocupada por este grupo. Mas esta gente, por exemplo, na região de Angola, não são aquilo que podemos chamar os donos da terra. Esse é um outro grupo, que é o grupo Kung, que está lá há 14 mil anos. Aquilo que eu coloco quando eu falo aqui do grupo banto, é também para quando falamos de África e dos africanos, percebermos que há gente muito diferente e para além dos países, a sua própria organização étnica é muito diversa.

E assim também nós quando autores de língua portuguesa e origem banto são então referenciados pelos nossos académicos, os autores africanos queixam-se também do desinteresse dos agentes culturais portugueses, estás sempre a dizer isso. Quando falamos de Angola, pensamos logo no Pepetela, no Água Luza, no Ondjaki, no Luandino Vieira, o João Melo, alguns deles. Em Moçambique, Mia Couto é óbvio, Paulina Chiziane, João Paulo Borges, Cravirinha. Cabo Verde, se calhar, o José Manuel Almeida e o Mário Lúcio. Temos assim uns nomes. De vez em quando, alguns destes nomes tu também publicas ou preocupas-te mais com os poetas e os autores que ainda não são cá referenciados.

Exatamente.

É essa a tua missão, porque os outros já têm editoras.

Esses são, e muita dessa gente tem uma proximidade com a cultura portuguesa muito forte.

São quase da casa também.

São da casa. Aquilo que eu trago de novidade para o mercado português é realmente um conjunto de gente que é desconhecida. Muitos são os tais banto e, portanto, todos esses que referiu não são totalmente banto, têm uma mistura de banto, mas também têm uma mistura de luso. São os luso e banto. Há aqui uma mistura cultural em quase todos eles, dessas referências. Alguns até nem têm nenhuma ligação com os banto. Aquilo que eu trago são realmente o grupo banto, que é o grupo maioritário, neste caso, de Angola, e portanto, são pessoas e culturas diferentes.

Muito bem, João Ricardo, tu tens aqui em Lisboa esta editora, a Perfil Criativo, responsável por todos os livros publicados desde 2015. És o responsável por esses livros, onde se destaca uma coleção de quatro volumes sobre a história do jornalismo de agência. Depois tens vários livros técnicos de marketing e depois, claro, os autores, já falámos disso, de Angola, Brasil, Cabo Verde, Espanha, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor. Tu organizas uma série de encontros sempre que podes e debates com autores africanos, normalmente angolanos, em vários locais em Lisboa, que já aconteceram. Tens alguns livros de fotografia editados e entre as várias posições que tens, tens esta, por exemplo, Revelar o Meu Bairro. No Dia de África, houve um cruzamento no centro do bairro africano da Cova da Moura, na Amadora, isto em 2015. Isso também tem a ver com esta exposição que vamos falar já, porque foi mais ou menos na altura em que houve aquele desaguisado lá na esquadra de Alfageme, onde houve uns cinco miúdos que foram acusados de entrar para destruir a esquadra, para fazer conflitos ali na esquadra de Alfageme, de intervenção, grupo de intervenção, e depois acabaram por ser baleados e houve ali uma certa confusão e tu desconfiaste logo que aquela história não estava bem contada. Foste lá saber.

Para já, o mais interessante é que a Cova da Moura é eventualmente o único bairro africano na Europa. E, portanto, no seguimento de outros bairros que existiram aqui em Portugal, entre eles o Mocambo, que vamos falar mais à frente. A Cova da Moura é um pequenino Mocambo.

Mas tu próprio foste lá saber.

Fui lá.

Quero que me contes essa história verdadeira, porque não acredito que isso tenha acontecido. Tu próprio foste indagar o que é que teria acontecido naquele dia, nesse 5 de fevereiro.

De 2015.

Exatamente. No dia a seguir ao famoso 4 de fevereiro, que nos reporta também àqueles conflitos em Luanda.

Isso há 60 anos. Isso é o que nós vamos encontrar no Museu Nacional de Arte Antiga. É realmente essa ligação, a partir deste trabalho fotográfico em que eu Convidei os jovens que foram intervenientes nesta situação.

Aqui estamos a falar do Rui, do Miguel, do Flávio, do Paulo e do Celso.

Exatamente. E convidei-os para trabalharmos em conjunto uma imagem.

Encenar uma foto.

Encenar uma imagem de como eles são vistos relativamente à sua negritude e ao preconceito relativamente à pele negra e à cultura africana.

São imagens muito fortes.

E então construímos uma imagem a partir do conceito do Picasso.

Guernica, estamos aqui a falar da guerra.

Guernica, que Picasso assiste, na República Espanhola, a uma situação de bombardeamento da cidade de Guernica. Não fica indiferente. Vai construir um grande mural que apresenta na exposição em Paris, no mesmo ano. E foi esse exercício que eu fiz, que foi: eu assisti, no fundo, assistimos todos a estes acontecimentos. Eu fui investigar para saber o que se passava, porque a história não me convenceu. E em conjunto produzimos uma imagem que representa estes jovens da forma como nós os vemos. E isso é que é a questão que se coloca: como é que a sociedade olha para estas pessoas?

Cinco jovens desta esquadra, que a notícia dizia que tinham ido atacar esta esquadra do Corpo de Intervenção Rápida em Alfragide.

Temos que também colocar isto no seu devido contexto. Estamos a falar de que houve um conjunto de atentados, entre eles ao Charlie Hebdo, em Paris, e as polícias estavam muito nervosas, toda a gente estava muito nervosa, mas a verdade é que a esquadra de Alfragide é uma esquadra com características militares, quase, e seria muito estranho que um grupo de jovens, simples jovens.

"Bobakana Mutumbuzela: Aqui é Proibido Falar." É a primeira vez que há um título de uma exposição em quimbundo. Quer dizer, foi um first que tu fizeste aqui.

É muito importante, porque as línguas africanas foram proibidas. Foram proibidas, pois, por exemplo, o Marquês de Pombal proibiu um livro religioso, a doutrina católica, que estava em bilingue, português e quimbundo, e proibiu o quimbundo, porque o Estado tinha medo do que as pessoas poderiam falar nestas línguas e não tinha controle.

É até importante falar disso, porque o Museu de Arte Antiga também foi criado, inaugurado em 1884, ali no Palácio dos Condes de Alvor, coladinho ao Mocambo, é a atual Madragoa. O próprio Mocambo, que quer dizer em ubundo "pequena aldeia" ou "lugar de refúgio", é a mesma coisa que quilombo também. Quilombo era o tal "sítio dos negros".

É próximo. E em quimbundo também existe a palavra, quer dizer bocado, e é essa a ideia de espaço.

E é incrível, porque este era um bairro, criado por Álvaro Álvares Reza, e estamos a falar em 1593, era o segundo dos seis bairros de Lisboa e abrangia a Estrela, Santa Catarina e Santos Velho, toda a zona do Chiado. Quando foi depois reformulado mais à frente, em 1742, chegava até Oeiras, Algés e Barcarena. Era impressionante, era um bairro gigantesco. Mas também havia homens livres e havia escravos, não era só de escravos.

Essa é uma pergunta que tem que ser feita muito aos historiadores. Eu, no campo da arte, aquilo que eu fiz foi recolher algumas informações que os historiadores têm apresentado nos seus estudos, e a partir daí começarmos a trabalhar de uma forma livre em termos de imaginarmos como seria realmente a história e como seria esse espaço.

A história nessa altura diz que também era um território monástico e palaciano, realmente é lá ainda o Convento das Bernardas.

Estamos a falar de um território fora de muralhas, a cidade era um espaço muito pequeno.

Intramuros.

Exatamente, era muito pequeno. E depois temos este bairro cá fora, que seria eventualmente, e agora entramos aqui nas suposições, quase um musseque.

Como em Luanda.

Como eu descobri quando cheguei a Portugal, porque aqui em Lisboa existiam os bairros de lata, existiam imensos bairros de lata. Os mais novos hoje não reconhecem isso na cidade.

Mesmo dentro. Aquela zona junto ao Alvalade, Alcântara.

Exatamente. A cidade era um enorme musseque.

É engraçado, porque o terremoto destrói Lisboa, esta Lisboa intra-muros, mas preserva o Mocambo. Então a aristocracia muda-se para lá, a começar pela Lapa, e aquilo começa a ser uma zona fina.

Exatamente.

E depois, no século XIX, foi renomeado então Madragoa. Em 1880, ainda tu falas nisso neste catálogo. Catálogo, entretanto, esta exposição está lindíssimo, fica aqui já este convite às pessoas. O último relato das grandes festas africanas que havia lá, porque era lá, por exemplo, que estava sediada a Dona Melanie I, rainha do Congo, com a sua comitiva. Portanto, faziam-se grandes festas africanas no bairro do Mocambo. É engraçado, tu trazes esta, e tu achas que a Cova da Moura é um pouco uma réstia, talvez, do que seria?

Exatamente. E por isso é que é muito importante, porque Portugal muitas vezes olha para estas questões com algum preconceito, mas deveria olhar para este pequeno bairro como uma relíquia, como algo que deveria ser preservado.

Infelizmente, não é assim. É muito mal visto muitas vezes, há muito preconceito.

Há outras questões que levam também a que isso aconteça, as questões económicas e outras. Mas é um bairro com uma identidade muito própria e única, portanto deve ser preservado nesse sentido.

É preciso dizer que esta exposição parte de um projeto teu chamado "Revelar a Memória a Partir dos Esquecimentos".

Exatamente.

Uma coisa que tu já começaste há 10 anos, em 2010, há 12 anos, que é um ensaio visual sobre o século XVIII português e o seu passado ultramarino. É um projeto em construção, inclui fotografias de grandes formatos e filme. Aproxima-se à pintura antiga, tem umas encenações completamente cinematográficas, muito curiosas. Vale a pena ir a esta sala dos Paços Perdidos da Arte Antiga para ver isto. A Arte Antiga também tem este movimento curioso de aproximação à arte contemporânea. É mais um exemplo que está ali naquele sítio, uma coisa feita em cinema a sério, que estas tuas fotografias têm adereços e caracterização, guarda-roupa, é filmado em palácios e fotografado em palácios. Isto é como se fosse um grande filme num frame.

Exatamente, o conceito é esse.

Conta-nos uma história com uma imagem.

Muitas histórias apenas com uma imagem. Mas estamos a falar que esta imagem não é uma construção simples. Por exemplo, o quadro do Marquês de Pombal demorou três anos a construir. São projetos inviáveis no nosso tempo, porque o modelo que nós temos não nos permite fazer exercícios desses.

E falamos do Marquês, porque o Marquês aqui também está ligado a uma suposta ascendência de uma escrava.

Sim, vou só referir aqui as questões técnicas do modelo de trabalho apresentado.

Alta qualidade, é preciso dizer.

Estamos a falar de fotografia em película. A maior parte dos trabalhos são em grandes películas. É o grande formato, a câmara é aquela câmara que nós víamos no século XIX.

Uma caixa e um fole.

Exatamente, com um fole. É mesmo assim. E depois tem uma película muito grande. E todo o exercício é um exercício muito técnico, muito à base da imaginação.

Vê-se profundidade nas fotografias.

E depois o resultado final é muito surpreendente, porque as pessoas não ficam indiferentes. E no suporte final, porque as imagens são muito próximas da pintura, foi utilizado um suporte muito moderno em termos de aplicação das imagens, em que elas parecem que estão suspensas no ar. Foi este princípio. Esta é a parte técnica de construção.

Muito apurada, de uma qualidade extraordinária.

Estamos a falar da utilização de atores, de intervenientes em situações graves.

Exatamente, os próprios protagonistas daquilo. Daquele do dia seguinte, como tu chamas.

E muitas pessoas que participaram neste projeto.

Figurantes, há atores, há figurantes.

É muita gente.

Maquilhadoras, aquilo tudo envolvido. Depois é engraçado, tens o making of e também passa um filme em loop.

Para as pessoas perceberem que um frame demorou três anos. Três anos para fazer um frame.

É impressionante. Muito bom. Os cenários também, se for buscar, que é muito curioso, o Palácio do Marquês de Pombal, curiosamente, porque isto tem muito a ver com ele. Por quê?

O Marquês de Pombal é uma personagem que divide a sociedade portuguesa.

Antes de tu dizeres isso, deixa-me só dizer uma coisa. É engraçado, porque aqui o tema é, e vais já desenvolver, a questão de quantas pessoas a gente sabe, protagonistas da nossa história, que tenham a ver com raízes ou com descendentes africanos e vice-versa. Nós temos ligações a eles e eles a nós, e vamos celebrar isso, procurar isso, investigar isso. Muitas vezes tu dizes, ficou esquecido ou apagado, ou são memórias que se fragmentaram, que se perderam. Vamos reviver isso, porque isso é importante, é uma cultura que para os dois lados é importante. O Marquês de Pombal, ias a dizer.

Nós estamos a falar de uma relação de 500 anos.

Exato. Rica para os dois lados.

Nesta relação de 500 anos, e aqui é preciso agradecer ao Museu Nacional de Arte Antiga e elevar a sua coragem pelo exercício que fizeram, que foi: eles próprios identificaram que havia uma falha nas coleções que tinham. E esta oportunidade de termos esta exposição, dá a possibilidade de repensar esta relação.

No teu catálogo está muito giro isso, que é que tu dizes? A questão da invisibilidade histórica e portanto leva a uma invisibilidade iconográfica.

Claro.

A gente vai procurar o negro nas coleções de pintura flamenga, ou é o Rei Mago, como tu dizes, ou é os anões da corte, ou era escravos. É raro aquele caso, por exemplo, da Rua de Nova dos Mercadores, os "Chefes de Isabel Rei", que tem aquela pintura quinhentista, que tem um cavaleiro da Ordem de Santiago que é negro, a cavalo. Está belíssimo.

Nós trazemos aqui o Marquês de Pombal.

Pronto, agora fala do Marquês.

Não sendo um negro, é um mestiço e tem essa mistura de pessoas.

Seria descendente da própria rainha Ginga, é isso? Ou de uma escrava do tempo?

A ideia é essa. Nós apresentamos o Marquês de Pombal como Sebastião José de Carvalho e Melo, primeiro Conde de Oeiras, Marquês de Pombal, estadista e quinto neto da rainha Ginga. A rainha Ginga aqui era uma rainha com muito prestígio na Europa. E era normal nas tertúlias, o Bocage fez isso, que acabavam quase todas à estalada, mas ele tratava os mestiços como netos da rainha Ginga.

Portanto, era uma coisa satírica.

Satírica.

Houve um soneto que circulou na altura.

Eu descobri em 2010 um texto do professor Filipe Zau.

Atual ministro.

Atual ministro da Cultura, no jornal de Angola, das minhas idas a Luanda.

Onde falava do...

Deste quinto neto da rainha Ginga. E é extraordinário que eu vou buscar essa informação com um soneto da altura, na altura em que o Marquês cai em desgraça.

Em 1781, por aí.

E que refere essa parte.

Essa ascendência.

Essa ascendência. Mas aqui o mais importante é que Os portugueses não têm esta consciência, mas esquecem-se que muitos povos passaram por aqui. Muita gente diferente ao longo dos séculos e muito antes da própria construção do país. Muita gente do Norte África passou por este território. Portanto, aconselho vivamente a quem se interessa por estas coisas e quer descobrir um pouco mais de si, a fazer um teste de DNA, porque vai ficar surpreendido.

Falamos desta Rainha Ginga, também uma referência importante nesta exposição. Ela era rainha do Reino do Dongo, uma região de Angola, antes de haver Angola. Ainda não havia Angola, ela já era a rainha daquilo tudo. Estamos a falar em 1500, o fim do século XVI. Ela reinou 37 anos, depois batizou-se. O próprio Agualusa contou a vida dela. Uma vida extraordinária. Depois ficou Ana de Sousa, quando se batizou, Nzinga Mbande, como ela se chamava, foi uma importante estratega militar e política durante a presença portuguesa nas regiões correspondentes à atual Angola. E depois há este texto do Filipe Zau, Ministro da Cultura, Turismo e Ambiente, que também está aqui no teu catálogo. É preciso dizer que eu sei que ficaste contente agora porque esta exposição recebeu este diploma de mérito, foi esta obra sobre a história de Angola que tu editaste, falámos disso.

E que foi apresentada na inauguração da exposição.

Em 22 de outubro passado.

Exatamente.

João Ricardo, pode a arte mudar o mundo mesmo ou não?

Eu penso que falta muito humanismo nas nossas sociedades e as artes têm um papel muito importante, apesar de muito pouca arte estar a mobilizar as pessoas para essa transformação do mundo. E, portanto, é preciso trabalhar.

É muito engraçado porque tu procuras esta aproximação, e isso é muito giro, porque esta exposição, além de nos deliciar, a vida empurra-nos para muito longe, como tu dizes, que esta exposição seja uma ilha de encontro. E acho que tu consegues trazer África e Angola, mais concretamente, para o meio de Lisboa e para a nossa cultura, de novo, outra vez. Nunca é de menos fazer isso e se caso devia haver o contraponto também, obviamente, mas que não é por assinaturas de tratados e por grandes reuniões de CPLP, se calhar, também se faz por estas edições, por estas exposições, por debater estes assuntos, dar a conhecer estas pessoas.

É muito pouco conhecida esta presença angolana em Lisboa. Lisboa é um porto de abrigo ao longo dos séculos de muita gente, ainda hoje é, gente que não se revê na organização do país e que por motivos profissionais ou políticos passa aqui por Lisboa. No século XV, Lisboa, como nós falámos, um grande bairro com o nome angolano. E tudo isso são índices que nos dão uma identidade de Lisboa muito pouco conhecida e é preciso trabalhar isto a vários níveis, porque esta relação entre Europa e África está muito distante e é preciso aproximá-la. Porque a relação entre Portugal e, neste caso, com Angola e com o antigo Reino do Congo, antes da existência da colónia de Angola e do país Angola, é muito antiga. É muito pouco conhecida, por exemplo, a relação entre os reis do Congo e o rei de Portugal, que eram considerados irmãos, porque eram reis cristãos, eram reis destemidos, de guerra, de força e, portanto, de combate, reconhecidos pelo Papa e tinham aqui uma relação de irmandade. A história de Portugal é refletida em coisas boas e em coisas más e em situações que numa altura são de uma forma e noutra altura são completamente diferentes. O caso, por exemplo, que nós falámos da censura das línguas africanas, a Dona Maria, que vem a seguir ao Marquês, vai realmente promover isso. E, por exemplo, em Angola, a Dona Maria é uma figura muito próxima, muito estimada. Há tantas histórias que são tão contraditórias da nossa própria identidade e da nossa própria história e não são publicadas, não são conhecidas, e há um grande trabalho para fazer. Já agora, uma questão, porque a exposição também fala sobre isso, fala sobre um tema muito difícil que é a escravatura, que Portugal não devia ter medo de falar sobre este tema. E, por exemplo, soube hoje de um trabalho de um investigador brasileiro, que nós vamos apresentar um outro trabalho sobre as questões económicas aqui em Alvalade, na Biblioteca dos Crochés, na próxima quinta-feira. Mas ele está a trabalhar uma informação sobre todas as personalidades que estiveram contra a escravatura no tempo da escravatura. Isto é muito interessante, porque nós temos a ideia de que era toda a favor. Não é verdade. Os que utilizavam eventualmente a escravatura nem era a totalidade da população. E a população de Lagos, quando recebe os primeiros escravos, fica indignada, porque não se revia. Isto é muito interessante.

Não estava o mercado de escravos.

Não estava o mercado de escravos. E ninguém fala sobre estas questões.

Muito importante. Este aproximar e essas investigações são muito importantes. A questão do Henrique Dias, por exemplo, foi este destaque que nós fizemos também nas redes do Observador, que eu não fazia ideia, é um importante chefe também militar.

E já agora, porque nós também falámos aqui na apresentação deste livro da história de Angola, falámos da Batalha de Ambuela, que esteve integrada na Primeira Guerra Mundial entre os lusos e os batávios, entre os portugueses e os holandeses, em todo o mundo, na América, África e Ásia. Isto também não é reconhecido pelos portugueses.

E cá está, o Henrique Dias que aparece.

E o Henrique Dias é um grande comandante, filho de escravos. Morre nobre, reconhecido como um grande combatente, um grande general e é uma figura de pele preta.

Muito bem. Nós, como se diz na nossa terra, nós estamos juntos.

Estamos juntos.

Exatamente. Um grande candando pra ti.

Candando, exatamente, muito bem.

Nós não temos tempo para mais, mas quero te agradecer, João Ricardo Rodrigues Banhais, pela tua disponibilidade em vir aqui ao Observador. Oxalá continues esta tua missão de aproximar portugueses e angolanos para que esta memória não se apague. E a si que nos ouve, já sabe, fica este convite, se ainda não foi, para visitar esta incrível exposição, Boba Kana Mutu Vuzela: Aqui é Proibido Falar, em Ubuntu. Está patente na Sala dos Passos Perdidos do Museu Nacional de Arte Antiga, até ao fim do mês, de terça a domingo, das 10:00 às 18:00. Muito obrigado, João, e até breve.

Um abraço e muito obrigado à Rádio Observador.

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