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Uma das coisas que nós aprendemos é que há muitos casais que procuram a terapia de casal, não para ficarem juntos, mas para terem uma separação saudável. Portanto, há muitas formas de procurar a terapia e a terapia de casal. Até para casais que aparentemente se dão bem, podem simplesmente procurar a terapia como um ginásio da relação.

O ator e encenador Ricardo Vaz Trindade fala de "Dueto/Duelo", uma peça em que contracena com Rita Bruto sobre um casal à beira da ruptura, que passa o seu relacionamento a pente fino à mesa num restaurante elegante, enquanto atua um combo de jazz ao vivo. O tema, no fundo, são as relações amorosas do século XXI. A peça, uma espécie de musical desromântico sobre o desamor, é afinal um emocionante conto contemporâneo construído com base num texto original de Eduardo Brito e Joana Bértholo, que declara o fim da máxima "felizes para sempre", num mundo onde o ideal do amor romântico cede ao hiperindividualismo, aos múltiplos estímulos e às infinitas possibilidades da sociedade global. E aí, como é que isso está de amores? Olá, Ricardo, e bem-hajas por ter aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, João Paulo, muito obrigado.

É um grande prazer estar aqui a falar contigo. Tu és coimbrão.

Sou coimbrão, conimbricense ou coimbrinha.

Tu não és coimbrinha. Com 1,92 m, a última coisa que tu és, é um coimbrinha. E gostas de rádio? Tu gostas de rádio, não gostas? Já trabalhaste.

Eu andei muito perto da rádio. Tenho muitos amigos que andavam na RUC. Eu era um grande utilizador da Associação Académica de Coimbra, porque andava no CITAC, que era um grupo de teatro universitário, e no andar de cima ficava a RUC e grande parte dos meus amigos andavam na RUC. E eu comecei a ir também a alguns programas, primeiro de humor, depois uns programas de cinema, e fazíamos spots, fazíamos noites de gravações de spots, aquilo era muito divertido. E fiz grandes amigos, que ainda mantenho, à custa da rádio.

Interessante, o teu estudo é curioso, é em arquitetura. Tu chegaste a exercer esta profissão de arquiteto. Na tua vida, o que fazes hoje em dia? Tu és encenador, és ator, és dramaturgo, és músico. O que é que te ficou da arquitetura nesta vida? Esta coisa de sonhar com projetos, por exemplo?

Sim, na verdade. Eu às vezes penso mesmo nisso. O que é que a arquitetura terá influenciado na minha carreira como ator e encenador? Eu diria mais como encenador. E há uma coisa que me vem sempre à cabeça, que é a ideia de projeto.

É mesmo isso?

Sim. Ou seja, nós em arquitetura treinamos muito esta capacidade de viver dentro de coisas que ainda não estão feitas.

Imaginar coisas, mundos.

Imaginar mundos, espaços que ainda não estão feitos. E isso dá muito jeito para quem quer encenar, para quem quer construir espetáculos. E sobretudo nesta lógica contemporânea, que a DGARTES nos obriga, e isto não é propriamente uma crítica, porque eu ainda não imaginei outra, mas que é a lógica dos concursos em que temos que imaginar projetos no papel, temos que concorrer, fazer concursos, candidaturas, para recebermos apoios para fazer os nossos espetáculos. Muitas vezes estamos mesmo a imaginar coisas que não existem de todo.

Exatamente.

Neste caso, por exemplo, do "Dueto/Duelo" não era bem o caso. Já havia algum trabalho quando fomos para a primeira candidatura, mas mesmo assim há muita coisa que é inventada diretamente ali nos formulários de candidatura.

Esta peça esteve no Bota, na semana passada, e vai estar agora no Teatro do Bairro, na rua Luxuriana, aliás, rua onde nasceu o Observador há 11 anos, ali no Bairro Alto. Mas já vinha de 2024.

Já vinha de 2024.

Quando estreou em Coimbra, no Convenção Freire.

Não. Desculpa. A peça vem de 2022.

Ah, ok.

Eu vou contar o processo.

Sim, exatamente. Mas já com todo o diálogo?

Não.

Ou foi muito adaptado?

Foi sendo mudado. Porque o que é que aconteceu? Eu já faço este tipo de espetáculos, ou seja, com textos originais, tento fazê-los já há alguns anos, e aquilo que eu vou sentindo que preciso mais é de tempo. Não é fácil escrever um texto e eu estou interessado em escrever textos. Eu gostava de lhes chamar políticos, mas isso pode induzir em erro. Textos operativos, que operam sobre um tema qualquer.

Um tema que te incomoda?

Um tema que me incomoda, normalmente. Parte de mim, qualquer ansiedade minha.

Este, por exemplo, é muito baseado na tua experiência de divórcio.

Sim, exatamente.

Inspirado nisso.

Mas não é de todo um espetáculo sobre o meu divórcio. Uma coisa que eu faço muito rapidamente é tentar reunir equipas de pessoas que me ajudem a pensar e nomeadamente especialistas.

Tu gostas muito dessa parte da criação coletiva, é muito engraçado que fizeram isto.

Gosto.

Fizeste isto, tinhas um amigo teu que convidaste, depois convidaram um escritor, o Eduardo Brito.

Então, a primeira pessoa com quem falei foi Eduardo Brito. "Eduardo, tenho um sonho, quero fazer um musical sobre um divórcio." E ele: "Altamente, vamos sentar, vamos conversar." Estivemos três dias ou quatro numa réstia de uma residência artística que eu tinha no Espaço do Tempo e falámos muito e a primeira coisa que decidimos foi que tínhamos que trazer uma voz feminina para a escrita. Não fazia sentido.

Para não haver problemas de género.

Exatamente. Estamos a falar de um casal. Temos que ter uma voz feminina. Por subjetiva que seja, é só uma, não representa a voz de todas.

E escolheram a Joana Bértholo, tua amiga.

Sim, amiga.

Grande escritora.

Com quem já também trabalhei em projetos anteriores. E o Eduardo nunca tinha trabalhado com ela e acho que foi uma belíssima aquisição. Eles entenderam-se muito bem e pelo que sei, até aquela dupla voltou a funcionar noutro projeto ou voltará a funcionar e desejo-lhes muita sorte, porque acho que eles operaram muito bem.

E tu, como estavas a dizer, gostas muito dos especialistas. E aqui entram

Sim.

A terceira força.

Mas o Eduardo e a Joana também são especialistas na escrita de dramaturgia. E com o texto deles, nós fizemos uma primeira versão do espetáculo, essa em 2022. Mas nós ainda não tínhamos dinheiro para acabar o espetáculo. Eu tinha ganho um pequeno apoio, que me permitia fazer um pequeno espetáculo, work in progress, sem cenário.

Mas aqui já tinha o combo do jazz a atuar, já com música ao vivo e era no restaurante.

Só tinha o Vasco Pimentel, que é o pianista, e o Miguel Sobral Curado, que era o baterista. O contrabaixista ainda não estava. Era uma coisa muito simples. E depois, numa segunda fase, eu achei que devíamos trazer outro tipo de especialistas. Tenho uma grande amiga, que é a Edite Queiroz, que trabalha na Ordem dos Psicólogos, e que é psicóloga, também dá consultas e é uma pessoa que está com um pé dentro da academia, ou da investigação, e outro pé dentro da prática. E conhece muita gente, também por trabalhar na Ordem dos Psicólogos, e pedi-lhe para ser ela a escolher uma equipa de psicólogos para trabalhar conosco. E ela escolheu a Luana Cunha Ferreira e o Anda Vieira Lopes, que foram duas pessoas essenciais para uma segunda camada, uma segunda demão.

Três especialistas em terapia de casal.

Em terapia de casal, sim.

E tem esta coisa extraordinária que vocês acabam este espetáculo, já vamos falar dele detalhadamente, ainda quero ir à tua vida e à tua carreira, mas eles próprios entram depois numas conversas que vocês fazem, umas mesas redondas, depois de cada espetáculo.

Não é depois de cada espetáculo. Tentamos levar uma mesa redonda a cada sítio a que vamos.

Sobre conjugalidade.

Sobre conjugalidade. Nós vamos fazer uma mesa redonda depois do espetáculo no dia cinco, no sábado.

Lá mesmo no Teatro do Bairro. Funciona lá, não é? Sentam os psicólogos à frente.

Sim, acho que vamos usar o palco.

E o público depois, é uma espécie de consulta ao vivo.

O Vasco Pimentel uma vez assistiu, creio que em Santarém, à mesa redonda depois do espetáculo e disse: "Isto é o outro espetáculo."

É tão bom como o espetáculo.

E é, porque aprende-se muito. Eu já tinha experimentado terapia de casal e já fiz terapia também. Nunca fiz muita, porque também é uma prática um bocadinho cara, mas eu fiquei muito espantado.

Ok.

E sensibilizado com a quantidade de poder de transformação que está nas mãos dos terapeutas de casal.

É extraordinário.

É extraordinário.

E tenho a filha que é terapeuta familiar, é psicóloga, que depois tirou essa especialização na Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar. Ajudam as pessoas, de facto, com ferramentas que nós não fazemos ideia. Não é só amem-se, respeitem-se, cedam uns aos outros.

Pode ser muito transformador.

Têm jogos, roleplays e coisas. Aquilo funciona.

Só às vezes. O facto de nós encontrarmos nomes para coisas que para nós não têm nome.

Exato.

São simplesmente vulgaridades lá de casa.

Eles estudaram aquilo a fundo.

De repente, há um nome, aquilo encaixa numa definição, num conceito, e de repente tudo faz sentido.

Exatamente.

E só o facto de fazer sentido tem um poder transformador gigante. Portanto, recomendo vivamente a quem precisa e mesmo a quem não precisa. É muito engraçado, uma das coisas que nós aprendemos é que há muitos casais que procuram a terapia de casal, não para ficarem juntos, mas para terem uma separação saudável. Há muitas formas de procurar a terapia e a terapia de casal. Até para casais que aparentemente se dão bem. Podem simplesmente procurar a terapia como um ginásio da relação.

Eu já aqui tive também, Ricardo, um psiquiatra especialista também em casais, o José Gama e ele disse: "Só procuram-me casais", porque era especialista em casais, "em crise?" Ele disse: "Não, o curioso é isso. É que há pessoas que está tudo a correr bem, mas sabem que nós, psiquiatras, conseguimos analisar essas relações e conseguimos dar umas ideias e ajudá-los." São as histórias, realmente, eles aprendem isso, estudam isso a fundo. Não é preciso estar uma grande crise, quase a divorciar, para a pessoa recorrer a um amigo que tem umas dicas sobre uma boa suplementação do teu casamento. É muito curioso. As pessoas também não é necessário estarem nesses fins de relação para recorrerem. E, de facto, estes três amigos conseguiram fazer um bom acompanhamento.

Estes nossos psicólogos, obviamente, num tempo muito reduzido, cada conversa destas fala sobre muitos temas que dariam horas de conversa, mas eles numa hora e pouco conseguem levantar o véu do que pode ser o potencial transformador da terapia de casal.

Muito engraçado. Então é assim, tu já tinhas falado da parte da arquitetura. Estudaste então no CITAC, tinhas dito, trabalhaste com o Pedro Frias, o Nuno Cardoso, imensa gente extraordinária. Foste um dos escolhidos para aquele laboratório de escrita para teatro do Dona Maria II, com o Rui Pina Coelho, e escreveste este texto. Trazes a promessa de voltar ao lugar de partida, que levaste à cena. Foste bolseiro da Gulbenkian, e com isso estiveste em Nova Iorque.

Estive em Nova Iorque.

Foi importante estar lá fora.

Foi uma experiência muito importante para mim, porque eu tinha feito um workshop com esta companhia em Portugal.

The Team.

Eles vieram a Portugal, The Team, e tinha gostado muito. Eles trabalham naquilo que em inglês se chama devising.

É o quê? Método de devising.

É criação coletiva, no fundo. É uma palavra em inglês que designa a criação coletiva através de exercícios de improvisação. Gostei muito, fiquei muito impactado com o trabalho deles e quando soube destas bolsas da Gulbenkian, contactei-os e perguntei-lhes se eles me deixavam ir trabalhar com eles. E assim aconteceu. E foi uma experiência muito transformadora, realmente, porque vem daí toda a aprendizagem que fiz e toda a vontade de fazer espetáculos originais, com textos originais, sobre temas que me dizem alguma coisa, que nos dizem a todos alguma coisa. E eles realmente têm um trabalho muito interessante. Inclusivamente, eu vou os seguindo através das redes sociais.

Instagram.

Dos e-mails, das newsletters deles. É muito engraçado que eles quase que se transformaram num grupo ativista. Os Estados Unidos estão a passar por momentos.

Qualquer pessoa que tenha cabeça, hoje em dia, é um ativista nos Estados Unidos.

Sim, é verdade.

É impossível não ser.

E eles, obviamente, estão numa faixa da sociedade que trabalha com franjas, com pessoas racializadas.

Faixas de marginalidade.

Há quase mais ativismo do que teatro naquele grupo. Mas na altura ainda não era tanto assim e eu segui um espetáculo que eles estavam a fazer.

Já foi há uma década. Tu deves ter andado aí aos 25.

Sim, um espetáculo que eles estavam a fazer com uma comunidade de pessoas. Era um espetáculo musical também. E era sobre música, sobre a música de intervenção nos Estados Unidos, que apanhava várias gerações, desde coisas mais antigas, "Where Have All the Flowers Gone", até os Nirvana, como símbolo de uma geração desencantada com o futuro. Eles fazem esta coisa que é os atores também escrevem, levam trabalho de casa, escrevem e trazem textos no dia a seguir. Alguns deles muito pessoais, muito íntimos, alguns deles, se calhar, não com uma qualidade dramatúrgica excelente, mas depois alguém que tenha a mãozinha para escrever, pega naquilo e transforma.

Que os pode modular um pouco.

Sim.

Mas depois parecem representados por todos.

Sim, depois parecem representados por todos. Eu lembro-me que houve um ensaio em que havia uma atriz que dizia: "Eu sei que não sei tocar piano, mas eu neste espetáculo queria mesmo tocar piano." E ela começou a chorar. Aquilo era mesmo importante para ela. "Eu queria tocar um instrumento qualquer." Acho que era guitarra, já não me lembro.

Aí ia fazeres tu, que tocas guitarra lindamente.

Sim. Não. Mas o que é engraçado é que lhe deram uma guitarra para a mão. "Ok, então vais tocar guitarra, vais tocar uma música, mal ou bem, vais tocar uma música." Pronto, e as coisas vão-se construindo com vontades, com desalinhos.

Cá está, o failed superpower.

Sim, o primer for a failed superpower, era como se chamava esse espetáculo.

Que magia que tem o teatro, Ricardo. O que é que esta arte tem de tão especial? O que é que só o teatro consegue, que outras artes não chegam lá?

Várias coisas. Eu fiz um mestrado em Estudos Teatrais na Faculdade de Letras, aqui em Lisboa, e tinha um professor, o José Camões, curiosamente, porque ele era professor de História do Teatro Português. Portanto, teatro quinhentista.

Tudo o que era Gil Vicente.

Sim, Gil Vicente. E houve um dia que estávamos em Amená Cavaqueira, na aula. Ou a aula não tinha começado ou ia começar, mas já estava o professor. E estava-se a discutir o que é que era o teatro, porque havia uns que diziam: "Não, e aquelas coisas que são umas pessoas a atirar coisas contra a parede e a cantar, aquilo não é teatro, isso é performance." "Não, mas isso também é teatro, não sei quê, e quem está a fazer não sei o quê." "Não, isso não é, isso é dança." E ele disse uma coisa muito engraçada: "Olhem, para mim, o teatro é a única arte onde se consegue ver simultaneamente o ator e a personagem. E, portanto, sim, a performance não é teatro, porque aí não há personagem. E o cinema também não é teatro, porque aí não há ator, só há personagem. E nós no teatro temos essa capacidade de ver, e realmente é verdade, simultaneamente a história e o verso da história." E eu gosto muito, como arquiteto, de transpor isso para outras camadas também do próprio espetáculo. Os meus cenários, eu gosto sempre que se vejam as entranhas do cenário.

Este é a prova disso também.

Na arquitetura, estudávamos-

Estavas a dizer isso, que tu és mais cenógrafo. Diz-se mais cenógrafo, também?

Não, também faço as cenografias, mas isso da cenografia depois tem outras coisas. Mas eu lembro-me de estudar a talha dourada. E a talha dourada tem uma capa para a frente, para quem está do lado do altar, muito acabada e muito bonita, e lá atrás são os bocados de madeira, são mesmo bocados de madeira. Era o que havia, este bocado com 20 centímetros, depois é preciso mais um bocado.

Colados.

Colados, com cuspo. Pregados.

Atrás é feíssimo.

Atrás é feíssimo.

Mas depois à frente é polido.

O teatro é como se nós víssemos isso de lado. Nós vemos simultaneamente a talha dourada e a estrutura que está por trás. E o teatro para mim é isto.

É essa magia, esse tempo real.

É essa magia do erro, também.

É verdade, tu falas nisso.

No teatro estamos sempre no perigo de não conseguirmos acabar a peça.

É um suspense permanente.

Podemos esquecer o texto, podemos cair para o lado.

E nunca é igual, pois não? Das representações que tu fazes.

Não, nunca é igual. Olha, por exemplo, este fim de semana fizemos o Dueto Duelo duas vezes na Bota. No primeiro dia, eu e os atores ficamos em êxtase. "Correu muito bem, eu estava mesmo lá e não sei o quê." No segundo dia, cada vez que eu saía de cena com a Rita, eu estava assim: "Rita, isto está a correr tudo mal, está a correr tão mal, o que é que nós fazemos? Vamos tentar segurar isto, vamos lá." Mas o público disse, e público que tinha visto na noite anterior também disse: "Não, hoje foi muito melhor."

Olha, extraordinário.

E é estranho. É estranho, extraordinário.

Sente-se muito, dia para dia, Ricardo, a energia do público?

Sente-se.

Que pode variar completamente. Pode ser que estejas de andar com este indigestão, fará bonito.

Depende muito dos espetáculos. Eu acho que não consigo fazer espetáculos que não sejam comédias, pelo menos se for eu a escrevê-los. Ou pelo menos que tenham bastante riso.

Mesmo a comédia tem a energia do público, que pode ser imuno ou não.

Na comédia, essa energia Ouve-se. Se não houver comédia é mais difícil de perceber, depende da sala.

Por isso é que eu falo em energia. Tu sentes que às vezes há públicos mais tímidos que outros?

Eu, por exemplo, não gosto nada de olhar para os olhos do público. Distrai-me. Sobretudo se vejo alguém conhecido, distrai-me logo. Engano-me logo no texto. Portanto, para mim é um bocadinho difícil às vezes auscultar, porque não gosto mesmo. Se olho para o público, olho para as orelhas. Não gosto de olhar para os rostos do público. Fico distraído.

"Deus, uma peça" foi a tua estreia na encenação, baseada no Woody Allen, no Mr. Big.

Era o mesmo texto do Woody Allen. Aliás, é uma peça do Woody Allen chamada "Deus, uma peça", e acho que foi o único espetáculo que eu encenei.

E nem Coimbra?

Sim, já estava em Lisboa, mas fui para Coimbra encenar. E o Woody Allen é o meu deus.

Traz a promessa de voltar ao lugar de partida. Portanto, isto foi já em 2017, já lá vão oito anos. Esta mulher em conflito com o próprio crescimento, este estado de consumo, o homem e a mulher de sucesso, todo este drama. O "Eu, Salazar" fizeste depois no ano seguinte.

O "Eu, Salazar".

Com autoria do Nuno Camarneiro, tinha sido o prêmio lei. Para assinalar os 50 anos da queda do ditador. Falas aqui da sinédoque, que é engraçado este erro que a gente cai, confundimos a pessoa com o regime a que ele presidiu. Isto é um autêntico laboratório teatral.

Era.

E era uma coisa para pegar com pinças.

Houve uma altura-

Não devia ser fácil pegar nisto.

Houve uma altura em que o Expresso lançou uma biografia sobre o Salazar.

Sim, eu vi.

Que era uma biografia, na minha opinião, um bocadinho tendenciosa, mas de qualquer maneira, eu nunca tinha lido uma biografia do Salazar e andava a ler aquilo. E houve uma parte da biografia que me impressionou muito, que foi uma parte em que é contada a história da morte da mãe do Salazar, que teve uma doença prolongada e o que se conta, contava, creio, que a irmã do Salazar, é que o Salazar voltou lá para Santo Comandão e ficou julgo que nove dias ao lado da mãe até ela morrer e esteve praticamente sempre em pé, ao lado da cama da mãe, num ato sacrificial profundo. Isto estou a citar de memória a biografia. Tanto que depois, no funeral, ele mal conseguia andar para acompanhar o caixão. Eu penso que isto é inventado, obviamente, que isto é mais uma vez uma mitificação da figura. Obviamente que ele certamente se sentou, não há razão nenhuma para ele não se ter sentado. Mas isto pareceu-me muito interessante do ponto de vista teatral. Como é que transpomos esta ideia sacrificial de um homem que trocou a vida pela-

A deificação da personagem.

A deificação da personagem. E tentei fazer um espetáculo sobre aquilo que a minha geração, que já sou um neto do Estado Novo.

Nasceste em 78, já nasceste pós.

Já nasci pós. Como é que a nossa geração olha para esta figura?

Não leste História, o teu foi para a Guerra Colonial. Ricardo Vaz Trindade, temos que fazer aqui um brevíssimo intervalo, já voltamos à conversa. Até já. Estamos a falar com o ator e encenador Ricardo Vaz Trindade. Ele traz-nos "Dueto/Duelo", uma peça em que contracena com Rita Brut, sobre um casal à beira da rutura, que passa o seu relacionamento a pente fino à mesa de um restaurante elegante, com um trio de jazz, um combo de jazz a tocar ao vivo, e que vai estar em cena no Teatro do Bairro, aqui em Lisboa, só mais este fim de semana. Eu não resisto a falar das tuas carreiras, do que fizeste tudo a seguir "O que veem as nuvens". Esta coisa tão curiosa, que fizeste em 2019, já lá vão seis anos, onde a plateia eram todos deitados a olhar para cima.

Isso foi um espetáculo que nasceu de uma ideia muito simples, que é aquela ideia de olhar para as nuvens. Eu um dia estava a olhar para as nuvens e imaginei as nuvens a olharem para nós. E da mesma maneira que nós quando olhamos para uma grande porção de coisas, neste caso as nuvens, começamos a adivinhar padrões.

Sim, formas.

E futuros possíveis. O vento está para ali, vai chover, não vai chover. Imaginei que as nuvens também fariam o mesmo conosco. As pessoas estão a se deslocar para ali, ali vai haver uma guerra.

Mas aqui havia texto. Havia cinco textos de cinco dramaturgos que viam as coisas das pessoas.

O que eu pensei foi: vou pôr uma plateia a olhar para cima, a olhar para as nuvens, e vou tentar levar a plateia para as nuvens e pô-las a olhar para baixo. Isto foi um espetáculo que resultou numa espécie de cinema vertical, em que as pessoas estão deitadas no palco a olhar para uma tela paralela ao chão. Que está no teto. Com um espetáculo narrado ao vivo, na altura por mim e pela Cláudia Gaiolas. Também falei com um grande amigo, que é o João Vladimiro, que é realizador, para fazer este filme.

Sim.

E foi um filme que foi feito com base em filmagens que nós fizemos com drone. Eu andei meses nas redes sociais a pedir a todas as pessoas que tinham drones, que eu percebia que tinham drones, a ver se me emprestavam.

Imagens de céus.

Não, imagens viradas para baixo. Eu depois às tantas queria imagens viradas para baixo, que era para fazer esse exercício de tentar imaginar que somos nuvens. E o espetáculo era muito bonito. As pessoas diziam que tinha qualquer coisa de massajador, até porque realmente, quando nos deitamos, o nosso corpo parece que liga e desliga certos canais. Abrem-se uns certos canais, os canais do sono, do relaxamento, e começamos a perceber, as coisas entram por orifícios diferentes, por outros pólos.

Tu tens um bocadinho essa coisa. Por exemplo, a música também diz, a música é importante neste teu "Dueto/Duelo". Por causa disso, tu dizes: há muitas coisas que são cantadas aqui. Além de músicas cômicas, tu dizes: o touro, touro, louça, louca. Louça, louça, ouro, ouro. Mas tu dizes, pela música há certos canais que nós possuímos, que não passa pela racionalidade. Portanto, há parte do texto desta peça que é cantada, e isso é importante.

Sim, e foi por isso que eu instintivamente pensei logo no musical.

De outra forma fica bonito, é porque é uma ferramenta para dizer coisas diferentes do texto.

É uma ferramenta para atingir as pessoas noutros lugares, nos lugares da emoção pura.

É engraçado. E resulta?

E resulta.

É incrível.

Não é por acaso que há músicas que nos põem imediatamente a chorar ou comovidos, ou tristes, ou alegres. Porque as músicas parece que não passam por uma série de filtros que nós temos na nossa razão.

É outro domínio, outra zona do cérebro, digamos assim. Mas é mesmo. É engraçado, falámos de lágrimas. Tu tens algum feedback quando as pessoas acabam de ver a tua peça? Notas as pessoas Às vezes comovida no fim?

Noto. Há pessoas a chorar que o pior da verdade.

E isso agrada-te?

Não agrada nem desagrada. Agrada-me que as pessoas tenham a liberdade de escolher o que fazer e que estejam à vontade para o fazer.

É uma peça muito dura, eu achei duríssima.

É dura emocionalmente.

Emocionalmente. Mas fora este problema, que é duro também e é complicado, há uma filha à mistura.

Nem podia não haver, porque as separações são tão mais dolorosas quando se tem filhos.

Mas ao mesmo tempo consegues falar de um tema duríssimo, complicado e muito atual, cada vez mais, como tu falas até nisso, nas entrevistas, na escola os miúdos, tens um filho também com 11 anos, há mais pais já separados. O raro já são os pais que são casados há que tempo.

Sim, em alguns circuitos isso é verdade.

É incrível. E tu falas disto de uma maneira que acaba por ter humor. A Rita também é muito boa para isso. Ela esteve cá há uns meses também. A Rita faz uma companheira extraordinária para este teatro contigo. Extraordinária, ótima. Mas também é um tema duro, falado com música e falado com muito humor também, mas que consegues mexer muito com as pessoas, Ricardo, é verdade.

Sim, o humor eu não consigo largá-lo. Eu acho que é uma das formas que eu tenho de me relacionar com o mundo, talvez porque seja uma pessoa relativamente tímida, embora seja ator.

É estranho, normalmente um ator expõe-se muito, não é?

É, mas é uma exposição protegida.

Quando entras num palco, és outra pessoa.

Por exemplo, eu sou ator e já interpretei para centenas de pessoas ao mesmo tempo. Mas se me puserem uma guitarra na mão e me pedirem para cantar uma música, eu fico pareço um bebê. Eu lembro-me quando tive que apresentar uma música que eu tinha aos músicos do dueto Duelo, para ver se eles aceitavam que eu a pusesse no espetáculo. Eu estava nervosíssimo e estava a tocar para quatro pessoas que me conhecem.

Imagina.

Isto para mim foi um bocadinho complicado. Agora já me habituei e acho que já ganhei um bocadinho de confiança, mas a música é um sítio complicado.

"Honos" foi outra peça que tu fizeste também em 2021. Também é uma ideia tua, sobre o que é a justiça e o que é a lei. Muito curioso. Aí assististe a julgamentos, leste muita coisa, balarda ilustre, a tua pesquisa. Entrevistámos agentes da PSP e do SEF, magistrados, jornalistas, ex-presos, filósofos, sociólogos, juízes. Falas desta parábola muito curiosa, bíblica, coisa tão gira, queriam tirar a prisão do meio da cidade.

Isso, curiosamente.

É muito giro isso. Conta lá.

Eu não escrevi isso assim, mas isso curiosamente foi um professor de arquitetura que me disse. O José António Bandeirinha, que foi meu orientador da tese de licenciatura ou mestrado.

Havia uma coisa que era uma ideia.

No centro de Coimbra, há uma prisão de alta segurança. No centro do centro de Coimbra, que ocupa um lugar muito privilegiado na cidade e é uma prisão grande. E falava-se na altura, nos anos 90, em tirar dali a prisão e ocupar aquele terreno. Havia pessoas com uma ideia giríssima, centros culturais. E este meu professor disse-me o seguinte: "Não. Eu acho que a prisão se deve manter ali." As pessoas à volta, inclusive eu, perguntando: "Mas então por quê?" "Porque nós não nos podemos esquecer, e temos que ter este lembrete diário, que vivemos numa sociedade em que escolhemos prender pessoas. Por justo que isso seja, não nos podemos esquecer disto."

Não é pôr de lado, longe da vista, longe do coração.

Não podemos afastar a parte má daquilo que fazemos, não podemos pô-la debaixo do tapete e fingir que ela não existe. Temos que saber conviver com ela. Com os lixos que produzimos, com as coisas menos bonitas que produzimos.

Mas é verdade que isto vem na Bíblia, uma coisa assim? A história de uns governantes de uma cidade que desejavam retirar a prisão do centro da cidade, onde estava a praça, a igreja, o comércio, e o povo não deixou.

Não, isso não é da Bíblia. Nós temos outras parábolas no espetáculo que têm origem bíblica, mas essa não. Essa foi tirada desse meu professor.

E é engraçado, foi consultado o povo e tal, ia-se tirar a prisão, e disseram: "Não, faz parte."

O povo aí, no nosso caso, é Cris. Não, o povo, a Cris, queremos ficar com a prisão perto de nós.

Muito bem, tu trabalhaste também na televisão, no Canal Q, tinhas este programa Inferno.

Há muitos anos.

Eras o Capitão Cultura no programa Inferno, na RTP um também, em cinema. Eras mordomo na Sibila. Houve uma série de coisas que tu fizeste. A Rita esteve cá, a Rita Bruto, que contracena contigo, esteve cá em janeiro. Dá dois anos, imagina. Por causa da Vida de Artistas, do Noel Coward, ela fez a última encenação do Jorge Silva Melo. Esteve cá. Estou curioso, é bailarina e fotógrafa e tudo, como a Gémea e que faz face yoga.

É verdade.

Ela é uma pessoa extraordinária. E depois também entra a Mariana Rebelo nesta peça.

Que é uma atriz, cantora, com uma voz lindíssima.

E ela passou pelo Tolial, estes contracantos, estou mesmo a ver. Ela entrou no The Voice Portugal. É extraordinária.

Ela é lá de cima do pé de Então dela, como é que se chama? Carregal do Sal.

Carregal do Sal, exatamente. Onde funciona esta escola do Ricardo.

Onde ela tem uma escola de teatro musical.

E há o Conservatório de Música e Artes de Dão também. Onde ela teve aulas de canto.

E a Mariana esteve no The Voice.

Exatamente, na equipa dos Zambujo. António Zambujo, é verdade.

À meia-final.

Exatamente. E então com esta equipa extraordinária, depois de ter estreado em São Francisco em dezembro de 24, já nesta segunda fase, e depois de ter estado em Ovar, foram a Santarém, foram ao Porto, a Benedita. Vem agora ao Cubasa, a Ourém. Já foi no Bote, nesta base organizada na Toca das Artes, ali em Santa Bárbara, nos Anjos. E então 4, 5 e 6 de julho vai estar no Teatro do Bairro, 18h às 21h30, sábado e domingo às 18h, ali na Rua Luxuriano, ao Bairro Alto. Muito bem. Este é o espetáculo, como tu dizes, o musical desromântico sobre o desamor. Mas de facto é exatamente o que é, depois de ver. É muito giro.

Ultimamente tem havido bastantes filmes sobre isso.

Esta minissérie, a Marriage, da HBO, fantástica.

Sim, exatamente.

Com o Oscar Isaac e a Jessica Chastain.

Acho que realmente é um tema que está muito em cima da mesa, porque nos tempos que correm é muito difícil, estávamos a falar disso há bocadinho, é muito difícil ter tempo para as relações. A sociedade pede-nos produtividade. Desde a emancipação das mulheres, que ainda não está concluída, obviamente, a igualdade de direitos.

Ainda há muito a fazer.

Ainda há muito a fazer, mas pelo menos a mulher já pode trabalhar, já pode ter uma carreira, pensar no seu futuro de outra maneira. Mas obviamente que isso duplicou, grosso modo, a força de trabalho. E tirou tempo para as famílias. É por isso que eu também vejo com muito bons olhos as ideias que andam por aí agora a ser pioneiras de reduzir a semana de trabalho. Se trabalhamos agora em dobro, por que não trabalhamos todos um bocadinho menos?

Como na Noruega, és ponto e tu para casa às 16h.

Não somos tão obcecidos com a produtividade.

E se estás lá às 18h ou às 17h, vem o teu patrão ter contigo: "O que é que não correu bem? O que é que não conseguiu fazer?" "Eu estou aqui porque prefiro." "Não, vai para casa, a tua vida não é isto". E então a história é isto mesmo, uma atriz, a Rita Bruto, neste caso, a tentar construir uma carreira no cinema, e um professor, que és tu, o Ricardo, que deixou para trás a vida de músico para pagar as contas. Há esta anfitriã do restaurante, esta Mariana Rebelo, e este trio de músicos, liderado pelo Vasco Pimentel, o Miguel Sobrado Corado e o Cristina Ribeiro.

Que é um trio maravilhoso.

Extraordinário.

É um trio maravilhoso, que eu acho que tive muita sorte, porque eu não os conhecia.

São muito bons.

Eu não conheço músicos, conheço alguns, mas não conheço muitos, e fui perguntando e foram-me recomendando.

Mas é muito giro esta ideia de ser num restaurante elegante, chique, com um tom de jazz.

Isso fazia parte do caderno de encargos que eu fui desenhando com o Eduardo Buriticá.

E todas as músicas têm a ver com a ação, desde as do Gershwin, essas baladas cômicas que vocês cantam, até às mais tristes, às mais sérias, e ela canta também contigo.

E nisso o Vasco Pimentel foi genial, porque ele é muito versátil e tem um instinto dramatúrgico muito apurado. Ele termina as músicas no sítio certo, começa-as no sítio certo, acompanha, ilustra, tira o tapete.

E a música tem um papel extraordinário nesta peça, na condução dessa narrativa, é muito curioso.

E tem temas que, fora a modéstia, bastante bem feitos.

As tuas músicas são tuas mesmo?

Algumas são minhas, outras são do Vasco e outras foram mais ou menos sendo compostas nos ensaios.

Tu tocas muito bem, foi muito bom. O mais curioso, que vocês de facto fingiram, fizeram duas sessões de terapia de casal fictícias, em que tu e a Rita Bruto, portanto, em personagem, fizeram uma sessão mesmo com os psicólogos, os terapeutas.

Isso foi muito complicado.

E foi muito imersivo e foi inquietante.

Foi das experiências mais estranhas que eu já tive em teatro, em ensaios.

Porque simularam como se fossem mesmo casal com problemas.

Ou seja, nós combinamos algumas coisas, eu e Rita delineamos algumas estratégias. "Ok, então aconteceu isto e tal, se perguntarem isto respondemos aquilo". E depois fomos, só que às tantas surge aquela pergunta para que não estamos preparados. E o que nós fazemos? Respondemos com coisas mais ou menos reais, mais ou menos que nos aconteceram mesmo.

Às tantas soltaram.

E às tantas dou por mim, a Rita a chorar, eu a sentir coisas.

É porque se lembraram de coisas.

E aquilo, às tantas, entrou assim.

Aquilo toca.

Aquilo toca um bocadinho.

Quem mais teve relações e quem teve relações.

Ninguém ali ficou magoado.

Method acting.

Method acting um bocadinho.

É extraordinário.

Foi um bocadinho por aí. Mas foram muito úteis e enformaram o espetáculo.

Tu dizes: "A minha personagem deu por si, por momentos, a sentir coisas realmente reais". É extraordinário.

Sim.

E é engraçado, Ricardo, porque se nota ao longo da peça que vocês estão ali, às tantas eu fico a pensar: "Eles são casados mesmo, estão separados, devem ter um caso".

A Rita realmente nesse aspeto é ótima, porque dá-me uma contracena maravilhosa.

Foste tu que a escolheste?

Sim, fui eu que a escolhi.

E gostavas que fosse ela, porque tinhas visto várias coisas dela?

Não, eu fiz uma audição para várias atrizes.

Ok.

E acabei por escolhê-la a ela. Eu já a conhecia, porque os nossos filhos por momentos andaram na mesma escola.

De facto, não foi ao acaso.

Mas não a conhecia muito bem como atriz. Conhecia há pouco. Mas gostei muito do trabalho dela, daquilo que ela fez na audição. Ela convenceu-me muito. Ela própria disse-me: "Cuidado, que embora saiba cantar, eu não sou cantora". E eu às tantas perguntei-lhe: "Rita, mas diz-me uma coisa, tu consegues fazer isto?" E ela disse: "Consigo".

Porque ela é trabalhadora e lutadora, isso é.

É trabalhadora e lutadora.

Claro que sim.

E nem eu nem ela somos cantores, por exemplo, como a Mariana, que é realmente uma cantora. Mas a mim interessa-me também essa camada do ator que tenta.

E que experimenta.

E que experimenta e que desafina.

É muito giro.

É como aquele casal que também está a tentar lutar ali por qualquer coisa. Os atores também estão ali a lutar.

Os desafios das relações modernas, é isso que se fala. Hoje em dia, o amor romântico enfrenta estes desafios. O hiperindividualismo, como tu dizes, a velocidade das mudanças de expressão emocional provocada por um mundo globalizado, permanentemente conectado. E eu gostei muito desta ideia, Ricardo, tu também falas nisso, que é: às vezes estes casais e estas relações não acabam por uma razão específica, mas é um somatório de cansaços.

É. E a ideia, desde o princípio, começou muito rapidamente a ser essa. O conceito da peça era simetria. Não podia haver qualquer tipo de...

Não há uma culpa.

Não há uma culpa para ninguém.

Exatamente.

Se houvesse uma razão, se houvesse um desconforto de um lado, tinha que haver um desconforto igual do outro. Ainda que não fosse sobre a mesma coisa.

Os diálogos são muito bem feitos, porque estão muito equilibrados nisso. Não é só coisas dela e não é só coisas dele.

Não quero que o público saia dali a pensar: "A culpa é dela ou a culpa é dele".

Exatamente. E todas as pessoas identificam-se muito com um lado ou com o outro, ou com os dois.

E acho que isso realmente funciona. Se a culpa não é de nenhum deles, só pode ser desta vida que nos anda a apertar. Tentei que fosse por aí. Não sei se essa camada está muito visível, mas ela está lá, pelo menos na base.

Sim, mas acho que se nota. Gosto que vocês passam por esses problemas, o passar as camisas, o saber da filha, comprar roupa para a filha à escola, o apoiar as carreiras mútuas.

Sim, isso foi tudo informado pelos psicólogos que nos foram também, além das sessões de terapia de casal, contando histórias das consultas que eles dão a outros casais. Alguns exemplos, obviamente, sem partilhar nomes. Mas foram nos contando algumas coisas.

E há uma síntese dessas coisas, aproveitam isso.

Exatamente.

Mas também coisas boas. Ambos choraram, por exemplo, com a separação e a filha também, o que é curioso.

Sim, claro. Aquelas duas personagens, obviamente, que sentiram, porque quando se tem um filho, acho que não há nenhuma separação que não seja dolorosa. Porque os filhos sofrem, embora depende da idade. O meu filho, aconteceu-lhe mais ou menos o que eu digo que acontece à Tânia, que é: chorou durante meia hora e depois perguntou se havia bolachas de chocolate. Porque a compreensão dele, emocional também, na altura ele tinha-

Tem um prazo, tem um tempo, claro.

Era muito novo, tinha quatro ou cinco anos. E portanto, não tinha essa compreensão.

Não sei como é que vais responder isto, mas eu tenho a sensação da vossa representação que eu vi, que no fim, eu tenho que dizer isto, não sei se tem que ser spoiler, mas que há dois momentos: há um jantar antes, enquanto ainda não separaram, e há um jantar já depois de separados. Este jantar até é dividido em duas ementas, tudo dois. Mas com aquele pormenor engraçado, ambos saem à rua e depois voltam e ouve-se o som da rua. Está muito giro. Fiquei com a sensação que no fim, tu comoveste ali num momento ou dois. Comoveste-me mesmo.

E comovo-me.

Isso é possível acontecer, claro. Eu sei, ele é mesmo assim. Ele está a chorar com isso.

É muito engraçado.

Não estavas em ator, portanto. Sentes mesmo, porque te identifica isso.

Eu consigo forçar-me a não chorar, obviamente. Mas acho que o meu papel também é deixar-me ir um bocadinho, controlando sempre, estando sempre no controle das operações, ali na torre de controle, mas permitindo-me alguns deslizes. Eu acho que antes do meu filho nascer, eu não chorava praticamente, só em coisas muito fortes. Depois que o meu filho nasceu, não sei o que é que aconteceu.

Algo se alterou na sensibilidade, lacrimogenal. É normal. Abriu.

Os lacrimoginais desobstruíram-se.

É normal. Tornou-se pai de dois.

Não sei, acho que uma criança tem alguma coisa de trágica na nossa vida, relembra-nos a nossa morte. A mim relembra-me. Ok, agora o meu filho é que é a vida, eu agora sou o que resta.

Vou ficar ele e eu avanço para o outro lado.

Isto traz alguma coisa de tragédia, o nascimento de um filho. Tragédia boa.

Sim, eu estava a pensar nisso.

Não digo isto como mal, mas traz essa tragédia. E portanto, acho que me tornou uma pessoa mais sentimental, mais sensível. E sim, emociona-me. Mas acho que na peça tem muito a ver com a música. Há lá uma música que eu não resisto. Eu se canto aquilo a olhar para a Rita.

Lavas-te em lágrimas.

Lavo-me um bocado em lágrimas. Tenho que fazer ali até às vezes um bocadinho de força para não-

Para voltar a entrar e para chegares com a música ao fim.

E para chegar com a música ao fim.

Muito bem, o que chegou ao fim foi o nosso tempo. Quero te pedir já desculpa, Ricardo, o nosso tempo de facto voou. Ricardo Vaz Trindade, eu quero agradecer muito a tua disponibilidade.

Eu é que agradeço.

Foi muito bom. E deixar aqui a quem nos ouve esta dica: 4, 5 e 6 de julho, no Teatro do Bairro, já sabe. Sexta às 21:30, sábado e domingo às 18h, ali na Rua Luxuriante, 63, no Bairro Alto. Não perca então este dueto duelo. Extraordinária peça de Ricardo Vaz Trindade com a Rita Brut e com este trio de músicos de jazz dirigidos por Vasco Pimentel. Vale muito a pena, porque de facto, e se puder a seguir, já sabe, dia 5 então vai haver uma mesa-redonda logo a seguir sobre a conjugalidade e estes problemas. O amor, de facto, existe, pode existir. Vamos falar de um novo modelo de relação. Muitos assuntos para pensar que isto deixa no ar. Muito obrigado por teres vindo, Ricardo. Bem-hajas.

Obrigado.