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O jornalista também tem preconceitos.
Hei de te ouvir a isso.
Mas deve ser naturalmente uma pessoa mais desconstruída e eu acho que isso faz parte da formação do jornalista, por isso é que não é qualquer pessoa que pode ser jornalista, porque de fato há essa obrigação do jornalista de se desconstruir ao longo da sua carreira e da sua vida pra saber entrar numa reportagem, pra saber entrar num tema, minimamente despido, ou seja, não ir comprovar uma tese.
Exatamente. Desse preconceito, digamos assim, ou dessa pré-ideia.
Saber ouvir os outros despido dos seus próprios preconceitos, isso é super importante.
Há dois meses acolhi neste espaço o André Carvalho Ramos, jovem jornalista da CNN, com uma presença forte nas redes sociais, onde através de vídeos curtos e muito bem editados, tem explicado como se desmonta a desinformação. Hoje continuo nesse esforço de chamar colegas meus que partilham essa cruzada pela verdade e boa informação e nesse sentido fazem, a meu ver, um bom trabalho nas redes. Sim, eu sei que são da concorrência, mas estão do mesmo lado da barreira, pelo jornalismo, pelo bom jornalismo, pela verdade e pelo pensamento crítico, para bem de todos nós. É o caso do Ruben Tiago Pereira, desde há sete anos jornalista multimídia do Expresso. É o jornalista a tentar explicar como funciona o ecossistema mediático onde vivemos. Algoritmos, redes sociais, atenção, desinformação, propaganda, opinião pública, tudo aquilo que molda a forma como vemos o mundo. A missão é simples: ajudar a compreender esta pequena máquina de fazer raiva que carregamos no bolso. Sem teorias da conspiração, sem paternalismo, com investigação, estudos e, já agora, um pouco de humor. Vamos conhecer o que o motiva, como consegue navegar neste mar de ideias falsas e câmaras de eco e com que dicas e truques nos pode ajudar a singrar neste mundo cada vez mais complexo e extremado. Sem medo. O Ruben chama-se a si próprio o saco de pancada favorito da internet. Olá, Ruben, e bem-hajado por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.
Muito obrigado.
É um grande prazer estar aqui a falar contigo.
Igualmente.
Na gesta que eu estou a dizer, portanto, és daqueles que quando chega o Natal, desde pequeno, pra gente dizia: "Este presente já é um bocadinho maior, porque já é pro Natal e pros anos."
Sim. Eu sofri isso. Toda a minha vida, são 33 anos a receber. Por acaso, é assim, justiça seja feita aos meus pais e à minha família toda, que nunca se imiscuíram de me oferecer duas prendas.
Ah, OK.
Mas geralmente é conjunta. Portanto, eu já sei quando recebo pro Natal, nos anos, geralmente fica pro Natal e às vezes vice-versa.
Quando tu dizes que nasceste e cresceste no Ribatejo, que Ribatejo é que é? Que zona?
Eu chamo-le as portas do Ribatejo. A definição se calhar não é a melhor, porque tecnicamente as portas do Ribatejo é a zona de Alverca, do Ribatejo.
Estava a pensar nisso.
Não, mas eu vivo em Samora Correia, que é já do outro lado da ponte.
É margem sul, já.
É margem sul.
É margem poente. Não, margem exato nascente, ao contrário, do outro lado.
Sim, é margem sul do Tejo, embora naquela zona ninguém propriamente se identifique, nunca se fala muito nessa questão das margens.
Uma terra de grandes retas e grandes cruzamentos.
É, exatamente. Antes da Ponte 25 de Abril, era por ali que passava toda a gente que queria ir pro sul do país.
Vinha da ponte Sá Carneiro, passava ali. Muito bem, essa tua vocação, e tu dizes com graça, "tenho um irmão mais velho e meu pai militar e mãe doméstica, é quase a lição do Salazar, entre os quadros." Olha, aprendi com uma convidada minha que vi, rapaz, sete quadros desses, não sabia, só me lembrava daquele, e há sete quadros.
É o que toda a gente conhece.
Esse é o famoso. Olha, a tua vocação da comunicação, e tu és um ótimo comunicador, aliás, foste várias vezes premiado pelas tuas reportagens e tudo, tu sozinho ou em equipa, o que tu querias ser quando eras pequeno? Sempre foi isto, jornalismo, vias telejornais e adoravas: "Ei, quero estar do lado de lá."
Não. Eu sei que era romântico dizer que sim, mas não. O jornalismo aparece numa fase já de muita confusão na minha vida, não sabia bem o que eu queria fazer. Eu fiz ciências. O meu currículo é um bocadinho, eu estudei três anos em Bruxelas.
Exatamente, do sétimo ao nono.
Do sétimo ao nono, numa escola europeia.
Louve-Saint-Lambert.
Louve-Saint-Lambert.
É por isso que tu falas um francês muito bom.
O meu francês está muito enferrujado.
Mas ias pra lá já saber francês ou aprendeste lá?
Aprendi lá. Esses três anos mudaram muito a minha vida, foi o meu primeiro contacto com o mundo e com outras culturas e enfim, perceber que existe mais pra além daquilo que nós somos e fazemos aqui em Portugal.
Uma escola europeia.
Sim, foi um autêntico catalisador, um baque na minha educação.
E imensos colegas de todos os países e mais algum europeu.
Exatamente. Sim, tínhamos muitas secções com muitas nacionalidades. E esses três anos mudaram muito a minha vida e foi lá que me comecei a posicionar pras letras. Aprendi a falar mais três línguas, portanto, passei a falar quatro línguas, português, espanhol, inglês, francês. Gostava muito dessa área, mas depois quando vim pra Portugal, precisamente ali na transição do nono pra o décimo ano, fui vítima daquela do: "Ah, mas vai pra ciências que é onde dá mais trabalho." E fiquei ali quatro anos a bater de frente com a matemática e com a físico-química e com a biologia. Quando saí das ciências-
Mas eras bom nisso também? Ou não tão bom?
Olha, vou te dizer o seguinte: tive 18 no exame de português e passei, nem sei bem como, a matemática. Também tinha boas notas a biologia e geologia, físico-química já não tanto e a matemática era o meu ponto fraco, meu calcanhar daquilles.
Vocês viajavam muito? Estavas ali no centro da Europa, aproveitavas, viajavam.
Nesses três anos viajamos muito, fizemos road trips pela Europa.
De fato, é o umbigo do mundo, completamente.
É, completamente. Nós estávamos no centro da Europa e eu acho que isso também-
Holanda, França.
Sim. Íamos almoçar à Holanda, íamos jantar ao Luxemburgo, essas coisas que lá, de fato, tem uma hora e meia de viagem, duas horas de viagem, e é possível fazer. E viajamos muito, fomos muitas vezes a Paris, lá está, viajamos muito pra Alemanha. O meu pai era militar, nós conseguimos dormir nas bases militares, enfim, era uma confluência de coisas que contribuiu muito pra minha-
Tiveste muita sorte na tua vida.
Sim, esses três anos foi um grande-
Ou talvez seja o culminar.
Esses três anos em específico, porque depois o resto da minha educação é absolutamente standard. Ou seja, esses três anos foram anos de grandeMuito catalisadores de uma boa educação. O resto da minha educação foi uma educação como a das outras pessoas todas. Escola pública portuguesa. Andei ali a patinar um cadinho no secundário e foi aí então que quando vou pra faculdade, esbarro com um curso técnico-científico, do qual não gostei nada.
E foste pra engenharia de som.
Eu fui pra engenharia de som, que não se chamava engenharia de som, era Licenciatura em Tecnologias da Música.
Fizeste um semestre e chegou-te e sobrou-te.
Fiz um semestre, não me dei muito bem com aquilo. E depois foi aí que eu fui pra casa e tive um semestre parado, fiz o meu gap year, digamos assim. Não foi um year, foi só um semestre.
Gap half year.
Exato. Half year gap.
O YouTuber foi aí?
É aí que faço um canal no YouTube, aí meto-me em todas. Vou a todas porque eu estava completamente perdido. Fiz muitas coisas nesse semestre e é aí que começa a nascer. Eu acho que aí reencontro-me e volto outra vez às letras e sou honesto comigo próprio e digo: "Chega, eu sou um peixe fora d'água, eu não fui feito pras matemáticas." Mas atenção, eu até gosto das ciências, eu até gosto de matemática, gosto de físico-química, mas é uma coisa que me sai com alguma dificuldade, não me sai naturalmente bem. E aliás, a minha educação depois acabou por se tornar também, mesmo na faculdade, quando chega à parte das cadeiras de economia, de estatística, eu fiz aquilo com uma perna às costas, porque vinha de ciências. Portanto, isto tudo, no fundo, no regrets.
Pensamento científico.
Sem ressentimentos, voltamos.
O meu, também estou aqui no jornalismo e meu curso era de engenharia, que não tem nada a ver, mas a cabeça científica ajuda imenso.
Completamente, isso é muito verdade, o pensamento científico.
O teu YouTube, tinhas 18, 19, 20, 21 anos, 22. Tu já adoravas escrever, pesquisar, aparecer, editar. Estes teus YouTubes era muito comédia ou era mais informativo, ou eram os dois?
Foi uma altura de definição daquilo que eu, de facto, queria fazer. E na altura achava que queria ser o Jon Stewart da Cadavurburo.
Infotainment.
Era infotainment, no fundo, era essa a definição. Não era bem comédia. E depois comecei a estudar e eu fazia esses vídeos enquanto andava na faculdade, e foi uma altura de perceber o que é que queria fazer. E na faculdade acabei por me apaixonar por jornalismo.
Já estavas na EXCE.
É, já estava na EXCE. Sim.
Comunicação social. Portanto, isto, o Ruben T. R., qualquer coisa, que era o teu canal.
Era o meu canal.
Já vinha atrás?
Já vinha atrás.
Antes da faculdade?
Sim. Começou nessa transição.
Tiveste algum alcance aí. O teu canal era bastante visto.
Era. Ainda tive alguns vídeos virais, que hoje em dia esse termo já não se usa tanto.
Tu pertences a esta primeira geração de criadores.
Sim, foi uma geração de criadores, acima de tudo, que estrearam a plataforma e ajudaram a normalizá-la junto também do público geral. E de facto, foi uma altura de grande definição, como eu te dizia. E o que é que aconteceu aí pelo caminho? Eu apaixonei pelo jornalismo e quando saio da faculdade começo a trabalhar e nunca mais. E depois também as coisas acabam por se incompatibilizar. Porque um jornalista que está a trabalhar a sério numa redação não pode propriamente andar a dizer o que lhe apetece na internet, tem que ter algum cuidado.
Na faculdade foste ex-colega da Diana Duarte. Fizeste coisas contigo. Chegaste a ser diretor de informação da Rádio EXCE FM e entraste no Canal E2, fizeste uma série de coisas.
Eu na faculdade fui a todas, era uma festa.
Foste produtor neste programa, "A Entrevista". Estiveste também na Tuna EXCE Tunis.
Também andei na tuna.
O que é que eras o Ruben na tua altura? Por quê?
Já não me lembro. Os critérios de atribuição de alcunhas na tuna eram muito aleatórios. Eu acho que foi porque foi uma altura em que eu levava latas de atum como snack, porque era barato.
E é proteína e faz bem.
Sim, e faz bem. E se calhar foi daí que veio, já não me lembro bem.
A música também tem muito a ver contigo. Tu gostas de música? Tens algum cantor assim, algum concerto que não percas?
Vou ver Time in Paula no domingo, lá está, vai ser um grande concerto. Sou muito eclético na música.
Muito bem. Tu recebeste, enquanto estavas ainda na faculdade, este prêmio Dignitas, de jornalismo universitário, da Assembleia da República, com esta genética do humor. Aliás, com o João Francisco Combs, também nosso colega.
Sim.
Um trabalho que vocês tinham feito pra cadeira de jornalismo televisivo, também com a Ana Leal.
Sim, que era lecionado pela Ana Leal.
Extraordinária amiga. Que fizeram sobre a genética do amor, muito curioso, sobre a síndrome de Down, não era?
Sim, no fundo, esse trabalho incidia, bem, já foi há alguns anos. Espero não dizer nenhum disparate, mas esse trabalho era precisamente sobre como o acompanhamento desde a nascença até à idade adulta faz a diferença na vida de uma pessoa com síndrome de Down. E de facto, nós tínhamos vários casos, de várias idades, e até tínhamos um jovem que penso que o nome era Manuel, se não me engano, que já tinha 18 ou 19 anos e era muito independente, conduzia, tinha carta de condução, tinha um trabalho. Também o entrevistámo-lo, estivemos em casa dele.
Vocês viram alguns casos reais, até porque acompanharam, e também a importância de como, constante a classe econômica e a idade, isso pode, através desses casos reais, o que influencia na evolução.
Influencia muito. O acompanhamento prévio, começando logo ainda antes de nascer, depois de nascer.
Faço a diferença.
Sim, claro. E logo ali nos primeiros anos de vida, o acompanhamento é absolutamente crucial.
Fizeste depois uma pós-graduação em guionismo pra televisão, na World Academy, que é importante, não deixas os teus créditos alheios e continuaste a formar-te, que isso é muito importante. Houve este período, daqui há uma década, que passaste no Canal Q, tinhas este incrível consciente.
Foi ainda no período de definição.
O línguas do perguntador, também, este fox pop que tu fazias. Mas aí percebeste também que não querias ser comediante, mas jornalista. Sim, aí falou mais alto.
Eu acho que fui pra onde a vida me foi levando. Eu nunca tracei barreiras, nunca disse: "Eu não quero ser isto, quero ser aquilo", mas a vida foi me levando pra certos sítios. Eu fui indo. E depois, de facto, quando comecei a trabalhar no Expresso, adorei, foi logo o meu chamamento, deu-se logo ali, nunca mais parei.
Tiveste esta passagenzinha por marketing, na Summedia, na Golden Nutrition. Passaste estes meses em que foste convidado, até chegar então ao SMEK, portanto esta plataforma de publicação digital.
Era um projeto novo da Impresa.
Quase que abriste, não é? Porque vocês eram pouquíssimos.
Sim, nós criamos o projeto, o projeto durou um ano ou dois, depois quando foi extinto, acabei por ir pro Expresso.
Muito bem.Rúben, a missão principal do jornalista é interpretar o mundo, dar a conhecer o que se passa. Como tu definirias isso?
É uma pergunta interessante. Eu costumo definir-me e aquilo que eu faço, e sou um pouco conservador neste campo, que é: eu acho que os jornalistas não são detentores da verdade. E isso é importante dizer, porque a verdade não é subjetiva, mas depende muito das perspectivas. Eu acho que o jornalista é, se quiseres, um timoneiro das percepções. O que eu quero dizer com isto? Quando nós abordamos um determinado tema, iniciamos uma reportagem, que geralmente começa com a pesquisa, eu acho que esse primeiro papel da pesquisa é perceber precisamente. Eu costumo fazer este instrumento quando avanço para uma reportagem e faço muita reportagem, tenho este instrumento que desenvolvi que é uma espécie de mapa de percepções. Através da pesquisa que faço, começo a delinear. Ok, quantas pessoas estão a olhar para este tema? Quantas pessoas envolve este tema? Quantas perspectivas tem este tema? E faço o meu mapazinho e começo então depois a traçar a linha cronológica, como é que eu vou navegar por este tema, apresentando todas essas perspectivas e todas essas percepções. E no fundo, eu acho que o que cabe ao jornalista fazer é isso, o jornalista é um timoneiro, um navegador de percepções. E uma reportagem, no fundo, é o jornalista a propor ao leitor: "Venha comigo."
"Eu acompanho-o nesta visita."
Exatamente.
"Vou guiar uma visita."
"Venha comigo nesta viagem sobre este tema, vamos navegar por todas estas percepções. Estas pessoas pensam assim, estas pessoas pensam assim, estas pessoas pensam assim."
Esse teu mapa é também como é que as percepções mudaram ao longo do tempo.
Sim, também pode ser. Por exemplo, uma das percepções pode ser a percepção do historiador sobre o tema, e aí tu consegues mergulhar logo na história deste determinado tema. Eu acho que é importante porque, principalmente numa era em que o jornalista está sempre sob pressão de assumir lados, é importante também explicar às pessoas. Acho que isso é um conceito que faz parte, e que as pessoas devem ter no seu arsenal de conceitos de literacia mediática, que é esta questão da objetividade e da verdade. O jornalista não é detentor da verdade e eu até sou bastante conservador, por exemplo, neste campo, quando os blocos informativos televisivos se vendem como: "Veja aqui toda a verdade", etc. Eu fico sempre assim-
Com um pé atrás.
Sim, com um pouquinho para trás. Não gosto dessa forma.
Sempre que há mais verdade, não é? Depende do ponto de vista.
Não acho que a verdade seja subjetiva. Acho que em algum ponto encontra-se um consenso e chega-se a uma verdade, depois de explorar muito um determinado tema, de uma forma muito densa, quase ao nível de um mestrado. Tu quando fazes reportagem, não sentes que fazer uma reportagem é quase como fazer um mestrado? Tu mergulhas num tema, estás lá meses a estudar, ficas perito naquilo. E no fundo é isso, no final chegamos a um consenso. E eu acho que o nosso papel enquanto jornalistas é levarmos as pessoas a navegar por essas percepções e no final fazê-las chegar a um consenso.
Mas isso não quer dizer obrigar as pessoas a pensar como tu.
Não.
É dar-lhes os dados para elas próprias saberem ler a realidade ou interpretar.
Exatamente.
Fazer o que quiserem com aquilo. Há espaço.
Exatamente. Mas é importante as pessoas quando mergulham numa reportagem-
Mas ter os dados certos e estar informados é como se fazem as boas escolhas.
Exatamente. E eu acho importante quando as pessoas mergulham numa reportagem, saberem ao que é que vão e perceberem que o jornalista não está ali como o fornecedor das verdades. O jornalista está ali como a pessoa que a está a guiar por aquele tema e por aquelas percepções todas. Porque isto depois traz outros problemas, que é: o jornalista, como está a navegar por um mar muito turbulento, por vezes, dependendo do tema, de percepções, tem que tomar decisões e essas decisões são uma manipulação da reportagem. Por exemplo, se tu fizeres um documentário de uma hora sobre um determinado tema, navegaste por aquela gente toda, foste aos sítios todos, falar sobre esses assuntos todos. Olha, por exemplo, a tauromaquia, o documentário que eu fiz, o "Arte, Sangue e Ouro", em 2024, acho que é um ótimo exemplo para isto, porque é um tema muito controverso, com muitas bolhas, muitas percepções. Como é que tu navegas por isto? Fazes um documentário de uma hora sobre este tema e no final apresentas um documentário que tu dizes assim: "Isto está aqui, um bom produto, está contemplativo, vou a todas, apresento todas as perspectivas." No final, dizem-te assim: "Ok, escolhe um título para o artigo." Como é que tu resumes um documentário de uma hora em 100 caracteres?
Neste caso, "Arte, Sangue e Ouro" foi o que tu escolheste. A pessoa põe na SIC Notícias, é verdade.
Sim, e uma entrada. E agora uma entrada.
Tem que chamar a atenção, tem que ser apelativo.
Tem que chamar a atenção, tem que cumprir os instrumentos da narrativa, que é: tem que contar uma história, tens que chamar a pessoa para dentro.
Se calhar não deves mostrar o teu viés ou viés de algum viés na interpretação das coisas.
Vais ter sempre um viés, porque o jornalista também é uma pessoa, também tem preconceitos.
O enquadramento diz a importância que tu dás a um assunto e não a outro.
O jornalista também tem preconceitos.
É bom referir isso.
Mas deve ser naturalmente uma pessoa mais desconstruída. E eu acho que isso faz parte da formação do jornalista, por isso é que não é qualquer pessoa que pode ser jornalista, porque de facto há essa obrigação do jornalista de se desconstruir ao longo da sua carreira e da sua vida para saber entrar numa reportagem, para saber entrar num tema minimamente despido, ou seja, não ir comprovar uma tese.
Desse preconceito, digamos assim, dessa pré-ideia.
Saber ouvir os outros despido dos seus próprios preconceitos. Isso é super importante e acho que é por isso que nem toda a gente pode ser jornalista. E é preciso ter acesso à profissão, estudar, ter uma formação. Isso é super importante.
Como o tempo voa. Rúben Tiago Pereira, a primeira parte já foi. Quero que tu não desistas. Vamos já fazer aqui um breve intervalo e já voltamos à conversa. Até já. Estamos a conversar com o Rúben Tiago Pereira, que é há sete anos jornalista multimédia do Expresso e que no seu Insta tem tentado explicar como é que funciona o ecossistema mediático onde vivemos. Estamos a falar do jornalismo em geral, a missão principal do jornalista. E Rúben, o contacto com o público é obrigatório pra ti? Há quem, se calar, faça o seu trabalho e tu gostas e valorizas isso e tens jeito, tens boa imagem, tens boa voz, és muito bom nos vídeos que fazes, mas se calhar há quem não goste disso e prefira trabalhar na sua cabine como esta.
Eu acho que grande parte dos jornalistas dispensa essa parte, pelo menos os jornalistas de imprensa. Acho que preservam muito a sua privacidade. Eu também não vivo dependente.
Sim. Acho que tu jamais só apresentar as reportagens.
Eu gosto que as minhas reportagens sejam vistas, como é óbvio, e que as pessoas cliquem e leiam. A atenção incidir sobre mim em específico, não faço questão nenhuma, vivo muito bem sem isso. O que acontece aqui e a razão pela qual comecei recentemente a fazer vídeos pro Instagram, pra minha página, que já existia, era uma página pessoal, simplesmente decidi transformá-la nisso, foi porque de facto este tema da desinformação, não sei o que te diga, estava-me aqui entalado, porque era uma conversa que eu estava a ter todos os dias com colegas de trabalho, nos jantares de família, nos almoços de família.
Está na merda. As teorias de conspiração, as fake news.
Eu estava a falar disso praticamente todos os dias. E está a consumir completamente as pessoas.
Por que está aqui? É por causa disso. É porque de fato as pessoas estão muito perdidas. Como é que a gente desperta isso? Em que a gente vai acreditar? Já há os generative AI, já tem os filhos a ligar aos pais a pedir dinheiro. "Mas é a cara do meu filho, com a voz do meu filho." As pessoas já caem nisso, é impossível às vezes certas pessoas não caírem, se calhar, porque não estão preparadas.
Ainda ontem tive uma conversa sobre isso, que tem andado um tipo a ligar-me, ligam-me e depois desligam. E vai logo outro e diz: "Isso é pra clonarem a tua voz." Ficou logo ali o caos. Ele ficou preocupadíssimo com aquilo.
Parece ser verdade. Se calhar é uma máquina, é um bot qualquer.
Sim. Mas eu não fiz isso de ânimo leve. Foi um dilema pra mim começar a fazer esses vídeos.
Por quê? A ideia é que começaste com a maior naturalidade do mundo. Começaste do puro humor pra uma coisa séria.
Quero dizer, entretanto, tive sete anos sem fazer absolutamente nada, sem aparecer, a fazer só jornalismo puro e duro de redação. E foi um dilema pra mim, porque esta questão dos jornalistas aparecerem nas redes sociais é uma tendência que vem descrita agora no último relatório da Reuters, o Reuters Institute 2025, como news influencing. E é uma tendência que eles estão a detetar, que é: há cada vez mais jornalistas a lançarem-se a solo e a aparecerem como influenciadores de notícias. Mas jornalistas com carreiras absolutamente consolidada.
Ah, ok. Pronto. O Piers Morgan.
E não só. A CNN, neste momento, tem imensos jornalistas, até correspondentes e tudo.
Que são freelancers e que fazem os seus canais.
Que têm os seus canais de Instagram e que são partilhados em conjunto com o próprio CNN. Quando eu digo CNN, digo outros meios de comunicação social. Há imensos a fazer.
Não é bom, nem mau, é uma ferramenta nova.
Exato, é uma tendência nova.
Exatamente.
E o meu dilema aqui foi: esta tendência é nova, é incipiente, ainda não se estudou os possíveis efeitos dela sobre as relações, sobre o papel do jornalista na redação, sobre o papel do jornalista na sociedade. Ainda não sabemos bem o que é que isso-
Ainda é muito cedo pra perceber.
Ainda é muito cedo. E eu tive receio, originalmente, de fazer parte do problema, mas ao mesmo tempo, também acho que o espaço informativo não pode estar-
Refém dessa dúvida.
João, entrega a peixada, que é mesmo assim. Entrega a peixada. Acho que os jornalistas também têm que estar onde as pessoas estão.
Mas isso há em tudo também. Rúben, isso não é desculpa, nas redações também há a peixada.
Sim, exato. Pronto.
Não elimina. Estás num jornal. Por exemplo, eu descobri que tu eras do Expresso pelo teu e-mail. Depois até mandei uma: "Rúben, estás em concorrência", e tal, e tu a rir comigo. E eu pensei: "Pronto, ok, tranquilo", porque eu gosto é de louvar o teu trabalho e a tua cabeça, e a buscar o pensamento crítico das pessoas. Isso é que é super importante. Tu fazes isso muito bem, por isso é que eu te tenho que dar voz este caso.
Sim, e acho que é muito importante os jornalistas juntarem-se pra falarem também sobre a profissão.
Primeiro era um youtuber que fazia aquilo, um instagramer que fazia aquilo. Eu pensei: "Espera, ele tem reportagem do Expresso."
Fui em tempos.
O Expresso pode ter aproveitado coisas tuas, mas não quer dizer que fosses da casa. E depois eu que vi que eras.
Não, mas sou.
Cá está. Se esses podcasters e esses instagramers são jornalistas encartados, que fazem coisas credíveis e que até outros canais podem até comprar e aproveitar, pra mim isso é tranquilo, é mais uma ferramenta que está à disposição. Agora, de facto ainda é cedo pra avaliar.
Mas tem que se avaliar, tem que se estudar quais é que vão ser os efeitos dessa nova onda, porque isso pode afetar a forma como as pessoas veem os jornalistas, pode contribuir para esta tendência de descredibilização dos meios de comunicação social, pode ainda polarizar mais o espaço informativo na medida em que são ainda mais agentes a interceder. Quer dizer, já não são só os instagramers dos jornais, são os instagramers dos jornalistas também. Ainda não se sabe o que é que vai acontecer. Pode também ter um efeito inverso, que é aumentar a credibilidade da informação, porque as pessoas geralmente tendem confiar mais em pessoas do que em instituições. E se calhar ter jornalistas nas redes sociais que deem o nome, que deem a cara pela informação que estão a passar, pode ajudar.
Do que a instituição, o jornal novo.
Sim, e está plasmado no relatório da Reuters. Os inquéritos que eles fizeram está lá muito impressionante.
Rúben, o que me assusta é os tais, e vieste agora do Parlamento Europeu, aliás, com o Rainho, outro amigo nosso colega aqui.
Sim.
Onde tinhas tido uma entrevista com a porta-voz do Parlamento Europeu, a Delphine, que dizia que o Parlamento Europeu deu lugar a uns instagramers, digamos assim, que foram pra lá armados com gabinete de jornalista e estúdio, e que não são jornalistas, mas advogam os jornalistas a espalharTeorias da conspiração. Isso é que é mau.
Sim, o que aconteceu não foi a Delfine que me disse isso, foi o André Carvalho Ramos que falou disso aqui no último podcast. Por acaso não conversei com a Delfine sobre isso, mas isso é verdade.
Acho que são os partidos que propõem: "Essa pessoa aí para ser o nosso porta-voz aí, pronto." Depois não é o jornalista, isso é que devia ser.
Só para explicar, para quem não sabe, o Parlamento Europeu tem uma coisa que se chama VoxBox, que são estúdios que estão à disposição de toda a gente. Qualquer jornalista que vá ao Parlamento Europeu trabalhar, cobrir os trabalhos do Parlamento, pode utilizar, reservar aqueles estúdios para lá fazer entrevistas, como nós fizemos, como eu agora fiz semana passada, eu e a Rita Soares da Antena Um, fizemos com a porta-voz do Parlamento Europeu. Reservámos o estúdio, fizemos lá a entrevista com ela. E claro que isso pode ser aproveitado por-
Pessoas que não sejam necessariamente jornalistas.
Pessoas que não sejam necessariamente jornalistas.
E estão a fazer informação à maneira deles.
É aquela velha dicotomia, liberdade de expressão.
Que aliás, a tua entrevista foi sobre isso, não é?
Sim. A entrevista que fizemos com a Delfim Colarço foi nesse sentido.
Estou a ver aqui várias reportagens que tu fizeste, entre vida e Europa, por exemplo, sobre os refugiados deste navio Lifeline, que foram acolhidos em Portugal. Esta tua primeira reportagem, "O Muro Caiu e Eles Nasceram", os 30 anos da queda do Muro de Berlim. A Baixa de Lisboa, liquidação total. Aí tiveste uma menção honrosa nos prêmios Vicente Jorge Silva.
Essa reportagem foi uma autêntica tese.
Um megalobra para si. Foi extraordinário.
Foi para o Expresso.
Foi para o Expresso, exatamente. Esta que era sobre a baixa, que é a grande montra de Lisboa para os turistas, mas tem 121 lojas fechadas e falavas um bocado sobre isto. Muito bem. Aqui sinto-me feliz. Há uma reportagem também sobre as mulheres afegãs que tu fizeste.
Sim, com a Marta Gonçalves. Sim.
Que conseguiram fugir dos talibãs. Estão felizes hoje. Aqui sinto-me feliz, é extraordinário. Os documentários que tu fizeste, como o vulcão das Canárias, estiveste lá, por exemplo.
Com a Joana Pereira Bastos.
A grande fábrica, sobre o tráfico dos animais com o Pinheiro. Já falámos dos animais e o cão centrado. E este da Mitra, este da Mitra é de quando, este trabalho? Com três colegas teus?
A Mitra é uma história que a Joana Pereira Bastos já tinha em carteira há muito tempo, que já queria fazer há muito tempo.
Este jornalismo histórico é muito importante.
Sim, e a Joana Pereira Bastos e a Rita Calmo Melo são ótimas nisso. Eu acabei por entrar para essa equipe e ainda bem, e o trabalho transformou-se.
Vence todos os prêmios amivos, Vicente Jorge Silva também. Mitra, o depósito dos miseráveis, uma reportagem sobre o capítulo mais sombrio e mais esquecido, talvez menos conhecido do Estado Novo. Isto que era guardados ali na Mitra, ali embaixo, ao pé do Beato, para aquela zona.
Era onde era o Palácio da Mitra, Palácio dos Bispos.
Que ainda existe, que é onde era o Palácio dos Bispos. A ditadura prendeu ali, ao monte, sem condenação nem recurso, os pedintes, os vadios, os aleijados, loucos, as prostitutas, homossexuais. Era uma cidade dos mal-amados. De fato, era um depósito de miseráveis, rapavam-lhes o cabelo, metiam-lhes uma farda de cotim, um número ao pescoço, como um campo de concentração. Mais de 20 mil crianças e adultos passavam por lá. Fizeram uma reportagem incrível. E de fato, este jornalismo histórico é muito importante ver para as pessoas não repetirem exatamente os erros da história. E as pessoas não conhecem isto, não sabem que isto passou há algumas décadas, não foi há 500 anos. Incrível.
Sim, e aí chapeau, lá está a Joana Pereira Bastos e a Rita Calmo Melo, que fizeram questão de trazer essa história à luz do dia.
Outra vez, para voltar.
Sim, e foram três meses, penso, quatro meses de muitos arquivos, lamber papel, entrevistas, passamos muito tempo também lá em filmagens.
Eles falaram com os sobreviventes.
Estivemos com a senhora Catarina, que já faleceu, infelizmente, que era a mais antiga albergada da Mitra, estava lá desde, já não me lembro bem do ano, 1955, uma coisa assim, e acabou por falecer lá porque a Mitra também passou por várias fases, desde essa fase do albergue gerido pela PSP, depois do 25 de abril, onde continua basicamente a ser a mesma coisa.
Exatamente. Para os indesejados.
Sim, exatamente. E depois passou para a tutela da Segurança Social, depois da Santa Casa da Misericórdia. Enfim, passou por várias fases e neste momento é um lar.
Da Santa Casa, estou me enganando?
Sim, um lar de Santa Casa.
Nada a ver, não era tirar as pessoas da rua porque eram vadios ou porque eram homossexuais ou porque eram prostitutas.
Sim.
Era esconder do público, esconder das pessoas.
Sim, nós entrevistamos um senhor que era o Carlos, que tinha uma história muito interessante, porque ele acabou lá outra vez. Entrou agora para lá quando a Mitra já era um lar, mas ele já lá tinha estado, tinha uma história com a Mitra, de quando era muito miúdo, com o irmão, estavam os dois a brincar na rua. O pai estava a trabalhar e chegou um PSP ao pé deles: "Venham cá, o que é que vocês andam aqui a fazer?"
Enveredar na escola.
Enveredar na escola, sim. Pegaram nos miúdos e levaram-nos para a Mitra. Quer dizer, quando o pai chega do trabalho: "Onde é que estão os meus filhos?" Quando finalmente dá com eles na Mitra, já os miúdos lá estiveram o dia todo, já lhes cortaram o cabelo, já os desparasitaram, já estão com a fardazinha de cotim. Esta reportagem também aconselho a ver, está cheia de histórias.
Nós temos o jornalismo de investigação que precisamos?
Eu acho que sou muito privilegiado neste sentido. Eu comecei a trabalhar no Expresso e lá fiquei durante sete anos e, de facto, posso falar da minha experiência própria, é uma redação onde ainda há tempo para se fazer coisas.
O tempo é essencial.
Tempo e dinheiro. O dinheiro vai flutuando, umas vezes há mais, outras vezes há menos.
O tempo é muito importante, estás sempre a dizer isso.
O tempo é muito importante.
As redações hoje estão em vias de extinção, não têm tempo.
É um ativo.
O tempo é um ativo.
É um ativo muito bom. E no Expresso, pelo menos até hoje, nunca me pude queixar. Sempre que quis fazer uma coisa, sempre que tinha uma coisa que tinha que fazer, que esta reportagem tenho mesmo que fazer.
E deixavam?
Propunha e fui e fiz e pedia vales e pedia carros e ia e preciso de uma noite naquele hotel. Isso, de facto, é tudo o que um jornalista pode pedir para fazer um bom trabalho.
Muito bom. Nós temos sempre boas histórias para contar. Devemos ter sempre.
Cada vez mais. Aliás, deixa-me dizer isto, voltando à literacia mediática, uma das coisas que as pessoas acham, em inglês tem o nome "what aboutism", que é sempre que nós publicamos uma reportagem. Dou-te um exemplo específico. O JN publicou há uns dias o assassinato do Padre Max, não sei se viste essa reportagem, está absolutamente maravilhosa, deve ter demorado meses a fazer, se não, se calhar, anos, que é sobre o assassinato do Padre Max, que descobriram eles agora há pouco tempo, mandado assassinar por cinco mercenários pagos, na altura, pelo CDS. Tu abres a caixa de comentários e os primeiros comentários são todos: "Então e das FP 25 ninguém fala?"
Exato.
Chama-se isso "what aboutism". Tu publicas uma história sobre uma coisa, então e sobre esta, ninguém fala. Deixa-me só dizer-te isto, que é o problema do jornalismo hoje em dia é que há muitos jornalistas, publica-se muito, as redações são um frenesim total. Há histórias sobre tudo. E eu sinto que muitas vezes tenho dificuldade em encontrar uma história que ainda ninguém tenha abordado.
Original, digamos assim.
Original. Às vezes penso: "Olha, isto aqui, grande história, deixa-me cá ver. Já foi feito, o Observador já fez, ou o Público já fez, ou a SIC já fez. E já fez há três anos, já fez há quatro anos". Portanto, esta perceção que as pessoas têm de que os jornalistas falam disto, mas não falam daquilo, vão à internet, pesquisem.
Às vezes não é verdade. Embora há temas que, se calhar, é outro ponto de vista, ou passaram 10 anos. Não é obrigatório. Já se falou disso, não vamos falar mais.
Claro, sim. Mas isto para dizer, para também matar aqui um bocadinho este mito de que os jornalistas falam disto, não falam daquilo. Hoje em dia os jornalistas falam de quase tudo e há reportagens sobre quase tudo. Mesmo até agora sobre assuntos tão quentes como aquilo que se está a passar no Irão e em Gaza e em Israel e no Líbano. E há reportagens. E na Ucrânia. E há jornalistas no terreno a reportar, mas há sempre queixas de: "Não falaram disto, não falaram daquilo, não deram esta perspectiva, não deram aquela."
Isso vai haver de ser sempre. Saco de pancada, estás sempre a dizer isso.
É, nós somos o saco de pancada da internet. Eu acho que hoje em dia se o Expresso fizesse uma publicação só a dizer bom dia, ia logo aparecer alguém: "Bom dia só sobre ti."
Enquanto está a chover. Então e sobre a noite, ninguém fala sobre a noite.
Ninguém fala das seis. Não havia bom dia a essa altura.
Exato. Estar nas redes ou não, isto é um bocado o dilema no momento este, news influencing, esta grande tendência que tu falaste já. Isso é fazer parte da solução ou é parte do problema? Como é que tu resolves isto na tua cabeça?
Foi aquilo que nós estávamos a falar há bocado. De facto, o que eu acabei por concluir é que, e aliás, o André Carvalho Ramos também falou nisso quando cá esteve, é que eu acho que os jornalistas têm que estar no espaço informativo. Nós temos que falar com as pessoas onde elas estão.
Seja uma redação, um jornal impresso, uma rádio ou YouTube, um vídeo.
E tenho pena que tenhamos de o fazer ligados à máquina, que é o que acontece neste momento, que é o grande Tamagotchi, a pequena máquina de fazer raiva, o algoritmo, a grande máquina.
O todo-poderoso.
Tenho pena de que tenha que ser assim, ou seja, de que os mercados que nós tínhamos hoje em dia, as plataformas que nós tínhamos hoje em dia para falar com o público e para chegar às pessoas, estejam concentradas em meia dúzia de empresas norte-americanas e uma chinesa, no caso o TikTok. Quer dizer, tenho pena de que seja assim. Preferia que não fosse, preferia que os jornais tivessem uma circulação paga como há antigamente e preferia que as pessoas continuassem a ir diretamente às fontes de informação ou aos jornais ou às órgãos de informação.
O paradigma mudou totalmente.
Tenho pena que seja assim, mas de facto é o que é.
É o que é, é assim. É aqui que temos que viver, aqui tens que dar o teu melhor e informar.
Temos que criticar, mas também temos que estar onde as pessoas estão. Foi assim que eu resolvi este dilema na minha cabeça e espero que consiga fazer alguma coisa com isso.
Tão exposto como tu estás, não recebes milhões de hate mails? Ou já sabes lidar com isso muito bem?
Já começo a receber alguns comentários mais desagradáveis.
Não ligas muito, espero eu. Ou não te afeta.
Não ligo, por lá está, porque tenho literacia mediática e percebo de onde é que aquilo vem e percebo que, se calhar, aquelas pessoas estão todas a comentar aquilo, mas se calhar há uma maioria silenciosa que nunca comenta, que pôs like no vídeo, que gostou, que guardou, que mandou para um amigo, mas nunca vai comentar, porque a maioria das pessoas não comenta. Isso também é o que dizem os números da Reuters Institute, é que a maioria das pessoas que interage com as publicações não comenta. E por isso é que também a internet parece mais polarizada do que é a sociedade, porque as caixas de comentários geralmente são para as pessoas mais militantes. Quando eu digo militantes, não digo tanto no sentido político, mas mais ativas nas redes sociais, e que têm mais tendência para comentar e que geralmente respondem melhor às emoções mais fortes.
Já disse, é sempre uma minoria, quer dizer, é uma amostra das pessoas.
Ou seja, é uma amostra muito enviesada daquilo.
Mas é a que faz mais barulho, e o algoritmo adora isso.
Exatamente.
Como tu sabes, e divide muito, e extrema.
Sim.
O Chega, por exemplo, aproveitou-se muito disso e todos, e os lados populistas deste mundo, todo mundo está a virar um pouquinho à direita nesse aspeto.
Já que falas nisso, vou também introduzir aqui esta questão, porque estive em Bruxelas este assunto ainda está fresco na minha cabeça. Esta questão da literacia mediática é cada vez mais importante por isto, porque a guerra que estamos a ver surgir em vários pontos do mundo neste momento, também acontece muito no espaço informativo. É a chamada guerra híbrida. E neste momento, principalmente na Europa, a Europa está a ser atacada por todos os lados com ingerências.
Até pelos aliados antigos.
Até pelos aliados antigos. CampanhasMuito sofisticadas e muito elaboradas de ingerência russa, chinesa. Em processos eleitorais. Está documentado. Sim, está documentado ingerência russa no Brexit, ingerência russa no referendo da Catalunha, ingerência russa nas últimas eleições presidenciais francesas, ingerência russa nas eleições da Roménia. Eu aconselho mesmo as pessoas a pesquisarem, porque acho que é uma história muito reveladora dos tempos em que vivemos. Umas eleições presidenciais que são anuladas porque se descobre que um dos candidatos que apareceu do nada, de repente tem milhões de seguidores nas redes sociais e ganha com 23%, e vai-se a descobrir e afinal se calhar tem mais ligações ao Kremlin do que aquelas que se suspeitava. Nós temos que saber, e acho que os utilizadores têm que perceber isto, que é, estes agentes de desinformação, isto é uma conversa que tem muitos panos para mangas. Estes agentes de desinformação têm uma agenda que me parece ser transversal, que é dividir para conquistar. E isso vem de todos os lados. Eles não têm partido. O que interessa é tudo o que eles vejam que serve para corroer o tecido social europeu e para criar divisões e cisões dentro da Europa é bem-vindo. Seja à esquerda, seja à direita, não interessa.
Estão a dar forças, a China, os Estados Unidos.
A China, Estados Unidos, Rússia.
Isso é que foi a invasão da Ucrânia, foi importante, porque eu estava à espera que nós cada vez mais nos separássemos todos.
Não, mas continuam a tentar.
Eu sei, continuam a tentar, mas eu ficámos admirados, até os chineses acabaram por reconhecer isso. Afinal, juntaram-se mais, uniram-se mais contra este inimigo que apareceu de repente.
Mas as tentativas de divisão não param e são cada vez melhores e cada vez mais sofisticadas. Aconselho as pessoas a pesquisarem pelo portal EU vs Disinfo, de desinformação, EU vs Disinfo, que é basicamente um mapa de nódulos, onde se tenta rastrear e mapear de onde é que vêm estas campanhas de desinformação.
Deixaste-me isto, isso é importante, que a gente temos que acabar. Era mesmo essa coisa. EU vs Disinfo.
Pesquisem, porque é muito interessante navegar por esse portal, porque é uma tentativa já da União Europeia de tentar começar a criar aqui uma lógica e a denunciar também alguns casos. Isso depois também gera todo um outro debate sobre censura. Também é importante ter esse debate.
O assunto, infelizmente, não acaba nesta discussão.
Nada.
Ruben_Tiago_Pereira é o teu Insta e se as pessoas quiserem seguir, podem sempre ir por aí ver os teus vídeos.
Sim.
Então é este conselho final. Não quero mais nada, basta-me isto. Nós passámos o nosso tempo, mas Ruben Tiago Pereira, quero agradecer muito a tua vinda aqui.
Obrigado eu.
Há de voltar. Aliás, nós antes disto preparámos 15 pontos que vamos ter que abordar. Eu acho que não tocámos em nenhum.
Tocámos em alguns.
Mas aqui já foi mais a tua carreira também para perceber quem és tu, quem é esta pessoa, de onde é que ela vem e nem falámos do cão centrado. Esta coisa que tu tens de lifestyle sobre o comportamento animal, que fazes com a tua namorada, que é muito curioso.
Já é muito antiga.
Mas pronto, de qualquer modo, fica aqui este grande agradecimento de teres vindo aqui a este espaço falar disto e que é um tema inesgotável e que vamos mesmo ter de continuar a debater isto. Portanto, estas dicas já mandaste e também o teu Insta, são umas boas armas contra esta desinformação. Muito obrigado, Ruben. Continuação do bom trabalho.
Obrigado.