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O convite que se segue não é bem para pôr a mochila às costas, mas mais para trazer o Mochila para a sua vida. Aí está a segunda edição do Mochila, Festival de Teatro para crianças e jovens, que arrancou ontem, dia 3, e até dia 18 traz teatro, cinema, música, novo circo e performance, além de oficinas e conversas, num total de 18 propostas em diversos espaços culturais e ao ar livre da cidade de Faro. Para nos falar disso, convidei o seu diretor artístico, ator, encenador, mediador e programador cultural João Brito. Ele é fundador do LAMA Teatro, responsável por estes 10 dias cheios de atuações musicais e atividades lúdicas a não perder na capital algarvia. Quem disse que fora do verão não se passa nada no Algarve? Olá, João, e bem-hajas por teres aceitado este meu convite.

Olá, João, tudo bem?

Estás em Faro, não é? Diretamente de Faro.

Estou em Faro, diretamente de Faro, da nossa LAMA Black Box.

Bem-vindo ao observador, João. É um prazer falar contigo.

Obrigado.

Devo dizer que antes de te conhecer, só conhecia um outro João de Brito, que era patrono do Colégio onde eu andei. Um santo jesuíta que foi martirizado na Índia em 1993. Espero que tudo corra bem mais esta edição, a segunda do Mochila, para não seres o segundo santo martirizado que eu vou conhecer com este nome. Tu és um ferranho farense, falas com sotaque e tudo.

Quando estou cá é pior.

E fazes questão, é engraçado. Para ti, Algarve é missão. Estar no Algarve é missão, promover as coisas, por isso é que o LAMA é sediado no Algarve.

Exatamente, por ser daqui e por querer desenvolver um trabalho aqui, foi esse o intuito. Tive muito tempo fora, passo muito tempo na estrada, mas a base do nosso trabalho e a base da missão é aqui, é pelos farenses e pelos algarvios, e por esta região, e tem vindo a crescer ao longo dos anos, mas sempre tive esse fito. Não sei porquê. Acho que é mesmo por ter nascido aqui e por ter esta vontade de possibilitar às pessoas coisas a que eu não tive acesso.

Exatamente.

Talvez isso me tivesse puxado bastante e depois as coisas se foram desenvolvendo. Tem crescido de uma forma muito saudável e muito sustentada, o que faz com que vá colhendo os frutos aos poucos.

Exatamente. O estar no Algarve para ti é missão. Este LAMA quer mesmo dizer Laboratório de Artes e Média do Algarve?

Sim, isso foi muito no início, foi se extinguindo um bocadinho. Ficou só mais a sigla do que por extenso. Laboratório era a ideia de experimentação inicial. O LAMA no início tinha pessoas de várias disciplinas.

Porque era multimédia também, ao princípio era multimédia. Desculpe.

Sim, média. Tinha vídeo, tinha pessoas das artes plásticas. Mas depois isto foi afunilando para ser mesmo uma companhia de teatro, porque eu sempre fui um bocadinho o cabeçilha da estrutura. E depois fomos adotando o nome LAMA Teatro e extinguimos um bocadinho a ideia. Está lá na base o laboratório, mas deixámos de usar essa nomenclatura.

João, o teatro está muito centralizado em Lisboa. Eu sei que a grande preocupação é sempre o show off do verão, como tu dizes. Aliás, acabou aquilo do 365 Algarve, com que aliás chegaste a colaborar. Portanto, só isso mostra um bocadinho essa indiferença do desenvolvimento cultural, tudo o que seja na província, tudo o que seja fora de Lisboa e do Porto. Mas tu sentes isso? Está muito centralizado?

Eu acho que está centralizado, mas a base é um bocadinho estrutural, de falta sempre de dinheiro para que consigamos desenvolver um trabalho. Mesmo em Lisboa isso acontece. E depois acho que nos outros sítios fora de Lisboa, ainda é pior do que em Lisboa. Se em Lisboa estruturalmente já é mau, nos outros sítios ainda é mais. Há um desinteresse total sobre o apoio às artes e acho que isso depois se reflete. Ou não há um investimento continuado, há um investimento que é muito entrecortado. E o 365 no Algarve é exemplo disso, porque construiu-se coisas ao longo de três, quatro anos. Desenvolveram-se coisas que não têm consequência. Têm consequência num público que foi criado, numas pessoas que se habituaram a fruir durante a época baixa, em vários sítios do Algarve, com muitas coisas diferentes. A cultura dentro da gastronomia, da dança, das artes plásticas.

Várias artes, várias disciplinas.

Nas caminhadas. Eram cerca de 20 projetos apoiados por ano e de repente cai no vazio. Quem não tem estrutura, desaparece e, por sua vez, quem perde são as pessoas que podiam ter acesso a isso. E há um desinvestimento total.

João Brito, gosto muito que sejas sediado aí. Fazes questão de voltar sempre aí. Não paras, porque estás pelo país todo. Vocês estão sempre na estrada, estão sempre de gostões, o que é extraordinário, mas estreiam também no CCB e em vários sítios. Isso é uma grande honra, eu acho, para uma companhia algarvia e para vocês todos. E deviam prolongar e cada vez mais tentar essas parcerias. Vocês têm muitas parcerias com muitas entidades e foste trabalhar em imensos sítios. Também para isso criaste laços, porque tu tens uma carreira muito curiosa, também como ator, encenador, mediador. Tu entraste neste filme do Salgueiro Maia. Fazias de hotel neste filme do Sérgio Graciano. Aliás, conheceste o próprio hotel há uns anos, não é? Quando fizeste aquilo.

Conheci. Quando fiz de Carlos Cedora, que é outro grande nome do 25 de Abril.

O famoso Furriel.

O Furriel Miliciano, que foi dos ouvidos do MFA, do António Pedro Vasconcelos.

Exatamente, este comentário que vocês fizeram.

E quando fiz de Carlos Cedora, conheci o Hotel Sarava de Carvalho.

E depois entras noutras séries, no "Contam como foi", "Liberdade 26". Tu, aos 19, em 2004, vieste então para Lisboa estudar. Passaste por tudo o que é Teatro Experimental do Porto, Pelutec, Artistas Unidos, Primeiros Sintomas, Formiga Atómica, o Bando, uma série de companhias Tu fizeste também televisão, cinema, publicidade, locuções. Alguma destas disciplinas tu preferes ou é mesmo o teatro que é a rainha das tuas preferências?

Eu acho que o teatro é rainha porque foi onde tudo começou. Eu interessei-me pelo teatro, fui estudar teatro para Lisboa, estive em vários sítios. Estive primeiro na Universidade Moderna, num curso que havia, que não gostei muito, depois tive noutro curso que era em Santos, depois fui pra Escola Superior de Teatro e Cinema e a base foi sempre um bocadinho o teatro. E as outras áreas foram aparecendo. Apareceu publicidade, também em tempos fiz muitos anúncios. As coisas foram aparecendo naturalmente. Fiz um casting para televisão, depois também comecei a fazer televisão, uma série que era o "Diário de Sofia" da RTP 2. E as coisas foram sucedendo. Eu também fui sempre um bocadinho muito à procura.

Muitas novelas também, entraste muitas, famosas. "Belmonte", "Sol de Inverno", "Os Jardins Proibidos", "Beirais". Bem, nunca mais acaba.

Sim, alguns papéis mais pequenos, uns papéis maiores, talvez no "Belmonte", na "Rebelde Way", que era uma coisa da SIC já há uns anos. E as coisas foram sucedendo. Eu também sempre fui muito proativo de ir à procura. E depois também tive alguma sorte. E tive alguma sorte também. Claro que a sorte também se constrói, mas tive alguma sorte de entrar logo nos Artistas Unidos e no Teatro dos Aloés, logo ao sair ao Conservatório, à Escola Superior de Teatro e Cinema. Depois foram sucedendo as companhias com que fui trabalhar, até surgir o LAMA e eu querer fazer as minhas próprias coisas.

Há aqui só um intervalo. Desculpa interromper-te, João. Esta coisa do "Para Além do Tejo", no Teatro Meridional, eu sei que foi o primeiro espetáculo que tu viste logo que chegaste a Lisboa e que te marcou muito.

Marcou muito, porque eu tenho uma costela grande, materna, alentejana.

Tu que foste criado por mulheres, atenção, por duas mulheres, sempre ouvi dizer isso.

Exatamente, pela minha mãe e pela minha tia. Claro que o meu pai também, mas como eram separados, não estava tão próximo. Que são as duas algarvias. A minha família materna é toda alentejana. É toda alentejana. E então esse espetáculo, "Para Além do Tejo", bateu-me de uma forma. Já era muito bem interpretado, era muito bem feito. Foi, sem dúvida, dos espetáculos mais marcantes que vi, encenado pelo Miguel Seabra. E foi um acaso. Havia um professor, o Tito Lívio, que é um crítico e teórico de teatro, que era meu professor de História do Teatro e nos levou. Não fui eu que fui pelo meu pé, foi ele que me levou e teve essa importância na minha vida. Por isso é que às vezes é um acontecimento específico que pode mudar a tua vida. E esse foi um dos. Houve outros espetáculos que também me marcaram.

O chamado abre olhos.

Abre olhos, exatamente.

És um grande ativista cultural. É muito engraçado também tudo a ver com a tua região e esta tua disciplina do teatro. Tu fundaste então e és diretor artístico do LAMA Teatro. E és um ativista também no sentido de lutas muito contra a precariedade do setor. Eu lembro que estes estatutos dos profissionais da cultura do ano passado, ficaste sempre mais receoso do que propriamente entusiasmado. Achas que as coisas não funcionam bem. Houve aquele Plano Nacional das Artes, boas ideias, mas não houve quase investimento nenhum. Eu sei que é uma coisa que te faz confusão, tu és um lutador por isso. E é muito curioso, João, essa tua costela. Os monumentos, por exemplo, tu dizes: "Estou aqui no Algarve, a Fortaleza de Sagres gera imenso dinheiro, tem milhares de visitas por ano. O dinheiro não é investido aqui, vai pra um poder central e depois é que eles distribuem conforme os seus critérios, em vez do dinheiro da região, do trabalho, do vosso esforço, ficar como deveria ser na vossa região e promover os vossos trabalhos". Isso é muito importante.

Sim. Já senti esse lado de manifestar. Às vezes não vou mais fundo, porque também me interessa mais o trabalho artístico e da criação. Mas depois quando me fazem falar sobre esses assuntos, é óbvio que dou a minha opinião e o Algarve está sempre como base e estou sempre com o escudo na mão para defender o Algarve. Acho que faz parte mesmo. Sempre que posso falar sobre isso, dou a minha opinião.

Tu tinhas um projeto a marinar, chamado "A Minha Casa é a A2", que é feito disso. Existe ou não existe?

Por acaso esse projeto vai um bocadinho ao lado daquilo que eu sou, que é eu quando meto uma coisa na cabeça, faço. E aqui esse espetáculo, não é um espetáculo, é uma ideia que tenho tentado marinar e nunca mais sai cá para fora.

Deve estar cheio de sabor.

Não costuma acontecer comigo, mas eu faço muitas viagens, às vezes duas vezes por semana, vou de Lisboa a Faro, Faro a Lisboa. Passo a vida na A2. E então comecei a tirar umas fotografias em alguns sítios e a postar nas redes sociais, "A Minha Casa é a A2", com uma ideia de poder fazer uma espécie de uma curta-metragem, de uma média-metragem, com acontecimentos pela autoestrada ou pelas estradas adjacentes. Mas pronto, ainda está em águas de bacalhau, para já não há fim à vista, por isso vou continuar a marinar, sim.

Esta tua LAMA Teatro, fala-me agora disto, foi fundada em 2010, se não me engano. Tem feito um importante trabalho na área do teatro pra infância também. Não é bem uma companhia, como tu dizes. Nós estamos um bocadinho mais ligados à parte do teatro, mas é uma estrutura de criação artística, no fundo, e tem muito esta função que tu também fazes questão. Função pedagógica, função educativa. Vocês têm workshops com o IPJ de Faro, de expressão dramática. Eu estive a ver na net, sábados de manhã, as oficinas pra crianças, terapias criativas, workshop de terapias criativas.

Isso foi muito no início. Tivemos essas pequenas oficinas, foi mesmo no arranque. Isso foi em 2010, 2011, no arranque do LAMA. Tivemos logo esse lado da pedagogia, porque é a criação de novos públicos, passamos a vida a falar sobre isso. Acho que a gente faça pós-docs sobre isso. É muito difícil os públicos, este trabalho de aprofundamento, como é que nós retemos as pessoas ou como é que nós estamos mais próximos delas. Acho que é sempre uma tentativa de mandar o barro à parede, de forma a conseguir estimular os públicos das mais variadas idades. Sempre foi um bocado o nosso fito. E depois, tal como disse anteriormente, as coisas também se foram sucedendo Com alguma naturalidade na minha vida. E há uma altura em que aparece o serviço educativo da Culturgest, que é a Fundação Caixa Geral de Depósitos em Lisboa, onde eu, a convite da Raquel, que é quem coordena, Raquel Ribeiro Santos, que me convidou para dar umas oficinas, para fazer algumas visitas de jogo, criamos alguns espetáculos em coprodução LAMA Teatro e também com a Culturgest. E a partir daí eu comecei a criar também para as faixas etárias mais novas e comecei a me interessar muito. Isso foi também em 2010.

Entre 2010 e 2016, certo? Que colaboraste com esse serviço educativo.

Exatamente, está tudo certo em relação ao arranque do LAMA e começou a me suscitar a curiosidade. Fiz alguns espetáculos para essas faixas etárias, também com outras companhias e depois, por sua vez, o LAMA também começou a criar para os mais novos e vem daí também esse lado. E esta ligação aqui no Algarve com o lado pedagógico, nós criamos um laboratório pedagógico que é o Estojo, mais recentemente.

Exatamente. Já em 2020.

Que veio desaguar na Mochila. Apareceu o Estojo que foi convite de desaguar na Mochila.

Exatamente. Que é um laboratório pedagógico que nós trabalhamos com jovens, onde eu lanço motes. O ano passado eram três grupos de teatro escolar, que já têm os seus próprios encenadores. Estamos a falar de adolescentes, certo? Já nestas idades.

Estamos a falar de adolescentes, exatamente. Adolescentes mais ou menos entre os 13, 14 e os 18 anos.

E depois organizam o encontro onde eles apresentam as suas propostas, como é que eles trabalharam, certo?

Exatamente, eles apresentam o resultado final. E o ano passado apresentaram no contexto da Mochila, e este ano vamos apresentar também na próxima semana, noutro formato que é o Puzzle, que é um projeto comunitário, que entra dentro do Estojo, que por sua vez entra dentro da Mochila.

Muito irado, porque os miúdos são convidados a apresentar essas propostas, aí juntas com companhias profissionais da zona Sul, que é muito curioso. Tu notas já o aumento da fruição de teatro pelos mais novos? As coisas mudaram com a primeira edição e agora espero que mudem mais com a segunda. Nota-se isso? Há mais miúdos novos a ir aos teatros e a frequentar os teatros?

Sim, por completo. Sente-se não só por nós, mas pelo trabalho que é feito pelas estruturas de criação que há cada vez mais, e isso nota-se claramente uma grande evolução desde que o LAMA existe, desde 2010. Nos últimos cinco anos houve muitas estruturas de criação a aparecer aqui no Algarve, por sua vez, que todos trabalhamos em prol do mesmo. E acho que a Mochila do ano passado também ajudou, mas ajudamos todos a que haja mais malta nova nos espetáculos.

João, já vamos falar mais deste Mochila e de algumas portas, vamos fazer alguns destaques. Eu estou agora a ver algumas criações tuas dentro do LAMA. Ainda antes, uma coisinha antes de irmos à Mochila. João, só os seus títulos eu gosto imenso. 2012, "O Homem da Flor na Boca" e "Sonho, Mas Talvez Não". Depois, 2013, "A História que Não Queria Ser Livro". Bom, entre imensos que tenho aqui. 2014, fizeste "Faro Revisitado". 2017, está aqui o "Carripana", que foi engraçado porque vocês andaram pelo país todo. Vocês fazem questão que todos os vossos espetáculos rodem pelo país. E este, há cinco anos, este "Carripana" era um espetáculo clown, certo? Era sem falas, mimo.

Sim.

Aliás, só tinha uma frase.

Só dizemos os nossos nomes, mais nada.

A Citroën e o Berlingo.

Eu sou italiano e sou o Berlingo e ela é a Citroën e é francesa. E só dizemos os nossos nomes.

E é engraçado.

E não ganhamos nada da marca.

Sim, exatamente. Não oferecem nenhum Carrinho, por acaso, se calhar bem falta vos fazia. Mas é engraçado, porque aí circulou tudo. Vocês foram desde públicos, crianças de três anos até à terceira idade. Vocês fizeram espetáculos em tudo que é sítio.

Sim, fomos a muitos sítios, desde Serralves em Festa, o Algarve todo, Lisboa, Costa Alentejana, passamos um bocadinho por tudo. Pela facilidade também que esse espetáculo tem de circular, porque tem muito poucas necessidades técnicas. É feito na mesma carrinha. Sim, nós circulamos muito e a base também é sempre a circulação, a itinerância, mas o Carripana foi sem dúvida o espetáculo que mais rodou. Nós já fizemos mais de 250 espetáculos.

Aliás, como o nome indica, faz sentido. Carripana ser uma coisa que anda o país todo.

Exatamente.

Outra de 2019, tens aqui outro muito curioso o título: "Roubei um Livro na Cabine de Leitura e Hoje Vou Ler". Também acho um nome extraordinário para um espetáculo. 2020, "Romeu e Romeu". Em 2021, o fabuloso "Uma Casa de Bonecas", uma coisa extraordinária que vocês fizeram no Trindade com ele, fizeram no Vilaré com ele. Esta história do Henrik Ibsen, importantíssimo, coisa feminista, com mais de um século, figurinos do tenente. Deve ter sido também uma mensagem extraordinária, muito à frente do seu tempo, que fizeste questão de levar também, de circular e que deu-te muito nome também, João. Foste muito falado por causa disso, tens noção?

Tenho.

Correu bem.

Foi uma coprodução. Sim, também sinto quando é que as coisas deram uma volta e foi a partir de 2017, aí não posso não dizer que do momento em que o LAMA começa a ter um apoio sustentado da Direção Geral das Artes, do Ministério da Cultura, em 2018, foi aí que também deu um clique e um crescimento tremendo estruturalmente, esse apoio dá uma estrutura à companhia. E a partir daí começamos a ter também cada vez mais coproduções importantes. Tivemos com o Teatro Nacional Dona Maria II, o "Insuflável". Tivemos com outros teatros, agora não me lembro todos, mas até só para culminar nessa questão da "Casa de Bonecas", que foi uma coprodução com o Teatro da Trindade, já com o Diogo Infante como diretor artístico, em fazer a "Casa de Bonecas".

No Teatro Nacional. Contas a história?

Ainda estávamos em plena pandemia, mas tivemos as sessões todas esgotadas, um mês antes já estava tudo esgotado e foi um grande sucesso.

Os atores também contam muito. O Zé Mata, que foi teu colega.

O Zé Mata e a Madalena Almeida. O Zé Mata, sim, foi meu colega no meu primeiro ano de conservatório. E logo aí, obviamente, como houve muita curiosidade sobre o espetáculo e passou também o boca a boca. Depois, numa ligação muito feliz com a força de produção, com a Sandra Faria e a Andreia Silva, acabamos por repor quando já não pensávamos que íamos repor.

No Vilaré, certo?

Acabámos por pôr no Vilarão agora durante o verão. Também tivemos muita circulação de público.

Muito público, que é importante. Exatamente.

E tenho noção que esse espetáculo foi muito falado.

Sim, e a mensagem é importante. Tu fazes questão, escolhes as coisas, escolhes as pessoas, tu fazes as coisas com muita inteligência, é muito bom. E tu fazes questão de dizer que as mulheres submetidas a este mundo fechado, a este mundo tóxico, e depois acrescentas o número de mulheres mortas em 2022, já foi gritante, 13, quase o total do ano 2021, é impressionante. Fazes questão que isto não seja só um momento de entretenimento, mas que passe a mensagem. Isso é muito importante. Tu disseste desde 2018, vocês são financiados pela DGA e também pela Câmara de Faro, ou não?

Pela Câmara de Faro, sim. Desde 2016 temos um apoio anual do município de Faro, se eu não me engano, e por sua vez, um apoio pontual para o Festival da Mochila.

Vocês também é curioso, porque a vossa estrutura aqui no LU.CA é fixa, vocês devem ser pouquinhos e depois convidam os criativos projeto a projeto.

Eu chamo uma estrutura para usar esse conceito da companhia, de pessoas que são fixas a uma companhia. As pessoas são muito mais freelancers e vão trabalhando com umas e com outras. Então a nossa estrutura somos dois. Sou eu que faço a direção artística e o Sandro Bem Hijos que faz a direção executiva e mais um par de botas e eu com mais um par de botas. E depois convidamos para cada projeto. Sim, convidas a equipa artística toda para cada projeto. Eu penso os projetos, ele diz-me se são exequíveis ou não financeiramente.

Exatamente. Tem que haver alguém com essa cabeça, é importante. Não se pode fazer à toa. Ter noção disso é muito importante também. Às vezes há projetos que não avançam por causa disso.

É uma forma empresarial.

Infelizmente, tem que ligar a isso, obviamente.

Mas isso é fundamental. Temos que respeitar orçamentos e essas coisas todas.

Muito bem. Diz.

Era só para culminar essa ideia de um faz uma coisa e o outro faz outra.

Tem os seus pilares respetivos. Festival Mochila. Temos aqui este festival de teatro para crianças e jovens, mas de facto, João, é para toda a família. A tua ideia é juntar famílias.

A minha ideia é que isto seja transversal a toda a família e que todas as pessoas possam ver e que se pense de uma vez por todas, ou as pessoas tenham essa perceção que os espetáculos para crianças e jovens não são só para crianças e jovens, são para todas as idades, são para os adultos também. Porque não há um formato específico para criar para os mais novos. Cria-se da mesma forma a seriedade e a forma como se cria o espetáculo. Obviamente que há coisas que têm que ser adaptadas se trabalharmos com um público pré-escolar, que ainda não lê. Temos que pensar sobre isso, como é óbvio, mas a forma como criamos é igual.

Pode mudar, mas o tema e a base pode ser o mesmo e tem que se adaptar, obviamente.

Eu falo sobre o valor das pequenas coisas para os mais novos, mas os adultos vão levar a mensagem de outra forma, mas é a mesma mensagem, é para eles verem também. E esta Mochila é isso, é um festival para toda a família, os avós. Ainda hoje tivemos um momento muito bonito na Ilha da Culatra, onde tivemos o espetáculo de manhã "Em Busca de um Neto" e onde veio o centro social e a escola, onde tínhamos miúdos do pré-escolar, da primária e depois tínhamos os avós. E algumas professoras. E esta é a ideia, é para toda a família poder assistir a estes espetáculos.

Antes de ir a esses pequenos destaques, é curioso. João, tu não estavas à espera do extraordinário sucesso que foi a primeira edição? Porque foi realmente uma coisa extraordinária.

Eu sou um otimista por natureza.

Ainda bem. Foi realmente uma coisa muito boa. Obrigaram-te a fazer a segunda, mesmo que não quisesses.

Não, por acaso já estava programado fazer a segunda, mas correu muito melhor ainda do que eu pensava a primeira. Correu mesmo muito bem. Eu já pensava que ia correr bem, mas correu mesmo muito bem.

Por isso é que este ano tens uma edição mais completa e mais rica, mais espetáculos, mais atividades paralelas, uma programação muito mais interdisciplinar, que é muito curioso, tem uma conversa, a música, uma expansão, aliás, que eu sei que esteve nos teus objetivos desde o princípio.

Sim.

Melhorar, aumentar.

Isso sempre tive eu, em nome pessoal, mas também o Lame depois por sua vez, como é óbvio, que é esta coisa agregadora. Sempre tive isto, dou-me bem com grande parte das pessoas ou com quase todas as pessoas com quem me cruzei e com as estruturas aqui à minha volta, as amadoras, as profissionais, as de várias áreas, conheço grande parte das pessoas e faz parte também pensar em anexá-las a nós de alguma forma. E isso fez com que trouxéssemos o Cineclube, por exemplo, o Cineclube de Faro, que é um trabalho incrível ao longo dos anos com exibição de filmes independentes E agora temos uma ligação com eles. Eles vão exibir em parceria conosco, o garoto do Chaplin.

Exatamente.

Faz os seus 100 anos, foi no ano passado, e decidimos ligar-nos também ao Cineclube. Ligámo-nos a vários equipamentos culturais. Temos a Rita Rodrigues, que é este espetáculo que aconteceu hoje na Culatra, e o Tosta Mista, que trabalham no Algarve já há alguns anos e também faço questão que eles estejam presentes na programação. É um pouco as pessoas com quem nos vamos ligando, mas também agregar estruturas e agregar projetos que acho que são uma mais-valia também pra nós e pra as pessoas que vão aceder a eles.

João, tu achas que o teatro pra infância ainda é considerado uma arte menor? Ainda há pessoas que não encaram uma coisa pra infância ao nível das outras, do teatro mais clássico?

Há um pouquinho. Eu não sinto que seja por mal. Infelizmente.

Uma questão de formatação de cabeça.

É formatação. Acho que as pessoas não perdem muito tempo a pensar sobre isso. Apanham esse chavão e depois ficam com ele durante muito tempo, em vez de desconstruírem o chavão e irem ver coisas que as faça mudar esse pensamento. Mas ainda há um pouquinho. Mas não acho que seja por mal. Não vejo que as pessoas façam por mal.

Old habits.

Exatamente.

E apostas também, é uma coisa muito boa, João, apostas também nas companhias emergentes e de artistas do Algarve. Isso é muito irado, porque o Universo Paralelo, por exemplo, é um desses exemplos de companhias emergentes. E depois estruturas e artistas com trabalho sedimentado na tua região, como falaste agora, a Rita Rodrigues ou o Torsten Grütja, não é? Ele é o tal que tu falaste agora.

Esse é o verdadeiro nome, o Tosta Mista é porque ele é conhecido e é o projeto dele, mas sim, esse é o nome original.

O nome dele mesmo. Pertences ligado à comunidade local, também é uma coisa muito curiosa. Tu queres envolver toda a comunidade de Faroense. Daí a tal peça comunitária, o Puzzle, que está a enquadrar muitas pessoas.

Sim.

Levas o teatro até à escola. São tudo coisas muito importantes, porque estás integrado numa comunidade local e queres trazê-la também às tuas iniciativas e aos teatros, pra que todos possam desfrutar. Isso é muito irado.

Passo a vida a partir a cabeça com isso, talvez nas viagens na A2 ou não sei. Passo a vida a partir a cabeça como é que podemos chegar. Quando me dizem que: "Ah, mas nós não sabíamos que aconteceu", como é que nós vamos arranjar estratégias para chegar a essas pessoas? Então, eu acho que pelo menos neste festival conseguimos isso, que é vamos estar desde jardins, praças no centro da cidade.

Exatamente.

Temos o gangue das mochilas que anda pela cidade.

É verdade.

Cinquenta adolescentes com mochilas às costas. Temos os equipamentos culturais, quase todos da cidade de Faro integrados neste festival. Por isso, não há como não tropeçar em alguma coisa.

Exatamente. Ligado a vocês.

Sim, alguma coisa vão ter que ver, nem que sejam obrigados.

Exato.

Mas por acaso irem passear e encontrarem um espetáculo. E essa é a ideia.

Muito irado. Os temas também, claro, em 22, este ano, trazes então os temas urgentes à atualidade, a ecologia, a velhice, a solidão, foi o que se viu hoje, o consumo consciente, o direito à habitação e o tempo. Começou ontem então com este valor das pequenas coisas, esta criação vossa do LAMA Teatro, foi no Teatro Lets que arrancou, portanto, ontem.

Em coprodução com o Luca.

Luca, exatamente, que vai ser a nossa conversa no domingo. Um texto do David Machado, grande escritor, gosto muito dele. Também com figurinos do Tenente e com música original do Noize Earth. Incrível esta parceria. Este da Rita Rodrigues, da Ilha da Culatra, que falaste, Em Busca de um Neto, fala do tema da solidão, então, através daquela senhora antiga, a senhora velhota que nunca teve filhos nem netos e que se sente muito só. Muito curioso. Isso é na Ilha da Culatra, também é tão irado. Foi um dos destaques do festival deste ano, acho muito irado.

Sim, ela tem uns critérios muito específicos pra arranjar um neto. E a interação dela com a plateia que anda à procura, tem essas diretrizes, como é que ela vai arranjar um neto.

Exatamente.

E correu muito bem. Sim, foi um dos momentos altos pra já.

Exatamente. E também o Espaço Quintalão foi uma das novidades hoje com Histórias de Despensas, com o novo circo do Radar 360 graus, com direção da Joana Providência, coreógrafa famosa. Depois vais ter a Ababuja, uma criação vossa também, amanhã.

Já está a circular também há algum tempo, sim.

Depois vais ter também o T0+1, um espetáculo entre os quatro paredes e sobre três rodas, o tal da Tosta Mista, não é? Este artista é novo circo também, estamos a falar aqui deste artista radicado no Algarve. Depois o Teatro Praga também tem uma colaboração com vocês amanhã.

Exatamente. Amanhã no CAPA.

No CAPA, a propósito do Macbeth, esta ligação ao William Shakespeare. As pessoas vão também gostar muito desta peça maldita escocesa. A não perder. 6 de novembro, então domingo, o auditório do AIPDJ é o Shamam, da companhia de atores, também mais um destaque. Australopiteco também, é o Universo Paralelo, que aborda o tema da diferença.

Sim.

Também é um dos destaques que tu farias, este Australopiteco.

Sim, e fecha a primeira semana, neste caso, fecha a primeira semana.

Exatamente. Depois reabre 9 de novembro, certo? Com a Grande Corria.

Exatamente.

Uma criação da Catarina Silveira.

Que é o teatro que vai às escolas, daí vai ir às escolas. Depois, 9 e 10 temos o Puzzle, que estreia.

Vai ser na Biblioteca Municipal?

Na Biblioteca Municipal, exatamente.

E aí é o tal espetáculo que tem a participação da comunidade algarvia.

Exatamente, são cerca de 25 performers.

Ok. E depois o festival termina com música. Temos a Mão Verde, cá está, a minha querida Capicua, o Pedro Geraldes. Vai ser muito bom, no Teatro das Figuras, dia 11 de novembro. Grande, dessas duas propostas musicais. Dia 12, então, e o concerto Para uma Árvore. Também estou curioso com isto. E também com o In Partir du Soi, um novo circo também, um espetáculo do João Paulo Santos.

Sim, fecha o festival.

Que vai fechar o festival. Falaste então da mochila. E também vai haver algumas oficinas, certo? Tens aqui umas oficinas, por exemplo, com o Noize Earth e o Lugar Específico?

Sim. Há a oficina Música na Ponta dos Dedos, que é a oficina do Noiserver, e depois há o Especificalistas, que é do Lugar Específico. São duas coisas diferentes. O do Noiserver é uma oficina de experimentação musical sensorial.

Ok. Que vai acontecer?

Com a Associação Portuguesa de Paralisia Cerebral de Faro, onde ela vai estar com os utentes durante a manhã. À tarde, está com outro grupo de jovens no Museu Municipal, mas será a mesma oficina. E o Especificalistas é dirigido pela Susana Alves, que também tem um trabalho longo com estas faixas etárias. A ideia é que eles vão provocar os participantes, são grupos de cerca de 10 crianças entre os sete e os 12 anos, vão provocá-los em cerca de uma hora e meia, numa oficina de uma hora e meia. Depois eles vão ver o espetáculo da Mão Verde e no dia a seguir têm que fazer a crítica do espetáculo que viram e vão gravá-la em formato podcast.

Boa.

E essa é a ideia para ficar também pra posteridade, essa crítica que eles fizeram.

Vai haver também um debate, este "Que bagagem levamos às costas para encarar o futuro?" É um debate, também uma conversa, que vai acontecer com estudantes, com professores, com mediadores culturais, que vai acontecer onde, João?

Isso vai acontecer no Museu Municipal de Faro também.

Ok. Em que dia que isto está previsto?

É no dia 11 de novembro, às 16h, e terá a Susana Menezes presente.

Ok, cá está, a nossa convidada de domingo.

A programadora.

Exato. Tubuca.

E depois vai estar também a Anabela Afonso, que representa a Direção Regional de Cultura do Algarve, dois professores, a Inês Ferrão e o Pedro Curado, dois professores da parte artística, e depois vão estar alunos também presentes nesta conversa, e eu farei a mediação.

Muito bem. Já falaste disto, de "O Garoto", do Charlot. Porque fez 100 anos este filme, certo? Estreou a 21 de janeiro de 1921, no Carnegie Hall, em Nova Iorque. Com o tal Cineclube de Faro, tiveram esta ligação e vai haver esta exibição da longa-metragem deste grande filme, assinalando este centenário. E se calhar isso são tudo ideias, João, que tu vais aproveitar e vais se calhar nas próximas edições continuar. Vai tornar a haver filmes, tornar a haver debates. Conforme isto vai correndo, tu também vais melhorando. Vais poder contar na terceira edição também com um leque alargado de atividades e de coisas culturais em vários espaços de Faro.

Sim, estamos sempre a pensar como é que podemos melhorar. Coisas que achamos que funcionam, não mexemos, vamos continuar. E depois, o que é que podemos melhorar? O ano passado ainda faltavam alguns equipamentos que não estavam-

Prontos

...onde não aconteceram espetáculos. Este ano tivemos mais o Teatro Lets e o Kappa. O ano passado não tínhamos cinema, este ano temos cinema, temos música, temos novo circo. A ideia é sempre melhorar, fazer um apanhado depois de acontecer o festival e perceber como é que podemos chegar. Sendo que no próximo ano o festival vai ganhar ainda uma maior dimensão, isso posso já anunciar, porque vai deixar de ser só em Faro, a base é Faro, mas acontecerá também em Loulé e em Lagos. Vamos ter três cidades onde a Mochila irá acontecer e o festival vai mudar de mês, vai deixar de acontecer em novembro e vai passar para maio, porque queremos continuar a fazer muitas coisas na rua e maio parece-me um mês mais seguro para que isso aconteça.

Exatamente, porque é sempre um risco nesta altura, não é?

Temos tido o São Martinho a salvar-nos.

Exato. Aproveita o verão de São Martinho.

O verão de São Martinho. Mas mesmo assim, é sempre um risco. Maio também, mas acho que é menor o risco.

Mas é menos, exatamente.

Sim, as pessoas estão com outro espírito. Vai entrar o verão, em maio está prestes a entrar o verão e as pessoas estão com outro espírito, os dias são maiores.

Vê lá, está o tempo bom demais, se não apanhas ninguém aí é porque está tudo nas praias.

Pois, a praia é o melhor.

É o chamariz. Nessa altura já tens outra coisa. Exatamente. Olha, tu esperas chegar a quê, sinceramente, João, duas, três mil pessoas? É o que tu gostavas de atingir com a edição deste ano?

Sim.

É as tuas metas.

As minhas metas, sim.

Muito bem, vamos depois ver como é que isso corre. Claro, desejo a maior das sortes. João, nós não temos tempo para mais. Quero agradecer muito a tua disponibilidade em falarmos.

Muito obrigado, João.

Desejo o melhor dos futuros pro teu Lama Teatro e a ti e pra este festival. A ti que nos ouve, então, deixo a sugestão desta segunda edição do Festival Mochila, teatro e muito mais pra crianças, jovens, pra as famílias completas. Consulte toda a programação então no site lamateatro.com. João, bem-hajas e até breve.

Até breve. Obrigado.

Obrigado.