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Olá, seja bem-vindo ao "Conversas no Tee", um podcast em parceria com a Federação Portuguesa de Golfe e com o apoio da DS Automobiles, a acompanhar esta viagem pelo universo do golfe, onde cada detalhe conta. São cada vez mais os atletas e figuras de várias modalidades, do futebol ao ténis, passando pelo automobilismo, que encontram no golfe o seu refúgio, um segundo desporto ou até a sua grande paixão pós-carreira. Eu sou a Maria João Simões e neste episódio vamos perceber o que faz do golfe uma opção tão atrativa para tantos desportistas. E para isso tenho comigo o antigo árbitro internacional Artur Soares Dias e também o golfista profissional João Carlota. Bem-vindos aos dois. Muito obrigada por terem aceitado o nosso convite.

Obrigado, é um prazer.

Obrigado eu, o prazer é todo meu.

Artur, vens do mundo do futebol, onde a pressão dos estádios e do público é constante. Quando trocaste o relvado do futebol pelo green, o que encontraste que nenhum outro desporto te dava?

Desde logo, obrigado pelo convite novamente.

Obrigada.

E o que eu aqui vim por encontrar seguramente foi um relvado. Algo que à partida custou um bocadinho menos a adaptar. Sendo certo que depois tudo o resto que vem a seguir é para agravar a situação. É muito mais difícil, na minha perspetiva, porventura há outros que acharão o oposto, mas é muito mais difícil pegar num taco e acertar convenientemente na bola e atingir um bom par do que porventura tomar umas boas decisões num bom jogo da Champions.

A dificuldade começa porque não basta só pegar no taco, é preciso ali muita técnica. Muitas tacadas erradas até se acertar.

Na verdade, eu enquanto árbitro já usava o golfe para gerir aquilo que é a frustração. E a frustração repetida, porque nós damos uma tacada bem e a seguir somos capazes de dar uma tacada muito má. E depois, se não esquecemos essa mesma tacada, vamos ter a proporção ou a possibilidade de repetir essa tacada menos boa. E as decisões na arbitragem e no futebol, em particular, é muito semelhante, porque é tudo muito intenso, muito repetido, muito curto, muito rápido. No golfe temos a particularidade de poder respirar, parar, tentar concentrar-te, tentar voltar novamente àquilo que são os mindsets corretos. No futebol e na arbitragem não existe isso. Mas a gestão da frustração, do erro, de não conseguirmos fazer aquilo que gostaríamos, está presente tanto de um lado como do outro.

Mas isso são as semelhanças. E o que encontraste de diferente?

Diferente.

A calma, o green, o silêncio, a concentração.

A concentração existe, o green existe.

O green no sentido de buracos.

São mais curtos.

O campo também tem buracos.

Também tem muitos buracos, ou senão somos nós que metemos os buracos. Não, eu acho que há mais coisas que se assemelham do que se afastam. E porventura aquilo que é o silêncio é uma diferença abismal. Porque nós dentro do estádio com 80 ou 90 mil pessoas a gritar, a pressionar, ali é feita basicamente a pressão com esse barulho, com esse clima. No golfe, a pressão existe ainda mais, porque o silêncio cria uma pressão enorme. Eu tive essa experiência durante o Covid, em vários jogos, aliás. Quando os estádios estavam vazios, eu não me sentia bem, porque ao fim ao cabo fazia-me falta o barulho, fazia-me falta a pressão. Eu adorava a pressão e, portanto, aquele barulho, aquele ruído era para mim essencial para eu conseguir atingir a concentração. A ausência dela fazia com que eu me desconcentrasse. E no golfe é mesmo esta a realidade. Não há barulho algum. Aliás, se alguém tossir ou se alguém-

Já olham para ele de lado.

Alguns até são tão fundamentalistas que se alguém tossir ou se alguém faz algum ruído, é logo a razão principal pela qual falhou a tacada. Ainda que eu algumas vezes diga assim: "Mas o que é que isto tem a ver uma coisa com a outra?" E foi assim. Mas não tanto a este ponto.

Sim, a esse extremo. João, enquanto profissional que vive do circuito internacional, estás habituado a ver atletas de elite de outras modalidades a pegarem nos tacos. O que o golfe oferece a quem já vem da alta competição?

O golfe tem uma particularidade muito especial, que é nós não estarmos dependentes de mais ninguém, somente nós, os jogadores em si. Ou seja, por exemplo, como no futebol. No futebol nós temos as equipas, temos outras dinâmicas que no desporto do golfe acabam por ser adaptadas de forma diferente, em que no golfe somos nós, é o campo, é a nossa concentração, é o nosso talento e entra aqui uma junção de muitas particularidades que estão só dependentes de nós em todas as áreas. E isso sim, acho que é o maior desafio e depois é causada em consequência a motivação e o querer ser perfeito. Eu costumo dizer que o desporto do golfe é um desporto muito imprevisível, como falámos agora há momentos. Tanto podemos dar um shot muito bom ou temos três ou quatro shots muito bons e de repente damos um shot mau e não percebemos porquê, porque aplicámos exatamente a mesma coisa. E no desporto, por exemplo, do futebol, nós estamos numa equipa, nós damos um mau chute ou um mau passe ao parceiro. Se o parceiro for bom o suficiente para minimizar o erro, nós andamos para a frente e se calhar até marcamos um golo. No golfe não acontece isso.

E tu enquanto profissional, que dicas darias para se lidar com a frustração que falava há pouco o Artur?

Eu acho que é tudo um trabalho psicológico muito intenso que tem que ser feito. Eu quando jogava e jogo agora não tão regularmente a nível competitivo como já joguei no passado, estando agora ligado à área comercial de um grupo como a Arrow e a Details Hospitality Sports & Leisure, ligado ao desporto também, mas recentemente reativei o meu contacto com a competição, que estou a adorar voltar de novo.

Acho que é por aí. O golfe é um desporto bastante desafiante e as coisas quando se agarram com muitos desafios pela frente, quando os desportistas são de alta competição, ainda mais motivados se sentem, porque ainda mais adversidades aparecem na frente e a parte psicológica é o essencial a partir do momento que eles sabem jogar e que as coisas correm minimamente natural.

Artur, há pouco falavas do mundo do futebol, atuavas debaixo de um ruído ensurdecedor das bancadas, às vezes até dos próprios jogadores. No golfe, o silêncio, como dizia o Zé, é absoluto e o maior adversário é mesmo a nossa própria cabeça. O que é mais difícil? Gerir 22 jogadores num derby ou num jogo de Champions, como falavas, ou controlar a mente antes daquela tacada decisiva?

A mente, claramente. Sim, mas a mente tanto no golfe como num jogo de Champions, ou da Liga, ou de um campeonato do mundo, ou campeonato da Europa, ou o que for.

E como é que se trabalha a mente?

É com a psicologia, essencialmente. O maior desafio é a tua cabeça, a maior necessidade de controle é a tua cabeça. Eu quando subi à primeira liga com 24 anos, contratei, foi das primeiras coisas, um psicólogo.

Mas tiveste dicas para isso? O teu pai já tinha-

O meu pai já era árbitro também, mas o meu pai nunca ouviu falar de um psicólogo

Pois, por isso é que eu digo: quem é que te deu essa dica ou foste tu por iniciativa?

A minha formação também ajudava-me a perceber que era preciso alguém que nos acompanhasse para encontrar mecanismos mentais que nos permitisse, após uma má decisão ou uma decisão menos boa, remontar rapidamente numa fração de segundos e pensar que a seguir não pode ser outra decisão também não boa, porque se tiveres duas más, então é um descalabro autêntico. Quero reforçar aquilo que foi dito há pouco, que de facto o golfe é um trabalho individual. Não dependemos de ninguém e portanto ali não há desculpa: "Não, a culpa não é minha, a culpa é do outro". E portanto, até isso é bom para treinar, inclusive para um trabalho de equipa, porque se nós fizéssemos esse exercício, todos nós num trabalho de equipa, seria tudo muito mais fácil.

Em vez do passa-culpas.

Em vez do passa-culpas. No futebol há um passa-culpas contínuo. E se nós fizéssemos esse ato de avaliação interna e disséssemos assim: "Não, eu é que não joguei bem, eu é que não passei bem, eu é que cometi o erro" e por aí fora, iria ser tudo mais fácil e tudo mais justo. Não acontece por vezes, conforme nós sabemos, e isso leva-nos a que porventura tenhamos este alerta para toda a gente que nos está a ouvir, dizer assim: "Olha, pensem um bocadinho que de facto há muitas coisas a aprender. O fair play do golfe é fantástico". Há coisas que de facto aqui, a etiqueta, a forma de estar, ainda que eu tenha encontrado já no golfe.

Nos seus dias.

No golfe eu já encontrei realidades.

Os seus dias e as suas figuras.

Aliás, eu até confesso-vos, uma das razões pelas quais também fui muito para o golfe era porque eu queria aquele silêncio, queria aquele respeito, queria a etiqueta, queria a forma de estar, queria a elevação, não queria aquele ruído contínuo, aquele pôr o dedo sempre na ferida, queria aquele bem-estar, que me parecia, quando via no golfe, que existia muito mais do que aquilo que verdadeiramente existe, porque a competitividade acaba por acontecer e onde há humanos há sempre a tentativa de aquilo ou aquilo, haver algum contorno do espírito que à partida devia estar sempre presente.

João Carlota, o golfe tem uma particularidade única, permite que através do sistema de handicap, um amador jogue e entre em competição com um profissional, ou como falávamos há pouco, com um atleta de elite de outro desporto. Esta democratização é uma das chaves para seduzir tantas figuras do desporto?

É, sem dúvida. E eu costumo dizer que eu já tive várias experiências com outros desportos, tanto no futebol como no snooker, como no voleibol, desportos de equipa e mesmo individuais, mas eu acho que o golfe traz aqui um desafio enorme, porque voltando à pergunta outra vez, acho que os jogadores procuram aquilo que não conseguem fazer ou não conseguem repetir regularmente. E o golfe, sem dúvida, traz isso dessa maneira.

Artur, falávamos de ética. No futebol, a regra é imposta pelo árbitro. No golfe, o jogador é o seu próprio árbitro. Como é que é ver a ética do desporto funcionar assim, na primeira pessoa, porque também tens de autorregular.

Sim, também há árbitros no golfe. Contudo, o primeiro árbitro é o próprio jogador com a vergonha ou com a frustração de ser apanhado a fazer uma qualquer incorreção. Coisa que ao contrário, se conseguirmos fazer uma incorreção no futebol e se formos apanhados, ainda somos valorizados na maior parte das vezes, que é tipo, eu consegui enganar, eu simulei, é um penálti a meu favor, portanto, e essa a minha equipa apoia-me e os adeptos ainda vão-

Levantem ombros.

É isso mesmo, levantezinho o ombro é uma boa expressão. No golfe não é tanto assim. De facto, a maior parte dos jogadores somos nós que, aliás, até o próprio jogador que está a jogar ou na sua formação há uma troca de cartões, isso melhor o João consegue-me explicar, seguramente que eu, ou também quanto eu, trocam os cartões e portanto há ali desde logo um controle mútuo de quem está a jogar na formação. Para além disso, existem árbitros que andam ali a ver, mas não com o objetivo claro de apontar o erro. É mais porque cada uma dessas responsabilidades fica a cargo do seu jogador, da ética, da correção, do fair play, que estão sempre muito mais vezes presentes do que aquilo que acontece no futebol.

E isso é um ponto até bastante engraçado.

Qual, o dos árbitros?

Dos árbitros, em termos da correção, da melhoria do jogo, por aí em diante. Por quê? Porque eu quando era mais novo, quando era jovem, ou júnior diria assim, via os árbitros, quando via um árbitro ou tinha que pedir uma regra ou um ruling para alguma dúvida que eu tivesse que pôr a bola em jogo, estava num obstáculo e tivesse que aplicar depois uma regra pra voltar a pôr a bola em jogo. E o árbitro, eu via isso como uma adversidade ou se calhar uma incerteza do que é que poderia vir a acontecer perante a decisão do árbitro. Mas a partir do momento que o jogador ganha uma maturidade já de elite e conhece as regras todas do jogo, se o jogador for inteligente o suficiente e maduro, pode usar bastante as regras a seu favor, porque as regras estão ali para ser aplicadas, estão ali para ser executadas, mas se o jogador souber utilizar as regras, muitas vezes pode contornar certas adversidades com as próprias regras do golfe. E as regras estão ali para ajudar, não para prejudicar. E isso desmistifica que aqui uma barreira que se foi levantada e que eu próprio também levantei em mim quando era júnior. Mas agora só aqui um acréscimo, voltando ali à pergunta

Do handicap e de jogar contra o handicap.

Sim, do handicap. O desporto do golfe é sem dúvida o único desporto que eu conheço à face da Terra que nós conseguimos competir, nós profissionais com os amadores.

Isso é um incentivo, não é?

É um incentivo, sem dúvida, para a prática da modalidade. Vou dar um exemplo, agora estamos aqui a falar de futebol também. Eu, como amador ou como jogador de futebol amador, nunca na vida poderia jogar com o Cristiano Ronaldo e tentar sequer ganhar-lhe, com ele e com outros jogadores. No golfe isso é completamente ao contrário. Ou seja, no golfe, através do sistema do handicap e das diversas modalidades que existem, eu, como profissional, posso jogar com o Cristiano Ronaldo e se ele tiver um jogo muito bom, independentemente da modalidade, ele pode até ganhar. Isso é que torna o golfe bastante interessante como modalidade para que todos os níveis possam se conjugar, se cruzar e desfrutarem entre eles.

Artur Soares Dias tu sim quisera responder. Claro.

É verdade.

Estamos mesmo em cima do nosso tempo. Se tivessem de fazer o vosso flight ideal só com atletas de outras modalidades que jogam golfe, quem é que convidavam? Artur Soares Dias.

É daquelas questões que eu diria assim: eu antes preferia, e conforme tenho vindo a preferir, jogar com o João, que nunca joguei, mas porventura jogar com aqueles que são mesmo da área e que nos ensinam. Porque todos os outros, eu lembro-me do início, quando comecei a jogar, acertar na bola é um desafio, para pegar no taco tem que se saber. O swing é importante, a cabeça relevante. Tem ali mil e um detalhe a considerar e a ter em conta. Portanto, é também para eles desafiante, ainda que o handicap ajude a nivelar e a corrigir, deve ser uma grande seca jogarem com aquele que nem sequer acerta na bola.

Ou que ainda está a pensar como é que põe as mãos.

Ou aquilo não sei o quê, depois a bola desaparece, passamos 10 minutos à procura de uma bola que à partida não é possível. E para quem sabe jogar e mete a bola sempre no fairway e tem a bola sempre controlada e sabe o que está a fazer, contra aquele que não sabe o que está a fazer, anda sempre à procura das bolas ou a perdê-las nos lagos, é uma grande chatice, diria eu. Estar a convidar alguém, tinha que ser alguém que porventura já jogasse minimamente.

Que tinha a mesma paciência para procurar a bola nos lagos.

Tinha que ter paciência, ao fim e ao cabo tinha que ter essa paciência para andar com eles também. E eu confesso que deve ser uma grande frustração para estes senhores. Posto isto, eu diria que gostávamos é de jogar com aqueles tipo Tiger Woods, todos aqueles que à partida já jogam. Ainda agora estive em Madrid no Open, fui lá ver o golfe. Espetacular, aquilo dá gozo ver e aquilo é cativante ver a precisão, a capacidade, a determinação.

Achamos que é outro campeonato.

É outro nível. Espetacular, mesmo.

João Carlota.

Eu conjugava aqui uma, porque ainda há bocado antes de começarmos, estávamos a comentar e eu disse que o Covid veio trazer muitas coisas boas para o golfe. E eu digo que este boom do golfe, tanto a nível dos casais, tanto a nível das crianças, como dos jovens adultos, que cada vez há mais, o Covid veio trazer um incentivo muito grande para o golfe. Cada vez mais temos estrelas de Hollywood, ex-jogadores profissionais de várias modalidades. E eu incluía aqui, não sei porquê, mas o Michael Jordan, que é do basquete e foi dos melhores de sempre.

Isso eu também incluía, porque eu joguei basquete e gostava de o ver.

Estão alcoados os dois neste momento, faz sentido.

Eu também já joguei basquete quando era novo, por isso acho que ele teria muitas histórias para falar e eu também para lhe contar.

Mas não era a propósito do golfe, era só para estar com ele.

Sim. Michael Jordan, o Gareth Bale da área do futebol e o Nadal. Ou seja, são três áreas desportivas diferentes, muitas histórias para partilhar e acho que seria bastante interessante ouvir, porque são desportos coletivos, desportos individuais e modalidades diferentes.

Pode ser que respondam ao teu desafio.

Acho que sim.

João Carlota, Artur Soares Dias, muito obrigada por esta conversa e por partilharem a vossa experiência e a vossa paixão pelo desporto. Obrigada, foi um gosto.

Obrigado.

Eu sou a Maria João Simões, regresso na próxima semana com um novo episódio de Conversas no Tee, uma parceria com a Federação Portuguesa de Golfe, que conta com o apoio da DS Automobile. Até lá, bons swings.