Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Como diretor de controle de qualidade, uma das minhas responsabilidades era testar produtos do mercado. E eu testava muitos produtos do mercado e quando os testava, realmente percebia que os produtos não tinham aquilo que diziam que tinham.

É extraordinário tu dizeres isso. Tu já tens dito isso. "Eu fazia esse controle e, de facto, descobrias que muitos não tinham o que lá dizia".

Não, porque a legislação aqui em Portugal não existe.

A procura de suplementos alimentares, produtos que repõem vitaminas e minerais, está a crescer em Portugal. É claramente um setor em alta e não tem sinais de abrandamento. Em 11 anos, cresceu 90%. Só nas farmácias, nos primeiros sete meses deste ano, as vendas ultrapassaram €173 milhões. E isto sem contabilizar as vendas em supermercados ou em lojas online. No nosso país, há uma nova produtora e comercializadora de suplementos alimentares, a Suplendi, sediada na Póvoa do Varzim. À sua frente, quatro amigos. Converso agora com um deles, Tiago Ferreira, microbiologista, mestrado e doutorado no Reino Unido, que trabalhou como diretor de controle de qualidade em empresas de suplementos alimentares, cá e no Reino Unido também, e que é CEO da Suplendi. Esta empresa que acaba de anunciar o lançamento do seu primeiro produto. Como é que se cria, do zero, um suplemento que realmente faz a diferença? Olá, Tiago Ferreira, bem-hajas por teres aceitado este meu convite. Bem-vindo à Rádio Observador.

Olá, João Paulo, muito obrigado.

É um grande prazer teres aqui a falar disto, que realmente é um tema que nunca tinha passado por aqui. A não ser, às vezes, pela boca dos nutricionistas que eu já aqui tive, médicos, especialistas em coisas do corpo e da pele, já tinha falado nisso. A tua paixão pela ciência vem desde muito pequenino, não vem?

Sim, é verdade. Eu penso que o principal foi logo quando mal comecei a falar, sempre fui uma pessoa muito curiosa. Ainda no outro dia estava a falar com o meu pai sobre isso, que inclusive diz que eu era muito chato.

Sempre com perguntas.

Exato. Eu penso que isto é uma característica fundamental e que desde o início eu a tive. Eu desde que comecei a falar, perguntava sempre o porquê de tudo e era curioso relativamente a tudo. E é um facto que as pessoas que me conheciam na altura diziam. Pronto, isso foi evoluindo um bocadinho. Depois, juntando a isso, eu sempre desenvolvi uma fobia muito grande por ter medo de morrer.

Por causa de doenças.

Por causa das doenças, exatamente.

Hipocondria, uma coisa deste género.

Exatamente. Eu tinha muito medo. Eu era muito pequeno e pensava muito nisto. Eu via muitas notícias na altura e até depois fui proibido pelos meus pais. Então era engraçado, porque tudo aquilo que envolvesse algo que pudesse levar à morte, eu evitava. Por exemplo, eu não tocava em detergentes, nem coisas do gênero, porque sabia que aquilo era tóxico, me fazia mal, então tinha muito medo. E eu penso que esta paixão veio daí. Como eu tinha esse medo, eu acho que sempre tive, inconscientemente, aquela sensação de: "Ok, eu tenho medo para isto, portanto eu quando for grande vou querer estudar ou investigar ou ser alguém que evita a morte". Eu acho que começou um pouco por aí.

Tu tinhas medo dessas doenças causadas por bactérias e por vírus.

Exatamente. Eu lembro-me, por exemplo, de várias situações. Aliás, lembro-me de ser pequeno e estar a dar o telejornal e falar-se da gripe das aves. Da gripe das aves em Portugal, e eu estava a ver o telejornal, estava a jantar com os meus pais, era pequeno, e lembro-me de ver que tinha havido um caso em Portugal. E lembro-me que fiquei completamente em pânico. Eu pensei: "Ok".

Vem aí uma pandemia, é uma epidemia, vamos morrer todos.

Mal a previ o que aconteceu agora com o Covid.

Exatamente.

Mas na altura entrei em pânico, lembro-me perfeitamente, fui logo falar com a minha mãe, nem dormi, porque entrava muito em pânico. E depois eu lembro-me de ouvir falar, que era o vírus da gripe. O vírus existe, então sempre fiquei-

Uma mutação qualquer.

Exato, uma mutação H1N1. Acho que comecei a ganhar uma pequena obsessão por vírus e bactérias.

Quando é que isso passou? Com a gripe das aves, quando é que acalmaste?

Com a gripe das aves. Depois acalmei, porque a minha mãe levava-me à pediatra e só a minha pediatra, curiosamente, é que me conseguia acalmar, porque eu tinha a noção que ela era a única pessoa que sabia, então eu confiava. Eu sempre fui muito desconfiado nesse sentido.

E tu já ires a hospitais ou a consultas, já não era mau, porque ter medo de doenças, portam-se muito bem os hospitais.

Era muito difícil. Mas eu lembro-me que eu odeio hospitais, ainda hoje. Odeio pelas razões óbvias. Hoje em dia eu sei, mas na altura não sabia. Mas inconscientemente é o pior lugar e é o lugar mais suscetível que nós temos para apanhar uma bactéria.

Exatamente. Estive cá uma vez, o Pedro Oliveira, que está num hospital em Nova Iorque, exatamente a investigar as bactérias que matam pessoas em hospitais. É impressionante.

Exato. Está provado e muitos cientistas de renome pensam que o fim do mundo vai vir com uma superbactéria. Isto é uma coisa que as pessoas falam muito, porque realmente nós começamos a ver a evolução das bactérias e destas resistências todas, e que às vezes há mutações maiores. Como houve o Covid, que foi uma mutação de um vírus. Há mutações todos os dias, as bactérias estão constantemente.

E que estão enterradas na terra, e a gente sabe lá o que pode vir a acontecer aí.

Exatamente. As super mutações.

E outro momento pra ti, que eu lembro que tu falaste nisso uma vez, que foi os morangos com açúcar. Por quê?

Aí eu acho que é a memória que eu tenho, que foi mesmo o turnover para mim, que eu disse: "Não, é isto que eu quero fazer da vida". Eu lembro perfeitamente, eu gostava muito de morangos com açúcar quando era mais pequeno, como muita gente da minha geração.

Tu e toda a gente, exato.

Sim, e via muito. E lembro de um episódio em particular, que foi no Colégio da Barra, em que aconteceu um vírus que infectou alguns alunos. E eu lembro de ver aqueles virologistas a entrar com aqueles fatos AZMAT dentro do colégio e fiquei completamente fascinado.

Chamam-se fatos AZMAT. Aqueles todos cobertos com a capacete e o visor.

Exato. E eu fiquei completamente fascinado.

Então fizeram quarentena, houve tudo a sério?

Tudo, exatamente. Houve uma quarentena, ninguém podia entrar, ninguém podia sair. E eu lembro-me que fiquei fascinadíssimo. Eu lembro de, na altura, eu gravar o episódio, que na altura ainda era VHS, de gravar e ver aquilo vezes sem conta.

Ainda hoje deves ter a cassete.

Ainda hoje devo ter por lá, se perguntar à minha mãe, certeza que ela tem.

E aí ficou o teu fascínio pela virologia, tu percebeste: "Virologia, isto é o que eu quero".

Exato. E meti na cabeça e depois, desde então, o meu percurso acho que foi moldado nisso. Sempre fui uma pessoa que olha muito para o futuro e sempre tracei o meu caminho desde cedo para chegar onde cheguei.

Às metas que tu querias atingir.

Exato, eu sempre defini. Eu disse: "Ok, isto que eu quero, qual é o melhor caminho para..."

Foste fazer os cursos.

Exato, fui estudar os cursos, na altura em Portugal. Vi que havia um curso de microbiologia.

Este é o tal que tiraste na Escola Superior de Biotecnologia.

Biotecnologia.

Da Católica.

Da Católica. Eu lembro-me, sempre quis isso. A escolha foi fácil, não estava confuso de todo. Comecei a fazer o curso, continuei apaixonado.

Gostaste muito do curso? Para ti correu bem, foi fácil? Eras bom a ciências, biologia?

Sim, eu acho que o curso foi fácil. Claro que num curso de microbiologia, a parte que eu mais gostava era tudo que tinha a ver com microbiologia, porque temos várias coisas, muitas químicas.

Tem que ter as ferramentas todas.

Sim, mesmo algumas matemáticas e tudo mais. Na altura não entendia, mas hoje em dia, passado alguns anos, faz todo sentido. Acho que é uma universidade excelente, foi um curso excelente que me deu bases para estar onde estou.

Ainda tiveste no Erasmus em Barcelona.

Exatamente. No meu último ano de curso, eu comecei a ver qual seria a minha melhor escolha, porque eu sempre quis ir para a área da saúde. Infelizmente, aqui em Portugal, nós não temos muitas escolhas relativamente à microbiologia da saúde. Nós temos muita microbiologia ambiental, muitos mestrados e mesmo trabalhos nessa área, alimentar também, mas eu queria, eu era focado com a saúde. Então comecei a ver o que seria melhor para mim. Eu lembro-me que na altura, foi a parte do Erasmus e chegou a altura para decidirmos e nenhuma das universidades que tinha lá era num sítio que eu gostava. Lembro-me que na altura eles faziam muito para a Polónia, mas eu não queria, queria ir para um centro grande, porque eu já planeava ir estudar para Inglaterra depois.

Já tinhas andado a visto.

Exato.

E era concretamente a Universidade de Westminster, em Londres?

Não, eu na altura estava um bocado indeciso, porque como deve imaginar, em Inglaterra, nas universidades temos imensos cursos, mas curiosamente são cursos mais específicos. E eu lembro-me que na altura candidatei-me a três universidades, nas quais entrei, mas o curso em Westminster era microbiologia médica.

Sim. Foi o mestrado que tiraste.

Foi o mestrado que tirei. E eu senti que dentro de tudo aquilo que havia, para o que eu queria fazer no futuro, era a opção correta.

Mais adequada.

Sim, depois também tinha outra coisa, eu sempre quis muito viver em Londres e Westminster, curiosamente, era a universidade que ficava mais no centro.

Ok. Mais que a UCL ou essas assim.

Sim, porque os polos da UCL e do King's College e da Imperial, por exemplo, eram mais afastados do centro na área das ciências. Não foi isso que decidiu, mas foi um plus.

Sim, exatamente. Antes disso, ainda tiveste em Barcelona. Mas tu não eras um perfeito nerd.

Sim, era.

Mas tu eras superesportista e fazes imensos esportes e musculação.

Sim.

Na altura já eras ou não?

Não, isto foi uma mudança.

Tu eras um nerd, tu ficavas todos os dias, das 18 às 17h, a investigar no laboratório, não ias sair com os teus colegas, não.

Quando eu fui para Barcelona, eu penso que foi aí que começou um bocadinho a minha mudança também pessoal. Profissional e pessoal, porque primeiro, nunca na vida o Tiago com 14 anos imaginava que algum dia ia ser possível ir viver sozinho.

Num país estrangeiro.

Num país estrangeiro, sem ninguém. E na altura, eu lembro-me que quando fui para Barcelona, eu estava com muito medo. Tive sempre como um ioiô, vou, não vou. Mas felizmente, tive pessoas ao meu lado, na altura, que me sempre encorajaram a ir. E sem dúvida que foi a melhor coisa que fiz, até porque em Barcelona, lá está, eu consegui esta parceria com uma universidade, que foi a primeira vez, porque eu andava a falar com os professores para ver se era possível, porque eu queria mesmo ir para lá. Eu lembro que na altura, porque a universidade em questão tinha um laboratório nível três, que eu era fascinado.

Isto é a Universidade Autônoma de Barcelona?

Exato. A Universidade Autônoma de Barcelona. Consegui uma parceria, estive lá, só que o meu Erasmus foi um bocado diferente de toda a gente que foi comigo, porque os meus amigos estavam lá, eles iam à faculdade quando queriam. Eu fui mesmo para uma coisa de trabalho. Eu estava no laboratório das 8 às 17h.

Estavas focadíssimo naquela coisa. O laboratório é muito bom. Nível três, quer dizer que é...

Sim, imagina que dentro da universidade tínhamos um laboratório nível três. O que isto é? Que é preciso estes fatos azemadados para entrar lá dentro, que eu sempre adorei.

Como temos aqui na FCT, por exemplo.

Sim, exatamente. Nós aqui em Portugal temos poucos, mas temos. E eu lembro que na altura eu vi: "Isto tem um laboratório nível três, a universidade é muito boa", fui para um grupo de investigação incrível, conheci muito boas pessoas que me ajudaram a crescer muito e foi aí que comecei a desenvolver as minhas skills. E depois o facto de também viver sozinho em Barcelona ajudou-me muito a ser mais autossuficiente.

Estavas sozinho mesmo? Não partilhavas o quarto com ninguém?

Não, eu partilhava apartamento com duas pessoas, mas fui sozinho de Portugal. Eu lembro-me que na altura candidatei-me com um amigo meu e o meu amigo depois desistiu.

Ocupou-se o apartamento.

E eu fui e foi a melhor decisão.

Aí tiveste lutar contigo próprio, mas conseguiste.

Claro que sim.

Estavas focado naquilo e tu querias muito aquilo, portanto isso suplantou o teu medo.

Claro.

Muito bem, incrível. Fizeste depois, entretanto, o doutoramento também. Agora em virologia e cancro, também na Westminster, não é?

Eu estava a fazer o mestrado e quando acabei o mestrado, a minha orientadora na altura convidou-me a tirar o doutoramento lá. Eu comecei lá a tirar o doutoramento em Westminster.

Tu eras muito bom aluno, Tiago?

Sim, sempre fui muito bom aluno.

Muito aplicado.

Eu sempre fui muito bom aluno, mas eu tinha fases, era quando me apetecia.

Ah, ok.

Eu era muito desse género. Se eu gostava muito das coisas. Claro que isso depois com a maturidade mudou, mas na altura que somos mais jovens, sim, mas sempre fui muito bom aluno em geral.

Ok. Eu estou a ver, porque só microbiologia para mim já sugere que tem que ser uma pessoa muito boa e gostar muito daquilo que está a fazer.

Sim, gosta, é uma pessoa empenhado e sempre quis isto. Mas eu na altura tinha uma visão um bocadinho diferente, que era: eu pensava que eu queria mudar o mundo. Se me perguntassem: "O que tu queres fazer?", eu disse: "Eu quero deixar a minha marca, nem que seja num passo, num método para descobrir uma doença, o que for". Para quando um dia não estiver cá, as pessoas se lembrarem de mim. Isso era o meu objetivo.

Mas estás no caminho certo.

Estou, exato.

É uma consequência.

É uma consequência, mas eu na altura pensava que era através da investigação. Só que depois nós quando estamos lá, começamos a perceber que de facto é possível, é muito difícil e nós não temos o controle, porque dependemos de muita coisa.

Esta questão de investigação, Tiago, é um bocadinho este dia a dia num laboratório, experimentar milhares de moléculas até se chegar ao resultado. Podem estar meses sem nada acontecer.

E há trabalhos de sete, oito anos que chega ao final e a conclusão é que realmente não há nada ou não existe, o que é uma conclusão. Ou seja, isto é um bocado ingrato. Por isso eu sempre achei: "Ok, a investigação eu vou mudar, vou fazer". Mas na altura, depois quando estava, eu percebi que é possível, é muito difícil e dependemos muito dos outros. A investigação depende muito de dinheiro, por exemplo.

Claro.

É um fator.

Estás sempre a tentar angariar bolsas e grants.

E é muito difícil, porque acaba por ser um mercado.

Olha, está muito complicado nos Estados Unidos, onde cortaram. Eu tenho filho lá em Neurociência que tem de se embora, fechou o laboratório. Em Columbia, não há hipótese.

É verdade.

É muito difícil. Mesmo assim, os Estados Unidos são ricos. É outro meio, não é como a Europa. Mas mesmo assim, há coisas a fechar.

Sim, sem dúvida.

De facto é preciso esse dinheiro.

Por exemplo, eu quando era novo, tinha uma visão do mundo com as experiências de vida que tenho e com a maturidade que tenho, vejo o mundo de maneira mais real, mais por preto no branco do que é e daquilo que nós precisamos. Nós quando somos mais novos, mais ingénuos, entre aspas, pensamos que o mundo é todo um mar de rosas e que de facto nós vamos fazer. E eu estive lá a fazer investigação séria. Na altura estava a fazer de um tipo de vírus que nós temos no corpo e o cancro do pâncreas, uma investigação super séria, mas era super difícil de dar resultado. Então foi quando eu comecei a pensar e ponderar ir para a indústria farmacêutica.

Estavas a ir no doutoramento quando pensaste. Tu gostava de fazer uma própria empresa na área da virologia e dos suplementos? Isso nessa altura já apareceu?

Não. Isto foi uma sequência de acontecimentos, por assim dizer. Então eu estava em Londres no doutoramento. Entretanto, um amigo de um amigo que me veio visitar lá, tem empresas farmacêuticas cá em Portugal, o qual viu o meu currículo e ele adorou.

A Ferras Pharma é a saúde, é isso?

Exatamente. E ele deu-me a oportunidade de vir para Portugal e para liderar um departamento.

És diretor de controle de qualidade.

Exatamente. Eu entrei lá e hoje agradeço muito a ele e principalmente ao pai dele, que é o dono, que confiou muito em mim e com a idade que eu tinha, me deu para as mãos um departamento.

Mas conhecia o teu foco e o teu percurso, se calhar.

Exatamente. E foi um ano em que eu comecei a me apaixonar pelos suplementos.

É isso que eu ia dizer, aí já lidaste com os suplementos alimentares.

Exato, porque na altura a empresa é uma empresa de suplementos alimentares e eu comecei a ver que, de facto, o potencial que tem um suplemento. Nós cá em Portugal ainda estamos muito atrasados nesta área. Temos uma visão um pouco mais retrógrada, por assim dizer.

Estamos um bocadinho atrasados nisso. É que o suplemento não é um medicamento, as pessoas confundem.

E a legislação é muito pobre cá em Portugal também. Eu comecei a me aperceber, lá está, durante esse ano, porque foi um ano superexigente, em que eu fui basicamente atirado aos lobos, porque eu nunca tinha tido uma experiência de trabalho na indústria, e de facto as pessoas confiaram em mim, o trabalho apareceu feito e foi o ano, que eu costumo dizer que é ano de trabalho, que valeu as aspas. Sim, porque eu aprendi a maior parte do que sei hoje e do conhecimento, e comecei a perceber de que maneira os suplementos afetam a vida das pessoas, como fazer um bom suplemento, porque eu, na posição que estava, tinha contato com todos os departamentos, ou seja, eu estava dentro de todos os processos da fábrica. E comecei também a perceber que havia uma gap neste mundo.

Uma lacuna que era preciso colmatar.

Uma lacuna que era preenchida. E foi aí que eu comecei a pensar na ideia de um dia ter uma empresa de suplementos. Por quê? Porque uma das coisas que acontecia, que eu notava, e como diretor de controle de qualidade, uma das minhas responsabilidades era testar produtos do mercado. E eu testava muitos produtos do mercado e quando os testava, realmente percebia que os produtos não tinham aquilo que diziam que tinham.

É extraordinário tu dizeres isso, já tens dito isso. Tu fazias esse controle e de facto descobrias que muitos não tinham o que lá dizia.

Não, porque a legislação aqui em Portugal não exige.

Mas ele só não dizia, é assim. Quando dizes composição, tem que estar lá tudo o que tem.

A composição tem, mas imagine, a composição, damos um exemplo, tem 500 mg de vitamina C.

Sim.

Não tem lá as 500 mg.

Tem menos?

Tem menos.

Então está fora da lei.

Não, porque a lei não exige que no rótulo diga a mesma coisa que tem. Não há esse controle. Ou seja, não existe esse controle.

Está bem. O que falta aqui, Tiago? O que é que eu não estou a perceber?

Legislação, por exemplo, na parte dos medicamentos, é obrigatório fazer um controle de qualidade dosamento do ativo do comprimido. Dou-lhe um exemplo, Ben-Hur ou Paracetamol.

Ácido acetilsalicílico, faz qualquer coisa.

Exato. Por exemplo.

É o princípio ativo de um medicamento, ou que fosse.

Sim.

E então?

A aspirina, ou neste caso o Ben-Hur, o paracetamol só sai se a quantidade tiver no mínimo os 1000 mg.

Ok. Exatamente.

E é obrigatório. Nenhum lote pode ser.

Eu posso estar a tomar aquilo de 1 grama e no fundo estar a tomar 500.

Exato. Ou pode estar a tomar mais e isso pode ser tóxico para si.

Exatamente. As dosagens são muito importantes nestes produtos.

Exatamente, principalmente nos químicos.

Claro.

Principalmente nos químicos, que é o que estamos a falar de medicamentos.

Exatamente.

E há este controle, todos os lotes de um medicamento produzido são controlados. Nos suplementos, não. Nem todos são.

Ok.

Ou seja, o que acontece? Teoricamente, há uma formulação do qual se coloca as 100 mg que está lá, mas depois não há mais testes até o final

Mas se a linha ficar montada com aquilo, vai ser sempre igual?

Não.

Isso é uma máfia, Tiago.

Não, isto é muito complicado.

As pessoas estão confiantes que aquilo que está a vir é aquilo.

Muitas matérias-primas são voláteis. Dou-lhe um exemplo. E temos muitas perdas em produção durante o processo de produção.

Mas também não há maneira de calcular isso e, portanto, a pessoa ir compensando.

Exatamente. É isso que acontece.

Ou, por exemplo, testar todas as mil embalagens? Testa-se.

Imagine. Você está completamente correto no que está a dizer. O que importa aqui é que isso tem um custo muito elevado.

Custa dinheiro isso que você diz. Está a pensar nisso.

E muita gente não o quer fazer. E o que acontece? Dou-lhe um exemplo. Há certos cuidados e também onde se produz os suplementos, as condições que o fazem, isso é tudo o que faz a diferença no final. Há um conjunto de fatores, isto não é linear. E muitas vezes as pessoas pensam que é linear, porque dou-lhe o exemplo da vitamina B12, uma vitamina super volátil, que é sensível à luz normal. E se você estiver a fazer a produção numa sala com esta luz, a vitamina B12 vai desintegrar.

Como a melatonina, por exemplo. Os frascos têm que ser escuros, porque a luz também degrada aquela molécula.

Isto é um conjunto de cuidados que se tem que ter. E muitas vezes as pessoas o que fazem é: "Ok, eu quero fazer um suplemento". Chegam à fábrica e dizem: "Olha, eu quero fazer um suplemento com isto". Mas as pessoas não sabem se a ativo X e a ativo B funcionam bem juntos.

Se um anula o outro ou reage com o outro.

Se um vai anular o outro ou reagir com o outro. E as pessoas não querem fazer, porque num suplemento, tal como no medicamento, há testes que se podem fazer. Nomeadamente, posso exigir um certificado de análise à libertação do meu lote, que é o que nós fazemos no caso da Suplendi, que é: nenhum lote sai sem ter abaixo X, é um parâmetro de controle de qualidade, que era o que eu fazia na fábrica, esse tipo de trabalho.

Na Ferrás, por exemplo.

Exato. E depois havia outro tipo de controle, que é fazer estudo de estabilidade do produto, que são estudos que devem ser feitos, porque os produtos são todos instáveis. É preciso haver um estudo, porque é como você diz. Nós sabemos que perdemos 10 mg. Fazemos o que se chama uma sobdosagem, que é: temos 120, sabemos que no final tem que haver um estudo contínuo dos produtos.

Claro.

E isso tem que existir. Muitas vezes isso não acontece e o resultado final é esse.

Ainda estou agora a pensar numa coisa aqui, a propósito, Tiago, tu nasceste no Porto? Viveste na Póvoa de Varzim?

Sim. Ou seja, vivi no Porto, mas sou nascido e criado, por assim dizer, na Póvoa.

Na Póvoa, também. Concretamente, no Hospital São João, em Paredes.

Sim, exatamente. Correto.

Mas é na Póvoa de Varzim, por seres de lá. Estes teus três sócios também são de lá?

Não.

Porque fizeram lá a fábrica. Agora a vossa sede é lá, digamos assim.

Sim, a sede, o escritório. Sim e não. Vou desenvolver aqui um pouquinho mais. Um dos sócios é da Póvoa e os outros dois não são. Um deles é de Coimbra, Viseu, desculpe, e o outro é de Braga, mas vive em Londres.

Ok. Estava a pensar concretamente no teu doutoramento, este "Investigation of human endogenous retroviral involvement in highly aggressive pancreatic ductal adenocarcinoma". Isto é o seu cancro do pâncreas.

Exato.

Que vitimou a minha mulher, por exemplo, que é dos mais agressivos que há, é uma coisa tremenda. E como um potencial biomarcador e alvo de tratamento. Chegaram depois a alguma conclusão? Isto é uma coisa que avança. Até o Champalimaud já fez um centro de estudo só para o cancro do pâncreas.

Sim, um reparo. Eu ainda não terminei o doutoramento.

Está a fazê-lo ainda, ok. És candidato.

Não, eu meti em pausa porque fui para a indústria.

Ah, ok. Isso pode-se fazer?

Sim, pode.

O orientador e tudo espera e tudo está como estava.

E agora quando quiser volto, porque surgiu esta oportunidade, como estava a dizer, de ir trabalhar.

Porque convidaram-te nessa altura.

Sim, na altura que eu estava, e eu decidi fazer. Relativamente a este tema, é um tema que eu adoro e espero continuar, como estava a dizer. Eu próprio já tive familiares que foram vitimizados com cancro.

Este, concretamente, do pâncreas?

Não, não com este.

Mas este é dos mais letais.

E eu próprio sabia, porque eu ia buscar amostras lá ao hospital e nós acompanhámos. Isto é muito mau.

Ainda tens isto na cabeça. Aliás, o teu doutoramento é exatamente sobre isso. Virologia e cancro.

Exato. O que nós fazíamos lá em Westminster, em parceria com o King's College, era analisar uma série de pacientes com este tipo de cancro. Nós tínhamos a informação genética de cada um, dos tecidos afetados e não afetados de cada um. E nós fazíamos comparações de meta-análise para ver o que é que variava e os genes que variavam. Que era para ver se algum destes vírus que nós temos aqui, que se chamam human endogenous retrovirus, que são vírus que vivem no nosso genoma e que são o resultado de infeções ancestrais que nós tivemos e nós vamos acumulando ao longo dos anos.

Isso vai herdando, vamos herdando isso?

Exato, isso é uma evolução.

No nosso genoma estão esses vírus que morreram. O Cro-Magnon que foi meu bisavô.

Exatamente, isso vai acumulando-se, há mutações que vão acumulando, e chamam-se human endogenous retrovirus. São vírus que nós temos no nosso genoma.

Querem saber se isso dá uma predisposição a certas pessoas e outras não.

Sim, o que nós fazíamos? Nós reparamos, isso já era de estudos passados de pessoas que quando havia este tipo de cancro, estes vírus estavam mais presentes ou menos presentes.

Em quantidade, em número?

Em número normal.

Em densidade?

Exato. Estavam up-regulated ou down-regulated. E nós começamos a ver padrões. E, por exemplo, eu no meu doutoramento, uma das partes que fiquei era que um destes vírus, que era o HERV-K, neste tipo de cancro estava mais regulado do que comparando com tecidos normais.

Tecidos saudáveis.

Tecidos saudáveis. O que nós queríamos aqui fazer? O objetivo final disto seria tentar usar este vírus como um biomarcador inicial deste cancro do pâncreas, porque como sabe, imagino que sim, a dificuldade do cancro do pâncreas é o diagnóstico, porque quando é diagnosticado, normalmente já está em fase terminal.

Aliás, com a minha mulher aconteceu isto, Tiago. Era um cancro oculto do pâncreas. Portanto, nem sequer tinha nada no pâncreas. E eles dizem, tendo os irmãos médicos que diziam: "Pode ser uma célula" E passa. E de repente, quando foi descoberto, já estava com glândula supra do fígado, glândula suprarrenal. Numa altura em que já não se podia operar sequer. Portanto, foi de repente. Mas, de facto, com biópsia conseguem perceber que nasceu no pâncreas, mas por vezes é só uma célula, cá está.

Sim, começa de uma e alastra. E muita da investigação relativamente ao cancro do pâncreas é mesmo tentar o diagnóstico precoce para que o tratamento seja mais eficaz. Ou seja, isto é uma grande área, é uma área que eles lá em Westminster, com o King's College, porque o King's College tem um departamento de bioinformática muito grande.

E se calhar tem um laboratório nível três.

Sim, também tem o King's College e o Imperial.

Ensinaste-me agora.

E eles, basicamente, através desta análise de bioinformática, conseguem fazer análises muito sofisticadas.

Tu devias voltar para isso também.

Eu adorava. Simplesmente, eu sinto que eu posso mais facilmente fazer a diferença fazendo suplementos que ajudem na vida das pessoas, porque tenho o controle, do que propriamente ser um e estar sempre limitado na investigação. É um bocado ingrato.

Nisso tu és boníssimo, é sempre preciso pessoas talentosas para as grandes coisas.

E é uma área que eu adoro, e tenho a certeza, e quero terminar, e vou terminar certamente o meu doutoramento, e espero poder dar um pequeno contributo, nem que seja para que alguém que venha a seguir pegue no meu trabalho, como eu peguei nos outros.

Vou te ver na Lancet ou na Nature.

Sim. Eu penso que sim, acho que é uma área superinteressante e acho que é uma área que tem muito futuro e penso que o cancro é a doença do século.

Depois já há dois anos saíste da Ferras e foste para esta Symprove.

Exato.

Que é em Inglaterra também. Voltaste a ser o cientista principal na direção do controle de qualidade também.

Então o que se passou? Eu na altura decidi que já estava na Ferras Pharma, tudo que eu tinha alcançado, e eu já estava com a ideia de criar a minha empresa. Mas achei que ainda não tinha a experiência, nem tinha o know-how necessário para o fazer. Então, ao mesmo tempo que estava na Ferras Pharma, recebi uma proposta de uma empresa muito grande no Reino Unido.

No Reino Unido, que é esta casa.

Sim, que é perto de Londres, e eu adoro Londres. Eu vivi lá três anos e meio, foi das melhores coisas que me aconteceu na vida e foi muito importante para estar onde estou hoje. Nem hesitei, aceitei, foi um trabalho incrível. Na altura também continuava a ser muito novo, mas como tive esta experiência na Ferras Pharma, abriu-me esta porta gigante. Ainda comecei a perceber mais, porque eles tinham um probiótico que revolucionou, porque houve um estudo feito pelos Estados Unidos de mil probióticos, e o nosso probiótico, na altura, foi o probiótico que chegava ao intestino com a quantidade que dizia, o único.

Não havia degradação nenhuma pelo caminho.

Não, ou seja, as bactérias são as coisas mais sensíveis que existem. E eles tinham uma forma.

Os probióticos para mim é aquelas coisas que há nos Actimel e Imunital. Aqueles iogurtes, é isso também, é a mesma coisa?

Sim, também faz parte.

É uma proteína?

Não, são os tipos de bactérias que nos ajudam a regular o nosso microbioma. Portanto, fui para a Symprove, tinha uma posição muito importante, adorei a minha experiência lá. As pessoas são fantásticas.

Foste cientista principal da direção de controle.

Sim, foi incrível.

É muito bom o currículo que vais acumulando.

Sim. E são sempre todos papéis que me desafiavam e me permitiam absorver informação para aquilo que eu queria, porque o meu objetivo final, neste caso, já estava virado para ter a minha empresa. Só que achei que este passo ainda ia ser mais enriquecedor, ia conhecer mais gente, ia conhecer mais processos, e ia ser mais bem-sucedido quando abrisse a minha empresa.

Um intervalo aqui, só para dizer uma coisa. Tu foste voluntário neste Coração de Rua. Isto é no Porto?

Sim.

É apoio aos sem-abrigo?

Sim.

Por quê? Tinhas amigos que te levaram?

Não, porque na altura os meus pais, principalmente mais a minha mãe, sempre foi muito--

Isto é não parentes, mas é curioso, essa tua generosidade é muito importante.

Sim, eu acho que nós devemos, pessoalmente, ajudar os outros. É um dever nosso. Eu sempre quis o fazer, por exemplo, isto na parte da ciência, mas sempre fez parte do meu ser. E na altura lembro perfeitamente que a minha mãe ajudava muito esta instituição e uma altura a senhora, que era uma das responsáveis, veio à minha casa, sugeriu que precisavam de pessoas. Isto começou num jantar de Natal, eu fui, adorei o contacto. Acho que é importante nós também termos a perceção do mundo como ele é. Porque não é tudo um mar de rosas e nós temos que perceber a realidade.

E muitas vezes as coisas que nos dão, a gente tem tanto que agradecer.

Agradecer e dar de volta. Eu acredito muito nisso e foi nesse sentido. Sim, e foram alturas felizes e gosto muito de as poder dizer.

Há outra parentese com o teu pingue-pongue, o teu ténis de mesa. Tu és de facto bom, és federado? Foste federado?

Já fui.

A velocidade é uma coisa brutal.

Sim, o ténis de mesa sempre foi uma paixão minha, desde sempre. Eu jogava futebol e ténis de mesa. Toda a gente da minha família queria que eu jogasse mais futebol que ténis de mesa, principalmente o meu pai. Mas eu sempre adorei ténis de mesa.

Tu és muito desportista e continuas hoje com musculação, pádel, corrida, não sei o quê.

Sim, adoro. Mas o ténis de mesa sempre foi uma paixão. Realmente era uma coisa que eu sentia que era bom, e sempre fui. Joguei desde pequeno, era bom.

Chegaste a ser federado, então.

Cheguei a ser federado, depois tive que deixar de jogar porque fui para fora. Entretanto, em Inglaterra, quando estava em Londres, joguei na segunda divisão lá, federado. Agora, ultimamente, voltei. Quando voltei para Portugal-

É que é muito exigente, é muito duro.

Sim, é muito duro, é incrível. Quando voltei para Portugal, voltei a jogar, mas já senti que não tinha o tempo, a disponibilidade, e que tinha perdido muitos anos para estar ao nível das pessoas que estavam a jogar. Então, para ser sincero, como não tinha o tempo, desmotivei e agora jogo só na Desportiva.

E outra coisa que tu gostas de dizer: "Gosto de estar sozinho e gosto de ver séries documentais", como por exemplo, "The Pitt", este género de séries. Só vês coisas de medicina e de saúde?

Não, não de todo.

O que é séries documentais? "Seaspiracy"?

Eu vou explicar o que é séries documentais. Uma das coisas que eu mais gosto, e neste momento de vida, tudo o que acontece na minha vida e que tem acontecido, é às vezes tenho as baterias sociais muito baixas, então preciso estar comigo próprio.

Bem-vindo.

Comigo próprio, e gosto muito. E uma das coisas que eu adoro é ver documentários reais. Por exemplo, eu gosto muito de ver história. Eu gosto muito de ver como é que as coisas aconteceram, por exemplo, Primeira Guerra Mundial, Segunda Guerra Mundial, tudo que seja-

Ou filmes sobre isso.

Mas eu gosto que seja tudo baseado em factos verídicos.

Ok. Ali é parte do documentário mesmo.

Exato. Mas tudo que seja ciência, adoro. Por exemplo, há um programa na Netflix que até vi há pouco tempo, que é "As Emergências em Nova York", que mostram casos reais de pessoas que sofrem um trauma gravíssimo e são encaminhados para os centros de trauma de Londres. Vê como as pessoas são tratadas, o processo. Eu gosto de saber os processos, eu gosto de perceber as coisas.

Lá está, vem desde quando eras pequeno e descobrías as--

Sou um curioso, portanto, adoro ver esse tipo de documentário.

Muito bem, Suplendi. Então, estamos nisso. Há uma equipa fundadora com estes três sócios, o Nico Bandeira, o Carlos Oliveira e o Pedro Ferraz, com experiência nas áreas da ciência, que é o teu caso, da indústria farmacêutica, que é o teu caso, marketing digital e gestão empresarial, imagino que sejam eles, os teus sócios.

Sim.

A ideia de fazer esta Suplendi é uma marca 100% portuguesa de suplementos alimentares, e tu achaste que havia uma lacuna no mercado que podias fazer melhor?

Sim, exato. Isto começou quando eu estava na Ferraz Farma, e depois foi em Inglaterra, lembro perfeitamente, eu já andava a matutar nisto.

O Ferraz é o pai do Pedro, teu chefe?

Não. O Pedro é filho do CEO da Ferraz.

Então achavas que podia haver uma empresa portuguesa vossa?

Eu sou uma pessoa super organizada e lógica. Nós nunca temos tudo, e senti que estava na altura. Já estava fora há algum tempo, já queria estar aqui também com a família, e cheguei numa altura que eu comecei a planear o produto que nós temos hoje, ainda estando lá. Ou seja, eu trabalhava, chegava à casa e começava a planear e a ver de que maneira, a estudar, a ler literatura científica.

Planear é com as mãos na massa a experimentar coisas ou só de estudo?

Não, de estudo, porque a base teórica tem que ser a primeira. Houve um estudo grande. Sim, lembro perfeitamente deste momento. Eu estava no final do ginásio, já estava com aquilo na cabeça e disse: "Vou ligar ao meu pai. Se o meu pai me apoiar, eu-"

Qual é a área do teu pai de trabalho?

O meu pai é empresário na área da restauração, hotelaria. Eu lembro perfeitamente, disse: "Se o meu pai me apoiar, eu vou-me despedir amanhã e vou para Portugal, e vou me lançar".

Responsabilidade.

Isto tudo um bocadinho calculado. Isto agora dito, não foi assim, mas mais ou menos.

E o pai?

Pronto, eu ligo ao meu pai, meu pai só me disse: "Filho, tens o meu apoio, agarra o teu sonho e anda embora". Eu lembro perfeitamente destas palavras. No dia a seguir, já tinha tudo mais ou menos estruturado. E daí, esta estrutura já tinha sido pensada, até porque estes sócios que eu tenho também são meus amigos, mas estão todos com um propósito na empresa diferente. Eu não sei tudo. Hoje sei mais do que sabia quando comecei.

A parte científica é tua?

Toda minha.

Toda a microbiologia dos produtos é tua.

Sim, toda a formulação dos produtos, o pensamento dos produtos e tudo que é a parte científica e técnica é minha. Depois eu tenho aqui o Nico, na parte mais de relações públicas, eu costumo chamá-lo o engenheiro de pontes. Ele vive em Londres, tem uma empresa de promoção, é uma pessoa que conhece toda a gente. Eu costumo dizer que ele é o espalha a palavra da Supleni ao mundo. E tem sido incrível, nós temos estado em muitos lados graças a ele. Fundamental o Carlos, que eu conheço desde pequeno, cresceu comigo.

Carlos Oliveira?

Sim, que é meu primo, e ele tem experiência na área de gestão de empresas, que ele tem uma empresa já. E eu não tinha experiência nessa parte, e o Ferraz, na parte da indústria e na parte mais farmacêutica pura e dura.

Este primeiro hangout, este primeiro produto que vocês têm, o nome imagino que venha de hangover, de ressaca.

Não, curiosamente, toda gente diz isso, mas não. Hangout-

É porque isto é desenvolvido com base em investigação científica, claro, estudos clínicos, isso é muito importante, mas é um suplemento concebido para apoiar o organismo depois de situações de sobrecarga, de estresse, de refeições pesadas, de períodos de estresse, de consumo moderado de álcool. Combinado apenas de ingredientes naturais e com propriedades antioxidantes, anti-inflamatórias e proteção hepática e gástrica. Muito bem. Agora, mas não vem nada então do hangover.

Não, eu vou explicar. Eu quando digo hangout, a palavra vem de convívio. Hangout, em inglês, significa let's hangout. Vamos conviver. Nós temos vários produtos, e a Supleni não é uma empresa monoproduto. Ou seja, neste momento é, mas não vai ser. E nós estamos pensando, eu tinha vários produtos pensados, mas pensei: "Este vai ser o mais diferente", porque efetivamente não existe nada no mercado como isto. Imagine, nós somos uma empresa que apoiamos a longevidade e o bem-estar, e nós queremos estar presentes às pessoas em todos os momentos da vida das pessoas, e as pessoas inevitavelmente vão ter excessos. Faz parte da vida das pessoas.

Uma jantada mais intensa.

Mais intensa.

Uma preocupação maior num período da vida.

Um copo, dois copos. Só proteção hepática, proteção gástrica.

Isto não é prevenção, as pessoas não devem tomar isto antes.

Não, isto é antes. Isto toma-se antes dos momentos de excesso.

"Eu vou jantar imenso, vou já tomar isto".

Sim, exato. Há muitas pessoas que tomam todos os dias, proteção hepática, proteção gástrica, porque isto é 100% natural.

Isso é como se fosse um Omeprazol.

Exato, só que o Omeprazol é químico. Ao mesmo tempo que faz bem, faz mal. Isto é tudo natural. E, por exemplo, um dos efeitos que as pessoas reportam, que nós já sabemos, porque isto foi desenhado para isso, é azia. Este produto conta com extratos desintoxicantes de plantas, minerais, vitaminas e probiótico. Ou seja, é o único no mercado com isso. E combinamos uma tecnologia nova que existe, que se chama B Layer, que é um comprimido que tem duas camadas, libertação rápida e libertação lenta.

Exato, que estranho, é como aquelas pastilhas elásticas, que têm uma casca zinha e depois por dentro é uma coisa. É um Tic Tac.

Exato, mas as pessoas não entendem. Isto foi tudo pensado ao pormenor para funcionar da maneira que funciona.

E é engraçado, porque esta fórmula, eu já sei o que é que tem, essas B12, a B6, a vitamina C, tem os minerais, o crómio, selênio, magnésio, estas coisas. Magnésio faz muito bem. Extratos de plantas como esta bardana, estas coisas tu inventas. Alcachofras, gengibre e cúrcuma, também cúrcuma está muito na moda. E este probiótico Bacillus coagulans. Isto é o que vem aqui. Agora, há uma coisa que eu vou dizer antes, que é para as pessoas perceberem que é muito importante. Suplemento não é medicamento. Suplemento alimentar é um composto para repor níveis de nutrientes, como vitaminas, minerais e proteínas, que podem estar em níveis insuficientes para garantir o estado de saúde de uma pessoa. Isto é, em geral, em venda livre. Podem também ser prescritos, mas são em venda livre. O medicamento é um composto a modificar mecanismos biológicos e mecanismos moleculares para tratar ou prevenir uma doença. Este, em geral, sim, sujeito à prescrição médica. Cá está, são coisas diferentes.

São.

Portanto, as pessoas assustam-se muito com isto. Outros suplementos é os melatoninas, são suplementos, são coisas diferentes.

Eu olho para isto de uma maneira que os suplementos nunca vão substituir os medicamentos. E as pessoas têm que ter a noção disso, nem podem esperar que o suplemento tenha um efeito como o medicamento, porque nunca vai ter. O medicamento é um químico, causa uma ação rápida no corpo Eu olho para os suplementos com um futuro muito promissor, porque tudo que é químico tem coisas boas e coisas más. Na parte natural é maioritariamente tudo bom. E nós conseguimos, em certas coisas, substituir o químico pelo natural. E desta maneira estamos a ajudar as pessoas a viver mais.

Um medicamento, por exemplo, tem que passar pelo Infarmed, isso é obrigatório. Autoridade Nacional do Medicamento. O da GAV, os suplementos, é vocês e a Direção-Geral de Alimentação e Veterinária. Quando muito a ASAE também, na parte das normas dos suplementos, pode ter aí alguma função. Mas de fato, tem que haver esta regulação. O setor dos suplementos é frequentemente alvo de debate em torno da regulação. Tu consideras que há, Tiago, regras a mais ou a menos?

A menos.

Devia haver mais?

Muito mais.

Porque isto assustou-me imenso quando eu estava a ver as tuas conversas, as tuas entrevistas. Eu fartei-me, nas posições que eu já assumi, a investigar estes suplementos, pouquíssimos tinham o que lá dizia. Isso é assustador, que para mim, estou a ouvir agora pela primeira vez, acho isso assustador. Como é que a DGV não tem uma lei?

Isto não é toda a gente assim.

Claro que sim. Mas há muitos, isso acontece de vez em quando. Na Europa, isso seria impensável.

Sim, é impensável porque nem é permitido. Imagina, para fazer um medicamento, o processo é muito complicado, são anos e anos.

O trabalho que teve a Bial, por exemplo, que já tem dois remédios, um para epilepsia, o outro é Parkinson, imagina. E são provados na Europa e nos Estados Unidos, demoraram anos. Tem agora um para quatro ou cinco anos, na fase dois de testes, primeiro que isto chegue ao mercado.

São anos e anos de investigação, e os suplementos não.

E testam milhões de moléculas até chegar à fórmula certa.

Há várias fases, é um processo muito longo e minucioso. Aqui no suplemento, qualquer pessoa que queira, chega ali a uma fábrica que faça suplementos e diga: "Eu quero fazer este suplemento". Porque os suplementos estão a virar muito moda e deixa-me um pouco triste, porque eu acho que as pessoas devem fazer as coisas, mas eu como parte de ciência e cientista, eu acho que as pessoas devem fazer as coisas direitas.

Com cabeça.

E com cabeça. Porque acho que há aqui uma responsabilidade, até porque as pessoas vão tomar e vão ingerir.

É saúde. Estás a pensar nas pessoas e no bem das pessoas, desde pequeno. Espero que nunca abandones isso. Só uma coisa curiosa e muito boa, agora eu estou muito mais confiante por ser o teu percurso e por ser a tua cabeça, como é que funciona. Eu gosto muito disso. E de fato, nunca abdiquem dessa coisa científica, esta base, que é essencial. Até para o ano, se não me engano, vocês estão a combinar uma parceria com uma universidade.

Sim, isso é uma das outras coisas em que vamos ser diferentes. A qualidade é o pilar número um. Claro que depois temos aqui uma história toda de marketing e branding, que eu não sou a melhor pessoa para falar, mas já pesquisei algumas coisas. Mas no fundo, eu acho que temos que garantir e temos que suportar o nosso produto com evidências científicas do mesmo. Portanto, nós vamos fazer uma coisa que existe nos medicamentos, que não é de todo obrigatório para os suplementos, que é: nós vamos testar todos os nossos produtos in vivo e in vitro, ou seja, através de testes bioquímicos e em pessoas, para realmente ter dados, informação para as pessoas verem que realmente existe uma diferença, que realmente funcionam e que realmente a literatura está ali disponível sobre os estudos feitos sobre cada um dos nossos produtos.

É preciso não confundir também, nós estamos a fechar, com os produtos para desportistas. Esses já são produtos de borderline, que são produtos de fronteira. Alguns são considerados suplementos alimentares, outros não. A DGV diz que tem a ver se tem unidades superiores a 25 gramas ou 25 mililitros, e se fornece mais de não sei quantas calorias diárias, então são géneros alimentícios e não são suplementos alimentares. Tudo isto há aqui uma regulação nesse gênero de produtos. A publicidade, cheguei a essa vossa "Easy likes on the morning", a música.

Foi um slogan que nós usamos.

Que diz na vossa embalagem também do hangout. Foi lançado em julho, para já está em venda exclusiva e é online?

Sim, para já.

No vosso website da Suplend.

Nós só lançamos agora há relativamente pouco tempo, somos um recém-nascido, e para já estamos nas vendas online. Brevemente vamos implementar as vendas em lugares físicos. É o próximo step que estamos a fazer.

Portanto, vêm aí mais marcas, vêm aí mais produtos.

Vêm mais produtos.

E se calhar internacionalização, um dia.

Sim, é um dos passos que temos para a frente programados, com certeza.

Muito bem. Tiago Ferreira, bem-hajas pela tua disponibilidade. Eu sei que tu vieste a Póvoa de Varzim de propósito. Quero te agradecer muito essa deslocação. É de fato um impulso que vocês merecem. Esta divulgação, esta conversa, sobretudo em parte em torno da ciência, uma coisa que as pessoas desconfiam muito e é sempre bom. Nunca é demais vocês dizerem como é que isto nasce, como é que isto é feito e toda a cabeça que está por trás. E acho que ficamos a saber um pouquinho mais disso. Tudo de bom para vocês, para a Suplend e para o trabalho de vocês quatro, que todos podemos lucrar com isso. Bem-hajas, obrigado por terem vindo.

Muito obrigado, João Paulo, foi um prazer.