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Como disse há pouco, já está conosco o personal trainer Eduardo Schulz. Eduardo, bem-vindo mais uma vez. Boa tarde.
Boa tarde, Ana.
Olá, viva Eduardo.
Eduardo, isto é uma questão que se põe muitas vezes. Afinal, fazer abdominais faz perder a barriga ou não faz? Isto é verdade ou é mito?
Esse é um tema espetacular. Ainda é um dos mitos de fitness que está muito enraizado.
É um mito?
É um mito. E eu acho que hoje vamos desapontar aqui alguns ouvintes. Dizer-lhes que, na verdade, fazer 1000 abdominais por dia, por si só, não resolve a questão de eliminar a massa gorda que está na zona envolvente do abdômen. Lamento, mas não vai acontecer assim, porque o corpo não reage assim. Na verdade, Ana, agora fora de brincadeira, há imensas pessoas que ainda me perguntam quais são os melhores abdominais para perder barriga, ou se porventura podem fazer mais do que uma vez por dia esse tipo de exercício e se ajudará a ficar com a zona abdominal mais definida. Mas como disse há pouco, ainda que em tom de brincadeira, de facto o nosso corpo não reage dessa forma e é evidente pelos estudos e por tudo aquilo que tem vindo a público, que o trabalho muscular localizado na zona abdominal, por si só, de facto, não é suficiente para perder a massa gorda que está nessa região específica. Ter o abdominal mais definido está dependente da massa gorda que o envolve. Portanto, como disse agora mesmo, não é esse tipo de trabalho específico que ajudará a remover a gordura dessa zona localizada. E para que isso aconteça, temos que ter atenção a outro tipo de estratégias que temos vindo a falar aqui, nomeadamente metodologias de treino que tenham por intuito, de facto, a redução da massa gorda e a zona abdominal está incluída. E uma parte fundamental desta equação que é a alimentação adequada.
Ou seja, eu posso ter barriguinha, mas ter uns abdominais fabulosos lá por baixo.
Na verdade, todos os temos, eles estão lá, têm uma função, estão identificados.
A questão aqui é eliminar a parte envolvente ou trabalhá-la de outra forma?
Precisamente, João. Aquilo que está aqui em causa é que nós consigamos, através de uma alimentação adequada, que é a área para a senhora nutricionista, e de metodologias de treino adequadas, nós conseguirmos remover a massa gorda peri-visceral, na zona abdominal, e assim ter o abdominal mais à vista. Agora, a parte boa vem no seguimento daquilo que nós falámos há pouco dos 1000 abdominais. Há, de facto, uma parte boa relacionada com isso, não é todo desprovido de sentido. Mas para que as pessoas percebam, esse tipo de trabalho o que vai fazer é tonificar a zona abdominal, desenvolvê-la e melhorar a sua função, que essa é que é a minha área específica. Enquanto técnico, a minha preocupação principal é melhorar a função do trabalho muscular, no caso, do abdominal.
Então me explica quais são as vantagens de fazer esse tipo de exercícios.
As vantagens são imensas, mas antes de desenhar um programa de exercícios para os abdominais, é preciso conhecer a sua função e a complexidade de toda a estrutura abdominal. E não querendo ser muito maçador para os nossos ouvintes, mas ao mesmo tempo ser aqui esclarecedor nalguns pontos que me parecem importantes, a parede abdominal por si só está, como as pessoas calculam, em redor da cavidade abdominal e atua toda ela como uma cinta. Pode ser dividida entre a zona anterolateral e a zona posterior. Vamos fixar para já na zona anterolateral, que é aquela que é mais visível, aquela zona que vai do lado até à frente do abdômen.
Certo.
Essa zona anterolateral tem também a sua subdivisão em zona anterior, à frente, e lateral, como o nome indica. E portanto tem à frente o reto abdominal, que é um músculo vertical, que é aquele músculo que é mais visível quando está com menos massa gorda, porque tem aquelas interseções que permitem dividir os ventres do abdômen e portanto fica aquela imagem dos gomosinhos todos definidinhos. Tem um músculo secundário pequenino que é o piramidal e tem depois a parte lateral constituída pelo oblíquo interno, externo e o transverso. Eles atuam como uma cinta, como eu disse há pouco, e a parede abdominal no seu todo tem umas funções muito específicas, que vão desde a parte mais fisiológica à parte mais mecânica. E portanto, desde a proteção de órgãos internos e vísceras, à estabilidade do tronco e da coluna, ao aumento da pressão intra-abdominal. Para quem não sabe o que isto significa, estão aqui inerentes processos como a tosse, os espirros, os vômitos, a defecação, por aí fora. E até ao processo expiratório. Há aqui uns musculozinhos que de alguma forma interferem nisto tudo. E depois, aqueles que nós falámos agora, os tais da parede anterolateral. Por ação conjunta dos seus músculos ou individualizada, de acordo com aquilo que é a sua origem e a sua inserção, fazem funções vitais como a flexão do tronco, a flexão lateral do tronco e a rotação do tronco. E eu, como profissional, aquilo que me interessa mesmo é perceber a complexidade desta musculatura e saber como desenhar exercícios para que as pessoas melhorem estas funções e terem corpos mais preparados para funções do dia a dia, flexionando o tronco, rodando o tronco, etc., não correndo riscos de lesão e a musculatura estar tonificada e preparada para isso. A parte estética não é negligenciável, mas na minha ótica, enquanto profissional, é a parte secundária.
Eduardo, mas o que é certo então é que com menos gordura nessa zona abdominal, com toda essa musculatura mais tonificada, é certo que melhoramos também outras funções dos nossos órgãos, ou seja, tudo está mais preparado para funcionar melhor. No fundo, é essa também a mensagem.
Essa é a grande mensagem, a melhoria das funções e não tanta preocupação só com a estética. Se bem que acaba quase por ser inerente, porque quando há um programa de treino adequado, quando há uma alimentação que de alguma forma se coaduna com aquilo que é um estilo de vida saudável e que tem por missão a redução da massa gorda, não só fica mais visível, como depois o treino em si, que tonifica e desenvolve esta musculatura, melhora a sua função e, portanto, tudo isto junto-
Um corpo mais funcional e mais bonito.
Mais funcional e mais bonito, precisamente.
Eu estava aqui a pensar no caso das grávidas. Terem esta área já trabalhada vai facilitar bastante, tanto a gravidez, como a recuperação no pós-parto.
Precisamente, Ana. Até porque Há algumas preocupações a ter em conta no caso de uma grávida, é verdade, e algumas delas são identificadas do ponto de vista clínico e há que ter aqui algumas preocupações. Mas vamos pela base. Grávida não é doente e é uma mulher que está preparada para fazer exercício físico. Se já o fazia antes, poderá continuar a fazer com alguma segurança. Se por acaso durante o processo da gravidez é que resolve iniciar o programa de treino, aí é que há algumas preocupações a ter, porque pode ser um corpo menos preparado para algumas funções e não é naquela altura que se vai intensificar o treino a esse nível. Mas de uma forma muito genérica, dizer-te e acompanhando o teu raciocínio, que a grávida deve ter um preparo muscular para que facilite não só o processo da gravidez, porque estamos a ter em conta que é um aumento do volume da cavidade abdominal que acontece por ordem do feto. Portanto, há que estar preparada para isso. E também no processo pós, para que haja um restabelecer de toda aquela zona abdominal, que vai ser muito importante, não só do ponto de vista estético, mas também do ponto de vista funcional.
E portanto, estava eu aqui a pensar quando começamos esta conversa, ele vai-me dizer que eu não preciso de fazer mais abdominais. E afinal não.
Para que a função seja melhorada, é bom que os faças.
Exatamente. E não resulta sentada no sofá.
Não, de todo. Não há soluções milagrosas, não há ficar no sofá, como também não há, e este aqui é um tema muito polémico, que eu não queria desde já pôr a foice e o enxadão, mas esperar que aqueles milagres do tipo aquelas placazinhas que contraem por nós façam ajudas espetaculares.
As tele-vendas.
Tenho muitas reservas quanto a isso, é um tema muito controverso.
Muito bem. Ir até ao ginásio por aqui na rádio, fazemo-lo sempre à quinta-feira com o personal trainer Eduardo Schulz. Obrigada, Eduardo. Até à próxima.
Obrigado mais uma vez e bons treinos.
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Esta edição do deixe-se de...
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