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Olha a cabeçada. Golo! Ronaldo! Não há português que não sinta.

Não há português que não sinta e a nossa representação portuguesa do Observador no Qatar é feita pelo enviado especial, editor de desporto, o Bruno Roseiro, que nos traz a partir do Qatar todas as emoções do mundial e logo num primeiro dia. Bruno Roseiro, bem-vindo. Um primeiro dia em que tivemos esta estreia, Qatar contra o Equador. Os equatorianos saíram-se melhor, mas daqui nós não conseguimos perceber a dimensão total daquilo que foi acontecendo no Al Bayt. E fica aqui uma pergunta: afinal, estavam mesmo 67 mil adeptos num estádio de 60 mil? Viste isso? Ou não foi bem assim?

Sim, tendo em conta que o estádio tem 60 mil, diria que não. Há aqui uma possibilidade que é, quando eu estava a sair já depois da zona mista, o número de seguranças privados e o número de polícias que eu vi agrupados no chão à espera de autocarros, provavelmente eram mais de 7 mil. Portanto, quando muito, estariam a juntar assistências, mais polícias, mais assistentes que nem sequer entraram no estádio, com uma certeza: depois do intervalo, garantidamente se tivessem 35 mil pessoas naquele estádio já era muito, porque acho que bastaram 20 minutos sobretudo para os locais perceberem o ponto e o nível em que estava a sua seleção. A perceção que existe é, enquanto os equatorianos, e eu fui estando com muitos durante o dia, deram aquela sensação do que é verdadeiramente o mundial, ou seja, com cânticos, com fotografias, sempre muito juntos. Havia quase uma aliança das Américas entre México, Argentina, Brasil, todos com o Equador e desse lado sentiu-se o que é o mundial. E depois houve um outro lado, que é uma população local que não está propriamente muito acostumada a este tipo de eventos desportivos, que o êxtase é quase abanar uma bandeirinha, que depois da cerimônia de abertura surgiu com uma claque, cerca de 2000, 3000 pessoas, claramente contratadas apenas e só para o efeito.

As tais, não é?

Para tentar mexer um pouquinho com as bancadas e mesmo assim não deu, porque aquilo que se passou em campo não atraiu ninguém.

Sim, e tivemos também aqui, pelo menos recebemos aqui em Portugal as imagens dos cânticos da claque, vamos assim chamar de claque equatoriana, a pedir cerveja. Não sei se isso foi audível também no estádio.

Não, foi audível no autocarro quando eu vim para eles, porque essa foi uma das coisas que eu fiz durante o dia. Eu de manhã, como tinha sempre de passar pelo media center, e só para explicar, quem pede bilhetes para os jogos tem de ir imprimindo esses mesmos bilhetes. Ou seja, nós temos uma aprovação via online e depois temos de passar a nossa acreditação e imprimir esses bilhetes. É a primeira vez que acontece num campeonato do mundo. E quando estava no media center, estava a passar o Twitter normalmente e achei piada a um tweet do Stephen King que dizia: "Ok, se vamos ter um mundial sem cerveja, isto vai ser um problema". E então aquilo que eu pensei foi, se existe esse tipo de condicionalismo e se alguém que está longe e distante, pelo menos daquilo que nós sabemos da realidade futbolística, tem essa percepção, nada melhor do que fazer o caminho todo até o Al Bayt, que provou que não é bem assim aquela questão do é só sair do metrô e já se está no estádio, o Al Bayt não tem nada a ver. E aquilo que eu fiz foi, havia um shuttle para jornalistas, havia também sempre a possibilidade de ir de táxi ou de Uber até ao estádio, e aquilo que eu fiz foi ir como os adeptos costumam ir, que é apanhar a linha de metrô. Ainda passei por Corniche West Bay, que é onde tem sido a grande concentração dos adeptos de todas as seleções aqui presentes e também de muitas seleções que não estão presentes. E depois fizemos a linha de metrô até Lusail, que é o estádio onde Portugal vai jogar com o Uruguai e que vai receber a final. E em Lusail é que se apanha o shuttle depois para o Estádio Al Bayt, que é cerca de meia hora. E nesse caminho, claramente muitos equatorianos, eu fui falando com eles, fomos explicando como é que chegaram, muitos deles a virem através da Turquia para terem menos problemas em relação ao visto, mas sempre com esse lamento e já com essa cantiga também no autocarro: "Nós queremos a cerveja e não vamos ter cerveja". Portanto, quer se queira quer não, o fato de não haver cerveja na zona dos estádios e no interior dos estádios vai ser sempre algo que as pessoas vão lamentar. Deixa-me também acrescentar que o filme que se pintava de um país que pura e simplesmente não tinha álcool, que era tudo fechado, etc, não me parece que seja bem assim. Aliás, não é. A única coisa que é verdade, e são duas: uma, a cerveja é realmente mais cara, muito mais cara do que nós estamos habituados. E dois, de fato, não se vende cerveja nos supermercados. Agora, existem vários sítios com cerveja, com essa nuance. Quem quiser beber a sua cerveja e estar descontraído, é bom que tenha uma carteira cheia.

E agora para termos uma noção, quão mais cara que é essa cerveja?

13, 14 euros. Aquilo que tu provavelmente pagarias no máximo 3 euros em Portugal, aqui pagas 13, 14 euros. Há sempre aquele pressuposto que é: se tu és um adepto de uma outra seleção e se viajas até Doha com o preço não só da viagem, mas sobretudo também do alojamento, partes do pressuposto que aquilo poderá não ser um problema para ti.

Claro.

Mas ainda assim não deixa de ser caro. E também não deixa de ser curioso que já existem vários roteiros e várias mensagens que vão circulando em grupos de adeptos, inclusivamente também grupos de adeptos portugueses, com os vários pontos onde se pode ver os jogos do mundial e onde se pode beber cerveja.

Uhum! Bruno, olhando aqui-

E são muitos, deixa-me acrescentar.

Pois, acredito, até para fazer face a essas limitações. Houve aí uma frase que tu disseste que me ficou aqui no ouvido, que foi essa questão do: afinal, isto não é bem como se parece, não é só sair do metro e já estamos no estádio. Para ti que estás aí, para nós que estamos muito distantes e que muitas vezes também é difícil filtrar aquilo que é real ou não. Afinal, como é que é? Todos os estádios são perto uns dos outros, como se dizia, é rápido chegar a eles, porque houve aí muitos shuttles, muitos transportes. Quanto tempo, por exemplo, é que tu demoraste a ir de um lado a outro?

Não, hoje apanhei logo a exceção, ou seja, este é o estádio que é mais afastado e eu não vou exagerar quando digo: tu vais na viagem, a certa altura consegues ver outras coisas relacionadas com o desporto que não futebol, ou seja, um pavilhão enorme que quem vê de longe parece que é um estádio, mas não, é um pavilhão enorme, uma zona de karts, a zona onde é o circuito de Fórmula 1, tens um campo de tiro, ou seja, vais vendo essas coisas, mas a certa altura, quando estás a chegar ao Al Bayt, aquilo que tu vês é sobretudo deserto. E no meio desse deserto, há literalmente também uma tenda enorme, que por acaso é um estádio de futebol, mas que não deixa de ter esse design. Ou seja, em termos da conceção do estádio, não há dúvida que é, de facto, uma grande obra. Agora, quando tu olhas à volta, vês pura e simplesmente deserto. Aliás, e quem está dentro do estádio percebe que essa poeira que vai levantando, e hoje foi começando a levantar já algum vento, nota-se. Depois, há uma diferença que é, passando aqui um bocadinho ao lado da questão da cerveja, que anima sempre um bocadinho mais as coisas. Consegue-se viver ambiente mundial, apesar de tudo, ou seja, muitos países representados, muitos países convidados pela própria organização para ir assistir ao primeiro jogo. Aliás, Portugal tinha um núcleo de portugueses que se faziam representar e conseguia-se ver bem também pelas bandeiras que tinham além das camisolas de Portugal. E sentia-se esse ambiente tal e qual como se fosse um mundial normal. Ou seja, tu tens ali uma parte à volta do estádio onde não se fala de como é que este mundial vai equiparar, como é que os estádios nasceram, quais são as regras deste país. Não, ali fala-se e respira-se sobretudo futebol. É a única exceção. Provavelmente há outros locais onde não será assim. Acredito que o facto de ter começado a competição também vai abrandar um bocadinho as questões sociais. Acho que amanhã, no jogo do Irão com a Inglaterra, o termómetro vai subir novamente, porque me parece cada vez mais que a imprensa inglesa não só está contra a realização do mundial no Qatar, mas está apostada em comprovar cada vez mais porque o mundial nunca deveria ter sido realizado no Qatar. Mas a vertente desportiva, naturalmente, até dia 18 de dezembro, eu diria que vai passar para um primeiro plano. O que se virá a partir daí é uma incógnita, mas muito provavelmente as mesmas questões que andaram a ser faladas antes do mundial vão continuar a ser faladas.

Uhum! Bruno, gostava de te perguntar ainda, antes da última questão, que é como é que vai ser o teu plano amanhã, por onde é que vais andar. Perguntar-te apenas em termos de adeptos, falavas que em alguns sítios consegue sentir esse ambiente de mundial. A respirar esse ambiente normal que se vê normalmente nos mundiais. Onde é que os adeptos estão a concentrar? Falavas há pouco de Corniche, também West Bay. É por lá que os adeptos estão mais concentrados neste momento?

Sim, temos também o principal mercado de Doha, que também é quase uma passagem obrigatória. E depois uma coisa que tem vindo a acontecer cada vez mais é as próprias pessoas de determinado país, Portugal incluindo, vão-se organizando e vão organizando elas próprias também as suas festas, os seus encontros. Ou seja, e depois começa a ficar um pouco disseminado por Doha. Há também a questão da Fan Zone, salvo erro acho que é Fan Festival, assim é que é o nome, que tem estado sempre lotado, inclusivamente hoje houve problemas de superlotação porque já estava o número limite de pessoas lá dentro e continuavam a querer entrar pessoas. Percebe-se cada vez mais que os próprios locais querem ir para essas zonas, querem confraternizar também com as outras pessoas. Se calhar os espaços não são suficientemente grandes, mas diria que à volta do estádio, aí é sempre garantido que vai haver festa. E sobretudo no jogo de inauguração, estavam representadas praticamente todas as seleções que vão estar aqui presentes e aí, sim, é esse ambiente com festa, com música, com concertos, com aquelas coisas que nós costumamos também ver Do acertar com a bola num buraco da baliza, do dar não sei quantos toques. Tudo isso acontece à volta do estádio e é aí que está concentrada a grande emoção. E agora vamos começar a ter quatro jogos por dia, amanhã ainda três, mas agora vamos começar a ter quatro jogos por dia e a festa vai começar a espalhar-se pela cidade.

Amanhã, como é que vai ser? Por onde é que vais andar? Vais conseguir ir a algum jogo, mesmo que não seja dentro do estádio, qual é que vais estar dedicado especialmente?

Essa pergunta não devias fazer. Quanto muito poderias perguntar-me a que jogos é que vais conseguir ir.

Não sei se tens passe para todos os dias, para poderes entrar num jogo, por exemplo.

Não, tu tens uma limitação que só podes ir a dois jogos por dia.

Pois, exato. Ok.

Aquilo que eu vou fazer é-

Eu aposto já num, que vais escolher.

Já está escolhido e já os tenho.

Irão-Inglaterra?

Inglaterra-Irão.

Claro.

É isso. E depois País de Gales-Estados Unidos. Por uma razão que é: tu nunca podes ir a jogos que sejam colados. Portanto, neste caso, como Inglaterra-Irão é às 16h de cá, só poderia ir ao jogo das 22h, que é o outro jogo do grupo entre os Estados Unidos e Gales. Ainda é um teste, porque queria perceber como é que funciona a zona mista. A zona mista acaba por ser uma zona mista completamente normal, ou seja, além dos jogadores que vão à flash, continuam a passar todos os jogadores. Tivemos a oportunidade, e vai entretanto também sair no jornal, de falar com o Pedro Correia, mais conhecido como Roró, que é o português que se naturalizou qatari e que foi esta noite titular e que nos falou não só sobre aquilo que falhou, mas também a maneira como ele vê todas as críticas que têm sido feitas ao Qatar, porque ele já cá está também há uma década, portanto conhece bem esta realidade. Em relação ao dia de amanhã, antes de ir ainda para o Inglaterra-Irão, e chamo também a atenção que vamos ter um especial com Carlos Queiroz, que falou em exclusivo também ao Observador sobre aquela que será a sua quarta participação num mundial, no quarto continente diferente. É o único treinador que vai conseguir fazer isso e ele falou também um pouco conosco sobre isso. Antes, vou à zona do mercado principal de Doha e vou a um restaurante muito específico onde está aquela que é considerada a primeira empresária de sempre do Qatar. Ou seja, foi uma senhora que ficou viúva, que tinha um restaurante, que teve de aguentar o restaurante porque tinha também a família e que no início o restaurante tinha seis, oito lugares e eram as próprias pessoas que quando acabavam de comer que iam à cozinha lavar os pratos. Hoje é um dos restaurantes mais conhecidos daquela zona, tem imensas fotografias com pessoas famosas que foram passando por lá. E antes de ir ainda para o jogo, vou perceber essa história, vou tentar falar com as pessoas do restaurante para me explicarem também um pouco mais dessa história e depois aí sim vai começar a parte do futebol.

Muito bem, então boa viagem para ti, a ver se amanhã perdes um bocadinho menos de tempo no metro e nas deslocações.

Amanhã vou perder, mas é quando for do primeiro para o segundo jogo.

Boa sorte.

Mas já sei, pelo menos já percebi que o estádio está ao pé do metro, portanto menos um problema.

Pronto, menos um problema e as tuas pernas agradecem também. Sim, senhor. Bruno Roseiro, temos encontro marcado amanhã, novamente, depois desse segundo jogo que vais ver o País de Gales-Estados Unidos da América. Bom proveito também para quem pode ver os jogos ao vivo e para quem nos pode ouvir, já sabe, em podcast tem o Diário do Mundial todos os dias disponível no site do Observador e também nas plataformas habituais. Bruno, um abraço, até amanhã.

Obrigado, até amanhã, André. Não há português que não sinta.