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Olha a cabeçada! Gol! Ronaldo! Não há português que não sinta. Mais uma edição de Diário do Mundial. Como sempre, por estes dias, estamos à conversa com o nosso caminhante pelo Catar, o Bruno Roseiro, enviado especial do Observador Do, editor de desporto. Bruno, viva. Dia comprido.

Caminhante já é a provocação.

Mas é literal a esta hora, não é? Presumo.

Sim, também é verdade, é a esta hora. Mas pelo menos vou a passo, já não é mau.

O dia foi comprido. Tive essa noção ontem quando falámos no Diário do Mundial do sétimo dia, estamos no oitavo. Hoje começaste o dia bem cedo. Se ontem fizeste só trabalho de gestão, andaste a poupar combustível e guardaste para o último jogo. Hoje começaste muito cedo e foste ao Japão-Costa Rica. Não era o resultado que os japoneses queriam, mas tu foste lá para presenciar a boa educação nipónica.

Sim, educação nipónica. Eu também aproveitei, fui mais cedo para acabar o especial que saiu entretanto da Shams Al-Qassabi, que é a primeira mulher empresária e com negócio no Catar, que entretanto já saiu no jornal. Fui mais cedo também por isso e tive uma manhã muito mais sossegada do que é normal. Por quê? Porque não tive costa-riquenhos no metro, eu costumo ir de metro para os estádios sempre que possível, e os japoneses pura e simplesmente vão sossegados no metro como pessoas normais.

Vão na deles.

Falam entre eles, andam a olhar pro telemóvel, muito sossegadinhos, sempre com a cara pintada, se possível, com a bandeira na bochecha, mas muito sossegados. Eu tive um acordar como há muito já não tinha, porque basta ir pra um jogo que começa à 13h aqui e já sei que é bombos, é cantoria, o metro é sempre assim. Por aí foi diferente. Depois o jogo em si não foi propriamente a coisa mais interessante do mundo e agora não sei se já estás a ouvir um bip.

Já estamos.

Consegues ouvir um bip.

Estou a passar o passe.

Este bip significa que estão a dar saída do estádio.

Muito bem.

Aqui do Al Bayt. Já estou aprovado, posso sair. O Japão-Costa Rica não foi propriamente o jogo mais interessante, sobretudo na primeira parte, e então eu aproveitei para fazer um trabalho que eu já queria fazer há algum tempo, que era perceber por que que de repente, a seguir ao intervalo, há tanta gente a sair e há tanta gente a entrar. Houve algumas explicações que fazem sentido. Por exemplo, um canadiano com quem eu falei, que comprou bilhete pra ir ver este jogo, achou que era desinteressante e aproveitou e foi mais cedo, porque ia ver o jogo da Bélgica com Marrocos. E por aí também acho que fez bem. Depois encontrei também, entre as pessoas que estavam a entrar, um americano que disse que tinha adormecido, ou seja, tinha comprado bilhete, ele está cá a ver os jogos dos Estados Unidos, tinha comprado bilhete também para este jogo, adormeceu, só chegou no intervalo. E depois tive uma conversa estranhíssima com um senhor. Eu até acho que esta conversa se deu porque ele olhou para a minha acreditação e achava que eu era da segurança ou qualquer coisa ali do estádio. E eu por aí fui continuando a puxar a conversa. E perguntei-lhe quem é que ele era, o que ele fazia, por que só tinha chegado ali. E a certa altura, quando ele percebeu que já eram demasiadas perguntas e quando eu já queria era saber se ele tinha ou não pago o bilhete ou se tinha sido oferecido e se ele ia entrar sem pagar, ele acelerou o passo e de repente deixou de saber falar inglês. Ou seja, antes não falava muito, mas de repente, a partir daí, deixou de falar inglês. E isto entronca muito num assunto que tem sido falado de uma maneira paralela, que é as borlas que se vão dando em alguns estádios quando se percebe que a lotação não está cheia. Não aconteceu, por exemplo, no Argentina com o México, não cabia lá mais ninguém. Hoje no Japão com a Costa Rica, o estádio deveria estar à volta de 70%, 80%. Depois foi enchendo mais um bocadinho. Há sempre estas pessoas que aparecem ao intervalo para encher. Uma alma caridosa algumas vezes oferece esse bilhete e eles lá vão. É a confirmação de uma coisa que toda a gente já tinha percebido há muito. Eu não vi in loco, pelo menos, algo que também já alguns jornais falaram e que é pura e simplesmente abrirem as cancelas para deixar abrir. Sei que há estádios que fazem isso, mas eu hoje, neste caso, não vi mesmo isso.

E depois acabaste por conseguir alguma coisa na zona mista do Japão-Costa Rica, sei lá, apanhar o Morita, que hoje até foi titular

Só para explicar, há três jogadores de cada equipa que passam pela zona de entrevistas rápidas e que depois fazem também o resto da zona mista. Todos os outros jogadores, os outros 23 convocados, podem ou não parar, mas esses três são, em termos de protocolo, obrigados a parar. E o Morita esteve no mínimo 10 minutos a falar com a imprensa japonesa, mas quando chegou à zona internacional e mesmo sabendo que estava lá um tradutor à espera dele, e mesmo sabendo que a responsável da comunicação do Japão já lhe tinha dito que ele teria de parar ali, ele acabou por pedir para ir embora e, portanto, não havendo Morita, Brian Ruiz, falámos com ele a seguir ao jogo com a Espanha. O Joel Campbell ficou tanto tempo na zona das televisões que entretanto já teve de ir a correr para o balneário. Foi uma zona mista mais rápida do que é normal, porque os três jogadores com maior proximidade acabaram logo por passar.

E depois seguiste rumo ao resto do dia, ao quase resto do dia, passaste um bocadinho pelos pingos da chuva do Bélgica-Marrocos, a surpresa da tarde e do dia, talvez, aliada também à Costa Rica, porque vencer o Japão também é uma surpresa depois do que aconteceu na primeira jornada. E a goleada da Croácia sobre o Canadá, que nos tirou, digo eu, palavras minhas, não tuas, Bruno, que fique bem ciente, tirou-nos uma seleção divertida do mundial, os canadianos, e seguiste a tua odisseia rumo ao Al Bayt, é assim que se diz? Ao estádio do jogo grande.

Sim.

Explica-nos um bocadinho o que aconteceu.

Ainda houve uma pequena paragem no Souq Waqif, que é o principal mercado daqui e é o sítio onde mais facilmente se concentram adeptos de todas as seleções, sem ser aquelas zonas especialmente dedicadas para os fãs. Portanto, o Souq Waqif é um local onde toda a gente pode ir e está a haver quase uma tendência natural para haver essas aglomerações nesse mercado. Acabei por passar por lá, até porque havia tempo à vontade. E depois começou a odisseia, sendo que convém só aqui balizar a questão, dizer que o jogo ia começar às 22h00 e eu saí de Souq Waqif às 20h05. Portanto, estamos a falar de quase duas horas antes. Duas horas antes para fazer uma viagem que deve rondar os 45 minutos, mais ou menos. Dali de Souq Waqif é à volta de 45 minutos.

Uma distância temporal ou mil.

Enquanto estivemos na zona, ainda para mais, falta mais de duas horas ou quase duas horas. Eu até achava que tinha tempo para escrever o outro texto do Japão e portanto estava tranquilíssimo com isso. No centro da cidade é normal sempre haver algum trânsito, sobretudo quando aparecem sinais, é muito fácil criar ali um mini engarrafamento, isso foi passando. O problema foi quando chegamos a mais ou menos a 5 km do estádio, que pura e simplesmente deixou de se andar. Ou seja, os autocarros de organização não andavam, os carros FIFA também não andavam. Eu neste caso hoje ia num carro FIFA, que foi uma coisa que nunca tinha feito, porque o último autocarro a sair de Souq Waqif para o estádio já tinha saído e quando nós perguntamos também à FIFA: "E agora é para ir de metro, alguma solução?" Eles disseram: "Não, espera lá que há aqui uma solução. Nós temos aqui alguns carros mesmo para essas situações e pode ir nesses carros."

Só para perceber também, não sei se as pessoas estão bem a par do que é um carro FIFA. Isso é uma coisa relativamente acessível para ti, Bruno, para os jornalistas que estão aí no Qatar?

Eu acho que sim. Se não é acessível, pelo menos hoje foi. Hoje pelo menos foi, mas foi quase numa ótica de salvaguardar que ninguém iria chegar atrasado ao jogo. Ou seja, o último autocarro que já tinha passado por ali, o último autocarro que saía de Souq Waqif. E era quase um plano B para qualquer necessidade e eram muitos carros que havia, não era o único. O problema é, quando tu estás a chegar aos arredores do Estádio Al Bayt, e eu no jogo da apresentação não tinha sentido isso porque eu cheguei à volta de quatro horas antes do jogo começar, portanto, não tive propriamente grandes problemas com isso, deixa de haver uma divisão entre quem são autocarros da organização, quem são carros da organização, quem são Ubers e táxis, quem são carros de adeptos, pura e simplesmente deixa de haver uma separação. E aquilo que aconteceu foi, estando ali parados tempos e tempos e percebendo que o estádio nunca mais se aproximava, o único recurso foi sair e arriscar, até porque já havia, na altura, dezenas e dezenas de pessoas a passar e a acelerar o passo para tentarem chegar mais depressa ao estádio. Portanto, o caminho foi passo acelerado, de vez em quando arriscar uma corrida com a mochila às costas. Não é bom. Acho que amanhã claramente vou pagar a fatura por isso. Entretanto, um autocarro quase que fez uma benesse divina de parar, ele quase que vinha vazio e conseguiram entrar ainda algumas pessoas e encurtou um bocadinho essa viagem. Outro problema é que os autocarros ficam sempre muito longe das entradas, ou seja, estacionam e tudo, depois ainda tens de andar pelo menos uns 10 minutos. E portanto, no meio desta confusão Já eram 22h05 quando conseguimos chegar ao estádio. Nem sequer tinha procurado onde era o lugar e já o Dani Olmo estava a mandar uma aposta. Foi mais ou menos por essa altura. E depois teve ainda um outro problema, que é muito mais complicado nestas alturas, que é, por norma, quando tu pedes uma acreditação, e as acreditações que eu tenho já foram pedidas há bastante tempo, elas foram todas aprovadas, mas depois há ali um nuance que é: podes ter uma mesa para trabalhar, ou seja, para pôr o computador, para ligares o computador ao cabo, que é a garantia que o Wi-Fi nunca te falha, ou então podes ter um lugar basicamente de bancada, onde pões o computador ao colo e não tens ficha e não tem a mesma comodidade, digamos assim, que têm as mesas. E eu hoje ia para esses lugares, porque a procura para este jogo provavelmente foi, se não foi a maior, foi uma das maiores de todas. Daí também não conseguimos ter a zona mista inicialmente, ou seja, foi preciso ir para a zona mista, esperar que alguém saísse, haver dois cartões disponíveis, ou três, ou quatro para as pessoas começarem a entrar, que é assim que funciona. Ou seja, pessoas que têm zonas mistas saem, dizem que não voltam, sobram cartões e depois os cartões vêm para quem está cá fora. E portanto foi tudo muito rebuliço.

Atabalhoado.

Sim, eu acho que é daqueles jogos que só agora sentado e provavelmente vendo os melhores momentos é que eu consigo perceber melhor o que aconteceu, fora a parte de recuperar o fôlego. Quando cheguei lá em cima, minha Nossa Senhora. Fora essa parte. Esse foi o meu próprio jogo e ainda demorou para eu entrar no ritmo, para eu conseguir estabilizar.

E no que toca ao ambiente nas bancadas espanhóis, alemães, ontem tivemos um espetáculo, como nos disseste, no Argentina e México, como é que foi hoje?

Acho que não é a mesma coisa. Aliás, eu acho que é injusto comparar qualquer jogo de qualquer seleção com o Argentina e México em termos de ambiente. Esse aí é um mundo à parte. Até ao dia em que Brasil e Argentina se pudessem cruzar nas meias-finais, eu acho que aí estaríamos a falar de uma realidade que seria totalmente oposta. Agora, estádio cheio, um daqueles jogos onde claramente não há ninguém que se vá lembrar de sair ao intervalo, porque é um jogo que é competitivo, é intenso, tem qualidade, são alguns dos melhores jogadores do mundo. São duas seleções que, eventualmente, até a Alemanha poderá ser afastada na última jornada da fase de grupos, mas não deixa de ser uma das seleções mais fortes que estão no Campeonato do Mundo.

E hoje mostrou mais, não?

Uma coisa não invalida a outra. Acho que esta Espanha é para levar a sério. A análise à Alemanha eu acho que tem de ser feita um bocadinho à base da Espanha, porque esta Espanha é mesmo para levar a sério. E esta Espanha é mesmo uma séria candidata a ganhar este Campeonato do Mundo. E aquilo que a Alemanha conseguiu fazer foi dentro do possível e perante aquele meio-campo da Espanha, que joga de olhos fechados como quer, quando quer e onde quer, acabou por ser, se calhar, uma estratégia mais montada para primeiro estabilizar aquele meio-campo e, sobretudo, não era propriamente aquela vontade. Há muitas equipas quando vão jogar com a Espanha, têm a tendência natural de dizer: "Não, aquilo que nós temos de fazer é tirar a bola, porque eles sem bola ficam menos perigosos". Mas eu acho que a Alemanha entende, e bem, que a questão da Espanha não é tirar a bola, a questão da Espanha é onde é que ela joga com a bola. E, na verdade, na primeira parte não houve também assim tantas oportunidades de golo quanto isso, nem para um lado nem para o outro. O golo do Morata acaba por mudar as feições do jogo, obrigatoriamente. Nos 10 minutos a seguir, a Espanha tem condições para marcar o segundo golo e fechar o jogo. E depois diria que faltou também um bocadinho de gasolina, porque não é propriamente fácil jogar contra aquela Alemanha que tem jogadores tecnicamente fantásticos, mas é sempre uma equipa forte fisicamente e é um jogo intenso, que obriga a um grande desgaste. E a Espanha acabou por baixar um pouco o seu rendimento. Não é por acaso que o Luis Enrique fez as substituições tão cedo, porque sentiu que a equipa fisicamente também estava a cair. Gavi, Jordi Alba, o Ferran Torres foi uma questão da opção, mas pelo menos esses dois são dois bons exemplos de jogadores que fazem a diferença nesta seleção e que foram começando a perder gás. Luis Enrique percebeu, fez a substituição e no meio dessa fase do jogo, a Alemanha conseguiu encostar a Espanha lá atrás durante aquele período de maior assédio e acabou por conseguir um empate. É quase uma história feita meio do nada, porque se nós formos ver o currículo deste Füllkrug na Alemanha, até 2022 pura e simplesmente não existia. Ou seja, até 2022 era um avançado do Werder Bremen, sem qualquer internacionalização e nem sequer era propriamente uma figura que se falasse muito como potencial selecionável de Hans-Dieter Flick. Acabou por ser, acabou por se tornar quase um herói improvável e pelo menos a Alemanha tem a garantia de duas coisas: Tem a garantia de que a derrota com o Japão foi um acidente de percurso, porque deu uma resposta também de bom nível contra a Espanha e tem a garantia de que pode continuar a sonhar com os oitavos, sendo que se a teoria prevalecer, muito provavelmente vai passar em segundo, com tudo aquilo que pode ter de mau para a Alemanha em termos de cruzamento nos oitavos e com tudo aquilo que pode ter de bom para nós que gostamos de futebol, com quem poderá cruzar nos oitavos.

Seguimos ou fechamos o teu dia, se me autorizares, para começarmos a olhar para o que vai ser o teu dia amanhã, sendo certo que amanhã o prato forte é, como não podia deixar de ser, o Portugal-Uruguai, que é jogado às nossas 19h00, em Portugal continental. Como é que vais começar o dia? Onde é que vais começar o dia? Vais concentrar-te única e exclusivamente no jogo de Portugal ou ainda vais fazer algumas coisas antes disso?

Não, vou fazer coisas, mas concentrado na nova cidade onde Portugal vai jogar, no Lusail, e vou lá passar o dia todo. É sair do apartamento de manhãzinha. Tenho algumas conversas confirmadas, vou andar por aquela zona e basicamente o dia vai ser dedicado apenas e só à seleção, com essa nuance que também é sempre importante para quem anda aqui de um lado para o outro, que é perceber se Portugal consegue a segunda vitória, automaticamente consegue a qualificação para os oitavos e assim já sabemos em termos logísticos que pelo menos até aos oitavos vamos cá ficar. E também ajuda bastante depois a organizar o trabalho, porque é uma garantia que, por exemplo, nos Jogos Olímpicos nós temos, nós sabemos quando é que chegamos e sabemos quando é que vamos embora. Aqui no Campeonato do Mundo e estando a acompanhar a seleção de Portugal, é tudo muito mais volátil e pelo menos isso é uma garantia. Se Portugal ganhar ao Uruguai, Portugal está nos oitavos e há outra possibilidade para eu começar a fazer também a agenda, pelo menos até essa data dos oitavos.

E assim esperamos, até para te facilitar um bocadinho o planeamento. Bruno, bom descanso. O possível, não é? Nestes dias, já levas oito dias.

Não, agora é mais uma horinha até chegar ao media center. Se eu não me enganei no autocarro, será o media center. Se eu não estiver enganado no autocarro. Será num sítio onde depois eu te irei explicar, mas acho que sim, acho que é o autocarro que vai para o media center. Portanto, mais uma hora de autocarro, mais 40 minutos de metro e um banho e uma caminha, que é claramente a solução do sucesso para o jogo até ao final do dia.

E assim vai a odisseia do nosso enviado especial ao Qatar, o editor de desporto Bruno Roseiro. Mais um dia, oitavo dia, amanhã no nono. Temos Portugal-Uruguai. Bruno, bom descanso, bom trabalho e vemo-nos amanhã.

Até amanhã. Obrigado.

Olha a cabeçada, golo! Ronaldo! Não há português que não sinta.