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No direto ao assunto das manhãs 360, já temos ao telefone o nosso convidado de hoje, é o Bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães. Bom dia, muito obrigada pela sua disponibilidade.
Bom dia.
O senhor tem manifestado muita preocupação pela falta de material de proteção pessoal para os profissionais de saúde e também por falta de diretivas claras por parte das autoridades de saúde. As orientações e diretrizes publicadas este sábado pela DGS são a resposta que pedia?
Não, as diretivas ainda vão ser publicadas sobre aquilo que é a questão da abordagem dos doentes. Deixe-me dizer o seguinte: relativamente aos equipamentos de proteção individual, é uma situação absolutamente crítica neste momento. Nós vamos ter duas situações críticas, uma já estamos a tê-la, que é esta, e outra será a questão de disponibilidade de ventiladores, de cuidados intensivos, caso a epidemia continue a ter evolução, que pode vir a ter. E nós temos, obviamente, falado nisso com o Ministério da Saúde, temos feito apelos à sociedade civil, nomeadamente aos empresários, para também ajudarem no sentido de termos cada vez mais disponíveis estes equipamentos de proteção individual, porque estes equipamentos são usados por todos os profissionais de saúde e devem ser usados por todos os profissionais de saúde, seja em que setor da saúde estejam a trabalhar. Nós não podemos esquecer que temos profissionais no setor público, no setor privado, no setor social. Temos laboratórios a fazer testes à Covid fora do setor público, aliás, têm sido feitos imensos. E por isso, isto é fundamental.
Dr. Guimarães, fala-se isso há algum tempo, desde o início desta crise. Tem havido evolução ou então quando é que se prevê, de facto, que perspetivas há para que o material de proteção pessoal chegue?
O que se previa é que hoje ou ontem à noite, teria chegado um avião da China, da Hi Fly, com uma série de material, nomeadamente de proteção de todos.
E chegou?
Se chegou ou não, não sei, vou tentar saber. Ontem tive a informação que ele não teria saído da China. Hoje vou tentar saber isso. Isto da parte do Estado. Da parte da sociedade civil, têm sido muitos os empresários e as pessoas a nível individual que têm oferecido equipamento. Porque repare, quando o primeiro-ministro disse que nós tínhamos uma reserva de dois milhões de máscaras, dois milhões de máscaras não é nada. Dois milhões de máscaras gastam-se em dois dias, porque as pessoas têm, de facto, que andar protegidas, ou andam ou não andam. Portanto, nós precisamos de muitos, mas muitos milhões de máscaras. Daqui até ao fim de maio, daqui até ao fim de junho, nós vamos ter que estar sempre a adquirir este material.
E a chegada desse avião resolve o problema?
Não, a chegada do avião não resolve o problema. A chegada do avião pode trazer alguma tranquilidade se esse material for rapidamente distribuído pelas unidades de saúde, sejam hospitais, sejam centros de saúde. Agora, é um passo importante, porque nós vamos ter que continuamente estar a adquirir este tipo de material. O ideal seria termos empresas em Portugal que o fizessem de forma contínua. Isso também está neste momento a ser estudado, nomeadamente a nível privado, pelos empresários.
A semana passada disse que já tínhamos em Portugal vários casos de médicos infetados. Apontou uma percentagem, cerca de 20% dos casos em Portugal seriam de médicos. Este valor mantém-se?
Não consigo dizer se se mantém, porque este valor, na altura, foi avaliado pelo Sindicato Independente dos Médicos, com base naquilo que era a comunicação que os médicos estavam a fazer ao próprio sindicato. Eu já pedi à senhora diretora-geral de saúde, no sentido de nos fornecer dados exatos sobre os profissionais de saúde. Ela vai alterar aquilo que é o registro que tem que ser feito nessas situações, das pessoas que ficam doentes com a Covid-19, porque a profissão não era um dado obrigatório e vai passar a ser. Porque não sendo, a própria Diretora-Geral de Saúde não sabe exatamente quem são as pessoas, em termos profissionais, digamos assim, que estão ou não estão com a doença.
E a Ordem também não tem esse número quantificado?
E a Ordem também não tem este número quantificado. A Ordem o que tem é aquilo que os médicos lhe vão dizendo, tal como acontece com o Sindicato Independente dos Médicos. Neste momento, eu sei que estão muitos médicos, infelizmente, infetados, alguns até internados e com situações complicadas. Nos hospitais é que eu tenho melhor acesso, ou que eu tenho melhor acesso, porque agora estou um bocado mais parado do que estava antes.
Quando diz que há situações complicadas, há médicos nos cuidados intensivos?
Sim, há médicos também que estão internados e nos cuidados intensivos também. O número de pessoas que está nos cuidados intensivos neste momento é um número elevado. E, portanto, isso inclui pessoas de várias profissões diferentes e também médicos. Portanto, a situação é uma situação que ataca qualquer pessoa, quer dizer, independentemente da idade. As pessoas com mais idade são aquelas que têm que se proteger mais, porque são aquelas que normalmente têm problemas mais complicados, até devido às doenças associadas que têm. Mas ataca qualquer pessoa de qualquer profissão, pode ser um jornalista, um médico, um enfermeiro, um professor, o que for. Portanto, isso é normal que aconteça. Não estamos a falar de uma situação completamente anormal. Agora, nós precisamos dos profissionais de saúde no ativo e, portanto, nós temos, de facto, que os proteger. E protegê-los é dar-lhes as condições para eles poderem exercer sem ficarem infetados. Isso é possível de fazer. O material existe, não existe propriamente aqui em Portugal. Aliás, temos uma fábrica que faz equipamentos de proteção pessoal, que começou agora a fazer para Portugal também, diga-se, porque antigamente só exportava E esta é uma aposta, neste momento, absolutamente essencial. Aliás, o próprio Ministério da Saúde já o reconheceu e está a fazer um esforço neste momento também para adquirir o máximo de material possível.
Miguel Guimarães, deixe-me voltar àquela ideia inicial da nossa conversa, que tem a ver com as diretivas da Direção-Geral de Saúde. Diz que elas ainda não foram publicadas.
Relativamente ao diagnóstico dos doentes. Saiu uma diretiva no sábado, mas foi sobre os profissionais. Porque a diretiva relativamente à avaliação dos doentes, eu sei que já foi feita pelos conselheiros, pelos técnicos médicos que estão a trabalhar com a Diretor-Geral de Saúde. Ela ainda não foi publicada. Não sei exatamente o motivo, mas sei que ainda não foi publicada. Eu tenho insistido em que ela seja atualizada, porque é fundamental, porque as circunstâncias vão mudando. O que saiu no sábado é uma norma da Direção-Geral de Saúde que tem a ver apenas com os profissionais de saúde.
E que diz que deve haver uma espécie de linha da frente que lida diretamente com os doentes infectados e esses sim, terão a prioridade na utilização dos materiais de proteção pessoal e os outros trabalharão mais recuados. É assim que estão, neste momento, organizados os médicos?
Desculpe, isto que eu lhe vou dizer é assim: quem quiser vir comigo ao Hospital de São João, eu trabalho no Hospital de São João, é o hospital do país que neste momento tem mais doentes. Faça o favor de entrar comigo e vai ver como é que é.
Como é que é?
É preciso usar proteção para entrar dentro do Hospital São João. Não me deixam entrar. Se eu chegar lá, e ainda bem, é uma determinação da administração. Eu, para entrar no Hospital São João, sou médico lá, tenho que colocar uma máscara lá em casa, senão não entro. E bem, por quê? Repare, você está num hospital em que são avaliados imensos doentes com COVID-19. Centenas e centenas de doentes. E é o hospital que tem mais doentes internados, ou seja, aqueles doentes que estão mais graves, que precisam estar internados. A circulação de outros doentes, de outras patologias naquele hospital, é também muito frequente. Claro que se conseguiu diminuir o número de pessoas no Hospital São João, e conseguiu-se diminuir muito, desmarcando tudo que fossem consultas, cirurgias, exames auxiliares de diagnóstico, que não fossem prioritários. Isso foi um aspecto extraordinariamente positivo, porque o número de pessoas que circulavam ali em Viana… Então nós andamos a dizer às pessoas e impedi-las, e bem, a fazerem isolamento social, para não andarem em grupos e de repente você vai a um sítio em que potencialmente existem muitas pessoas e não está protegido nesse sítio? Não, tem que estar protegido. A questão-
O que está a dizer é que os setores precisam, de facto, desse material de proteção.
Exatamente. A questão é o tipo de máscara. Se eu estiver na linha da frente, e a linha da frente também é considerado o serviço de urgência e aquelas pessoas que estão a lidar diretamente com os doentes que podem ter COVID, que vão lá por sintomas, que poderão ser COVID ou não, depois têm que fazer o teste. E aquelas pessoas, obviamente, que estão a tratar os doentes com COVID, têm que usar um tipo de equipamento especial, ou seja, têm que ter uma máscara que seja aquilo que nós chamamos P2 ou P3, no caso das pessoas que tratam mesmo os doentes com COVID, para lhes dar a proteção adequada. Eu, se não estiver na linha da frente e andar no hospital, na zona das consultas, dos internamentos, etc, devo também usar uma máscara, aquilo que se chama uma máscara cirúrgica, ou seja, uma máscara mais leve. Não dá a mesma proteção, mas também estou numa zona de menor risco dentro do próprio hospital e se toda a gente andar de máscara, inclusivamente os doentes, é muito difícil, se porventura algum de nós, seja eu, seja o doente, tiver o vírus, passá-lo a outra pessoa.
E aí aumenta-se a proteção, de facto.
Aumenta-se a proteção. Neste momento, nas unidades de saúde, devia ser assim em todas as unidades de saúde, porque é neste momento o principal local em que se juntam pessoas.
A ordem fez há umas semanas um apelo a médicos que não estavam no ativo para reforçarem o Serviço Nacional de Saúde. Como é que está este processo? Já há muitos que estão, de facto-
Sim, são milhares de médicos. Nós neste momento temos um conjunto, eu por acaso não estava à espera dessa pergunta, senão dizia-lhe o número exato de médicos.
Mas já estão a trabalhar?
Muitos já foram contactados e estão a trabalhar, porque é assim: nós vamos fornecendo ao Ministério da Saúde, obviamente, estamos centralizando isto no Ministério da Saúde, que é o que tem que ser, essa base de dados. Sei que muitos dos médicos que lá estavam já foram contactados por hospitais de todo o país, desde da Madeira até Bragança. Esta lista tem estado a aumentar continuamente. Já tem vários milhares, muitos milhares de médicos. Médicos com mais experiência, médicos mais novos, médicos reformados, médicos que trabalham apenas só no setor privado e que se não ofereceram voluntariamente para o público.
A questão depois é pô-los, de facto, a trabalhar.
Eu penso que já está a acontecer. Há vários casos que eu sei que está a acontecer. Agora, os hospitais continuam a referir que precisam de mais gente. É verdade, por um lado. Por outro lado, em algumas especialidades já não precisam de tanta gente. E neste momento, nós médicos, vamos ter todos que ajudar. Repare, por exemplo-
O governo estima o pico para meados de abril, 14 de abril. Nessa altura vamos ter médicos e pessoal clínico suficiente para essas necessidades?
Pois, eu espero que nessa altura nós estejamos organizados para ter médicos, enfermeiros e outros profissionais. Repare, neste momento, e dado que o número de pessoas que passou a ir aos hospitais diminuiu bastante. Aliás, hoje acho que há uma notícia no jornal, não sei se no DN.
É no Diário de Notícias.
Exato, Diário de Notícias. Diminuiu 50% o número das urgências, ou seja, agora só vão os doentes verdadeiramente urgentes. Portanto, está de acordo com os números que nós já conhecíamos, que cerca de 50% das pessoas que iam à urgência não precisariam de ir à urgência. Ainda bem. O que significa É o que devia acontecer normalmente. O que significa, na prática, que neste momento os serviços já não estão tão cheios de doentes e até porque aqueles doentes que não eram prioritários, as consultas foram desmarcadas, o que significa que neste momento os serviços, nomeadamente nos hospitais e até nos centros de saúde, mas sobretudo nos hospitais, deviam estar já a fazer escalas. E escalas rotativas, como aconteceu noutros países que lidaram bem com esta crise, ou seja, pegava em metade dos meus médicos de uma área, estes médicos vão para casa descansar, estão lá 15 dias, estes ficam aqui 15 dias a trabalhar em turnos de seis horas ou em turnos de 12 horas, conforme as circunstâncias e o local de trabalho. Depois estes vão descansar e vêm os outros. E se nós começarmos a ter turnos deste gênero, nesta fase de combate ao Covid-19, a nossa probabilidade de sucesso e de estarmos reforçados com o capital humano necessário na altura do pico, é muito maior.
No ponto das urgências e dos outros casos, para além da Covid-19, estes utentes estão a ter o atendimento devido, o atendimento correto?
Estes utentes estão a ter o atendimento correto dos doentes com serviço de urgência e têm que continuar a ter, porque senão nós qualquer dia vamos fazer as contas e o impacto negativo desta crise pode ser maior nos doentes não Covid, nos outros doentes todos que não têm Covid. E existe essa sensibilidade para que estes doentes, obviamente, tenham o tratamento que sempre tiveram. O que nós fizemos, para quem nos está a ouvir perceber, é que doentes, por exemplo, que estavam à espera de ser operados a um héroi, que estavam à espera de ser operados a umas varizes, a coisas perfeitamente benignas, que tanto faz serem operados hoje. Claro que pro doente é sempre um incômodo, mas tanto faz ser operado hoje, como daqui a três ou quatro meses. Esses doentes foram todos adiados, e bem. Assim como aquelas consultas de patologias benignas, que também podem ser vistas mais tarde. Os outros doentes todos continuam a ter apoio, seja apoio presencial, seja apoio à distância, através daquilo que nós chamamos de medicina à distância, contacto através da internet, telefónico, por Skype, o que for, conforme também as circunstâncias e possibilidades de cada hospital, de cada médico e de cada doente, obviamente, antes de mais. Portanto, nós não podemos em circunstância alguma abandonar estes doentes. Esses doentes são fundamentais, porque precisam de continuar a ser acompanhados e tratados. Por isso é que a gente tem aqui um fluxo de trabalho e o que fazemos é adiar para uma fase posterior, depois de passar esta fase difícil que temos pela frente, aqueles doentes que de fato podem esperar três, quatro meses.
Sr. Bastonário, temos ouvido relatos dramáticos que chegam dos médicos de Itália, mas em Espanha também já ouvimos situações dessas, de médicos que são obrigados a escolher entre quem é tratado e quem se deixa morrer. Podíamos correr esse risco de chegar a esse ponto em Portugal?
Podemos correr esse risco, mas eu espero que não chegue a acontecer, porque nesta crise toda, a parte mais dramática é essa. É verdadeiramente dramático os médicos terem que decidir que doente é que vai viver e que doente é que não vai viver, por não existir o equipamento. Claro que nenhum país do mundo está preparado para isto. É preciso dizer isso, porque aquilo que são as necessidades de cuidados intensivos, ventiladores e de outros equipamentos que são necessários nesta altura, como ter, por exemplo, quartos de compressão negativa, etc, são calculadas por baixo para aquilo que vão sendo as necessidades do país. E nós ainda por cima somos um dos países da Europa, senão o mesmo país da Europa, que menos camas de cuidados intensivos temos de habitantes. Essa situação está a ser corrigida. Eu penso que as fortes medidas restritivas que já foram tomadas e outras que possam vir a ser tomadas, que possam ser importantes, porque há mais medidas restritivas que podem ser tomadas, pode fazer com que a evolução da situação possa ser mais lenta e a tal curva que as pessoas tanto falam comece a baixar. Isto é, se eu tiver mil doentes durante 20 dias, é diferente se eu tiver mil doentes durante um ou dois dias, que apareçam de novo. E portanto, isto, num caso, eu posso ter capacidade de resposta e conseguir dar tratamento a todos os doentes. No segundo caso, em que os doentes aparecem todos de repente, ou seja, em pico, o serviço de saúde começa a colapsar.
E a restrição é o equipamento, essencialmente ventiladores, ou também é no fundo pessoal, médicos e enfermeiros?
Não, nós estamos a falar neste momento em termos de cuidados intensivos. Foi esta a questão que vocês me levantaram, e bem, que é isto que está a ser dramático. É eu precisar de cuidados intensivos para um determinado doente e precisar, naturalmente, de um ventilador, da chamada ventilação assistida, e não ter ventilador e, portanto, ou coloco o doente lá ou o doente B. Depois a seleção é feita ou pela idade, ou pelas patologias associadas. Depois os médicos têm que tomar decisões. E eu espero que isso não venha a acontecer em Portugal, mas desde já, lanço também este repto: é fundamental no nosso país, nós reforçarmos amplamente a capacidade dos cuidados intensivos. Isso já está a ser feito, mas é importante que a própria sociedade civil se associe ao papel que o Estado tem nesta matéria. Existem ventiladores que são apropriados para este tipo de situação e que se conseguem comprar por preços simpáticos. Claro que tem que se comprar a maior parte fora do país. Nós não produzimos neste momento ventiladores em Portugal, embora se está a estudar a hipótese de uma fábrica o poder vir a fazer, mas neste momento ainda não produzimos. E este apelo eu deixo porque nós temos camas e conseguimos ampliar o número de camas. Temos o setor privado, que pode dar uma ajuda muito importante, também tem capacidade de cuidados intensivos e tem muitas camas. Agora, nós temos é que aumentar o número de camas de cuidados intensivos para que todos os portugueses que tenham necessidade de ter acesso a cuidados intensivos durante esta fase crítica, o possam ter.
O bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, no Direto ao Assunto das manhãs 360. Muito obrigada pelo seu tempo, pelos esclarecimentos.
Bom dia, muito obrigado. Bom trabalho.
E por se ter juntado a nós ao telefone. Muito obrigada.
Muito obrigado.
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