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Bom dia e muito obrigada por estar com as manhãs 360 do Observador. Junta-se agora a nós em estúdio o jornalista de lifestyle Mauro Gonçalves e hoje, no direto ao assunto, recebemos a presidente da Associação Moda Lisboa, Eduarda Abondanza. Bom dia e muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Bom dia, obrigada pelo convite.
A Moda Lisboa Away, que começa amanhã nos Passos do Conselho, decorre até domingo nas antigas oficinas gerais de fardamento e equipamento. É inevitável perguntar-lhe, Eduarda Abondanza, se nesta edição 54, e devido ao coronavírus, vamos ter desfiles com assistência ou vamos ficar em casa a assistir a tudo através do ecrã.
Não lhe sei responder imediatamente a essa questão. Seremos monitorizados diariamente, temos uma reunião todos os dias em que iremos decidir como será o dia a seguir, em função daquilo que são as diretivas. Nós já começamos ontem. Este ano, porque recebemos um projeto internacional, começamos um bocadinho mais cedo e já temos os nossos planos e as nossas regras de acordo com aquilo que são as normativas, todas a funcionar. Obviamente que na deslocação de imprensa internacional e de alguns manequins tivemos baixas, que tínhamos mesmo que ter, nomeadamente em relação à Itália. Houve cancelamentos, já está tudo substituído no caso das modelos, etc. Mas, de alguma maneira, enquanto for possível, assegurando a segurança de toda a gente, primeiro de quem está a trabalhar e depois de quem nos visita, nós iremos continuar a trabalhar, porque também temos essa responsabilidade.
Portanto, vão estar a ser acompanhados pelas autoridades de saúde.
Estamos. Nós já estamos há algum tempo, inclusivamente eu fui à Arco, num instantinho. Na semana passada, fui num dia e vim no outro, exatamente também para perceber como é que era esse processo todo.
E como é que uma organização pode reagir a uma situação destas.
E há um lado de tranquilidade e de aparente normalidade que nós, enquanto puder ser, deveremos ter também, porque não se para. Só se irá parar em situações que exijam mesmo que se pare. Até lá, as coisas têm que continuar a funcionar, que estava normalíssimo. Obviamente que havia os placares e o álcool gel e essas coisadas todas, mas aeroportos, etc, estava tudo num registo muito normal. Falo com várias pessoas de organizações internacionais que estão a passar pelo mesmo, naturalmente. E nós temos uma questão, que é: a Moda Lisboa está a ser feita nas oficinas gerais de fardamento, que é um território que pertence ao exército. Nós temos tido um apoio enorme e temos muitos recursos na área da segurança e da prevenção, efetivamente. Quase que temos mais do que alguns sítios do país.
Acabam por estar privilegiados nesta fase.
Temos salas de isolamento, temos macas, enfermeiros e médicos, temos medidores de temperatura, temos isso tudo.
E até vai haver os desfiles moda aprovada.
Nós já passamos por tempestades, por tufões, o Mauro sabe.
Exatamente.
E há uma dada altura que nós não decidimos, porque é superior a nós. E portanto, em determinadas situações, é a Proteção Civil que determina o que é que nós fazemos e, neste caso, serão a Ministra da Saúde, etc, o senhor Primeiro-Ministro, que irão decidir.
Mas só uma indicação que pode ser útil para amanhã. O público deve dirigir-se lá ou não para o primeiro dia?
Deve claro. Sim.
E vai aceder e ver os desfiles.
Nós iremos dando a informação de um dia para o outro. Até informação em contrário, nós iremos manter.
Eduarda, os desfiles à porta fechada, neste momento, são uma possibilidade em cima da mesa?
São. Está no plano de contingência.
No final da semana da Moda de Milão, pudemos ver que no último dia houve desfiles mesmo cancelados. A Moda Lisboa corre esse risco?
É assim, os desfiles que foram cancelados em Milão, e Milão já mudou essa estratégia também da relação com a maneira como reagiu. Os desfiles cancelados em Milão também advém do facto do Armani ter feito aquele statement e, de repente, a imprensa ter entrado toda um pouco em pânico e desapareceu. Portanto, não valia a pena estar a fazer desfiles se não há público. Certo? Pronto.
Um alarmismo desnecessário, na sua opinião.
Foi um bocadinho.
Eduarda, disse que não vale a pena estar a fazer desfiles se não há público.
Não há público.
Mas, no entanto, admite que alguns dos desfiles da Moda Lisboa possam ser à porta fechada?
Podem, só que nós tivemos mais tempo para organizar isso. E nós já temos os meios de comunicação otimizados para caso isso aconteça, o comunicarmos em termos digitais e televisão.
Transmitir.
Em Milão foi uma ocorrência de cima da hora.
Foi inesperada.
Foi. E a partir daí, e observando aquilo que se tem passado, nós tivemos tempo de nos organizar.
E se vier a ocorrer, as pessoas podem assistir aos desfiles?
Podem.
Em casa, computador, redes sociais.
Sim, iremos mesmo pedir às pessoas para o fazer, exatamente, porque já que não o podemos fazer de maneira tradicional, a moda portuguesa tem que continuar e vai passar por essa sua contribuição.
Mas isso, se acontecer, e estamos ainda no domínio das hipóteses, será uma experiência completamente diferente da apresentação de desfiles e de coleções.
Será. Obviamente, terá o seu lado de emoção também. Como tudo na vida. Mas é assim, há o lado bom e o lado menos bom.
É inovação forçada.
Não iremos simplesmente, com esta distância, também seria estranho da nossa parte não termos elaborado já um plano mirabolante qualquer de subverter a questão. Portanto, se não for presencial, será de outra maneira.
Eduarda Bontade, são quase 30 anos de Moda Lisboa. Que balanço é que se faz? Que evolução tem tido a moda portuguesa?
A moda portuguesa vai evoluindo. Continuamos com déficit grande de marcas em Portugal. De marca. Eu acho que estamos numa boa fase para reverter isso, ainda por cima quando o próprio ciclo da globalização está a ser tão atacado e tão afetado. Não é por nós, é por tudo. E como tal, as marcas locais têm toda a razão de existir, até porque a pegada é muito menor. E nós passamos a vir agora a falar sobre sustentabilidade, temos que ter a noção que consumir aquilo que são os nossos recursos locais a nível de moda, não é só de moda, é de tudo, vai fazer com que tenhamos uma vida muito mais equilibrada e muito mais sustentável.
Parece-lhe que é esse o caminho?
Parece, claro. Na Europa, parece-me que é esse o caminho para a Europa toda. Porque a Europa tem um património, a grande produção não está na Europa, já deslocalizou há muito tempo, e portanto, na Europa estão os arts and crafts, o artesanato. Está a criatividade, está a tecnologia, também. E estão as produções locais, as produções controladas e aquelas que estão na Europa são todas certificadas. Ao contrário daquilo que está fora do âmbito europeu. Portanto, todas as produções europeias têm que obedecer às normas. E isso é uma garantia para o consumidor. E a Europa tem exatamente esse know-how de criação de marca.
A propriedade intelectual é aquilo que vale os produtos.
A propriedade intelectual, os produtos de luxo, que são aqueles que, de alguma maneira, e têm feito um trabalho através das fundações de proteção dos arts and crafts, etc, dos artesãos, porque senão teria, com a digitalização, desaparecido tudo.
E que é uma área que está a ser muito afetada, de alguma maneira, com esta crise também, a venda mesmo de produtos de luxo. Porque o mercado chinês é importante não só para o fabrico, mas também para o consumo já neste momento, não é?
O consumo não é tanto já o fabrico, são grandes consumidores.
São muitos e a classe média e média-alta é muita gente.
Tem a ver com as porcentagens. É como, por exemplo, São Paulo, no Brasil. Dez por cento são muito ricos. Ok, mas são 16 milhões, 10% são 1,6 milhões.
É sempre uma questão de escala.
É uma questão de escala, sim.
É verdade. Que reorganização a nível mundial é que pode resultar daqui, destas alterações no consumo, desta preocupação com a sustentabilidade? Pode haver aqui um empurrão para marcas e designers portugueses, também?
Pode. Aliás, venho a estar muito atenta a essa questão há alguns meses. É uma oportunidade clara, tem que ser individualizada de que maneira. Há mais pessoas que estão a perceber essa oportunidade. Pessoas díspares. Porque o salto a ser é um salto grande. Estamos em conversas a tentar perceber o que é, também por causa do Mercosul e do Brasil, etc. E aí Lisboa pode ser uma plataforma interessante para uma série de coisas.
Até porque tenho a ideia que os nossos criadores e os nossos designers sempre foram um bocadinho prejudicados por ser esta periferia geográfica.
E é um facto.
Houve sempre muita dificuldade em penetrar no mercado internacional.
No mercado internacional, na Europa primeiromundista, de moda, etc. Exatamente porque estamos aqui.
Mas agora há esta janela de oportunidade.
Eu acho que há. Estou a tentar reunir as pessoas que têm a mesma opinião que eu.
Qual é a importância da Moda Lisboa para garantir que esta janela é aproveitada da melhor forma?
A Moda Lisboa é sempre uma plataforma de observação, isso é claro, ao longo destes 30 anos, que tem um nível de observação muito pertinente. E de juntar pessoas Sinergias, pessoas, etc. Eu sei, não consigo, nem quero, nem estou em condições de anunciar mudanças, mas sei que desta edição para a próxima já vai haver mudanças na Moda Lisboa, que já estamos a preparar isso, porque a própria cidade de Lisboa, neste momento, já é possível para nós, que nascemos e a habitamos e que trabalhamos todos os dias aqui, ela já entrou numa velocidade de cruzeiro. Não é bem assim, mas nós já conseguimos geri-la e entendê-la, e não sofrer aqueles embates que sofremos ao princípio, com a mudança tão rápida. E já é mais fácil para nós que estamos aqui há muito tempo, perceber como é que podemos agir numa segunda fase. Foram criadas muitas coisas em Lisboa, mas há muitos gaps de ligação. E na área da moda, efetivamente, vem muito investimento, mas tudo para marcas mainstreaming globais.
Está a falar das lojas?
Estou a falar das lojas da Avenida da Liberdade.
Da Liberdade, por exemplo.
Que é ótimo, mas que se for a Madrid eu também tenho.
Não distingue isso.
Não, não distingo nada.
E como é que se abre espaço para as outras, para os outros nomes, para os criadores portugueses?
Vamos ver, estamos a trabalhar nisso.
Estou a pensar no Príncipe Real, por exemplo, podíamos ter um bairro, uma zona só para esses criadores?
Nós poderíamos. A dimensão do sonho não acaba. A questão é o que é fazível. Neste momento em Lisboa, uma loja já pode funcionar com o público de rua, que era uma coisa que não podia há anos atrás. Nós fizemos tentativas de pop-up stores, etc. Elas vendem, mas o público de rua, não tínhamos público.
As pessoas que passam e que andam. Claro.
Hoje em dia, já.
Porque temos muitos turistas, não é?
Porque temos muito turismo e se a cidade está toda a viver para o turismo.
A moda também tem que entrar no comboio.
A moda portuguesa tem que entrar no comboio, visto que há tantos fundos internacionais, mas não estão direcionados para aí.
Provavelmente há um trabalho de casa também a fazer da moda e dos estilistas.
Claro, uma preparação mais comercial.
E darem-se a conhecer a esses investidores de alguma maneira, quando fala dos fundos.
Sim, eu acho que quando nós começarmos, depois eles vêm, é o costume. Nós começamos e depois toda a gente descobre. E se calhar, estamos há um ano e meio à espera que eles descubram. Portanto, vamos dar esse passo.
Aproveitar a moda em que está o país, a moda de uma forma sinérgica. O país está na moda em termos de turismo e de destino.
Faz-se negócio em Lisboa e os criadores têm que chegar aí.
Esta parte da conversa começou por dizer que a próxima edição 2021 da Moda Lisboa já vai refletir um pouco isso. De que forma?
A Moda Lisboa, não sei se a edição exatamente, se a Moda Lisboa em si própria.
A organização, a entidade.
Sim, porque todos os momentos de crise ou de mudança, são momentos interessantes. Às vezes estamos a sofrer, mas o fato das coisas estarem a acontecer, cria oportunidades.
Adquirindo uma postura, talvez, mais empresarial.
Mais empresarial, sim, sem dúvida.
Além da criativa.
Essa já está lá, a parte de missão toda está lá. Mas, neste momento, eu acredito que é possível a moda portuguesa fazer negócio, ser marca, vender, crescer, criar mais-valia. Portanto, é isso que nós vamos fazer.
Há uma estratégia setorial para isso, ou digamos que isso acontece em muitos setores, de haver as capelinhas, haver uma falta de colaboração entre os vários atores dos vários setores. Nós em Portugal somos muito assim. Na moda também existe isso ou o setor consegue unir-se e estilistas e criadores conseguem unir-se nesse propósito comum?
Pergunta muito difícil de responder. Portugal é um mercado pequeno. E daí esta história dos portugueses estarem sempre a pensar na exportação. Não é um fetiche, é porque nós não temos escala de mercado. Espanha pode lançar uma coisa e pô-la a funcionar durante anos em Espanha. Brasil a mesma coisa. Outros países a mesma coisa. Nós não. Nós qualquer coisa que façamos, nós temos que expandir porque não temos mais do que ter.
Não temos escala.
Não temos escala. Agora, o país é um país interessantíssimo porque é uma fatia toda junto ao oceano e carregada de veios de água, etc, e com muitas regiões. Apanha muitas regiões, muitas tipologias, isso é uma riqueza enorme. As pessoas têm muita falta de noção de país. Estão muito alocadas a regiões e a zonas e a fundos.
À sua atividade e à sua vida, de alguma maneira.
E não só a percentuais de investimento que estão muito regionalizados. Eu acho que Portugal é muito pequeno para estar tão subdividido. Muitas vezes eu digo assim: o interior é relativo O interior em Portugal, fala-se imenso do interior, mas é relativo. Para mim, o interior de Portugal é a Espanha. Porque o interior de Portugal, numa hora e meia eu estou no interior.
Mas em termos socioeconómicos, o interior começa a 50 km da costa.
Eu sei. Mas é outra maneira de ler as coisas. Eu estou a falar em termos de dimensão, que é nós numa hora e meia estamos em qualquer sítio de Portugal. Interior. E portanto, a Espanha é que é o interior, o interior profundo é a Espanha. E nesse sentido, acho que andamos a velocidades diferentes. Nós não temos todos a mesma velocidade. Os decisores não têm a velocidade de quem está a operar e quem está na frente das coisas. Acho que há um pânico. Acho que nós temos algum medo, os portugueses, em alguma coisa. Somos muito controladores e depois não controlamos nada. Como é que um país tão pequeno tem uma taxa de corrupção tão grande? E depois naquilo que são os fundos comunitários, é preciso ter uma equipa gigante para aceder a um fundo.
É tudo muito complexo. A burocracia é muito grande.
E acaba por não ser.
Eduarda, mesmo para terminar já, perguntava-lhe se vê alguma solução à vista para essa situação. O país fragmentado que falou, os ritmos diferentes, a questão da burocracia. Há um caminho a ser feito? Esse caminho já começou a ser feito?
Acho que o financiamento privado pode ser um caminho, porque ele tem outras regras e tem outros tempos. Não está há 20 anos à espera. Tem outros tempos, tem outras regras, aporta outro tipo de know-how e que neste momento para nós é interessante isso também.
A presidente da Associação Moda Lisboa, Eduarda Abondanza, no direto ao assunto das manhãs 360. A Moda Lisboa Away, que começa amanhã nos Passos do Conselho e decorre até domingo nas antigas oficinas gerais de fardamento e equipamento. Eduarda Abondanza, muito obrigada por ter vindo à Rádio Observador.
Obrigada eu também.
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