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E no direto ao assunto de hoje temos conosco Gustavo Tato Borges, vice-presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública. Muito bom dia, muito obrigado por estar com a Rádio Observador.

Bom dia.

Esta é uma entrevista que vai ser conduzida pela Carla Jorge Carvalho e pela Judite França.

Gustavo Tato Borges, bom dia, bem-vindo. Nos últimos dias têm sido apresentadas projeções que apontam para um número crescente de infecções diárias em Portugal por Covid-19. O que lhe queremos começar por perguntar é se essa escalada de casos é, nesta altura, já mesmo uma inevitabilidade.

Bom dia. Esta escalada de casos é, de facto, neste momento, já uma inevitabilidade. Não há qualquer tipo de possibilidade de podermos imaginar que os números vão descer nas próximas duas semanas ou que se vão estabilizar, tendo em conta o ritmo galopante que têm tido nos últimos tempos e a incapacidade do Serviço Nacional de Saúde dar resposta ao extraordinário aumento de casos que temos tido.

Mas Gustavo Tato Borges, onde é que se está a falhar propriamente?

Não é uma questão de se estar a falhar. Isto é uma questão de que a população está a ter comportamentos, diria eu, mais descuidados. E a verdade é que com o aumento do número de casos, não é possível, pelos recursos humanos que estão no terreno, corresponder de uma forma rápida, como seria desejável no prazo máximo de 24h, à investigação epidemiológica dos casos novos para colocar os seus contactos em isolamento e de facto conseguir garantir que as cadeias de transmissão são todas quebradas. Neste momento, o volume de trabalho, de contactos que é preciso identificar, de pessoas que é preciso colocar em isolamento profilático, o trabalho burocrático associado a cada um destes momentos acaba por ser um trabalho tão grande que a saúde pública não tem mãos a medir e não tem capacidade de resposta. Nós vamos receber agora alunos de enfermagem exatamente porque o trabalho todo que é preciso fazer não há mãos a medir e, portanto, precisamos de toda a ajuda e mais alguma que possa existir. E a principal ajuda que precisamos é mesmo da população.

Ou seja, o que está a dizer é que o problema é mesmo a montante, tem a ver com o comportamento da população, da comunidade, e nem a equipa perfeita com todos os meios possíveis de saúde pública conseguiria rastrear todos os contactos?

Repare, há um ACES aqui na região Norte, cujo delegado de saúde emitiu um comunicado cá para fora a dizer que na última semana teve 944 casos novos.944 casos novos em sete dias. É impossível fazer qualquer investigação epidemiológica cuidada a estas pessoas todas.

Mas se tivesse mais profissionais, mais equipas a fazer esse rastreio, era possível?

Precisávamos de muitos mais profissionais, que não só médicos de saúde pública, internos e especialistas, que são poucos e não há muitos mais para onde ir buscar, mas também enfermeiros de saúde pública. Precisávamos de mais técnicos, precisávamos de pessoas que pudessem fazer a vigilância dos contactos de uma forma regular, por exemplo, operadores de call center, que bem treinados, fizessem o acompanhamento diário destas pessoas todas. Precisávamos de centros de saúde com linhas telefónicas suficientes para estarem 10, 20, 30 pessoas a fazer chamadas ao mesmo tempo. E mesmo assim, era um trabalho das 08h às 20h, sem descanso, para podermos conseguir acomodar tudo. Porque o número de pessoas é tanto que este trabalho torna-se muito difícil de acomodar, mesmo que tivéssemos a equipa perfeita.

Então, isto leva-nos para a questão seguinte. Já nos disse que nos próximos 15 dias não haverá uma inversão destes números. Significa que as autoridades vão ter que tomar outras medidas, medidas mais restritivas. É para aí que vamos ter de caminhar?

Eu penso que é uma inevitabilidade termos que assumir algumas medidas mais duras, algumas medidas mais restritivas. Não sei se vamos caminhar para o confinamento total, mas acredito que seja possível fazer algum tipo de restrição de movimentos das pessoas, de limitar a hora de saída. Qualquer coisa que diminua a possibilidade de as pessoas terem contactos sociais fora do seu espaço familiar. E aquilo que nós precisamos também de convencer as pessoas, e todos nós, enquanto cidadãos, precisamos de ter essa consciência, que as únicas pessoas com quem, entre aspas, podemos ter contactos sem proteção, são com as pessoas com quem residimos, porque são as pessoas com quem normalmente estamos. Os nossos colegas de trabalho, os nossos amigos, os familiares que moram fora de casa, da nossa casa, são tudo pessoas com quem devemos estar de máscara e em distanciamento físico suficiente para evitar contactos. Eu sei que é estranho ir à casa da sogra ou da avó ou da mãe e não ficar ao lado na mesa, mas se nós não tomarmos estas medidas, vamos continuar a ter transmissão da doença e vamos continuar a ter surtos em todo lado. Além de que as pessoas não devem minimizar os seus sintomas. Muitas pessoas estão-nos agora a relatar, e nós vamos encontrando, que desde o início do mês que estão constipadas e não fizeram nada. Ficaram em casa, tomaram um Ben-U-Ron, depois foram trabalhar outra vez e não foram estudadas, não fizeram um teste e com este continuar de exposição ou de partilha de vírus, nós temos já quatro, cinco, seis pessoas associadas que são positivas e estes números vão continuar a aumentar. E, portanto, as pessoas têm que ter consciência dos seus sintomas, não minimizar nenhum deles e ao mesmo tempo também evitar esta exposição a pessoas que não são o seu agregado familiar.

É possível saber quantas pessoas ficam por rastrear? Qual é a percentagem de casos que não é de todo identificado?

Isso creio que não é muito fácil identificar. Nós sabemos que os números da Direção Geral de Saúde não correspondem a 100% dos casos no país, porque há sempre algum atraso na notificação. Mas acreditamos que a grande maioria, a grande esmagadora maioria dos casos positivos são encontrados. Aquilo que às vezes é complicado é chegar até eles, no sentido de que o trabalho é tanto que nós demoramos dois, três, quatro, cinco dias, às vezes, até mais, em alguns locais, para fazer o inquérito epidemiológico. E portanto, muitos contactos que seriam de alto risco não vão ficar em isolamento, porque consideram que também são problemáticos, e eram, mas não tinham essa noção técnica, e depois acabam por desenvolver sintomas e já temos mais uma situação que temos que investigar. Tudo isso é que atrasa, é complicado e faz manter estes números em estado elevado.

Gustavo Totta Barros, já falou que espera um reforço da ajuda destas equipes de saúde pública com os alunos de enfermagem. Que impacto é que isso vai ter na capacidade de resposta e nesse esforço de identificação no rastreamento?

O impacto vai ser positivo, ou seja, quanto mais mãos nós tivermos, quantos mais ouvidos e mentes tivermos a estudar os casos positivos, mais rapidamente vamos conseguir encontrar os contactos e identificá-los. Agora, o problema vai ser quando é que eles vêm, o tempo que vai ser necessário para formá-los, e depois também temos a noção de que, no início pelo menos, a qualidade dos inquéritos epidemiológicos não vai ser perfeita. Mas estamos aqui num trade-off, num balanço entre mais rapidamente encontrar as pessoas ou fazer isto de forma perfeita. E neste momento é muito mais importante encontrá-los mais rapidamente e a certeza absoluta com o treino adequado, estes profissionais de saúde vão conseguir ajudar-nos e vão conseguir ter um impacto positivo nesta pandemia, desde que a população tenha muitos cuidados, se resguarde, se proteja e não se coloque em situações de risco.

Falava há pouco da necessidade eventual de uma espécie de recolher obrigatório. Acha que as pessoas aderem a este tipo de medidas que acabam por ser muito restritivas?

Exato. Este tipo de medidas tem o lado positivo do controle da pandemia, tem o lado negativo da restrição da liberdade das pessoas e da noção de que toda a gente está a ser obrigada a fazer alguma coisa que não quer. E nós temos que ter aqui também este balanço entre aquilo que é necessário e aquilo que era ideal. É preciso explicar muito bem às pessoas o que se pretende com isto. Por exemplo, agora é proibido estar mais de cinco pessoas juntas no meio da rua. E as pessoas põem-se logo a perguntar: "Pois, mas numa sala de aula podem estar 30 e dentro de um avião podem ir 300". E as pessoas não percebem as diferenças que há entre uma e outra e o aviso que isto é para a população. Nós precisamos de perceber que estando em casa com algumas pessoas ou estando numa escola com máscara, é muito diferente de estar na rua, num café ou num bar, em que estão cinco ou seis pessoas juntas de espaços diferentes. É preciso explicar estas medidas às pessoas, é preciso motivá-las para aderirem a esta situação, para que possam, ao compreender a necessidade da mesma, participar de livre, espontânea vontade e ajudar a que isto aconteça.

Mas isso tem sido uma falha na comunicação?

Tem sido, sim, senhora. Desde quase o início da pandemia, tem havido alguma falha na comunicação com a população e na explicação destas medidas. E isto é algo que era necessário alterar e era necessário que os assessores de imprensa da DGS e do Ministério da Saúde fizessem um esforço para ajudar ou tivessem um pouquinho mais de liberdade, pois agora também não sei quem é que impede quem, mas que houvesse aqui uma mudança de atitude na comunicação das medidas para podermos trabalhá-las de uma forma técnica com a população e não apenas de uma forma política, porque a discussão tem sido muito política à volta das medidas e muito pouco técnica, que é isso que se pretende nesta fase da pandemia.

E nesse sentido, até o Presidente da República vai começar hoje a ouvir uma série de representantes da saúde, técnicos, mas também políticos. Está, de facto, a haver um momento demasiado crispado, na sua opinião, para aquilo que deveria ser a prioridade, que era combater a pandemia e dar resposta também aos doentes não Covid. Perdeu-se aquela unidade inicial. É assim que avalia também o que está a acontecer?

Eu creio que no início todos apontávamos para o mesmo sentido, de facto. E agora, porque estamos a negociar um orçamento, porque há eleições presidenciais a caminho, porque cada partido começa agora a perceber que se tiver uma postura diferente, pode ter mais vantagens políticas no futuro. Nós estamos a ter uma discussão muito mais politizada, muito menos técnica e muito menos dirigida para aquilo que é o nosso objetivo, que é conter a pandemia. E essa discussão tem minado todo o esforço feito até agora pelas equipes técnicas e todo o sucesso que tivemos até o verão no controle desta pandemia. E, portanto, é necessário voltarmos a recentrar a discussão nas características técnicas para nós podermos ter melhorias na situação epidemiológica e termos depois vantagens para a nossa população.

A vacinação para a gripe, que foi estendida a mais pessoas, a mais grupos de risco, é um bom caminho para aguentar o inverno que aí vem?

Nós sabemos que a vacinação contra a gripe é eficaz na prevenção desta patologia. E, portanto, aquilo que nós queremos é que esta doença não venha complicar as contas da Covid-19 durante o inverno. E portanto, podemos alargar a vacinação da gripe A a todas as pessoas que são mais vulneráveis, pode ajudar a que essas pessoas tenham menos situações gripais e se de fato desenvolverem alguns sintomas, podemos agir de uma forma mais rápida, se for caso de Covid-19, e poder estudá-la de uma forma mais adequada. E, portanto, é uma vantagem sempre quando a vacinação é alargada e deveria, de facto, estar neste momento mais dinamizada. Eu sei que as vacinas agora estão na segunda fase de distribuição. A primeira fase correu muito bem. Esperemos que a população também adira a este momento, porque também temos tido nos últimos anos muitas pessoas que podiam ter sido vacinadas contra a gripe e preferiram não ser. E esperemos que agora adiram a esta medida e que assim possamos ter um inverno mais suave relativamente à gripe e que não complique tanto as contas para a Covid-19.

Até o momento, e como médico de saúde pública, que dados é que tem sobre a gripe? Ela já se instalou de alguma forma na população portuguesa ou temos com estas medidas de prevenção da Covid-19 estado mais protegidos?

Eu creio que a época gripal a sério ainda não começou. Temos tido alguns casos, mas nada sido muito extraordinário. E por isso a vacinação também vem na altura certa para ver se conseguimos minimizar este impacto. O exemplo que nós tivemos nos países do hemisfério sul é que com as medidas de restrição social, com o uso da máscara, praticamente não tiveram casos de gripe durante o inverno deles, o nosso verão. E isso é uma expectativa que também nos agrada e também nos estimula para ver se este ano, no nosso inverno, conseguimos com estas medidas todas ter também um impacto positivo no controle da gripe. Agora, isto vai depender, volto a dizer, da adesão das pessoas à vacinação, da adesão das pessoas a estas medidas de distanciamento e uso de máscara. E se tudo correr da melhor forma possível, acreditamos que isto vai ter um impacto muito positivo no controle da gripe e que nos vai deixar apenas com os casos de Covid-19 nas mãos.

Era aconselhável que pessoas que não fazem parte do grupo de risco e que não são abrangidas por este alargamento que falou, também fossem vacinadas contra a gripe?

Nós sabemos que a gripe também atinge as pessoas mais vulneráveis e as pessoas com mais comorbidade de uma forma mais grave. Se bem que, por vezes, em alguns jovens também tem efeitos nocivos grandes. Aquilo que é fundamental é que os nossos mais frágeis estejam vacinados. Claro que todas as pessoas que possam adquirir a vacina da gripe e tomá-la, desde que haja disponibilidade da mesma no mercado, é sempre uma vantagem poder tomar a vacina da gripe, sem dúvida nenhuma.

Gustavo Tatto Borges, estamos quase no final da nossa entrevista. Que espaço é que têm nesta altura os doentes não Covid nos cuidados de saúde primários?

Os cuidados de saúde primários, a situação não está muito fácil, porque nós temos os médicos de família ocupados com os doentes de Covid, com as pessoas suspeitas da mesma, em situação de avaliação das áreas dedicadas aos doentes respiratórios e a saúde pública totalmente assoberbada com a pesquisa de contactos e o isolamento dos mesmos. E portanto, o espaço é reduzido para os doentes não Covid. E aqui é necessário então que as pessoas também percebam que há outras formas de poder comunicar com o seu médico de família, através de e-mail ou outras coisas do gênero, e é preciso um esforço pelas equipas de saúde familiar para se reorganizarem e poderem ter, se calhar, equipas Covid e equipas não Covid, e umas tratarem de uma forma exclusiva os doentes desta nova pandemia e os outros tratarem os doentes crónicos e os acompanharem e medicarem sempre que for necessário. Mas estamos a falar nos cuidados de saúde primários. Os cuidados hospitalares neste momento ainda têm alguma margem de manobra para atender doentes não Covid, mas com a evolução da situação pandémica, isto não vai melhorar e até os hospitais vão perder espaço de manobra para poder atender doentes não Covid.

Muito bem, Gustavo Tatto Borges, vice-presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, nosso convidado hoje no direto ao assunto das manhãs 360. Gustavo Tatto Borges, muito obrigado pelos seus esclarecimentos.

De nada, obrigado. Bom dia.

Bom dia.

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