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Está no ar o Direto ao Assunto, hoje com o autarca de Lisboa, Carlos Moedas, numa entrevista conduzida pelo Miguel Vidare e pelo Bruno Vieira Amaral.

Bem-vindo, Carlos Moedas. Palpita em ritmo mais acelerado o coração de um presidente de câmara que vê a cidade que é autarca, pintada de gente, de cor, de multiculturalidade, de diversidade étnica, que transpira vida.

É verdade, é um dia muito especial. É um dia em que começo a sentir uma energia absolutamente extraordinária na cidade. Aliás, como alguém que tem 52 anos, acho que nunca assisti a esta energia positiva na nossa cidade, a esta esperança, a estes jovens na rua, em todo lado, a transmitirem esperança. E, sobretudo, em Portugal, uma sociedade envelhecida, termos Lisboa como a capital da juventude, em que esta juventude está aqui para olhar para o futuro, eu penso que o coração palpita, efetivamente ele palpita.

Ontem, o presidente da Fundação da Jornada Mundial da Juventude, Dom Όmer Aguiar, antecipava a possibilidade, e isto até em jeito de preocupação, que o número de peregrinos que vêm a Lisboa possa suplantar as previsões iniciais. Isto é uma preocupação para o presidente da Câmara de Lisboa?

É uma preocupação, eu diria, que é o normal da preocupação. Lisboa é uma cidade que está dimensionada para mais de um milhão de habitantes. Aliás, em Lisboa, todos os dias, temos mais de um milhão de pessoas. Portanto, o dimensionamento da cidade está feito para isso e tudo aquilo que foi a preparação que tivemos e que, de certa forma, dá um exemplo para o mundo, porque em quase todos os eventos neste país, os grandes eventos, só estavam as coisas prontas no dia anterior. Nós aqui estivemos à frente do marcador. Lisboa esteve à frente com o Parque Tejo, com o Parque Eduardo VII, com esta capacidade de estarmos prontos muito antes. Portanto, isso retira pressão. Foi uma preparação muito grande e agora as incertezas existem. Nós não sabemos se vão ser 800 mil ou 1 milhão e 200 mil, mas vão estar nessa ordem de grandeza. E nós estivemos dois anos a preparar-nos exatamente para isso. Portanto, penso que neste momento há serenidade, há tranquilidade, mas obviamente há a preocupação de todos os dias. Como eu costumo dizer, durmo todos os dias como um bebê, acordo de hora a hora e choro.

E se os números de peregrinos forem superiores ao previsto, há o risco de os serviços não conseguirem dar resposta?

Eu penso que não. Aquilo que eu senti na Câmara Municipal é que nós temos mais ou menos 4 mil pessoas envolvidas nesta operação, envolvidas no dia a dia da operação, que vão estar a trabalhar 24 horas por dia, seja na limpeza urbana, seja a Polícia Municipal, seja os nossos bombeiros. E essas pessoas estão dispostas a fazer esse sacrifício e as outras que estão em casa a trabalhar de forma remota, também estão dispostas, se for necessário. Portanto, há aqui uma força enorme, mas sobretudo há um orgulho enorme da Câmara Municipal a nível dos seus trabalhadores e trabalhadoras, porque conseguir aquilo que conseguimos neste espaço de tempo, dá um ânimo enorme àqueles que são os funcionários públicos, que muitas vezes são atacados, e mostrar que temos capacidade. E Lisboa mostrou que fez, que conseguiu, que fez aquilo que muitos não acreditavam que fosse possível. E hoje, quando olho para aqui, seja no Parque Eduardo VII, seja no Parque Tejo, para além da palpitação, há a emoção de ter conseguido, do zero, fazer toda esta operação.

Preocupam-no, de alguma forma, as greves e os protestos de diversos profissionais, de diversos setores, protestos agendados para esta semana?

Eu penso que é normal que numa altura como esta, um evento desta dimensão, e sobretudo é a democracia, foi para isso que lutámos, para que as pessoas possam protestar, para que as pessoas possam dizer aquilo que pensam. Aquilo que nós fizemos a nível da Câmara Municipal foi trabalhar desde logo, desde há muitos meses, com os nossos trabalhadores nas várias áreas. Por exemplo, na higiene urbana, nós conseguimos um acordo muito antes dos outros com dois dos maiores sindicatos e depois com um terceiro sindicato da higiene urbana para que isso não acontecesse. Era uma preocupação minha grande, a higiene urbana, e neste momento nós não só contratámos mais 200 pessoas, como temos mais 300 ainda em cima dessas, que são temporárias. Ao todo, quase 2 mil pessoas em Lisboa na limpeza urbana. Mas tratámos e tivemos esse diálogo social. Obviamente que esse diálogo social é mais difícil em algumas áreas, mas nas áreas que tocam à Câmara Municipal, eu acho que fizemos um grande trabalho de diálogo social, dizer às pessoas que estávamos aqui, que era um momento tão importante para a cidade e que estamos dispostos a ajudar e que estamos por bem. Eu acho que é esse diálogo social que muitas vezes não acontece em Portugal, e penso que a Câmara Municipal deu o exemplo. E portanto, ouvimos os nossos trabalhadores, trabalhámos com eles para que este momento seja único na vida deles e nas nossas vidas.

E compreende que se escolha esta semana, precisamente, com um evento destas dimensões, para fazer protestos?

Eu penso que é a democracia. A democracia é cada um fazer essas escolhas. Obviamente que nós, aqueles que estamos nestas funções, gostaríamos que isso não acontecesse nesta semana. É natural que isso aconteça, é humano, mas temos que respeitar as ideias dos outros, temos que respeitar a democracia. Essa tem que ser sempre a base. E essa será sempre a minha base, respeitar as ideias diferentes. Agora, tentar trabalhar com as pessoas para que tal não aconteça nesta semana, porque é uma semana crucial, sobretudo para a imagem de Portugal, a imagem de um país preparado, a imagem do país que acolhe. Eu encontrei-me hoje já com muitos estrangeiros e quando as pessoas me dizem: "Sentimo-nos bem, as pessoas estão a acolher-nos bem" e ficar com essa impressão de Lisboa, e a primeira impressão é a que conta na vida muitas vezes, eu penso que isso terá um efeito grande e de longo prazo Para a nossa cidade, que é este sentimento, que é muito lisboeta, do acolhimento e das pessoas sentirem que fazem parte já da cidade.

E tem sentido esse ânimo, esse entusiasmo por parte dos trabalhadores da Câmara também?

Sem dúvida. Eu estou aqui desde as 08h00, sensivelmente antes das 08h00, e estive com os trabalhadores. Por exemplo, estivemos a pôr à volta das árvores, estive a ajudar umas trabalhadoras da Câmara a pôr uns sinais a dizer: "Protejam estas árvores", ou seja, cuidar destas árvores, que são muito antigas. Estar aqui e o entusiasmo delas é um entusiasmo de nós participamos. E essa parte em que todos sentem o papel deles nesta missão, que é dar uma boa imagem de Lisboa, eu penso que isto terá um efeito muito bom e de longo prazo nos trabalhadores e trabalhadoras da Câmara, porque todos se sentiram úteis, todos sentiram que tinham o seu lugar, que fizeram um bocadinho e que aquele bocadinho em conjunto fez isto. E isto é uma imagem. Eu vi as imagens de Madrid, de Cracóvia, e não há imagens como estas em que juntamos o rio, a terra, o verde, a ponte. Estas imagens são únicas e eu penso que, para além de tudo, esta Jornada de Lisboa será diferente das outras e que Lisboa, depois das Jornadas, também será diferente.

O que espera que fique desta Jornada Mundial da Juventude? Que legado vai deixar esta Jornada Mundial da Juventude para a capital portuguesa?

Eu penso que, sobretudo, esta esperança que hoje falta à juventude. Da juventude saber que pode resolver os problemas, que pode desenhar esse futuro, que pode resolver esse futuro. E hoje vivemos num momento em política que muitas vezes criamos o pânico. Seja nas mudanças climáticas, em que a juventude sente que está em pânico, o que vai acontecer, e aqui dar lugar à juventude e dizer: "Não, nós vamos pegar isto com mãos e braços e vamos lutar para que seja diferente", mas sem fricção social, sem uns contra os outros, sem a esquerda contra a direita. Mas estes são os grandes desafios que nós temos e que nós vamos resolver, porque a juventude é quem vai resolver. Não é já a nossa geração. Nós só temos que criar espaço para que essa juventude resolva sem fricção social. O meu maior medo como político hoje é que os grandes problemas estão a criar fricções sociais que não ajudam à solução do problema e é essa solução do problema que precisa tudo menos dessa fricção social.

Mas este evento, até pela natureza religiosa, também tem provocado alguma fricção social, nomeadamente nas críticas aos gastos públicos, ao investimento que foi feito nos últimos meses para erguer este evento. Compreende as críticas aos gastos com a Jornada Mundial da Juventude?

Eu, como presidente da Câmara, olho e digo: investi 5,2 milhões nos Bombeiros de Lisboa. Há cinco anos que não se investia tanto nos bombeiros. Isso ficará para sempre. Investi cinco ou seis milhões na Polícia Municipal, ficará para sempre. Mas sobretudo investi a fazer cidade. Eu acho que para alguém que vá ver o que é o Parque Tejo e alguém que viu quando eu cheguei em outubro de 2021 e ver que fizemos um pedaço de cidade, hoje uma cidade verde. A cidade da Expo, há 25 anos, era uma cidade estrutural, imobiliária, e hoje fizemos mais um pedaço de cidade. E tudo isso não é gasto, tudo isso é investimento. E ele foi possível porque este evento aconteceu. Seria muito difícil dinamizar em dois anos e conseguir fazer o que fizemos se não tivéssemos esse evento. Essa é a realidade.

Os cidadãos e os lisboetas em particular podem perguntar-se por que esse investimento só por ocasião de um evento como este.

Porque são estes eventos que criam essa dinâmica e que criam o sentido de urgência e as instituições mexem-se com esse sentido de urgência. Se nós não tivéssemos o sentido de urgência, ainda estávamos mais 10 anos para fazer aquele parque verde. Porque a vida é assim, porque aqui fomos obrigados. Fomos contra. Eu cheguei no dia 19 de outubro, ainda me lembro, fui visitar o Parque Tejo e olhei para aquilo. Era abandono, não havia nada. E pensar: como é que eu vou conseguir em dois anos fazer? E essa pressão tornou-se em obra. E é isso que estes grandes eventos fazem e que fizeram sempre ao longo da nossa história, porque se há coisa que os portugueses não querem é ficar mal na fotografia. Nós quisemos e queremos, e sempre quereremos, como portugueses e como lisboetas, neste caso, ficar bem na fotografia. Ficar bem na fotografia foi fazer. Agora, repare, nós ao fazermos cidade nestes dois anos, fizemos algo que vai mudar para sempre e que com a dinâmica, muitas vezes social, de fricção, não se teria conseguido. Portanto, tenho um grande orgulho nisso e acho que é um grande orgulho, que deve ser um orgulho para todos. E tenho a certeza que no dia 6 vamos estar muito felizes com aquilo que fizemos.

O senhor foi, de resto, protagonista por estes dias do episódio que envolveu o artista Bordalo II, que em jeito de crítica, precisamente aos gastos da Jornada Mundial da Juventude, estendeu uma passadeira com notas de 500 € desenhadas junto ao palco do Parque Tejo. O senhor mostrou-se mais tarde nas redes sociais a colocar um tapete com a mensagem "bem-vindos" no mesmo local. Um gesto que o Carlos Moedas descreveu como um ato de humor. Por que sentiu essa necessidade?

Eu penso que é responder, de certa forma, àquilo que é a liberdade artística, mas que os políticos também devem ter essa liberdade. E, portanto, eu exerci também a minha liberdade artística.

Desculpe interrompê-lo. Ali foi mais do que liberdade artística, foi uma crítica política e uma crítica aos gastos públicos com a Jornada Mundial da Juventude.

Através da arte, não é? Através de uma expressão artística, ou seja, não é liberdade nesse sentido. Há ali um tapete que é feito. Eu penso que a Jornada Mundial da Juventude é para todos e, portanto, Bordalo II foi o primeiro a intervir. E o Papa, quando estive com ele, queria exatamente que a Jornada fosse para todos aqueles, aqueles que acreditam, aqueles que não acreditam, aqueles que são muçulmanos, aqueles que são judeus, aqueles que são católicos, e essa vontade do Papa é para todos. Por isso eu reagi com bom humor e reagi de forma natural. Mas achei que também em política é preciso estar à vontade, estar à vontade conosco, com a nossa vida, com a nossa maneira de ser. E eu sou assim. Outro político não teria respondido, eventualmente, da mesma maneira, mas eu achei que talvez, e todos me conhecem, eu sou transparente E essa transparência revela-se na minha vida de várias maneiras. Foi talvez inesperado para o artista que um político reagisse também daquela maneira.

Falou com ele?

Ainda não falei com ele, mas tenho imenso gosto em falar com ele. Aliás, fizemos muitas coisas e a Câmara Municipal já fez muitas coisas com o artista.

O primeiro-ministro afirmou que não podemos pensar apenas no custo, mas no benefício. Concorda com estas declarações do primeiro-ministro? E perguntava-lhe, voltando um pouco àquela questão inicial, qual é o grande benefício que fica para a cidade de Lisboa com este evento?

Eu acho que é um benefício intangível. Há um benefício tangível, que eu descrevo sempre de maneira simples. As pessoas vão estar sete dias em Lisboa. Se fizermos uma conta simples, que as pessoas gastem €20, €30 por dia, vezes um milhão de pessoas, gastariam €300 durante uma semana, são €300 milhões. Este 300 podia ser 400 ou 200. Estamos a falar em centenas de milhões. Quantos eventos em Portugal trouxeram centenas de milhões? Mas isso é aquilo que se conta, aquilo que é tangível, mas há o que é intangível. Nós vamos ter um momento em que 500 milhões de lares vão estar a receber diretamente, em todo o mundo, a imagem do Parque Eduardo VII, do Marquês de Pombal, do nosso rio Tejo. Quanto é que isso custaria à cidade? Seria possível fazer uma campanha mundial para mostrar a nossa cidade dessa maneira? Eu penso que isso não tem preço.

Vai atrair mais turistas para Lisboa?

Eu penso que o turismo é uma das grandes bases da economia de Lisboa. 20% da nossa economia depende do turismo. Aquelas pessoas que têm emprego e esse emprego alimenta as suas famílias, muitas dependem do turismo. E gerir uma cidade é gerir essa diversidade de setores, mas o turismo é essencial para a cidade. Temos que criar novas centralidades para que as pessoas não estejam sempre nos mesmos sítios. Por exemplo, o Parque Tejo será uma nova centralidade. Mas há uma coisa que é clara, o turismo é importantíssimo para a cidade. E o turismo nesta cidade são mais ou menos 38 mil pessoas por dia a mais, daquilo que é uma população de 546 mil habitantes. Está dentro do razoável. Obviamente que nós o que gostaríamos era ter turismo ainda de mais qualidade. Eu já o afirmei e repito, acho que a taxa turística devia aumentar. Eu que sou a favor de baixar os impostos aos portugueses, mas a taxa turística não são os portugueses. E essa taxa turística mais alta poderia significar mais limpeza para a cidade e significar que as pessoas em Lisboa sentiriam que o turismo lhes está a dar alguma coisa.

Um aumento é de certeza?

Obviamente que tenho que falar com todos aqueles que aqui à volta da mesa são importantes e, portanto, acho que não devo revelar, mas acho que devo revelar que aposto no aumento da taxa turística, mas tenho que falar com todos aqueles que são parte deste desenho do turismo em Lisboa, desde os hoteleiros aos comerciantes, mas sobretudo os hotéis, que são aqueles que recebem a taxa turística, e tenho que consensualizar. Já falei com o Bernardo Trindade e com todos aqueles que são os representantes dos hoteleiros, mas penso que isso seria essencial para que os lisboetas dissessem: "Ok, há turismo, mas o turismo está a trazer mais limpeza, mais segurança" e tudo isso é importante. Com um aumento dessa taxa turística podíamos obter esse resultado.

E que feedback teve dessas conversas iniciais?

Até agora têm sido boas conversas. Tudo isto demora o seu tempo, mas eu penso que quero muito lutar por isso e, portanto, como já sabem, acabo a Jornada Mundial da Juventude e depois vou me dedicar a vários outros projetos que são muito importantes para a cidade e um deles é compatibilizar o nível de turismo com aquele que é o bem-estar dos lisboetas.

Houve também, e está previsto para estes próximos dias, um reforço nos transportes públicos em Lisboa. O que tem a dizer aos lisboetas e pessoas que trabalham em Lisboa e todos os dias sofrem com a falta de transportes públicos eficientes, rápidos?

Olhe, nós investimos na Carris este ano, só para terem uma ideia, compramos 88 novos autocarros. Vão ser mais 300 autocarros até 2026, a investir em mais carreiras, em maior frequência. Por quê? Porque sempre disse que queria que os transportes públicos fossem gratuitos para os mais novos e para os mais velhos. Aliás, gostaria aqui de deixar esse número, são 90 mil pessoas hoje em Lisboa que já não pagam transportes públicos, só para termos aqui uma ideia. E essas 90 mil foi o dobro da procura do que tínhamos antes. Portanto, conseguimos ter mais pessoas com esse cartão, que lhes dá acesso aos transportes públicos, mas sobretudo é o maior investimento em mais autocarros e, sobretudo, autocarros que sejam elétricos ou amigos do ambiente. E estamos a fazer esse investimento. Durante estes dias vamos ter um aumento de 20% a 30% daquilo que é o normal das carreiras da Carris e, portanto, estamos a seguir esse caminho. Não se faz de um dia para o outro, mas faz-se com certeza neste mandato.

Mas acabando o evento, voltamos à vida normal, por assim dizer.

Não, porque compramos novos autocarros, temos 88 novos autocarros, portanto, há mais autocarros, estamos a incrementar nas carreiras, estamos a trabalhar nesse sentido. E tudo isto faz parte da vida da cidade todos os dias. Estamos a contratar mais motoristas, aliás, contratamos já vários motoristas da Carris. Estamos a trabalhar nesse sentido para ter mais autocarros e maior frequência. Eu penso que o investimento aí é crucial, porque se nós queremos que as pessoas andem de transportes públicos, nós temos que ter melhores transportes públicos. Fizemos muitas carreiras de bairro que não existiam. As carreiras de bairro da Estrela, Campo de Ourique, outras do Areeiro, em que as pessoas no próprio bairro, com os autocarros mais pequenos, podem dar a volta ao seu bairro e permitir ter autocarros que andam no próprio bairro, porque muitas vezes as pessoas só podiam ir de um bairro para outro bairro. Agora podem andar no próprio bairro. Portanto, temos feito e estamos a tomar muitas medidas para que isso seja cada vez melhor em Lisboa e para que os transportes sejam melhores.

Ainda no âmbito dos gastos com a Jornada Mundial da Juventude, foi notícia este fim de semana, notícia avançada pelo semanário Expresso, de que boa parte dos contratos que foram celebrados na organização deste evento, foram celebrados com recurso a ajustes diretos. Foi o caso também da Câmara Municipal de Lisboa?

Vamos ser claros, eu gosto de falar claro. Teria sido impossível fazer de outra maneira. Agora, ajuste direto. O que foi ajuste direto? Ajuste direto não é dizer que vamos dar um contrato àquela pessoa. Aqui há uma consulta prévia de variadíssimas empresas para ter o melhor preço. A ideia de ajuste direto, na cabeça, muitas vezes das pessoas que nos estão a ouvir é dizer-

Ouvi o que é falar sem falta de transparência.

Não, aqui há uma transparência total. Primeiro, a Câmara de Lisboa é a primeira câmara no país que tem um departamento de transparência e anticorrupção. Somos os primeiros. No segundo dia que cheguei à Câmara, quando começámos este projeto, telefonei ao presidente do Tribunal de Contas a dizer: "Venham escrutinar. Estamos aqui, escrutinem tudo. Eu quero que tudo seja passado a pente fino". A questão aqui do ajuste direto era a capacidade de conseguir, entre outubro de 2021, fazer, porque senão nós não estávamos aqui, não havia altar palco.

Muitos ajustes diretos foram celebrados nos últimos meses, foi também noticiado pelo jornal Expresso. Dizia há pouco que isto foi planeado com tempo. Por que um tão grande número de contratos de ajustes diretos em tão pouco tempo?

Isso é naturalíssimo e não podemos comparar ajustes diretos de coisas pequenas com algo grande. Obviamente que há ajustes diretos e que estão totalmente dentro da lei de valores mais pequenos e que têm que acontecer. Ouça, ainda nestes dias, há falta de determinados materiais, é preciso ter um ajuste direto. Essa flexibilidade. Vamos ver, nós não podemos ter uma camisa de forças em que não se consegue decidir. E muitas vezes é necessário fazer para que aconteça. E isso foi a flexibilidade que foi dada, mas isso foi tudo feito dentro das regras. E essas regras não só foram respeitadas, como eu fui o primeiro a dizer que tinha que ter um limite de gasto, que eram os tais 35 milhões, que telefonei ao Tribunal de Contas e que o Tribunal de Contas vai escrutinar tudo. A partir daí, a transparência, quer dizer, quem me conhece sabe que, por definição, é uma das minhas prioridades, essa transparência é total. É verdade que o número de ajuste direto parece que há uma questão quase linguística, que se está a dar a uma determinada pessoa. Isso nunca aconteceu na Câmara de Lisboa, sempre consultados, encontrar o melhor preço, aquilo que é melhor para a cidade. E foi isso que fizemos. E só por isso, só assim aconteceu. Teria sido impossível de outra maneira. E temos que ter essa clareza, que teria sido impossível de outra maneira.

O Carlos Moedas é um homem de fé?

Eu sou um homem de fé no sentido que tenho valores, que eu costumo dizer que são valores profundamente cristãos e judaico-cristãos, que são os valores da nossa Europa. Não sou um homem de igreja, nem sou um homem crente nesse sentido do catolicismo, mas os meus valores, aqueles que são os valores da minha vida, aqueles que sempre segui, são os valores exatamente cristãos, que são os valores que nos unem na Europa. É essa a base da nossa Europa, mas sempre com um valor principal, que é a abertura às outras religiões e, sobretudo, o valor principal, que é não mudar ninguém, aceitar os outros exatamente como eles são. E ser lisboeta é ser livre, é ser aquilo que queremos sem que ninguém nos mude. E cada um com a nossa maneira de interpretar a sua fé, a sua espiritualidade, temos essa capacidade de lutar por esses valores. É isso que eu faço todos os dias, mas sobretudo aqui, a minha missão é neutral. O presidente da Câmara de um Estado laico está aqui para ajudar as religiões, porque um Estado laico não é contra as religiões, é para ajudar as religiões e também aqueles que não têm religião, mas num momento tão importante em que acho que todos temos fé, mas com muita preparação e com muito trabalho.

O que representa para si o Papa Francisco?

Um homem único, pela sua simplicidade. Eu tive o gosto de ir a Roma, de estar com ele e sentir que é um Papa que se põe ao lado das pessoas de igual para igual. O seu aperto de mão, o seu abraço, o seu toque, são toques de humildade, mas sobretudo de uma inteligência única. Ele sabia tudo o que se estava a passar em Portugal. Tocou-me muito ver o interesse que ele tem pelas outras religiões, por aqueles que não acreditam, aqueles que acreditam e sobretudo dizer-me que gostava de estar em Portugal num bairro mais desfavorecido e por isso a visita à Serafina será uma visita muito importante para ele, porque ele procurou muito saber qual eram as minhas medidas, o que eu estava a fazer em relação a tudo o que eram as pessoas em dificuldade, as pessoas sem abrigo, tudo isso para ele era importante e Lisboa está a fazer muito por isso e ele queria ver exatamente obra nesse sentido.

Deixe-me só, para concluirmos, e já que falou no bairro da Serafina, um dos bairros desfavorecidos de Lisboa, como é que em pleno século XXI ainda existe um bairro com condições tão precárias e vimos em diversas reportagens os habitantes a queixarem-se dessas condições?

É verdade. Um trabalho que fizemos na Câmara sobre a habitação, que é o nosso maior investimento nos próximos anos, são 800 milhões de euros, constatámos que há 2 mil pessoas em Lisboa que vivem em condições que não são dignas. Isso é a minha maior preocupação, como é que isso é possível no nosso dia, século, na nossa cidade. E não é só o bairro da Serafina, são muitos outros bairros em que as pessoas vivem sem condições. Nós tínhamos 2 mil casas devolutas, que já conseguimos recuperar 400, que estamos a dar às pessoas. Já entreguei mais de 1200 casas desde que sou presidente da Câmara e é nessa luta que estamos. Mas a pergunta é válida e é uma pergunta que todos os dias eu me faço: como é possível que ainda seja assim e o que eu posso fazer todos os dias para que isso mude?

Doutor Carlos Moedas falava há pouco em aceitação. Foi um gosto aceitá-lo aqui nos estúdios da Rádio Observador neste primeiro dia de emissão no Parque Eduardo VII. Até breve.