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Voltamos a ir direto ao assunto na Tarde Política, agora sobre a escalada do clima de tensão no Médio Oriente. E também vamos olhar para outro tema: os Estados Unidos e a escolha de Kamala Harris para a vice-presidência, caso consiga derrotar o candidato republicano, Donald Trump. É nosso convidado o politólogo Jaime Nogueira Pinto, a quem agradeço a disponibilidade. Bem-vindo e obrigado pelo tempo que esteve a aguardar. Vamos começar precisamente pelo conflito no Médio Oriente. O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, foi hoje notícia, está em contato com aliados do Irã para tentar limitar a resposta das autoridades iranianas contra Israel. Temos ouvido que ninguém quer uma nova guerra, mas a verdade é que o regime iraniano promete vingança pela morte de líderes do Hamas. Pergunto-lhe se os Estados Unidos têm essa capacidade, se podem os Estados Unidos serem bem-sucedidos nesta ação preventiva para tentar limitar essa resposta das autoridades iranianas.
Tenho grandes dúvidas neste momento, mas o que eu penso é que apesar de tudo, quer o Irã, quer Israel, que têm grande capacidade de destruição, mas também sabem que se se envolverem numa guerra de destruição mútua, que o risco e que o preço é muito alto. Eu acho que são capazes de fazer o que já têm feito no passado, que é uma retaliação normalmente mais pesada que o costume, mas relativamente simbólica, e o outro responde e baixa o tempo. Não creio que neste momento os Estados Unidos tenham essa capacidade. Mas sobretudo, não têm neste momento os Estados Unidos, em relação ao Médio Oriente, hoje em dia não têm a mesma capacidade que já tiveram de relacionamento com os sauditas, com o Egito, etc. Neste caso, não creio que tenham. Aliás, tem-se visto que não têm, porque toda a pressão de Biden sobre Israel para, de certo modo, minorar a política ali na Faixa de Gaza também não teve grande resultado. Portanto, não creio que tenham essa capacidade, mas acho que apesar de tudo, os dirigentes têm uma certa racionalidade e portanto acho que não vão envolver-se num roubo front que seria altamente custoso para ambos.
E um cessar-fogo imediato em Gaza com libertação de reféns nas mãos do Hamas pode ser também aqui uma maneira de evitar um conflito regional agravado, Jaime Nogueira Pinto? Pergunto-lhe isto também porque Joe Biden falou hoje com o homólogo egípcio sobre essa trégua e parece que as negociações estão na fase final.
Isso seria, de facto, excelente, porque a primeira forma, estes conflitos normalmente não têm muitas soluções e vão se prolongar no tempo, mas a forma talvez de minorar o preço para as pessoas que estão mais diretamente envolvidas é exatamente uma solução dessas. Portanto, se conseguir, será excelente. Independentemente de quem depois tirará proveitos políticos com isso, será bom para uma paragem, de facto, do conflito. Isso seria ótimo. Não estou muito certo que vá acontecer, mas seria ótimo.
Entretanto, aqueça a campanha para as presidenciais de novembro nos Estados Unidos. Kamala Harris fez uma boa escolha ao optar por Tim Walz para vice-presidente?
Uma boa escolha em que sentido?
No sentido de ter mais hipóteses de derrotar Donald Trump em novembro.
Não sei se tem, porque o Tim Walz que está a ser apresentado como um moderado. Olhando pra senhor, tem um aspecto de uma pessoa moderada, tem cara de moderado, mas não me parece todo o currículo político dele como governador de Minnesota aponta para nada que seja moderado. Normalmente procura-se equilibrar com um vice, que aliás, foi o que aconteceu com a Kamala Harris em relação ao Biden, foi exatamente na época, uma vez que ele era um homem mais do centro do Partido Democrático, ir buscá-la para ser uma representante de uma linha mais à esquerda, mais radical. Desta vez, ela tinha, de facto, outras escolhas. Tinha o antigo astronauta, o senador Kelly do Arizona, que era um homem que tinha até um perfil nesse aspecto bastante interessante do ponto de vista até conservador, tinha sido um aviador combatente na Guerra do Golfo, tinha sido um astronauta, era um homem com posições bastante moderadas e até com esse passado, que cai bem nos conservadores e nos independentes. Podia também ter ido buscar o Josh Shapiro, mas esse levantava alguns problemas em relação à fação, mas podia talvez equilibrá-la em relação exatamente a uma fação mais conservadora no Partido Democrata por causa de ser judeu e ser um grande apoiante, neste momento, de Israel. Portanto, ela resolveu ir buscar o Tim Walz, que era talvez o menos conhecido dos três e talvez, do ponto de vista político, sem dúvida, o mais radical. É um homem que tem as mesmas posições da Kamala Harris em matéria de aborto Tem sido um grande pioneiro nas legislações pró LGBT e inclusive para operações transgênicas de menores sem autorização dos pais. Minnesota tornou-se uma área favorita para isso, um estado onde vão de fora para fazer esse tipo de operações. Foi o primeiro estado quando o Supremo Tribunal de Justiça suprimiu o Roe versus Wade, passando a ser os estados que decidem cada estado que decide em matéria de aborto, o que é que é legal e o que é que deixa de ser legal. Ele foi o primeiro a acolher com uma legislação bastante pró-abortista de tudo quem quisesse vir de outros estados abortar em Minnesota. Naquelas desordens que houve a seguir à questão do assassinato do George Floyd, ele teve violentíssimas manifestações e demorou imenso tempo a mandar a Guarda Nacional, que foi atribuída a ter alguma simpatia pela causa dos insurretos. E, portanto, não tem de maneira nenhuma um perfil como já tenho visto a tentarem induzir-se isso aqui, sobretudo até mais na nossa comunicação social do que na americana. Não tem de modo nenhum um perfil de moderado, e muito menos de conservador, como até já vi dizerem disso. Por ser branco e de meia-idade, isso indica que seja conservador. Isso é um argumento quase racista.
Sinto que ontem as televisões
Não me parece que equilibre. Atenção, não me parece que ele seja, nesse sentido, um equilibrador, como por exemplo, o Kennedy em 60 foi buscar o Johnson, que era do Texas e que equilibrava um bocado as coisas. Muita gente tinha aconselhado o Trump a ir buscar a Nikki Haley, que pertencia mais àquela linha. O Trump também foi buscar um homem mais nacionalista e populista, o Vance, embora bastante articulado intelectualmente. Parece-me que os dois candidatos escolheram ou estão mais interessados em fixar o seu propriamente dito eleitorado do que
E de procurar o eleitorado ao outro.
Ir em buscar ao outro ou àquele meio que está bastante. Eu acho que nos Estados Unidos, neste momento, a grande preocupação é conservar a turma, aqueles os incondicionais e não sair muito daí, porque eu não vejo nesse aspeto nenhuma das escolhas, nem de um lado, nem de outra, as escolhas foram no sentido de ir caçar no outro terreno. E ao mesmo tempo também temos visto que aquele terceiro candidato, o Robert Kennedy, que aliás tinha posições até talvez bastante interessantes, vai se esvaziando. Neste momento está quase já nos 5% de intenções.
A campanha de Trump classificou, de resto, o Walsh como um esquerdista radical, de resto a mesma linha de discurso que tem sido seguida quando a candidatura republicana se refere à Kamala. Esta estratégia, em sua opinião, colhe junto o eleitorado mais indeciso ou vai ser preciso afinar a estratégia?
Vamos lá ver. A gente hoje em dia, para o que eram os Estados Unidos, de facto, temos de um lado e de outro uma radicalização. Isso sem dúvida que temos. Nós temos do lado dos republicanos, Trump é um intuitivo, é um político que vai um bocado ao encontro e vai auscultando a sua massa de apoio e vai falando para ela. Mas o Vance é um homem bastante estruturado intelectualmente, que está naquelas posições já do pós-liberalismo, etc. É um protecionista, é um nacionalista. São posições que a gente pode dizer, é um católico conservador. Portanto, são posições que a gente pode dizer, de certo modo, por um lado, novas e, por outro lado, de certo modo, radicais no panorama do Partido Republicano nos Estados Unidos. Por outro lado, também vamos ver esta equipe, se a gente for comparar com a equipe Obama, com a equipe Clinton, etc. Esta equipe também é uma equipe bastante radical, porque aquelas questões que dantes eram muito importantes, mas que deixaram praticamente desde o fim da Guerra Fria de contar muito, que é as questões de maior ou menor liberalismo econômico para definir a direita ou esquerda. Hoje o que define muito são exatamente estas questões da família, estas questões das maiores ou menor liberdade para os problemas ligados exatamente a costumes, a valores, etc. Portanto, nesse aspeto, eu acho que os dois lados estão bastante radicalizados.
Umas eleições polarizadas, eleições no próximo mês de novembro, aqui analisadas pelo olhar de Jaime Nogueira Pinto, politólogo. Analisamos também o clima de tensão no Médio Oriente. Jaime Nogueira Pinto, muito obrigado pela sua disponibilidade e pela sua presença neste "Direto ao Assunto" da Rádio Observador.
Obrigado. Volto já.