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Num clima de impasse no Orçamento do Estado, o PS vive também mudanças internas. Acaba de eleger os presidentes das 19 federações do partido. À frente da Federação de Lisboa, fica Ricardo Leão, que é também presidente da Câmara de Loures. Muito bem-vindo a este "Direto ao Assunto".
Obrigado.
Boa tarde, Ricardo Leão. Parabéns pela sua eleição. O senhor é eleito exatamente a um ano das próximas eleições autárquicas e, portanto, imagino que seja a grande tarefa que tem em mãos neste momento, preparar essas mesmas eleições autárquicas. E, obviamente, Lisboa parece-me que será um desafio para o Partido Socialista e aquilo que eu lhe começava por perguntar é se Duarte Cordeiro, o seu antecessor.
Mandatário da minha candidatura.
Exato, agora já antecessor, se é uma carta absolutamente fora do baralho para essa corrida autárquica.
Antes de mais, muito obrigado pelo convite, é com muito gosto. Sim, primeira pergunta, se este é o principal desafio que a Federação e todas as outras têm, não havendo eleições intercalares.
Intercalares, que não.
É o principal objetivo, obviamente, que a FAUL tem. Nós temos 11 municípios sob a jurisdição da Federação da Área Urbana de Lisboa. Nós temos sete, neste momento, que são geridos pelo PS, e há quatro que queremos, obviamente, ganhar. Lisboa é claramente aquele onde o desafio será maior. Eu costumo dizer que nesta conjuntura, destes 11 municípios, há desafios e há oportunidades. Este é claramente um desafio que nós temos e falando do nome em concreto do Duarte Cordeiro, que é meu particular amigo e é mandatário ainda.
Sim.
Foi, neste caso, da minha candidatura à FAUL. O que eu posso dizer é que a minha resposta ideal era que o Duarte Cordeiro era um candidato.
Era o seu candidato, se ele aceitasse.
Era o meu candidato. Portanto, isso depende só unicamente dele, propriamente dele. Eu até posso confessar, pessoalmente, já não tenho tido mais conversas nenhumas, porque está nas mãos e na cabeça essa decisão do próprio tomar, que há de ser tomada.
Mas que ainda está em período de reflexão, portanto, ele não recusou ser o candidato.
Sim, é uma conversa que nós tivemos os dois.
Sim.
Vamos aguardar o momento certo, obviamente, para dar tempo pra que nós possamos escolher, porque nós não temos só Lisboa, temos Sintra, que temos de ter também uma candidatura forte a Sintra.
Para suceder a Basílio Horta.
Cascais já está definida, que é o Marcos Perestrello. Depois temos Mafra e temos Oeiras, que um é um desafio, o outro é uma oportunidade, porque o próprio Isaltino, o próximo mandato é o último mandato dele.
Sim.
E por isso, Lisboa também, como sendo sede de distrito, capital de distrito, é algo que tem que ser conversado com o próprio Pedro Nuno Santos. Essa é a conversa que tivemos os dois e vamos os dois, obviamente, cumprir esse nosso compromisso. Porque isto acho que tem que haver recato. E é o que aconteceu agora no passado recente.
Mas aqui a nossa função é ver se acabamos com esse recato.
O problema é que depois começa a mandar nomes muito pra fora. Até foi aqui na Rádio Observador, que eu dei aquela que a margem sul tem muitos candidatos. Essa frase acho que ficou: "A margem sul tem muitos passos". Ficou pro António Mendonça Mendes, esta foi a conversa. Depois, quando não há recato, a coisa depois corre mal.
Mas pelo menos ficamos com a ideia de que a hipótese Duarte Cordeiro não está absolutamente fechada.
Pode assim ficar.
Sendo que há outros nomes também que têm circulado, Mariana Vieira da Silva, Alexandra Leitão, pra Câmara de Lisboa. São, no seu entender, boas candidatas para derrotar Carlos Moedas? Embora já tenha frisado aqui que o seu candidato seria Duarte Cordeiro.
Eu acho que aqui o que tem que haver é: nós temos, felizmente, bons protagonistas para apresentar a um conjunto de câmaras, particularmente aqui na Federação da Área Urbana de Lisboa. Lisboa e Sintra, obviamente, têm que ser nomes fortes, centro de primeiro, com os outros também, mas obviamente Lisboa e Sintra. E são nomes, obviamente, que estão todos acima da mesa, onde vamos estudá-los, porque a ideia é querer ganhar.
E além destes, há mais algum?
Há mais nomes.
Quais?
Neste momento, era fazer aqui o contrário do que eu fiz com o nome que anteriormente falei.
E o Ricardo Leão pretende continuar em Loures? Fez um mandato. Isso é inquestionável. Vai candidatar-se outra vez. Antes de passarmos à parte do Orçamento do Estado, também gostaríamos de ouvi-lo sobre isso, mas pra fecharmos aqui esta parte das federações, foram eleições pra 19 federações, não há uma única mulher. Há alguma explicação pra isto?
Puxa, nem eu tenho também. Eu confesso que só percebi depois de ver os nomes todos, é que percebi que há muita crítica sobre isso. Em concreto, não sei a razão.
Foi uma distração do Partido Socialista.
Não sei se foi uma distração. Eu vou lhe dizer, eu sou muito contrário às cotas. Vou lhe confessar, e até digo isto, e posso ser criticado, mas quem me conhece sabe que eu digo as coisas, penso pela minha cabeça. Eu acho que nós, homem e mulher, mas neste caso, a gente vai falar de mulheres nos dias de hoje. Nós somos um partido que temos cotas e cumprimos as cotas, nós aliás, fazemos listas a cumprir as cotas, todas, quer aquelas que estão estatutariamente Definidas no partido, quer quando temos eleições autárquicas e eleições legislativas, somos dos partidos que cumprimos quotas. Eu, na minha câmara, tenho metade dos meus vereadores mulheres, metade dos meus vereadores homens, no PS.
Mas se pudesse escolher, se calhar, não escolheria com esse critério.
Escolhi não por sendo obrigatório quotas.
Por ser, exactamente.
Escolhi pelo mérito que as pessoas têm.
E não haveria mulheres com mérito para liderar as federações do PS, algumas delas?
Não sei se chegaram à frente, não sei se tiveram essa disponibilidade de se chegar à frente. No caso da FAUL, pelo visto não foi, porque fui candidatura única. Mas houve espaço para quem quisesse candidatar, que se candidatasse, independentemente de ser homem, ser mulher. Não vejo isso como uma falha ou como uma distracção, porque o PS é daqueles partidos que cumpre as suas quotas. Estou a dar a minha opinião pessoal. Eu acho que nos dias de hoje, e nós, pelo menos eu que tenho 49 anos, estar a pensar que sou obrigado a colocar mulheres numa lista, não pelo mérito da mulher, mas pelo que é uma obrigatoriedade de quotas, é algo que me entristece.
Ricardo Leão, vamos mudar para o tema inevitável, até porque como o próprio Ricardo Leão há pouco disse, vamos ver se as eleições autárquicas são as próximas eleições ou se não temos uma crise política antes disso. As coisas já estiveram mais calmas. Neste momento, o impasse em torno da aprovação ou não do orçamento parece muito difícil de ultrapassar, sobretudo se estivermos a falar nas negociações entre o Partido Socialista e a AD que está no governo. Acha que Pedro Nuno Santos e o PS ganham com a posição de irredutibilidade que o líder do Partido Socialista demonstrou na passada sexta-feira?
Eu percebo a pergunta, mas eu não estou a perceber por que o radicalismo e a não flexibilidade está sempre do lado do PS. Eu vi, por exemplo, um radicalismo.
Porque exige a desistência em toda a linha das duas grandes bandeiras do governo.
Mas por quê? Eu vou lhe fazer a seguinte. Aquilo que eu vi foi um partido, que tem o mesmo número de deputados que outro partido, que apresentou um conjunto de propostas de forma credível. O pior que podia acontecer era o PS, na minha opinião, abster-se da discussão de um orçamento, abster-se de apresentar propostas.
Mas não acha que era possível discutir o orçamento sem mostrar uma irredutibilidade absoluta nas questões do IRS Jovem e do IRC? Não estou a dizer aceitar as propostas tal qual elas estão. A questão é que Pedro Nuno Santos, na sexta-feira, disse que nem daquela forma, nem de forma nenhuma. Não aceita essas duas propostas, sendo as duas bandeiras deste governo, daí a expressão irredutibilidade e a AD ou o governo estarem a falar em radicalismo.
É o que eu estava a lhe dizer.
Não são duas propostas quaisquer.
Houve um partido que apresentou de forma credível, estou a dar a minha opinião, duas propostas em concreto, uma delas de grande relevância, propostas essas que não aumentam a despesa pública, agarram na mesma despesa pública e fazem uma repartição de forma diferente. A habitação jovem é algo que é dos principais encargos que um jovem hoje tem, é na habitação. Portanto, o que o Pedro Nuno Santos fez foi uma proposta, na minha opinião, credível, e que vai ao encontro daquilo que é a perspectiva do Pedro Nuno e aquilo que é a sua convicção. O que eu acho, a minha opinião é: acho que houve demasiada discussão na praça pública, devia ter havido mais recato naquilo que foi a discussão de um orçamento com implicação, tendo em conta a conjuntura eleitoral que neste momento existe, devia ter havido mais recato dos dois lados.
E, portanto, acha que seria bom, não via mal se o encontro entre Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro tivesse sido um encontro discreto e não um encontro que toda a gente soube dia, hora e data.
Eu acho que esta negociação tinha que ter ocorrido de forma como está, com mais tempo, de forma mais recatada. Eu acho que a democracia ganhava com isso. É a minha opinião muito pessoal e muito sincera. Agora, o PS abandonar as suas convicções em prol de uma crise política, que ela foi anunciada pelo próprio presidente da República, porque o presidente da República é que se colocou numa posição, agora, que eu não sei como é que vai ser, porque o país podia ser governado por duodécimos. Não havia o problema dos aumentos do salário mínimo, não há problemas. O país podia continuar a cumprir com as suas metas. O senhor presidente da República é que impôs e definiu o campo da atuação, que se for chumbado, convoca eleições. Nada o obrigava a isso. Isso é que originou, na minha opinião, mais pressão, que na minha opinião era desnecessária. O senhor presidente da República tem direito à sua opinião, mas se me permitem também dar a minha, podia ter dado-a mais tarde. Não ter contribuído para haver mais aqui uma sensação de que está.
Uma linha vermelha.
Pronto. Eu acho que isso tinha sido o ideal e o melhor.
E temos agora aqui uma nova declaração do primeiro-ministro, que eu gostaria também de citar aqui. Diz Luís Montenegro, esta tarde em Pombal, que o período do Orçamento do Estado não é o momento de discutir política fiscal. Que interpretação é que faz destas palavras agora de Luís Montenegro?
Eu não consigo perceber. Um Orçamento do Estado, como qualquer orçamento, é feito de receita, é feito de despesa. A receita é, do ponto de vista fiscal, é onde os governos, onde o orçamento tem que estar inscrito, qual é a previsão de receita fiscal que tem. Portanto, a discussão fiscal é para se ter, é no momento do Orçamento do Estado, ela que deve ser colocada. Mas eu também vi uma afirmação do senhor primeiro-ministro, que a resposta às propostas que o Pedro Nuno Santos fez, em vez de primeiro analisá-las e poder discutí-las, chamou logo de radicalismo do PS. Também não está a contribuir para esse consenso. Eu percebo a pergunta, se o PS está a colocar isto como uma linha vermelha, ou aceitam ou não aceitam. Agora, eu acho que nós chegamos a um ponto que claramente tem a ver aqui. Se me pergunta a mim enquanto autarca.
Sim, era isso.
Enquanto presidente de câmara. Se era preferível nós não termos eleições, claro que sim.
E termos orçamento, tal como tem dito Luísa Salgueiro, presidente da Associação de Municípios.
E termos um orçamento. Era importante haver. Agora, eu acho que aqui todos nós temos que ter a flexibilidade.
Mas ainda acredita na possibilidade da AD e do Partido Socialista poderem chegar a um acordo?
Eu quero acreditar que sim, sabe por quê?
Como autarca, fez chegar essa-
Não, ainda não fiz, não tive a oportunidade ainda de fazer essa reunião. Sei que vai haver agora uma reunião com os presidentes das federações todas.
E a sua posição vai ser no sentido que o Partido Socialista se esforce para chegar a entendimento.
Mas sem abdicar daquilo que também são as nossas convicções. Nós temos um eleitorado que votou no Partido Socialista e não foi tão pouco assim, foi quase metade, em que aprovou em um conjunto de ideias, num conjunto de programa, num ADN do próprio PS, que o PS agora não pode abandoná-los assim.
Mas pode fazer as suas propostas sem se tornar irredutível naquilo que sabe que são as bandeiras de um governo, que é quem está a governar.
Eu falo como autarca.
A palavra irredutibilidade é que tem aqui um peso, não é a crítica às medidas.
Mas para os dois. A irredutibilidade, na minha opinião, assiste aos dois.
Sim, mas quando se diz que estas duas propostas, nem assim, nem de forma nenhuma, não podem passar, não acha que disse o líder do seu partido?
Está bem, pronto. Eu acho que há tempo e há espaço, e era bom que não houvesse aqui radicalismo desse ponto de vista. É a minha opinião. Devíamos encontrar um espaço em que o PS pudesse, de alguma forma, se rever nalgumas das propostas daquele orçamento de Estado, não sendo o seu orçamento de Estado. Até porque eu também lhe digo isto com toda a franqueza. Este cenário de democracia que vivemos hoje, um governo hoje para ter maiorias absolutas, não estou a ver num horizonte temporal a médio prazo.
Ou ter maiorias viáveis, porque até pode acontecer isso.
Por isso é que eu estou a dizer, esta realidade que nós estamos a viver hoje, tanto assiste ao PS como vai assistir ao PSD, de ter maiorias relativas. Portanto, é uma realidade com que nós temos que nos começar a habituar a ter que viver com elas. E se exige, obviamente, dos dois principais partidos, responsabilidade neste novo quadro democrático que estamos a viver agora e que vamos viver nos próximos anos.
E se era bom que não houvesse radicalismo, deixaria aqui, Ricardo Leão, um apelo a Pedro Nuno Santos e ao PS para negociarem este orçamento.
Mas também ao PSD. Não ponham só a questão no PS, também ao PSD. Porque se nós vivemos num momento de um quadro democrático em que ninguém, mesmo se amanhã houvesse eleições, o PSD podia ganhar, mas não ganhava com maioria absoluta. Assistimos ao mesmo. O PSD quer apresentar um orçamento.
Um orçamento que não passaria.
E não passava.
Ou se fosse o PS a ganhar, poderia acontecer o mesmo.
É o que eu estou a dizer. O que exige dos principais partidos, no caso PS e PSD, uma responsabilidade acrescida neste novo quadro de realidade democrática e nós vamos ter que nos habituar a viver com ele.
Diga-me só uma coisa, não acharia preferível, como socialista, que este orçamento passasse com os votos do CHEGA?
Isso estamos a falar de táticas políticas, táticas partidárias, que confesso, do ponto de vista partidário, não sei se seria vantajoso essa posição. Eu acho que o PS não se deve desligar deste processo, muito sinceramente. O PS sempre foi um partido importante, demasiadamente importante no quadro democrático português, para não ter a sua palavra relativamente. Agora, eu gostava, enquanto autarca, enquanto cidadão, enquanto militante do PS, assim quiserem, que não houvesse aqui uma inflexibilidade, quer de um lado, quer de outro. Que houvesse espaço para os dois haver aqui um entendimento, mesmo sabendo que o PS não se revê naquele orçamento, mas que haveria propostas, obviamente, que o PS pudesse incluir. Eu não estou a ver porque o PSD não pode aproveitar esta ideia da habitação. Acho que ela é muito importante e é muito válida. Se assim não der, se for através do CHEGA a ter que viabilizar o orçamento, do ponto de vista político e partidário, cada um depois tira as suas ilações. Eu tiro a minha. Deixar o CHEGA, essa capacidade de ser o CHEGA a aprovar um orçamento, coloca o PS numa posição difícil, do dito pelo não dito. Eu ouvi alguém dizer: "O não é não". Portanto, se o não é não, alguém vai ter que explicar por que o não é não. E por que afinal de contas é sim, é sim. E também o próprio Ventura, na minha opinião, hoje diz uma coisa, amanhã diz outra, parece que é consoante o vento. Por isso, do ponto de vista político partidário, o PS teria a ganhar muito desse ponto de vista, tática política. Mas nós temos que pôr o país à frente das táticas políticas. Pelo menos, é aquilo que eu faço todos os dias em Loures. Por isso eu continuo a dizer que era bom que deixasse de haver esta inflexibilidade e que o PS e o PSD ainda houvesse uma tentativa, mas na minha opinião, com recato. Era bom que houvesse. Para o país, acho que era bom ser desta forma.
E resumiu aqui a ideia que quis deixar neste direto ao assunto. É bom que não haja radicalismos. Temos mesmo de fechar, Ricardo Leão.
É importante haver orçamento, isso sem dúvida nenhuma. Para um autarca, para os presidentes de câmara, com quem todos temos falado, há demasiada coisa em jogo para não haver orçamento.
É o apelo do autarca socialista Ricardo Leão, que acaba de ser também eleito presidente da Federação do PS de Lisboa. Obrigada.
Obrigado.