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O capitão-tenente Diogo Cavalheiro, do Centro de Medicina Subaquática e Hiperbárica das Forças Armadas, é nosso convidado hoje no "Directo ao Assunto", numa altura em que foram encontrados destroços na área de busca desse submarino turístico Titan e numa altura em que o oxigênio estará a esgotar-se. Entrevista aqui conduzida pela Judite França Bruno, Vieira Amaral e Vanessa Cruz.
Bem-vindo, capitão-tenente Diogo Cavalheiro, à Rádio Observador. Se estes destroços forem do submarino turístico, a esta hora não sabemos, as autoridades só vão fazer um ponto de situação às 20h, mas admitindo este cenário, as hipóteses de sobrevivência são diminutas?
Muito boa tarde. Efetivamente, esta notícia que recebemos nas últimas horas é uma notícia que não gostamos de ouvir, apesar de que ainda não está confirmada a natureza dos destroços. Existem várias possibilidades em cima da mesa e vamos aguardar pela conferência de imprensa das 20h para tentar perceber se há aqui alguma relação com o submersível. Seja como for, se se confirmarem que são destroços do submersível, obviamente que a esperança de encontrar estas pessoas com vida termina. E do ponto de vista da operação de salvamento que está em curso e das equipas médicas de apoio e de tratamento que estão no local, obviamente que termina essa operação e passa a ser uma operação de busca e de resgate do destroço, e, portanto, dos cadáveres, se for o caso. Isto é uma coisa que nós temos acompanhado: a única forma de ter esperança de encontrar os tripulantes com vida é o submersível vir até à superfície íntegro, coisa que se estivermos a falar de destroços pode não ser o caso.
Não pondo este cenário, pondo o cenário de que estes destroços não são do submersível, vamos percebendo que nesta fase a sobrevivência dos tripulantes depende do seu comportamento e do comportamento dos passageiros. O que é preciso fazer para aguentar o oxigênio e quanto mais tempo terão, na melhor das hipóteses?
Em termos dos factores que influenciam a sobrevivência ou as hipóteses de sobrevivência destas cinco pessoas, existem vários factores, um dos quais é efectivamente o oxigénio. Nós sabemos calcular, é um cálculo que se faz previamente, saber quanto tempo duram as reservas de oxigénio deste veículo, porque nós sabemos quanto é que ele leva de oxigénio e qual é o consumo médio de um adulto saudável. E, portanto, nós conseguimos fazer uma regra matemática e saber quantas horas. E daí surge este número de 96 horas como expectativa de duração de oxigénio. Agora, este número, como acabei de dizer, é uma expectativa, é uma previsão. Pode ser maior, pode ser menor, dependendo da atividade dos ocupantes deste submersível. Resta dizer, por exemplo, que se houver uma crise de pânico, se houver uma extrema ansiedade, o que seria justificado numa situação destas, o metabolismo, ou seja, a velocidade de funcionamento do organismo acelera e isso aumenta o consumo de oxigénio e, portanto, diminui a duração do oxigénio existente. Se, por outro lado, estes tripulantes tiverem a paz de espírito suficiente para relaxar, para se deitar e para conseguir dormir, o que, como compreenderão, não será uma tarefa fácil, mas se o conseguirem, é obvio que vão conseguir reduzir esse metabolismo, o funcionamento do organismo, vão consumir menos oxigénio e aumentar a duração das reservas de oxigénio. Portanto, há aqui um intervalo entre o pior cenário e o melhor cenário que, efectivamente, depende daquilo que os tripulantes estarão a fazer a bordo do submersível.
E terá sido feita uma avaliação prévia à capacidade emocional dos tripulantes e, neste caso, são civis, turistas, para um episódio de stress brutal como este, em que fica em risco a própria vida. Não deveria ser prática comum, num caso destes, haver essa preparação, como há, aliás, para outro tipo de expedições?
Sem dúvida. Sempre que o ser humano é exposto a um ambiente hostil e agressivo, e este é extremamente hostil e agressivo, temos que ter a certeza que as pessoas estão preparadas e que são as pessoas com o perfil adequado a esse ambiente. Aqui estamos a falar de uma empresa civil, que tem interesses comerciais, e que segue a sua própria lógica. A experiência que nós temos em submarinos é maioritariamente de âmbito militar, na Marinha Portuguesa e nas Marinhas da NATO, em que existem protocolos muito bem definidos na escolha, na seleção dos submarinistas, que passa por exames médicos muito criteriosos, passa por uma análise do perfil psicológico, da personalidade, da adaptabilidade a situações de stress e depois a um treino específico e demorado, estamos a falar de um ano, em que se percebe se a pessoa tem perfil ou não. E muitas vezes temos pessoas que acabam por desistir dessa formação. Portanto, nas Marinhas militares, nas Marinhas de Guerra, existem esses protocolos, essa avaliação prévia. Quando falamos de uma empresa comercial com outros objetivos e com protocolos que nós não conhecemos, fica esta seleção posta em causa. Agora, concordo, deveria haver uma seleção dos tripulantes, sem dúvida.
E pelo que se sabe, esta empresa também não seguiria todas as regras de segurança no que respeita às condições do aparelho, ou pelo menos não seguiria os protocolos da indústria. Houve uma carta publicada no New York Times em 2018 em que os responsáveis da indústria, incluindo engenheiros, alertavam para esse facto. Não deveria haver um controlo maior deste tipo de atividade, até para evitar aquilo que se está a viver neste momento, que é o empenho de muitos meios, de muitos recursos para proceder à busca por este aparelho?
Precisamente. As certificações e os protocolos, além da parte burocrática, servem precisamente para nos assegurarmos que situações extremas como esta não sucedem. Apesar de sabermos que podem acontecer, as áreas existem, situações inesperadas podem acontecer, mas os protocolos e certificações, seja em que área for, servem precisamente para diminuirmos esse risco. Posso dizer, mais uma vez, que do ponto de vista militar, os submarinos portugueses e os da NATO seguem criteriosos graus de certificação, quer em termos da arma em si, do veículo em si, da construção, mas também do treino de salvamento. Recostando-nos agora ao nosso caso, a nossa Marinha faz treino de todos os seus submarinistas para operações de salvamento, para situações parecidas com essas, de submarino sinistrado. As equipes médicas que existem na Marinha, no Hospital das Forças Armadas, médicos, enfermeiros, mergulhadores, estão treinados e estão rotinados para uma situação extrema como esta. E isto é o garante que estamos a tentar pelo menos minimizar as consequências em caso de haver um azar. Obviamente que, pelo aquilo que percebi e é o que tenho lido na comunicação social, este submersível e esta empresa fugiam à certificação existente a nível mundial para este tipo de veículos. Portanto, isso é uma falha, para todos os efeitos, é uma falha desse garante, dessa certificação.
Sim. Capitão-tenente Diogo Cavalheiro, chegou ao local das buscas esta tarde uma equipe médica especializada em mergulho, com uma câmara hiperbárica, tem capacidade para seis pessoas. Perguntava-lhe qual é a importância desta câmara e, caso seja encontrado o aparelho com as pessoas ainda vivas, como é que se faz esta operação? Porque imagino que seja muito complexa.
É complexo. Voltando um pouco àquilo que falei no início, temos os quatro fatores, muito resumidamente, os quatro fatores que podem pôr em risco a vida dessas pessoas são: a questão do oxigênio, que já falámos, a questão da temperatura, a perda da temperatura e hipotermia. Depois temos a parte emocional, de haver um descontrole emocional. E o quarto elemento é precisamente a questão da pressão no interior deste submersível. Só para enquadrar, um submarino, seja militar, seja civil como este, está pressurizado em condições normais a uma atmosfera, que é a pressão normal que nós temos na rua, nas nossas casas. E o casco, portanto, a estrutura do próprio submarino, mantém essa pressão, que é uma pressão fisiológica, natural para nós funcionarmos. Se houver uma perda de estanqueidade, ou seja, da resistência do casco desse submarino, há dois cenários. Se for uma perda catastrófica de estanqueidade do casco, ele implode e, portanto, desintegra-se e não há sobreviventes. Mas no caso de existir um aumento gradual da pressão dentro do submarino, o que vai acontecer é que essa pressão vai refletir-se nos seus ocupantes, que vão estar sujeitos a uma pressão muito mais elevada do que aquela que seria normal. Quando regressam à superfície, se forem resgatados e chegam à superfície, vão estar sujeitos a uma doença, que é a doença de descompressão, à semelhança do que acontece com os mergulhadores. São bolhas gasosas que se formam no organismo, no cérebro, nas artérias, nas veias, no coração, e que podem ser fatais. O tratamento para esta doença, para a doença de descompressão, é imediatamente recomprimir estes pacientes dentro de uma câmara hiperbárica, que já está, tanto quanto sei, as informações que recebi, já está no local. O que consiste? Consiste em trazer este submersível até à superfície, retirar os seus ocupantes do interior, colocá-los de imediato numa câmara hiperbárica e pressurizá-la. Ou seja, vamos aumentar a pressão no interior da câmara hiperbárica, dissolver as tais bolhas que causam a doença e depois, lentamente, ao longo de muitas horas, descomprimir muito lentamente até chegarmos então à pressão natural de uma atmosfera. E isto é uma coisa que tem que ser feita no local, daí o navio da Marinha Canadiana que chegou, o Glace Bay, levou uma câmara hiperbárica com capacidade para seis lugares, leva um médico, um colega canadiano, leva dois enfermeiros canadianos e, portanto, se, como todos esperamos, estes tripulantes chegarem à superfície e for necessário recomprimi-los, os meios, quer recursos humanos, quer meios técnicos, estão lá e estão prontos a ser utilizados.
Hoje, um familiar de um dos tripulantes acusou OceanGate de ter demorado demasiado tempo a dar o alerta. O Titan perdeu as comunicações quando estava a uma hora e 45 minutos depois de ter começado a descer e diz este familiar que a Guarda Costeira só foi alertada oito horas depois. Isto é demasiado tempo para esperar para dar o alerta.
É. Quando falamos no acidente com o submarino, todo o tempo é precioso e é uma corrida contra o tempo. E nós, mesmo a nível militar, aprendemos muitas lições com o que se passou com o Kursk no ano 2000, que houve também um problema, que é conhecido, de atraso no período de ajuda, por outras questões. E portanto, as Marinhas da NATO e não só da NATO, outros países amigos, criaram uma estrutura que é capaz de responder de uma forma muito célere assim que é dado um alerta. E esse alerta é dado no imediato. Eu devo dizer que nós, no meio militar, no domingo à tarde, segunda-feira de manhã, já circulavam notificações desta situação, mas por outras vias, não pela própria empresa. Portanto, quando existe um acidente num navio militar, num submarino militar, a resposta está escrita, está planeada, está treinada e sabemos qual é. Os contactos estão escritos, não há nada de criativo. Quando falamos de uma empresa privada que não tem estes protocolos, que não está envolvida com os governos, com as Marinhas, com as Guardas Costeiras, esse protocolo está a ser escrito dia a dia. Ou seja, está a ser escrito à medida que está a ser praticado. Não foi planeado nem foi organizado previamente. E isso obviamente que causa atrasos. Isto se calhar pode servir de ensinamento para o futuro também para que o mundo civil e a sociedade civil, no que toca à utilização deste tipo de veículos, se organize e crie os mesmos protocolos que neste momento já vigoram no mundo militar.
E até porque historicamente não há registro de episódios muito semelhantes a este. É, de facto, uma corrida contra o tempo que está a ser feita nos Estados Unidos, no Oceano Atlântico, um contrarrelógio. Vamos aguardar por esse briefing, por esse ponto de situação que vai ser feito pela Guarda Costeira norte-americana às 8:00 p.m. Agradeço-lhe desde já, capitão-tenente Diogo Cavalheiro, do Centro de Medicina Subaquática e Hiperbárica das Forças Armadas. Foi o convidado de hoje do "Direto ao Assunto".
Muito obrigado.