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Investigadores portugueses concluíram que a genética da população em Portugal pode estar a levar a um déficit de vitamina D. Estes níveis baixos desta vitamina podem levar a consequências mais graves em caso de infecção pela Covid-19. Estas são conclusões de um estudo feito entre agosto do ano passado e janeiro deste ano. Avaliou mais de 500 doentes admitidos nas urgências dos hospitais de Santa Maria e de São João. Esta investigação foi coordenada pelo Centro Cardiovascular da Universidade de Lisboa. Envolveu também investigadores da Faculdade de Ciências Médicas, da Universidade Nova de Lisboa e da Faculdade de Medicina do Porto, também do Instituto Gulbenkian de Ciência.

E temos agora conosco, em direto, Conceição Calhau, a professora catedrática da Faculdade de Ciências Médicas, uma das faculdades que fez parte desta investigação. Muito boa tarde. Estes dados provam que não é correto supor que os países com mais posição solar, como Portugal, não apresentam problemas com deficiência de vitamina D entre a população?

Exatamente, porque na verdade os países do sul da Europa, apesar de tudo, são países com uma latitude acima dos 35 graus e isso sabe-se que é um fator de risco para não termos a produção de vitamina D que seria necessária. Nós temos países de sol com uma maior prevalência da deficiência de vitamina D, porque para além de termos a ideia de que de facto a incidência solar é suficiente, que não é, também por isso fazemos menos suplementação e não temos políticas de fortificação dos alimentos, para além de hábitos alimentares que já também fogem muito aos alimentos que contêm gordura, que normalmente são os que têm as vitaminas lipossolúveis, que é o caso da vitamina D.

Certo. A exposição solar que, em contexto pandémico, estivemos confinados durante muito tempo e portanto foi ainda menor, o que pode ter também agravado esta carência de vitamina D. Pergunto-lhe de que forma e que conclusões é que chegaram neste estudo, de que forma esta insuficiência de vitamina D pode piorar os efeitos da Covid-19 em caso de infecção. Conceição Calhau.

Aquilo que nós tivemos de resultados no nosso trabalho, e que de facto também foi corroborado por trabalhos internacionais, é que conforme os níveis de vitamina D mais deficientes no momento do diagnóstico da Covid-19, o prognóstico era sempre pior. Ou seja, os indivíduos, por exemplo, no nosso estudo, que tinham menos de 12 nanogramas por mililitro de concentração de vitamina D, tiveram todos o desfecho pior, ou seja, a morte. Na realidade, aquilo que podemos saber, com muita segurança, é que o ter níveis baixos de vitamina D e ser infetado com o novo coronavírus, de facto o prognóstico pode não ser o melhor.

Certíssimo, portanto, há um agravamento do prognóstico. Que outro tipo de problemas de saúde é que podem estar relacionados com esta insuficiência também de vitamina D? Porque são bastantes, não é?

Pois, a vitamina D, em termos históricos, claro que se associa, no caso da criança, ao raquitismo e no caso adulto, ao comprometimento ósseo, como a osteomalácia, mas na verdade, isto é aquilo que do início do século anterior, nós temos essa memória, portanto, que a vitamina D era usada sobretudo nestas doenças mais graves. O que nós já sabemos desde aí é que aquilo que nos preocupa mais na atualidade são as doenças crônicas. E estamos a falar das doenças autoimunes, estamos a falar do cancro, estamos a falar das doenças cardiovasculares, da diabetes tipo 2, da demência, do Alzheimer e portanto, são todas estas patologias em que já se sabe que a vitamina D, sendo ela uma hormona, vai ser importantíssima e que condiciona ou torna o indivíduo mais vulnerável para todas estas situações. Da mesma forma, por exemplo, que no mundo árabe, desde que se teve estes condicionantes de vestuário que cobre o corpo e portanto, apesar da incidência solar ser muito grande, temos níveis muito baixos de vitamina D, portanto, uma enorme prevalência da deficiência e que passou a surgir uma enorme incidência da esclerose múltipla. Temos aqui uma forte associação da vitamina D com variadíssimas situações clínicas da atualidade de saúde pública.

Certo, portanto, para quem nos está a ouvir neste momento, Conceição Calhau, está a perguntar-se certamente como é que nós podemos combater esta carência desta vitamina. Enfim, a exposição solar é, se calhar, a forma mais evidente, sempre com proteção da pele, obviamente, e sem excessos. Que outras formas existem também para combater este problema?

Claro que a exposição solar poderia ser uma forma, mas na verdade, aquilo que nós assistimos é que nós já não temos os hábitos de vida ao ar livre, independentemente destes confinamentos impostos, e também aquilo que fazemos, e bem, é de facto proteger-nos do sol e usar a proteção solar. E sabemos que os protetores solares com fator 15 ou fator 30 reduzem em quase 99% a produção de vitamina D. Portanto, parece-nos que também não seja de maneira nenhuma esta a solução para a prevalência que em Portugal existe, e já são dados de 2020, do início do ano passado, que mais de 60% da população tem esta deficiência. Claro que aquilo que o nosso estudo mostrou é que também temos características genéticas que justificam esta deficiência. Portanto, para responder à sua pergunta, o que é que temos que fazer primeiro? Se calhar, era importante conhecer estas vulnerabilidades de cada um dos indivíduos, porque se têm estas características genéticas, têm que ter uma intervenção diferente. Obviamente, que o facto de já não comermos alimentos com gordura, como é o caso dos laticínios, que seriam fonte de vitamina D, peixe gordo, ou, na realidade, muitas pessoas já nem fazem a ingestão de laticínios e portanto não será a alimentação a fonte de vitamina D, que também em regra poderá ser 20% daquilo que precisamos.

Certo.

O apanhar sol também não é, de facto, aqui a solução. Aquilo que em muitos países acontece é uma fortificação, portanto, uma decisão política de fortificar, por exemplo, farinhas, cereais, ou obviamente fazer suplementação. Conhecendo as características genéticas é importantíssimo e aquilo que o nosso trabalho mostrou é que em Portugal a prevalência de um polimorfismo associado à síntese da vitamina D através da exposição solar, torna-nos mais incapazes de o fazer. Portanto, mesmo apanhando sol, não somos um povo que tenha capacidade genética para fazer esta síntese. Portanto, nestes indivíduos com uma identidade genética muito específica, ainda mais se recomenda a suplementação o ano inteiro.

Portanto, perceber se existe essa falha genética. É muito importante também dizer que a suplementação deve ser recomendada por um profissional de saúde.

De saúde.

E, portanto, não fazer essa suplementação de forma autónoma. Conceição Calhau, eu agradeço-lhe imenso por ter estado conosco na Rádio Observador para nos explicar a conclusão deste estudo, que envolveu várias entidades. Conceição Calhau, que é professora catedrática da Faculdade de Ciências Médicas, fez parte desta investigação, que chegou a esta conclusão que existe aqui, de facto, que a genética da população em Portugal pode estar a levar a um déficit de vitamina D, com todas as consequências que isso acarreta. Voltemos a falar de ciência na tarde em direto, amanhã, a esta hora. Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.