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Temperatura máxima. Um grupo de neurologistas britânicos alerta que o novo coronavírus pode provocar lesões cerebrais graves. O estudo dá conta de 43 casos de pacientes com a COVID-19 que sofreram AVCs, lesões nos nervos e outros efeitos cerebrais graves. A investigação é mais uma de uma linha de estudos recentes que indica que o novo coronavírus pode provocar danos no cérebro.
E junta-se agora a nós João Maçãno, investigador e professor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto. É também neurologista do Centro Hospitalar de São João, também na cidade do Porto. Boa tarde, João Maçãno. É certo que sabemos ainda muito pouco sobre este vírus, o SARS-CoV-2, mas como é que um vírus que essencialmente ataca os pulmões pode também provocar lesões cerebrais?
Olá, muito obrigado. Boa tarde a todos e ao nosso auditório. Portanto, há aqui vários mecanismos pelos quais se pensa que o vírus pode causar problemas do sistema nervoso. Alguns desses problemas dizem respeito ao cérebro e à medula, portanto, àquilo que nós consideramos o sistema nervoso central, e outros são problemas diversos que atingem os nervos, o que nós chamamos de sistema nervoso periférico. Um dos problemas que causa chamam-se as encefalopatias, tradicionalmente chamados estados confusionais. Esta é talvez a forma, digamos assim, mais ligeira de atingimento do sistema nervoso, apesar de poder ser muito aparatosa em termos de sintomas. O que acontece é que as pessoas ficam muito confusas, por vezes muito agitadas ou às vezes até num estado praticamente comatoso. Mas sobretudo o que nós temos verificado nestes doentes, e o meu hospital tem tido muitos doentes com esta infecção, nós verificamos que estes doentes têm estes estados confusionais que são muito resistentes, muito persistentes. As pessoas ficam muito confusas e muito agitadas durante muito tempo, mas na maioria das vezes acabam por recuperar.
João Maçãno e quando fala em muito tempo, consegue dar-nos conta mais ou menos desse quadro pra percebemos, no fundo, a persistência também desses sintomas e dessas consequências também do vírus?
Muitos destes doentes foram admitidos em cuidados intensivos, até, ou em cuidados intermédios. E a maioria destes doentes acaba por ficar internado, em média, cerca de 20 dias. Dezoito, 20, 30 dias, alguns bastante mais do que isso, mais do que um mês até a recuperação completa.
E esse estado mantém-se durante esses dias, esse estado de confusão?
Sim. Portanto, o que acontece muitas vezes é que os doentes já estão confusos ou podem até já estar bastante sedados. Sedados não por medicação, mas muito sonolentos no momento em que são admitidos nos cuidados intensivos. E o que os nossos colegas têm verificado, e nós temos verificado, é que depois das pessoas retirarem o tubo que os ajuda a respirar e todo aquele suporte artificial dos sistemas fisiológicos, aí é que se verifica este estado confusional durante muito tempo, dias a fio, que felizmente depois, na maioria dos casos, acaba por melhorar e os doentes acabam por recuperar. Mas pronto, esta, apesar de ser muito aparatosa, é talvez a consequência menos grave. Uma das mais graves, nós temos verificado, de facto, e este estudo também mostra isso, alguns doentes, de facto, têm AVCs, portanto, nós vimos a verificar que eles têm AVCs. Não sabemos exatamente qual é o mecanismo pelo qual o AVC surge. Nós sabemos que existe uma associação, isto é conhecido, entre infecções graves e o risco de AVC, portanto, infecções graves em geral. Não sabemos se a própria inflamação, que parece ser que a própria inflamação que existe no organismo devido às infecções, acaba por alterar a forma como o sangue se comporta dentro dos vasos e, portanto, formam-se oclusões das artérias dentro do cérebro que provocam os AVCs.
E ajude-me aqui a perceber uma coisa, João. Podem estar aqui em causa efeitos que teremos de esperar mais algum tempo para perceber quais são os efeitos que podem de facto existir. Ainda há muito para descobrir, portanto, ainda vamos ter que esperar, se calhar, bastante tempo pra que esses doentes que estão recuperados demonstrem aqui sinais de efeitos que ficaram, não é?
Sim. Nós sabemos que na maioria das situações virais em geral, quando há uma recuperação e quando não há uma destruição cerebral, nós temos alguns vírus, existem alguns vírus no mundo que causam destruição, verdadeiramente destruição cerebral. Aparentemente, não é esse o caso do SARS-CoV-2. Existe um estudo muito recente numa outra revista, que não é esta onde saiu este estudo, que é o New England Journal of Medicine, é uma revista muito conceituada, em que estudaram o cérebro de 18 pessoas que morreram com COVID-19. E não se encontram provas de que o vírus tenha invadido os neurônios e tenha destruído o cérebro. Portanto, não parece ser um vírus destruidor de cérebro. Mas existem doenças também em que não há invasão nem destruição dos neurônios, mas em que as pessoas ficam com sequelas a longo prazo. E é isso que nós ainda estamos para descobrir. Eu sei que isto pode parecer um bocadinho assustador, porque nós temos milhões de pessoas infectadas no mundo neste momento. Mas a verdade é que ainda não temos nenhuma prova concreta de que existam sequelas a longo prazo. Para já, os doentes que parecem recuperar Recuperam como nós esperaríamos com outra doença viral, mas é preciso estudar a longo prazo o que vai acontecer. É preciso segui-los e é preciso ver o que é que vai, na realidade, acontecer em concreto a estas pessoas no futuro.
Precisamente, daqui a alguns anos. Portanto, são necessários estudos, estudos em grande escala, diria. João Massano, está a ser desenvolvida uma investigação global?
Sim, existem já muitos centros a organizar-se de forma a seguir longitudinalmente, ou seja, ao longo do tempo, estes doentes. Existe também algum trabalho em Portugal que está a ser organizado e está em curso, com algum esforço, como vocês podem compreender, porque nós temos que colocar a investigação científica em cima de tudo aquilo que já temos que fazer, não é? Nomeadamente a nossa atividade clínica. Mas existe um grande esforço de muitos médicos, sobretudo médicos muito jovens, os nossos internos, que têm um grande mérito, e que estão a organizar já um registo nacional dos doentes com alterações neurológicas e que tiveram COVID-19, para tentar perceber que problemas é que houve e tentar perceber o que é que lhes vai acontecer a estes doentes no futuro. Portanto, é um esforço muito meritório.
Claro que sim, João Massano, eu agradeço lhe ter estado connosco. Infelizmente não temos mais tempo. É investigador e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e neurologista do Centro Hospitalar de São João. João, muito obrigada mais uma vez. Juntou-se a nós para explicar um bocadinho o resultado deste estudo, um estudo de um grupo de neurologistas britânicos que alerta que o novo coronavírus pode provocar lesões cerebrais graves. Amanhã, sexta-feira, voltaremos a falar de ciência, mas esta conversa vai ficar disponível, se a quiser voltar a ouvir, partilhar com alguém, em podcast, nas plataformas habituais e no site do Observador, basta procurar pelo nome da rubrica E=mc². Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto