Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
A qualidade do sono pode estar diretamente relacionada com o aparecimento e a progressão da doença de Alzheimer. Um estudo da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, analisou a qualidade do sono noturno de 32 pessoas saudáveis, entre os 60 e os 80 anos, e a acumulação da beta-amiloide no cérebro, ou seja, o componente principal das placas que se formam à volta dos neurônios responsáveis pelo aparecimento e progressão da doença de Alzheimer. Os resultados mostraram que os participantes com sono mais fragmentado e menos profundo foram os mais suscetíveis ao aumento desta acumulação de beta-amiloide.
E para nos ajudar a compreender melhor este estudo, junta-se agora a esta emissão João Maçã. Ele é investigador e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, também neurologista do Centro Hospitalar de São João. Antes de mais, boa tarde. Obrigado por estar aqui conosco. Pergunto-lhe: isto quer dizer que o sono profundo, duradouro e reparador pode retratar a doença de Alzheimer? Como é que funciona?
Olá, boa tarde. Sim, nós desde há alguns anos temos tido alguns dados de várias proveniências e com várias metodologias de estudos científicos a mostrar que existe uma relação entre o risco de ter doença de Alzheimer e uma menor qualidade do sono. O que este estudo vem mostrar de uma forma muito interessante e muito inovadora, é o facto de ser um estudo que é prolongado e que consegue medir não só variáveis da qualidade do sono, mas também, ao mesmo tempo, medir a quantidade de uma proteína que se chama proteína beta-amiloide, que é uma proteína que existe no cérebro das pessoas com doença de Alzheimer. Isto é feito com as pessoas ao longo da sua vida. Estes participantes deste estudo, nomeadamente, foi feito ao longo de nove anos. E esta metodologia que é usada chama-se PET, é uma tomografia por emissão de positrões, é um exame que usa aquilo que nós chamamos de um radiofármaco, portanto, é um medicamento, no fundo, é um marcador que tem uma pequenina quantidade de radioatividade que não é maléfica para o organismo e que se liga especificamente a esta proteína que existe na doença de Alzheimer. Nós com esta metodologia conseguimos saber quanta desta proteína existe no cérebro de uma pessoa que está viva e a respirar.
E isto pode nos ajudar, ou neste caso, pode vos ajudar, a vocês investigadores, a antecipar o Alzheimer numa pessoa? Podemos ir por aí?
Sim, na realidade isso é possível. Nós conseguimos ter uma noção se uma pessoa, mesmo antes de ter sintomas, poderá ter já esta proteína no cérebro. Há várias razões para nós não fazermos isto de uma forma generalizada. A principal é uma razão ética, porque na realidade nós neste momento não temos formas eficazes de prevenir a doença de Alzheimer e seria muito angustiante dizer a alguém que sabemos que vai ter uma doença de Alzheimer e que não podemos fazer nada para o evitar. Não temos a forma de fazer um tratamento precoce, por exemplo. Do ponto de vista ético, isto não é aceitável. Nós só usamos esta metodologia em duas circunstâncias, portanto, a investigação, ou se já existe uma clínica sugestiva de doença de Alzheimer para podermos fazer o diagnóstico. Apesar de tudo, é uma tecnologia que é muito cara e que está pouco disponível na maioria dos países, nomeadamente em Portugal, nós temos muita dificuldade em conseguir este exame quando é necessário.
E João Maçã, em relação a este estudo em concreto, quais são os próximos passos dessa investigação?
O que se mostra muito rapidamente é que ao longo destes nove anos, conseguiu-se correlacionar o aumento desta proteína beta-amiloide no cérebro, o desenvolvimento da doença de Alzheimer no cérebro das pessoas. E isto acontece mais em pessoas que têm menor eficiência do sono, ou seja, que passam menos tempo a dormir em relação ao tempo que estão na cama. E, por outro lado, também um outro marcador que é muito específico do sono, que é o chamado o sono de ondas lentas, aquilo que nós chamamos de sono profundo. O estudo não demonstra exatamente que é possível prevenir a doença de Alzheimer, melhorando a qualidade do sono, mas é muito provável que aqui assim seja. E sendo uma variável em que nós podemos intervir nas nossas vidas, eu acho que é de todo o interesse geral que tenhamos um sono de boa qualidade, em quantidade suficiente e qualidade suficiente pra atingirmos esta fase de sono profundo, porque pensamos que realmente nesta fase de sono profundo, o cérebro consegue livrar-se desta proteína anormal, consegue limpá-la e evitar a sua acumulação no cérebro.
João Maçã, eu agradeço lhe ter estado conosco aqui na Rádio Observador. É investigador e professor da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, é neurologista do Centro Hospitalar de São João. Os dados aqui a perceber as conclusões deste estudo da Universidade da Califórnia, que analisou a qualidade de sono noturno de 32 pessoas e a acumulação de beta-amiloide no cérebro. Este componente das placas que se formam à volta dos neurônios e que são responsáveis pelo aparecimento e progressão da doença de Alzheimer. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.