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E hoje, na nossa rubrica de ciência aqui na Rádio Observador, voltamos as atenções para um novo estudo publicado na Science Advances, um esforço colaborativo entre médicos e cientistas de Portugal, da Áustria e também dos Países Baixos. Um estudo em que foram identificados os dois primeiros pacientes com doença rara causada por erros na divisão celular, algo que estará relacionado e que terá a ver com mutações em ambas as cópias do gene BUB1. Para nos dar a conhecer este estudo e o que ele representa, junta-se a nós Raquel Oliveira, líder da equipa do Instituto Gulbenkian de Ciência, que conduziu este estudo. Raquel, bem-vinda.
Olá, boa tarde, Vicente. Obrigada.
E vamos já começar por perguntar que gene é este, o BUB1, pelo que ele é responsável e como é que ele atua na divisão das células, também para percebermos melhor esta descoberta.
Este gene codifica para uma proteína que é muito importante para monitorizar e também para ajudar à segregação correta dos cromossomas durante a divisão celular. Cada vez que as células se dividem, nós temos muitos cromossomas nas células que têm que ser segregados de forma equitativa para as duas células filhas e, obviamente, se isto fosse feito ao acaso, daria muitos erros. E então existem diferentes proteínas que atuam como pontos de controlo, para garantir que esta divisão ocorre de forma correta. O gene BUB1, como chamou, que nós chamamos Bub1 em inglês, é precisamente uma das proteínas deste conjunto de moléculas que ajudam a que não haja erros na divisão das células.
E a divisão não equitativa das células acaba por gerar problemas de saúde. Pensava-se que até aqui não era compatível com a vida. O estudo veio provar que não. Que tipo de problemas de saúde é que podem resultar daqui, Raquel, nas falhas, fundamentalmente, que este gene tem no papel da divisão das células?
Quando há erros muito grandes na divisão das células, aí efetivamente isto não seria compatível com a vida para qualquer organismo. O que acontece neste caso, e foi isso que foi interessante de ver, é que efetivamente existem erros, mas a uma percentagem que torna a vida possível. Não é que o organismo tenha todas as células a dividir de forma incorreta. Estes pequenos erros é precisamente quando surge a doença e, neste caso concreto, o que ambos os pacientes que nós descrevemos têm em comum é microcefalia, ou seja, têm o cérebro mais pequeno que o normal.
E foram descobertos esses dois primeiros pacientes com esta doença rara provocada por estas duas mutações na cópia do gene. Esta descoberta descortina alguma forma de tratamento para o alívio da microcefalia? Pode também servir, Raquel, para prevenir algumas outras doenças?
Sim, eu penso que o mais importante é que estas doenças do desenvolvimento normalmente são de difícil cura. Durante o desenvolvimento do organismo, as divisões deveriam ter sido corretas e não foram, e acaba por ser difícil reverter esses problemas. Agora, o que é muito importante é como este gene está associado também, neste caso concreto, por exemplo, ao aparecimento de cancro, é importante para seguir estes pacientes de forma a, por exemplo, terem um controlo mais apertado para o desenvolvimento do cancro. Nos dois casos, obviamente ainda são jovens. Até agora não há qualquer indício que tenham qualquer associação ao desenvolvimento de cancro, mas é algo que os médicos agora obviamente estarão mais atentos para seguir. E para além disso, isto é importante para que a comunidade médica saiba que podem existir mutações compatíveis com a vida neste gene e que possam utilizar este gene para o diagnóstico de casos de doenças raras que ainda não estão diagnosticadas.
Que ainda não estão diagnosticadas e, por exemplo, para prevenir à nascença a identificação, é possível identificar de alguma forma estas mutações antes, por exemplo, do nascimento de um bebê, para prevenir ou pelo menos para fazer o rastreio de certas condições, Raquel?
Sim. Estas mutações, nós quando chamamos bialélicas, significa que são em ambas as cópias, estão herdadas quer do pai, quer da mãe. À partida, seria possível diagnosticar uma probabilidade de acontecer se fossem feitos os diagnósticos quer da mãe, quer do pai, a sequenciação do genoma deles. Obviamente, estes são casos raros. Neste caso, é preciso que haja a coincidência de quer o pai, quer a mãe tenham cópias com erros neste próprio gene. Eu não acredito que este seja um método de diagnóstico que vá ser usado de maneira corriqueira, mas, por exemplo, se houver indicações que existe este tipo de mutações na família, de forma hereditária, por exemplo, pode ser feito um controlo a nível do genoma dos pais para perceber se há probabilidade de os filhos virem a ter um caso como este.
E falava também há pouco da questão das doenças oncológicas. A descoberta destas mutações e de como funcionam podem também fazer antever, de alguma forma, tratamentos diferenciados ou pelo menos diagnóstico de doenças oncológicas, Raquel?
Pois, eu penso que agora é preciso obviamente terem a descoberta de saber exatamente qual é que é o gene e, neste caso particular, esta é uma das proteínas mais estudadas por nós, investigadores fundamentais, que estudam como é que o processo de divisão existe, como é que ocorre. E no fundo, existe uma grande quantidade de conhecimento a nível molecular de como é que esta proteína funciona e tudo aquilo que faz. Para estes pacientes terem um diagnóstico em que sabem agora qual é o gene que está alterado, permite aos médicos tomarem isso bem atenção, precisamente não só num controlo mais apertado, mas também em eventuais estratégias terapêuticas se eventualmente acontecer uma situação oncológica com qualquer um dos pacientes.
Raquel Oliveira, líder da equipa do Instituto Gulbenkian de Ciência, que conduziu este estudo, um esforço colaborativo entre médicos e cientistas de Portugal, da Áustria e dos Países Baixos, em que foram identificados os dois primeiros pacientes com doença rara causada por erros na divisão celular, algo que tem a ver com mutações em ambas as cópias do gene Bub1. Fica também aqui a correção em inglês. Raquel Oliveira, muito obrigado por se ter juntado a nós na Ciência da Rádio Observador.
Obrigada eu pelo convite.
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