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Um estudo britânico concluiu que a imunidade ligada à Covid-19 pode apenas durar alguns meses. Os valores de anticorpos encontrados em doentes que se curaram da Covid-19 decresceram ao longo do tempo após a infecção, e esta diminuição pode indicar que quem já se curou da doença pode voltar a infectar-se com novos surtos, avança este estudo do King's College.

E junta-se agora a nós o virologista João Gonçalves. É professor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa. É também diretor do iMed, o Instituto de Investigação do Medicamento. Muito boa tarde, João Gonçalves. Obrigado por se juntar a nós aqui na Rádio Observador. Pergunto-lhe antes de mais o que é que isto significa. Esta esperada vacina pode não garantir também proteção durante muito tempo?

Ora, boa tarde. Muito obrigado pelo convite. Este é um estudo que já vem no seguimento de outros pequenos estudos que têm vindo a acontecer. Nós próprios, aqui no nosso laboratório e aqui na Faculdade de Farmácia, temos acompanhado também alguns grupos de doentes que também tiveram Covid e que se curaram. E isto vem no seguimento desses estudos. Eu acho que temos aqui um problema, que é um problema que há pessoas que se curam rapidamente do Covid-19, pensam que é uma cura, mas basicamente não geraram uma grande imunidade. E outros que tiveram muito mal, esses são capazes de gerar uma imunidade um bocadinho melhor. Agora, o que isso vai representar em termos de proteção, parece que vamos ter alguns problemas.

Portanto, vamos ter que continuar a descobrir mais. Tem sido assim sempre com a Covid-19. Estamos sempre a descobrir novas coisas com novos estudos, mas isto pode significar, João Gonçalves, no pior cenário, que a imunidade de grupo pode estar condenada?

Pode ser um problema. Não sabemos ainda bem. Atenção que esta questão, que se faz uma relação muito direta com a vacina, não podemos ir por aí. O que podemos é dizer que a imunidade de grupo pode estar comprometida se a quantidade de anticorpos que as pessoas geram não for suficiente para proteger dois ou três ou quatro meses depois de uma infeção. Isso sim. Do ponto de vista da vacina, não podemos tirar essas conclusões já.

Portanto, vamos ter que aguardar, como dizia, uma maior evolução do conhecimento que temos da Covid-19.

Se eu pudesse interromper, esta questão da vacina é muito interessante e as pessoas não devem ter um alarme muito grande sobre isso. Ou seja, a vacina o que vai fazer é criar uma imunidade maior do que a própria doença.

Certo. Ou seja, a imunidade não é igual, como se não existisse uma vacina. Não é igual à recuperação que temos. É sempre um reforço.

Exatamente. E, portanto, uma vacina vai ser estudada para dar uma imunidade maior do que aquela que a doença nos está a proporcionar. O que é extremamente interessante, e começamos a gerar essa informação, é que realmente as pessoas que tiveram com uma doença mais grave de Covid-19, têm uma resposta de anticorpos mais prolongada, mais forte. Essas, potencialmente, poderão estar mais protegidas do que aquelas que, ao princípio, as pessoas que não tinham doença poderiam dizer: "Eu tenho o sistema imunitário melhor e aí vou conseguir proteger-me melhor". Não, essas estão certamente ainda mais fragilizadas do ponto de vista imunitário. Portanto, a minha recomendação é que não pensem, lá por terem safado essa primeira vaga de infecção pelo Covid, que vão safar uma segunda infecção.

Certo. Nós não podemos correr o risco de ter essa ideia. Tendo Covid uma vez, podemos pensar: "Bom, eu a partir de agora já não corro esse risco, já não tenho que me preocupar". E é precisamente a mensagem inversa que queremos passar. Porque isso pode, de facto, acontecer e é isso que estes estudos indicam.

Exatamente. Eu acho que a mensagem mais clara para as pessoas, e de uma forma mais clara e mais perceptível, é que pelo fato de eu ter tido Covid-19 e nem sequer ter tido alguns sintomas, isso do ponto de vista imunitário, pode não ser grande coisa e, portanto, temos que continuar a ter esses cuidados e essa proteção face a uma potencial infecção que possa estar a ocorrer.

Mas João Gonçalves, afinal, o que isto nos diz mesmo sobre aquela questão da imunidade de grupo? Nós ouvimos falar até logo no início de alguns países que queriam optar por essa questão da imunidade de grupo e até por isso mesmo, porventura, descurar algumas das regras de distanciamento, para que fosse depois com a imunidade de grupo encontrada uma solução para que não houvesse essa disseminação da epidemia e da pandemia. O que é que estes dados nos dizem sobre essa questão da imunidade de grupo?

Olhe, dizem que se calhar estamos errados. Se calhar o que nós estávamos a pensar há três meses atrás, não se veio a refletir agora no que nós conhecemos. Ou seja, uma imunidade de grupo instalada numa população, significa que vamos criar, no fundo, uma quantidade de anticorpos suficiente para responder a esse vírus. E, portanto, nesse contexto, aquilo que nós pensávamos há três meses da imunidade de grupo, vamos ter que alterar os nossos pressupostos. E portanto, vamos depender muito da vacina ou das vacinas que se estão a desenvolver de forma que elas possam estimular ainda mais o nosso sistema imunitário.

João Gonçalves, eu agradeço-lhe ter estado conosco mais uma vez na tarde em direto. É virologista, é professor da Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa, é também diretor do iMed, o Instituto de Investigação do Medicamento. Ajudou-nos aqui a perceber as conclusões deste estudo do King's College de Londres. Um estudo que concluiu que a imunidade à Covid-19 pode apenas durar alguns meses. Esta conversa, que vai ficar disponível já a seguir também daqui a pouco em podcast, pode voltar a ouvir, partilhá-la com alguém, estará nas plataformas habituais e em observador.pt. João, obrigada. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.