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Três minutos, daqui a pouco vamos a Marte.
Conversas do Fim do Mundo. As aventuras dos viajantes portugueses na Rádio Observador.
Eu lembro-me dela me estar a martelar e eu sentia choques do cotovelo à ponta do dedo e fiquei sem força na mão durante três dias.
Destinos improváveis.
E um dia recebo um telefonema a dizer: "Olha, prepara-te que para a semana vais para o Burundi. E só não vais amanhã, porque tens que apanhar sete vacinas e não podes apanhar as vacinas todas no mesmo dia. Tens de esperar."
Conversas do Fim do Mundo com João Miguel Santos. Às terças, depois do meio-dia, na Rádio Observador e sempre em podcast.
Tempo para amanhã. A chuva vai continuar a dar tréguas. Vamos ter uma terça-feira com céu pouco nublado em todo o território, ainda assim com alguns períodos de maior nebulosidade. Máximas previstas de 16 graus para Lisboa, 17 para o Porto, 18 para Braga e Aveiro.
Rádio Observador, Aveiro, 88.1.
Já a seguir falamos de ciência. É o som de celebração pelo último sucesso do capítulo da aventura espacial, o momento em que um veículo não tripulado, o Perseverance, aterra em Marte. A bordo deste robô ia um minihelicóptero. João, este veículo vai tentar provar que é possível voar em Marte e recolher dados sobre o comportamento de uma aeronave noutro planeta. E tal como em tantas aventuras à escala planetária, esta, João, também tem dedo português. É verdade, Florbela Costa, engenheira aeronáutica, tem raízes em Ponte de Lima, portanto no norte do país, e participou no desenvolvimento da primeira aeronave que foi enviada pela humanidade para outro planeta. Formou-se em Engenharia Espacial na Universidade da Beira Interior. Atualmente trabalha na empresa Maxon Group, na Suíça, e está conosco hoje aqui na Rádio Observador. Muito boa tarde, Florbela Costa. Antes de mais, que tamanho tem este helicóptero, que pelo que percebemos é um minihelicóptero, que vai voar em Marte?
Olá, muito boa tarde. Este helicóptero tem apenas dois quilos e cerca de meio metro de altura.
E o que isso permite fazer com um aparelho com umas dimensões tão reduzidas?
Este helicóptero é o primeiro helicóptero enviado para outro planeta e o intuito deste helicóptero é a demonstração de tecnologia. Existem muitas diferenças entre este helicóptero e um helicóptero que teria de voar na Terra e a intenção é mesmo só comprovar estas novas tecnologias e uma vez esse feito atingido, muito provavelmente iremos ver mais helicópteros a serem enviados para Marte de maiores dimensões.
Já vamos esmiuçar melhor a missão deste helicóptero em Marte. Florbela, qual foi o seu contributo neste projeto?
Sou gestora do projeto técnico na Maxon, como disse, e a minha empresa desenvolve e manufatura acionamentos de alta precisão, motores, caixas de velocidades, sensores, etc. E para este projeto em específico, desenvolvemos seis motores de tamanho muito reduzido, apenas com 1 cm de diâmetro e 2 cm de comprimento. E estes motores muito potentes, muito reduzidos, muito leves, foram criados para controlar o movimento das pás do rotor, ou seja, para controlar o movimento da aeronave.
Isso não vai acontecer, mas se um dos motores deixar de funcionar em Marte, é a si que vão pedir explicações. É isso? Está nervosa, Florbela? Está nervosa com o desempenho dos motores que coordenou?
Sim, estou extremamente nervosa. Eu sei que testamos tudo o que poderíamos ter testado aqui na Terra. Fizemos imensos testes, imensas análises, e não havia mesmo mais nada que pudéssemos testar antes de realmente testar os motores em Marte. Mas eu acho que até ver o primeiro voo acontecer, até ter a certeza que correu tudo bem, vou estar sempre muito nervosa.
Quando é que vai acontecer esse primeiro voo?
O helicóptero irá desacoplar do rover, do Perseverance, dia 19 de março, e esperemos que alguns dias depois o primeiro voo se irá efetuar.
Portanto, ainda falta mais ou menos um mês. Falou dos testes que foram realizados aqui no planeta Terra, deste minihelicóptero que vai voar em Marte. É possível realizar testes fidedignos num ambiente tão diferente quanto o do planeta vermelho?
Nós da Maxon fizemos testes ao nível do motor em si, fizemos testes de ciclos de temperatura, vibrações, choques, enfim, tudo o que pudéssemos testar para tentar simular o ambiente marciano e também o transporte até Marte. E depois a NASA JPL fizeram uma câmara muito grande para tentar simular o ambiente marciano, ou seja, com uma densidade muito reduzida, mas algo que não podiam testar é a diferença de gravidade, que também é bem menor em Marte. Mas eles também fizeram tudo o que poderiam ter feito aqui na Terra e agora só nos resta esperar e ver o que acontece em Marte.
E como é que é simular também o ambiente de Marte fora de Marte? Como é que se trabalha nestas condições? Ou seja, estamos a trabalhar num aparelho que vai funcionar num planeta distante, com condições muito específicas. Como é que se faz esse trabalho no planeta Terra?
A NASA e a JPL tiveram de criar uma câmara só para esse efeito. Era uma câmara bastante grande, com vários metros de diâmetro e de altura, para simular a primeira maquete do helicóptero que foi criada para simular esses voos.
E portanto, basicamente nessa câmara submeteram o helicóptero a imensos testes, sempre nas piores das hipóteses, sempre colocando as piores hipóteses.
Exato.
Florbela, que dados esperam recolher dos voos ou do voo que o helicóptero vai realizar em Marte?
O helicóptero tem duas câmaras, e essas câmaras estão posicionadas para se ver como reagem as pás do rotor e com essa informação teremos mais informações sobre o ambiente em Marte e sobre o comportamento do helicóptero em Marte. Com isso, é esperado recolher dados suficientes para futuras missões e para otimizar este helicóptero.
Os dados recolhidos em Marte com este mini helicóptero podem usar, por exemplo, a engenharia aeronáutica na Terra?
Acho que é mesmo para efeito em Marte. Poderá eventualmente, no futuro, ser útil, mas neste momento acho que o intuito é mesmo melhorar a exploração espacial a nível aéreo noutros planetas.
Para continuar missões aéreas noutros planetas da nossa galáxia. Florbela, vai continuar envolvida nesta missão?
Sim, a Maxon está a tentar fazer parte das próximas missões a Marte.
A Maxon, que recordamos, é a empresa em que trabalha também neste momento, não é?
Sim, Maxon Group, correto, aqui na Suíça. Esta missão Mars 2020 da NASA e do Perseverance tem como intuito recolher amostras ou criar amostras do solo marciano, e haverão duas missões a mais no futuro próximo, uma delas para recolher essas amostras que o Perseverance irá deixar no solo marciano e lançar as amostras para a órbita de Marte, e uma terceira missão que irá capturar essas amostras que estão na órbita de Marte e trazê-las para a Terra para poderem ser analisadas.
Florbela Costa, obrigado pelo seu depoimento e por nos ter ajudado a perceber um pouco mais deste ponto particular da missão espacial. Florbela Costa, engenheira aeronáutica envolvida na construção de um mini helicóptero que sensivelmente daqui a um mês vai levantar voo no planeta vermelho. Obrigado uma vez mais, Florbela Costa. Obrigado.
Obrigada eu. Boa noite.
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