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Uma equipa de investigadores da Universidade de Coimbra desenvolveu produtos para controlar o aumento das espécies de mosquito responsáveis pela transmissão de doenças como dengue, zika, febre amarela ou febre do Nilo Ocidental. Estes produtos são inovadores, de origem natural. Nós já vamos perceber melhor tudo isso, porque conosco está o coordenador deste projeto, Hermínio Sousa, investigador da Universidade de Coimbra. Hermínio, bem-vindo. Muito obrigada pela sua disponibilidade. Boa tarde.

Bem-vindo.

Boa tarde. Muito obrigado por me receberem.

Hermínio Sousa, em que medida é que são inovadores estes produtos? Falamos aqui da questão da origem natural. Isto era algo que não existia em produtos semelhantes no mercado, se é que eles existiam?

Estes produtos têm várias características inovadoras. Já existem outros produtos, também à base de produtos naturais ou de polímeros biodegradáveis. A inovação aqui tem mais a ver com a maneira como nós conseguimos controlar a libertação destas espécies biocidas, digamos assim. Ou seja, que permite que se aumente a concentração disponível, para que essas substâncias atuem como larvicidas em meio aquoso, ou também para serem usados em armadilhas como agentes atrativos para mosquitos, para as armadilhas, ou como agentes repelentes. Portanto, aquilo que nós conseguimos fazer é: desenvolvemos diferentes estratégias e diferentes formulações para cada uma destas situações e conseguimos fazer a libertação controlada e mais prolongada no tempo, de forma que este tipo de usos sejam mais práticos e mais acessíveis para a população em geral, que não necessita de andar sempre a aplicar o produto para fazer o controle.

Mas qual é o impacto ambiental de tudo isso? Porque tudo isto é à base de óleos, que são extraídos de plantas. Qual é o impacto ambiental?

O impacto ambiental é muito pouco, quer dizer, são substâncias que têm atividade biológica, portanto, contra as larvas e também têm atividade repelente ou atrativa, mas, no fundo, nós não estamos, de alguma forma, a usar os pesticidas, digamos assim, inseticidas ou larvicidas sintéticos, que são muito mais tóxicos do que estes óleos. E, portanto, dependendo da concentração, eles são igualmente efetivos para estes fins. E o que acontece é que para os humanos e para a maioria dos mamíferos, estes compostos não apresentam toxicidade. E também são biodegradáveis no meio ambiente, portanto, não causando esses danos para o meio ambiente.

E Hermínio Sousa, como é que isto tudo depois funciona? Como é que na prática afastamos os mosquitos?

Nós, neste momento, a parte que temos mais avançada é a parte do controle larvicida, que é um problema, por exemplo, como disse, isto é um projeto bilateral, portanto, envolvendo outras instituições no Brasil. E nós começamos pela parte larvicida, que é a parte que está mais avançada, porque depois, infelizmente, a pandemia veio atrasar muito a evolução das outras duas áreas. Portanto, nós, neste momento, aquilo que nós pretendíamos era arranjar formulações que pudessem ser facilmente manipuladas por qualquer pessoa, onde, no caso dos larvicidas, seria, por exemplo, para colocar em reservatórios de água. No Brasil, grande parte da população recolhe a água da chuva e armazena em tanques ou, por exemplo, uma aplicação muito simples, mas que passa por pôr, por exemplo, estes tipos de materiais que nós desenvolvemos nos pratos, por baixo dos vasos, parecendo que não, é um dos principais meios de reprodução dos mosquitos, especialmente no Brasil, onde chove abundantemente.

Ou seja, a utilização, no fundo, é fácil e depois poderá ser feita por cada pessoa em casa, por exemplo.

Exatamente. E no fundo, depois o que acontece é que como a libertação é lenta e prolongada, conseguimos, com poucas aplicações, ter um período de tempo prolongado com atividade larvicida. As outras partes que estão, como eu disse, um pouco mais atrasadas, tinha a ver com usar também produtos naturais para atrair os mosquitos a armadilhas e também para desenvolver, que essa parte também já avançou um pouco mais, verificarmos também o efeito repelente. E no efeito repelente, as formulações são diferentes, mas nós estamos essencialmente à procura também de substâncias e de formulações que possam ser usadas, por exemplo, desde aplicações na roupa, aplicações, por exemplo, à entrada das casas, que possam, de alguma forma, repelir o mosquito e impedir que ele entre em contato com os humanos.

E até que ponto é que aqui estamos, agora, até na sequência das alterações climáticas e com o aquecimento que estamos a verificar, e basta olhar para este mês de janeiro, que tem sido bem quente. Hermínio Sousa, até que ponto é que estamos sujeitos a mosquitos que não eram comuns por estas paragens?

Estamos bastante sujeitos. Aliás, aqui há uns anos atrás, houve um surto de dengue na Ilha da Madeira e o mosquito foi erradicado durante alguns tempos, mas a grande circulação de pessoas e o aumento de temperatura provocado pelas alterações climáticas vai fazer certamente Que estes mosquitos se estabeleçam em países temperados, como são os países do Mediterrâneo.

Que se tornem um problema de saúde pública.

Exatamente. Recentemente houve também um surto de febre chikungunya em Itália. Esta febre é transmitida por um primo do Aedes aegypti, que existe, por exemplo, em Portugal, que é o Aedes albopictus, e que já está referenciado como existindo em Portugal, tal como outra espécie, os japónicos. E esse surto relativamente recente provocou vários casos de febre chikungunya em Itália. Existe essa preocupação essencial que é a de controlar estes insetos, de forma que não se estabeleçam de forma definitiva nestas zonas, sendo que as alterações climáticas irão certamente contribuir para que isso eventualmente possa vir a acontecer. Mais uma vez, são as pessoas que transmitem a doença. É a picada de um mosquito que pica uma pessoa infectada e que depois ao picar outra pessoa lhe transmite também o vírus. Mas é o mosquito, sem dúvida, que é o responsável por fazer essa transmissão entre as pessoas.

E Hermínio Sousa, para terminar esta nossa conversa, em que ponto exatamente é que está esta vossa investigação e também em que ponto é que está essa colaboração com as entidades brasileiras?

Nós colaboramos com a Universidade Federal da Bahia, com dois laboratórios de investigação dessa universidade e também com a Fundação Oswaldo Cruz, a Fiocruz, como é conhecida no Brasil, tanto da Bahia como de Pernambuco. A Fiocruz é uma instituição de referência mundial no estudo destas doenças, na entomologia dos insetos vetores associados e tem uma grande experiência. E nós, neste momento, estamos a tentar reavivar e recuperar algum do tempo perdido devido à pandemia, no sentido de conseguirmos completar parte da investigação que nos propusemos fazer e também no sentido de encontrar futuras parcerias, de forma a desenvolver um pouco mais o nosso conceito, para que eventualmente possa, a médio prazo, ser comercializado como produto.

Hermínio Sousa.

É o ponto da situação atual.

Muito obrigada por ter partilhado connosco este projeto, no que é consiste exatamente. Hermínio Sousa, que é investigador da Universidade de Coimbra. A Universidade de Coimbra que, em conjunto com estas entidades brasileiras, estão a desenvolver estes produtos para controlar o aumento das espécies de mosquito responsáveis pela transmissão de doenças como o dengue, zika, febre amarela ou febre do Nilo Ocidental. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7, em Lisboa, e em 98.4, no Porto.