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No passado sábado, uma tempestade atingiu a Ilha da Madeira. O mau tempo trouxe aguaceiros, granizo, trovoada, que causou até um apagão na ilha.
Não é a primeira vez que a Madeira é atingida por temporais deste gênero. E para percebermos um pouco melhor estes fenômenos, temos conosco, em direto, Vitor Perior, o diretor do Observatório Meteorológico do Funchal. Muito boa tarde. Obrigado por estar conosco aqui na Rádio Observador. O que acabou por provocar este temporal, que provocou também muitos prejuízos na Madeira?
Este temporal teve origem numa depressão de forte atividade e grande instabilidade, que se formou na região da Madeira durante a sexta-feira passada e no sábado, deu origem àquilo que sabemos, mais ou menos, a grandes valores de precipitação. Esta depressão manteve-se estacionária durante bastante tempo. Deu origem a períodos de chuva ou aguaceiros que foram violentos em praticamente toda a Madeira, exceto no Porto Santo, em que os valores da precipitação foram baixíssimos, meia dúzia de milímetros. Durante a manhã, os aguaceiros foram mais fortes na costa noroeste da Madeira, em Santana e na Ponta de São Jorge, e também no Caniçal, na transição norte-sul.
E, Vitor Perior, nós estamos aqui a falar de uma tempestade onde existiram mais de 20 mil descargas elétricas. Isto é um número normal ou não? Uma delas, sabemos, causou o tal apagão, que falávamos há pouco.
Sim. Um bom testemunho de que não é habitual termos este tipo de situações, portanto, trovoadas e raios associados, é o testemunho das próprias pessoas. Eu tenho conversado com pessoas mais novas e com pessoas mais idosas e toda a gente me diz que não tem memória de uma situação deste tipo. Foi uma situação em que tivemos recordes de valores da quantidade de precipitação e acredito também que, em termos de descargas elétricas atmosféricas, terá sido também um recorde.
Certo. As mais de 20 mil descargas elétricas, como dizia há pouco.
Sim, mas eu só queria acrescentar, quando se fala em 20 mil descargas elétricas, numa área com um raio de 100 km centrado na Madeira. Não é na Ilha da Madeira propriamente dita. E este número de descargas elétricas inclui as descargas entre nuvens ou intranuvens e foram cerca de 18 mil. Os raios que atingiram a terra ou o mar terão sido cerca de 2 mil.
Certo, fica esse dado também importante. E Vitor Perior, a região da Madeira é uma região mais vulnerável a este tipo de fenômenos? Nós, como dizíamos no início, este não foi obviamente caso único. Aliás, nós temos más recordações de tempestades que atingiram a Madeira. Portanto, pergunto-lhe se a região é mais vulnerável a este tipo de situações.
Aquilo que temos visto, principalmente desde 2010, os fenômenos adversos e mais violentos têm sido registrados nos últimos 10 ou 11 anos, tanto em termos de precipitação, como em termos de seca ou de temperaturas extremas. Isso pode ser mais um indicador de que estamos mesmo na presença das alterações climáticas, que todos os dias se fala, como fenômenos meteorológicos adversos e excepcionais, que são visivelmente mais frequentes. Relativamente a esta situação de raios, eu posso dizer, estou na Madeira há uma dúzia de anos, passaram-se vários anos em que eu me perguntava a mim mesmo, passavam-se anos em que não ouvia um trovão, que não via um raio. Isto poderá ser uma situação cíclica e no próximo ano poderemos voltar a uma situação em que as trovoadas sejam muito menores.
Mas neste momento queria só perguntar-lhe uma coisa: há motivo para preocupação por parte das populações ou a mensagem é de tranquilidade neste momento? Ou seja, foi um fenômeno que dificilmente se vai repetir com a mesma intensidade. Ou é difícil de prever?
Aquilo que está previsto para os próximos dias, é na quarta-feira, em que teremos a aproximação e passagem de uma depressão frontal. Estão previstos valores da quantidade de precipitação que poderão ser pontualmente elevados e acompanhados de trovoada, mas que não será uma situação como aquela que se registou no sábado passado.
Portanto, a situação será mais calma. Vitor Perior, agradeço lhe ter estado conosco. É diretor do Observatório Meteorológico do Funchal. Ajudou-nos aqui a perceber esta tempestade que atingiu a Madeira este fim de semana, acompanhada de muitos aguaceiros, granizo, trovoada, que provocou esse tal apagão durante várias horas. Como ouvimos aqui Vitor Perior explicar, a situação meteorológica na Madeira volta a piorar na quarta-feira, mas com o nível de intensidade bastante inferiores. Voltemos a falar de ciência amanhã, na tarde, em direto. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7, em Lisboa, e em 98.4, no Porto.