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Nos próximos minutos falamos de desporto na Rádio Observador. É mais uma edição de "E o Campeão É". Hoje com os comentários do Gabriel Alves, do João Castro e também do Pedro Henriques. Sejam todos muito bem-vindos. Espero que estejam a ter uma boa terça-feira. Vamos começar o programa de hoje a abordar uma entrevista de um protagonista do desporto que faz parte de uma classe que, por norma, não tem muito espaço de antena. Falo de João Pinheiro, árbitro português que deu uma entrevista ao Canal 11 sobre a passagem que teve no Campeonato do Mundo. Não foi o único tema que abordou o árbitro. Gabriel Alves, vou começar precisamente por ti, e a pergunta que te faço é se gostaste de ouvir um árbitro a falar sobre o que acontece no campo do ponto de vista do juiz.

Sim, boa tarde. Acima de tudo, a serenidade com que João Pinheiro esteve nesta conversa. E noto já aqui uma questão, eu vou tocar aqui três pontos. A questão de os árbitros, ele dizendo que é uma pessoa algo fechada, não aparecendo, mas notando que para as pessoas se aperceberem do outro lado daquilo que é a arbitragem, que naturalmente que haverá aberturas por parte dos árbitros e a arbitragem tem que falar mais, tem que, obviamente, dar a conhecer exatamente esse lado. Se fala muito deles e eles falam muito pouco daquilo que é a arbitragem. E eu penso que esta, de forma como foi dita, serena, tranquila, acho que é um dos temas que me parecem importantes. A outra, que tem sido muito glosada na comunicação, é o ter desvalorizado, porque é a pergunta, o que se passou com o Messi. A sua serenidade, quando se lida com o Messi, lida-se com o Cristiano Ronaldo, obviamente, as situações têm algum apontamento, mas é o que ele diz. De eu entender que essas situações são diversas e diferentes, mas normais entre árbitros e jogadores. Ele desvalorizou. Eu acho que isso é importante, esta desvalorização que ele fez, não deixando de, obviamente, de notar que falar com o Messi e Cristiano Ronaldo, foram os jogadores que ele trouxe a terreno. Haverá outros, não só estes, nesta situação, quando agora a própria, digamos, internacionalmente e a própria UEFA disse, se calhar, eu vou abordar aqui durante este programa, volta a insistir e dizer naqueles casos de só o capitão e mais ninguém fala com o árbitro. Portanto, que é importante. Depois há aqui um ato que me parece que é mais a ver com a arbitragem, que de facto me parece também com as leis da arbitragem, que é aquela também muito falada, aquela alteração de amarelo para um cartão vermelho com o jogador suíço Embolo. Transformar um amarelo em vermelho, esta situação de simulação, ele inclusive explicando que não é questão só do segundo, o primeiro também, porque até ele acha que as alterações da FIFA são positivas. Ele explicou isso muito bem e naturalmente, certamente, a deixa para o Pedro Henriques, quando na própria UEFA, neste momento, eles também, a UEFA vai querer adotar.

E é precisamente ao Pedro Henriques que vou a esta hora. Bom dia, Pedro. Tu és ex-árbitro, tens algo a apontar ao que disse João Pinheiro nesta entrevista? E pergunto também se isto é sinal de que há mais margem para escutarmos os árbitros, sendo que aqui não és bem exemplo, tu és escutado todos os dias aqui na nossa antena.

Bom dia. Olha, em primeiro lugar, aproveito esta última deixa do Gabriel Alves para dizer, já agora, fazem um favor, agora quando desligares, vai às redes sociais e vai pedir a toda a malta, não posso citar os sites, porque pode parecer mal, que andaram a colocar a fotografia do João Pinheiro a dizer que a diretiva e aquilo que o João Pinheiro fez nessa questão, exatamente o que aqui o Gabriel falou da troca de identidade, foi incorreta e que a UEFA não vai aprovar e que foi mal utilizada. Portanto, eles que leiam a circular 32, o ponto três, e percebem que a UEFA está a dizer exatamente o contrário, a dizer que aquela interpretação que foi feita da troca de identidade correu tão bem, no sentido de que realmente foi bem aceite, que é para evitar aquela malta que simula e que dá amarelo, e tem que levar amarelo, e quando o árbitro se engana e acaba por penalizar o jogador que supostamente fez a falta que não fez, e que, portanto, essa troca de identidades tem que existir e continuar a existir. A FIFA fez aquela interpretação, se calhar no texto original não era essa a ideia, mas aquilo correu tão bem que eles vão adotar. Claro que depois isso ganha relevo quando esse jogador que vai levar amarelo por simulação, como aconteceu com o João Pinheiro, por isso é que tomou mais relevo, acabou por ser o segundo. E portanto, ao contrário do que estão a dizer, é só irem às redes sociais e verem uma série de malta que está a dizer: "Ei, afinal o João Pinheiro aplicou mal." É mentira, aplicou bem, à luz do que a FIFA quer e a UEFA, neste momento, que não fazia a interpretação assim, diz que a circular 32, em breve, vai ter essa revisão e vai lá colocar isso. Pediu para não aplicarem ainda, até terminar a revisão, mas a revisão já nos mostra que o ponto três vai dizer: "Sim, senhor, isto é para ir para frente." Relativamente à entrevista do João Pinheiro, ele tem razão, obviamente. Repara bem, eu já saí em 2010, portanto, já no meu tempo, nós falávamos da abertura, que os árbitros têm que se abrir mais ao exterior, explicar. Ele na entrevista explica várias coisas, o trabalho que faz com os dois psicólogos que tem, etc. Explica o que faz concretamente com eles. E isso é importante para se passar o lado de quem também se prepara, tal como uma equipa que trabalha, que tem o nutricionista ou tem um treinador de árbitros, parte física, de recuperação, o que quer que seja, tal e qual como as equipas e os jogadores têm, obviamente. E esse trabalho existe. Há muito esta ideia dos clubes, inclusivamente, que é o árbitro chegar ali ao fim de semana, olha para o relógio: "Epá, hoje tenho um jogo." Tem que ir apitar o Benfica ou o Porto, dispara e guerra na mal e vai. Não, não é assim. Se as pessoas fossem ver o microciclo semanal de um árbitro, se calhar

Se calhar, diziam assim: "As equipas não trabalham tanto". Mas é só se calhar, deixamos aqui esse desafio. E o João Pinheiro quando fala, e termino com isto, que realmente os árbitros têm que ter mais essa abertura, não deixa de ser curioso porque o ano passado, o anterior conselho de arbitragem, ou pelo menos o anterior diretor técnico nacional, que entretanto já se demitiu, quando de repente passa para a televisão, nomeadamente para a TV Canal 11, a fazer programas, que do meu ponto de vista até foram demais, mas a fazer programas, a explicar os óbvios. De repente foram os próprios árbitros internamente que ficaram desconfortáveis com o fato do seu diretor técnico nacional estar a falar sobre os casos. Querem mais abertura ou não querem? Ou não é esse tipo de abertura que querem? É eles a falarem? É que se forem eles a falarem, o que também não me choca nada, é preciso prepará-los, porque eu tenho visto aqui algumas entrevistas, não foi o caso do João Pinheiro, obviamente, que está noutro patamar, de alguns árbitros, quando falam, eu sinto-me um bocadinho envergonhado da maneira como eles falam, porque ninguém lhes ensinou a comunicar. Isto não é só falar, é preciso depois preparar os árbitros para saber falar, para saber comunicar e como comunicar. De qualquer maneira, uma entrevista de grande serenidade, de grande tranquilidade, de alguém que viveu por dentro o Campeonato do Mundo, que é a prova, se calhar, para os jogadores também. Está bem que a Champions League é a Champions League, mas para a maior parte dos jogadores representar a sua seleção e estar no Campeonato do Mundo é o topo máximo. E para os árbitros de futebol, obviamente, uma elite muito reduzida chega lá e o João Pinheiro, com a idade que tem, bastante novo, chegou lá e está de parabéns pela entrevista, está de parabéns pela prestação que teve e fico feliz por ver esta abertura e esta possibilidade do João Pinheiro também explicar um bocadinho do seu ponto de vista, que no fundo é o ponto de vista dos árbitros.

João Castro, bom dia. Quero também ouvir sobre este tema.

Bom dia. Eu acho importante, é um agente ativo do jogo e cada vez com mais preponderância, porque também obviamente existe o VAR para as correções ou não correções daquilo que se passa em campo e, portanto, acho fundamental os árbitros também comunicarem. Concordando com o Pedro, que é preciso saber comunicar, não é só falar. Portanto, acho que tem que haver também uma preparação e mesmo no curso de arbitragem, e agora vou falar com a minha ignorância, não sei se existe ou não uma cadeira de comunicação, mas se existir ou se não existir, acho que devia existir. E portanto, acho que transparece o lado humano, que as pessoas às vezes esquecem-se da pressão que os árbitros sofrem durante a semana, durante o jogo, no pós-jogo, que é muito, obviamente, quer seja de pessoas desconhecidas, redes sociais, amigos, etc. Portanto, acho que é preciso uma grande preparação e vejo que alguns árbitros estão bem preparados e bem acompanhados com preparadores físicos, nutricionistas, psicólogos. E eu acho que isso é importante. Quanto mais condições o árbitro tiver para executar melhor o seu trabalho, menos erros vai haver. E eu acho que isso é importante para o futebol e portanto, acho que realmente deviam falar mais os árbitros, não podendo ficar melindrados que as pessoas discutam os erros, porque também se discutem os erros do treinador, também se discutem os erros dos jogadores. Claro que, se calhar, discute-se de maneira diferente e aí percebo. Mas conseguirmos falar e educar as pessoas também nesse aspecto, falar com normalidade os erros de treinadores e de jogadores e depois os erros dos árbitros, quanto mais normal for essa discussão, mais saudável pode se tornar. Portanto, acho bastante positivo este tipo de abordagem por parte dos árbitros.

Vamos avançar no "E o Campeão é" de hoje para abordarmos a carta aberta de Gianni Infantino, presidente da FIFA, que faz uma análise extremamente positiva do Campeonato do Mundo de 2026, que terminou agora nos Estados Unidos, no Canadá e também no México. Diz Infantino, nesta carta aberta, que correu tudo bem, mas apenas percebeu isso quem olhou para lá do ódio e que não há grandes incidentes a reportar. É o que, em traços largos, diz Gianni Infantino. Gabriel Alves, Gianni Infantino viu o mesmo mundial que tu?

Olha, não sei se é de sorrir, de rir, que é grave. Não, isto é de facto lamentável. Quando ele diz, faz a mensagem: "Sinto muito que estejam tão consumidos pelo ódio". Mas senhor Infantino, quem é o senhor? Vai ser presidente da FIFA, no presidente dos Estados Unidos, na mente dele, poder vir a ser secretário-geral da ONU. Está-lhe direito a tudo. Bom, olhe, eu vou pegar em Tebas, presidente da La Liga, que lhe respondeu de forma fantástica. Então é assim, responde Tebas: "Escreveu uma mensagem patética". Ponto. E depois diz, Tebas, estou a citar: "A transparência, a boa governação, a prestação de contas nunca são ódio, são uma obrigação. As instituições fortes não desacreditam quem pergunta, respondem às perguntas". E deixou, atentem observadores, uma reflexão. Uma reflexão, Gianni. Quando um dirigente dedica uma mensagem intensa a desqualificar aqueles que exercem um escrutínio legítimo, é inevitável perguntarmo-nos: por que precisamente agora? Há algo que explique um tom tão defensivo? Estará a acontecer algo que desconheçamos? Tebas. De facto, não senhor.

João Castro, quero também ouvir-te sobre esta carta aberta de Gianni Infantino para dividir aqui o tempo de forma correta. Vou pedir-te um minuto e meio para depois também um minuto e meio ao Pedro e conhecermos as notas de hoje.

Sim, chega. Eu acho que esta carta do Infantino é exatamente o mesmo sintoma que aqueles treinadores que dizem: "Nós vemos que a equipe joga mal, que as coisas não estão a funcionar ou que não funcionaram". Claro que há algumas coisas positivas, mas muitas negativas. E os treinadores no final do jogo dizem: "Estamos a jogar bem, estamos a evoluir, merecíamos ter ganho, tivemos muitas oportunidades" e toda a gente viu o contrário. E é exatamente isso com o Infantino. E, portanto, para ele, acho que está tudo bem. Ele esteve lá no camarote, andou de avião de trás para frente, jogo para jogo, meias-partes, gastar combustível, etc. E depois não vê os preços caros, infração das regras, como é o caso Belhogan, os jogadores a ser revistados, os jogadores que não puderam entrar no país, o árbitro que não pode entrar no país O lado muito mais comercial do futebol, a promiscuidade com a política, tudo o que o futebol nunca teve, porque é o jogo do povo. Portanto, quando o líder máximo da FIFA vem com isto, é sinal que algo está mal. Quando o líder não vê as coisas, eu acho que não lhe vai correr muito bem. Vamos esperar os próximos capítulos, mas é claramente o síndrome do treinador que acha que está tudo bem.

Pedro Henriques, um minuto e meio também para eu perceber o teu ponto de vista.

Até porque o João tocou nos pontos que eu também queria tocar, e o Gabriel Alves também. Basicamente, um árbitro que é impedido de ir ao mundial, correu bem? A forma como o Irão foi tratado, correu bem? A questão de retirar do cartão vermelho um jogador por suposta influência do Trump, pelo menos ele próprio fez questão de dizer que teve mão nisso, correu bem? Os preços dos bilhetes, correu bem? Um intervalo de 30 minutos adulterando aquilo que diz a Lei 7 sobre a duração do jogo, até por uma questão de saúde, não exceder os 15 minutos. Foram 27 minutos e uns segundos para dar um espetáculo, correu bem? Eu já nem vou ao resto. São nesses aspectos que obviamente não correu bem, e que se percebeu que o futebol não foi só futebol, e que houve aqui muita política metida no meio, que não pode acontecer, e que esperemos seja um bom exemplo para aquilo, daqui a quatro anos, Portugal, Espanha e Marrocos possam fazer diferente nesse aspecto. E haveria muitos outros temas que poderíamos aqui analisar. E como diz o Gabriel Alves, porque no fundo parafraseou o presidente da La Liga, penso que foi o senhor espanhol que falou, é para dizer o seguinte: as instituições quando são escrutinadas, não tendo nada a esconder, só têm que dar respostas. Não tem mal nenhum que se faça esse escrutínio. Mal tem quando precisamos dizer que vocês não devem perguntar. Não, isso não pode ser. E portanto, não correu nada bem, e o senhor Infantino realmente está exatamente em modo ex-selecionador de Portugal. Jogávamos péssimo, jogávamos mal, mas estava sempre tudo bem. Pronto, deve ser um vírus que se pegou a eles.

Meus caros, 30 segundos para ficarmos a conhecer notas e campeões de cada um de vocês. Gabriel Alves, começo por si.

Vou dar 18 ao Zidane, que toma conta 14 anos depois de ir deixando a seleção francesa, mas precisamente por capacidade de liderança. Pois, perguntaram-lhe logo: "Já falou com o Mbappé?" Ele respondeu: "Não, não conversamos com o Mbappé. O mais importante é ele descansar depois desta longa época. Teremos a oportunidade de falar com ele e com os outros jogadores em setembro". Ah, Zidane, sabes mesmo disto. Olha, 20 para o Sidney Cabral pelo gol mundial, que sirva de desafio e de estímulo à carreira, e não a nariz levantado.

João Castro, 30 segundos para conhecer as tuas notas e os teus campeões do dia de hoje.

Olha, 18 para o Zidane, nota negativa para Infantino e nota negativa para a Federação Italiana e para o caos que está naquela federação. Com este caso, com a demissão do Maldini, com o Pirlo a ser vetado para ir para a seleção. Portanto, está uma confusão, e daí, se calhar, por esse motivo é que a Itália não vai ao mundial. É a Casa da Federação Italiana que precisa de ser reconstruída.

Agora, aparentemente, será Roberto Mancini o novo selecionador italiano. Pedro Henriques, 30 segundos também para as tuas notas e os teus campeões.

Para não ir ao encontro destas notas que foram dadas e bem, porque são os temas do dia, vou dar 20 mesmo à entrevista do João Pinheiro, bem o Canal 11 na entrevista que fez, nas perguntas e na forma também serena. Foi muito bom ouvir o João Pinheiro e vê-lo dentro de campo, e agora também foi muito bom vê-lo fora das quatro linhas com a serenidade habitual, a falar tranquilamente sobre arbitragem. Nota 20 para o João Pinheiro, não só pelo que fez no mundial, mas também pela entrevista de ontem.

E é com uma nota máxima que fechamos a edição de hoje de "E o Campeão É", com os comentários do Gabriel Alves, do João Castro e também do Pedro Henriques. Um muito obrigado a todos.