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Bem-vindos de regresso a mais um "E o Resto é Ciência". Eu sou o José Manuel Fernandes, comigo está o Miguel Miranda, geofísico, antigo presidente do IPMA. Hoje vamos acabar a falar das bilhas de Canéssas. Para quem não tem a nossa idade, é uma coisa estranha, mas antes de irmos às bilhas de Canéssas, vamos sobretudo falar do problema da água e daí as bilhas de Canéssas. Aparentemente, a água nas últimas semanas e meses tem sido abundante, mas a ideia que muitas vezes existe, e que não é completamente falsa, era que ela ia ser cada vez mais rara e em Portugal tornar-se mesmo uma raridade. Eu vou citar aqui uma frase já dita há quase 20 anos, é uma frase de 2008, portanto há 18 anos, uma frase de um acadêmico, professor universitário e de um divulgador e meteorologista, Antímio de Azevedo, que quem via antigamente o Boletim Meteorológico recorda-se. Filipe Duarte Santos é alguém que tem tido até livros publicados sobre alterações climáticas. E numa peça do Correio da Manhã, eles anteviam que se se confirmassem as conclusões do Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas, o painel das Nações Unidas, eles diziam: "Daqui a 17 anos pode não haver água para boa parte dos portugueses". E depois explicavam porque é que isso podia acontecer. Isto tem a ver com o degelo, com o subida da água do mar, com a invasão dos aquíferos, que é a água subterrânea, por água salgada. Não aconteceu exatamente como eles diziam, mas a água é um recurso que parece umas vezes excessivo, outras vezes escasso, até porque nós vivemos recentemente algumas secas. Miguel, o que se passa? Por que esta previsão, quase apocalíptica, não se materializou?
Todas as previsões têm problemas. Porque elas são previsões, não são futuros antecipados. E neste caso, estamos a falar de duas pessoas inquestionáveis, ou seja, o Antímio era um meteorologista profissional, conhecido de muitos portugueses. O Filipe Duarte Santos é talvez o maior divulgador da mudança climática em Portugal, e um físico, um currículo mais que reconhecido. E contudo, ao terem tomado como verdade as conclusões, penso que era, não sei se não seria o primeiro painel do IPCC, chegaram a uma conclusão claramente apocalíptica que em 2025 não haveria água doce em Portugal. Mas, por exemplo, nós formos ver artigos mesmo mais recentes e trabalhos das equipes que têm trabalhado mais em modelação, não são de forma alguma tão dramáticas, mas apontam para o fim do século, reduções cerca de 40% da precipitação no Sul e de 20% da precipitação no Norte.
Não é uma previsão muito recente. É recorrente essa ideia. Eu recordo-me de, talvez ainda no final do século passado, que já foi há mais de 25 anos, uma das primeiras pessoas a trabalhar sobre isto, que foi o Luís Veiga da Cunha, ter feito umas primeiras previsões. Eu penso que na altura ele estava em Bruxelas, a trabalhar. Previsões de que de facto o sul do país ia ser afetado por uma seca crônica.
Contudo, num artigo muito recente da revista Science, onde se torna, de certa forma, a repor alguma dessas previsões, o editor da revista chama a atenção numa frase que eu vou ler: "À medida que a mudança climática continua, o aquecimento da atmosfera permite que esta retenha mais água" e, agora digo eu, mantendo o tempo de residência, ou seja, o tempo em que o vapor d'água está na atmosfera antes de precipitar, isto irá produzir mais precipitação. E portanto, temos aqui a contradição entre um princípio físico básico e o modelo numérico complexo.
Sim, para se ter ideia, nós estamos a falar de termos, como a atmosfera é mais quente, mais água, sob a forma de vapor d'água na atmosfera. Portanto, durar mais tempo antes de se precipitar de novo, mas isso não se distribui de forma igual pelo planeta.
Exatamente. Quer dizer, podiam os dois ter a verdade. Podemos ter mais precipitação no global da Terra e termos nalguns locais menos precipitação, porque há alguns efeitos dinâmicos que podem dominar os efeitos termodinâmicos. E, na verdade, esse é o entendimento que é transmitido por uma boa parte dos modelos. Contudo, é sempre preciso perceber que nós estamos a falar do norte do país, do máximo da precipitação, estamos a falar de valores muito elevados, mesmo para a Europa.
E já falamos um pouco disso. Nós temos na zona de Gerês, temos zonas de maior pluviosidade de toda a Europa.
Exatamente. E no Sul, estamos a falar de uma região, que é a região do Algarve, que tem uma pluviosidade muito mais reduzida, mas não estamos a falar de Israel.
Não estamos a falar de deserto ainda. Apesar de às vezes falar disso.
E, portanto, esta questão desta contradição Levou muitos cientistas a tentar olhar: "Mas o que se passa exatamente nesta região do mundo pra haver esta contradição entre as duas situações?" E há um artigo publicado, penso que o ano passado, que agarra 150 anos de dados de toda a bacia do Mediterrâneo, tanto a parte africana como a parte europeia, e conclui que isto foi uma região sempre de enorme variabilidade e, portanto, a variabilidade é mais importante que a tendência. E nós temos uma tendência, aparentemente, de perca de precipitação, mas temos uma variabilidade que se sobrepõe.
Eu acho que é melhor se explicares um pouco melhor isso. Quando estamos a falar de variabilidade, nós temos uma noção disso. No nosso próprio território, estamos sempre a recordar o Orlando Ribeiro, o Mediterrâneo e o Atlântico, mas, de facto, o contraste é mesmo muito grande. Entre o Gerês e o Algarve, estamos a falar de uma relação que pode ser à volta de sete, oito vezes.
Sim, entre 400 e 2.500, cerca de sete vezes, em termos de precipitação. E percebendo-se também que nós temos tido períodos razoavelmente longos de seca, de estio persistente. 2017, 2018 foi uma delas, 2021, 22 foi outra, e não sei se te lembras, mas em 2022 chegou a haver interrupção de fornecimento de água a habitações pra consumo doméstico. E foi preciso transporte de água por veículos dos bombeiros pra se poder ter água potável em muitas regiões. Noutras, intensificou-se o recurso à água subterrânea, com todos os problemas que isso envolve, e criou-se uma situação social de algum alarme, dizendo-se: "quem é que anda a gastar a água?" E aparece, como sempre, o amigo dos grandes gastadores, que é a agricultura.
Pois, mas a agricultura, vamos lá ver, nós não vivemos do ar. Temos que beber água, como é óbvio. Sem água, nós morremos mais depressa do que sem comida, mas precisamos nos alimentar, e a verdade é que nós não nos alimentamos sem a agricultura moderna.
Sim, mas lembra-te que até a sintaxe é diferente. Há quem diga: "A agricultura consome ou utiliza 75% da água", e há quem diga: "A agricultura gasta 75% da água". E aqui há um mundo de distância entre utilizar e gastar. E na verdade, o que se passa é que a agricultura utiliza uma parte da água, uma parte do ciclo da água, e aparentemente, mesmo à escala global, nós temos mais população, temos que ter mais alimento, ou temos mais alimento, precisamos de mais agricultura, precisamos de agricultura mais performante e, na verdade, essa agricultura mais performante precisa do recurso à água doce. Isso é completamente general.
A verdade é que não é preciso ser agricultor, basta andar nas nossas estradas e vermos que há uma evolução clara na forma como se utiliza a água. Recordo-me do tempo em que se abriam regos e a água escorria pelos regos, e portanto, a discussão entre as populações, designadamente nas zonas rurais mais montanhosas do Centro e Norte, era: "quem é que me roubou a água, quem é que me tirou a água?" E agora temos uma distribuição da água que, em alguns casos, já chega a utilizar a inteligência artificial, no sentido de perceber um conjunto de parâmetros, de evapotranspiração, temperatura, security do ar, do estado de desenvolvimento das plantas, tudo isso que permite minimizar o consumo de água. Mesmo assim, há também aquelas pessoas que dizem: "Ah, tá bem, mas com o Alqueva e com os olivais e as amendoeiras, o clima de Reguengos e daquela zona mudou e agora até chove lá".
E é verdade. Devo dizer que no caso do Alqueva, tem uma situação em que a ciência só tem vantagens pra mostrar. Trabalhos feitos antes da construção do Alqueva, pelo Rui Salgado e o Pedro Miranda, apontaram claramente pra pequenas mudanças no clima do Alentejo, que se vieram a verificar.
Mas são boas.
Mas são boas, são positivas.
Acabou por ficar um clima mais ameno, digamos assim, com menos extremos.
Exato. E portanto, é assim, nós temos que desdramatizar este assunto, como desdramatizamos muitos outros. Quanto é que chove em Portugal? Que água é que nós temos, exatamente? Se quiserem o número da meteorologia, nós temos uma média de 850 milímetros de precipitação no país, que claro, entre o mínimo do Algarve e o máximo-
Portanto, entre o mínimo, que anda nos 400 milímetros, e os 2.500 milímetros que pode chegar no Gerês.
Exatamente. Estes 850 milímetros, é perceber, um milímetro d'água significa um litro por metro quadrado. É a mesma coisa, dizer milímetros ou litros por metro quadrado é equivalente em Física. Ora, nós sabemos quantos metros quadrados tem o país. E, portanto, somos capazes de multiplicar. Desculpa, o país tem 92 mil quilômetros quadrados, penso que é o número que toda gente tem na cabeça, ou seja, 92 mil milhões de metros quadrados. Se multiplicarmos um número pelo outro, chegamos à conclusão que nós temos qualquer coisa como perto de 80 mil milhões de metros cúbicos de chuva. Quanto é que nós consumimos? Bem, nós consumimos cerca de 4,5 mil milhões de metros cúbicos.
Consumimos um pouco mais que um vigésimo.
Exatamente.
Simplesmente, há aqui um problema, não é? Há aqui um problema. A água não é como cair dentro de um tanque e ficar lá armazenada. Não é como aquelas cisternas que havia nos castelos, em que a água caía e podia ficar armazenada, protegida, sem grande evaporação, porque estavam debaixo de uma cúpula. Não é bem assim.
Não. A água evapotranspira das plantas e dos planos d'água de uma forma importante. Ou seja, se nós queremos fixar o número, eu diria que Nós estamos a falar de qualquer coisa como 600 milímetros de evapotranspiração.
Portanto, estás a dizer assim: caem-
850.
850, mas há 600 que se vão embora porque as plantas existem, não é?
Sim, e que são precisos, porque esta precipitação que se vai embora, fica na atmosfera e vai irrigar outros países. Atenção, tudo isto é um ciclo fechado. E depois nós temos cerca da diferença, que é cerca de 200 milímetros, que, na verdade, infiltram-se, escorrem e uma parte deles entra nas albufeiras, que a seguir são utilizados pra alimentação e pra consumo doméstico.
E esse equilíbrio, neste momento, como é que está? O que escorre não é quase tudo?
Não, porque mesmo se fizesse conta dos 200 milímetros, fica com facilidade, porque é um quarto, mais ou menos, dos 80 mil milhões. Estamos a imaginar 20 mil milhões, 4,5 mil milhões é o que estamos a gastar agora. Devo dizer que as previsões do consumo, em termos do futuro próximo, podem apontar pro dobro, o que significa que mesmo assim ainda temos aqui uma grande margem.
Como é que a gente pode chegar ao dobro?
Eu não sei, mas eu vi isso no site da APA e, portanto, acredito que seja verdade.
Porque apesar de tudo, enfim, nós podemos continuar a regar mais do que regamos, mas mesmo o consumo de água pela indústria e pelas pessoas.
É que nós temos que falar do outro problema, que é o problema da aridez. Quer dizer, independentemente da água e da evapotranspiração, nós temos mesmo uma temperatura mais elevada. E hoje a agricultura precisa de água pro regadio, mas também precisa de alguma água pro sequeiro. Portanto, mesmo plantações de sequeiro precisam de alguma irrigação. E, portanto, não é impossível, se nós tivermos um plano grande de desenvolvimento da agricultura em Portugal, e eu acho que devemos ter e temos condições pra isso, que nós tenhamos mesmo mais utilização de água pela agricultura. Mas se o tivermos, e se a produção agrícola acompanhar o volume de utilização da água doce, nós estamos numa fantástica situação, porque quer dizer que nós podemos ser grandes exportadores de produtos agrícolas, porque temos aquela combinação de água disponível e temperatura agradável e solo. Então temos energia e temos água, que são as duas matérias-primas principais da produção agrícola.
Pra não ter é solos, mas isso é outra, nem todos os solos são assim tão bons. Mas, além disso, há outra coisa que eu agora gostava que tu falasses, que é assim, tu há pouco disseste: gasta-se água na agricultura. A agricultura, já falamos disso, está bastante mais eficiente. Mas quando nós falamos de gastar água, não se gasta toda por igual conforme as culturas. Faz algum sentido falar de cultivos que são demasiado consumidores, ou isso também às vezes são mitos?
Eu penso que, em boa parte, são mitos. Nós, na verdade, primeiro, água não se gasta. É uma coisa que nós temos que saber. Água utiliza-se.
Utiliza-se, transforma-se.
E transforma-se. A atmosfera perde alguns elementos pro espaço exterior, mas essencialmente muito leves. Hidrogênio, hélio, os átomos mais leves da natureza. A água, a molécula de H2O, há percas mínimas de vapor d'água pra o exterior. Portanto, a água é um ciclo e nós, aqui, beneficiamos bem do ciclo da água, porque a água é evaporada do oceano antes de precipitar aqui. E nós estamos mesmo ao pé do oceano pra se nos precipitar em grandes quantidades. A agricultura é uma atividade econômica. É uma atividade econômica que tem, nalguns casos, um papel ambiental, quando é bem feita, mas é uma atividade econômica e, portanto, é evidente que a escolha das culturas pelos agricultores tem que ser feita em função, obviamente, do valor que elas têm e da água que consomem e dos solos que utilizam.
E do retorno de investimento que é feito.
E o retorno de investimento. É fundamental que quem tem por obrigação acompanhar esta atividade econômica, verifique o que é que está a acontecer aos solos, o que é que está a acontecer ao desperdício da água, o que é que está a acontecer, porque a água custa dinheiro. A água custa energia, e a energia custa dinheiro e nos tempos que correm, nos últimos dias, os custos de energia são capazes de estar a aumentar significativamente. E, portanto, como custa energia, não podemos gastá-la de uma forma tonta, temos que gastá-la de uma forma útil. Mas quando nós temos utilização de água na agricultura, que está a transformar Portugal num país capaz de produzir quantidades significativas de azeite, de amêndoa, de frutos de casca rija, de bagas, e isso se torna um valor econômico pro país e um valor social pro interior, então nós estamos a fazer uma boa utilização da água.
Sim, porque nós não podemos passar a vida a queixar-nos da desertificação e depois não termos pessoas no interior. No entanto, há exemplos, houve alguns exemplos, às vezes catastróficos, de utilização da água. Todos nos recordamos o que aconteceu com o cultivo do algodão, por exemplo, em zonas da antiga União Soviética, o atual Uzbequistão e Quirguistão.
Mas isso são regiões em que, mesmo na atual situação, não estão a ter um aumento significativo, como sabes, de precipitação. Porque, mais uma vez, há componentes dinâmicas na precipitação e a aridez nessas regiões que eram razoavelmente quentes, este aumento de temperatura que nós estamos a ter a uma taxa de cerca de 10,35 graus por década, como já falamos aqui quando falamos do AMOC, claro que aí começa a ter um impacto muito significativo.
Bem, mas nós agora temos que interromper pro nosso habitual intervalo. Estamos de regresso dentro de alguns minutos. Estamos em mais um "E o Resto é Ciência". Estamos a falar do consumo da água, de onde vem a água, para onde vai a água, do futuro da água. Há também aqui um outro tema que temos em Portugal, que é: a água não cai toda ao mesmo tempo. Portanto, ela é muito concentrada. Há climas onde a água chove de forma mais ou menos homogênea durante o ano todo. No nosso caso, não só o grosso cai, digamos, em 85%, cai entre outubro e abril, portanto, em menos de metade do ano, como parece haver uma tendência para inclusivamente se concentrar um pouco mais. Quer dizer, quando eu digo concentrar, é em menos tempo.
Em menos tempo. Repara bem, a diferença entre o Norte e o Sul é tão grande, na precipitação, como no escoamento. No Norte há grande escoamento, ou seja, a água que escorre mesmo sobre a superfície e vai para o oceano. Outra que vai para os rios e a seguir para o oceano, outra que fica infiltrada. No Sul, há menos escoamento.
No Sul há muitos cursos d'água que secam, simplesmente, no verão.
Exatamente. E há muito menos escoamento, anualizado. Claro, que por vezes há alturas de verão e há anos em que há mais pluviosidade. Mas o que é interessante é saber que os romanos perceberam isso. Os romanos perceberam tão bem isso que, apesar do período em que estiveram aqui na Península Ibérica, construíram uma quantidade significativa de albufeiras e de barragens, porque eles sabiam que era realmente preciso guardar do verão para o inverno. Claro, eles não tinham ainda a capacidade de guardar do Norte para o Sul, que é isso que eu penso que o plano Água que Une pretende agora fazer. O que é perfeitamente importante é que nós temos que ser mais espertos que os romanos.
Mas onde é que os romanos construíram as barragens? Nós conhecemos os aquedutos, mas não conhecemos as barragens.
Existem estudos feitos, eu não tenho aqui, mas existem várias barragens romanas feitas. Penso que é o professor Quintela, se eu não me engano, do IST, que tem estudos feitos, posso estar equivocado, mas é dessa equipa, dessa gente, que nos anos 50 do século passado fez a grande geração das empresas d'água, a Hidroprojeto, a Hidrotécnica, tantas outras que criaram fantásticas obras hidráulicas em Portugal, em África, e que tiveram realmente uma capacidade extraordinária, da qual eu digo ex libris, é claramente Caborabassa, onde eu já tive a sorte de estar e que é um hino à capacidade técnica e à ambição tecnológica dos portugueses.
Sim, eu nunca tive lá. Eu acho as barragens obras de engenharia fantásticas, mesmo aquelas que eu conheço em Portugal. Por vezes nós ficamos admirados sobre a dimensão que aquilo tem. Não sei se conhece o Lindoso, por exemplo.
Já lá fui uma vez.
Lá em baixo.
Mas eu digo-vos, não há nada como Caborabassa.
Pois, não deve haver.
Antigamente os ingleses diziam que tinham que ir à Sicília para ver Taormina, para fazer parte da educação. Eu diria que devia fazer parte da educação dos portugueses uma vez na vida ir ver Caborabassa.
Até por uma questão de autoestima. Falaste de uma coisa que é potencialmente muito controversa, que é trazer água do Norte pra Sul. Os espanhóis fazem já isso. É sempre um tema político, porque eles têm autonomias, lutas entre as autonomias. Aqui falamos basicamente de trazer água, porventura, da bacia do Douro pra bacia do Tejo e da bacia do Tejo pra bacia do Guadiana.
Eu penso que o que está em curso pra já é só da bacia do Tejo para o Sul. A minha opinião convicta é que nós temos que fazer a ligação dos 2500 milímetros aos 400 milímetros. Isso significa uma visão integrada do país, isso significa que nós não podemos estar a discutir os 4,5 mil milhões de litros, quando nós temos, apesar de tudo, uma situação confortável do ponto de vista de precipitação, e temos um cenário meteorológico, que é, à partida, do aumento de precipitação. À partida, não quer dizer que seja em todos os territórios, em todas as regiões. Mas uma coisa é verdade, é que nós precisamos de duas coisas. Primeiro, precisamos de engenharia do século XXI e não engenharia do século II.
O que quer dizer com isso?
Quer dizer, temos que ter obras de engenharia que não sejam ao nível dos romanos. Nós podemos gostar muito dos aquedutos, mas nós temos que estar um pouco à frente disso, bastante à frente disso.
Portanto, aí temos túneis, temos que ter bombagem entre barragens.
E temos que ter ecologia. Nós temos que ser capazes de, ao juntarmos água proveniente de duas regiões hidrográficas, na medida do possível, digamos, contrariarmos a migração de espécies de uma pra outra, por exemplo. E isso está hoje em dia na ciência.
Sim, pode haver espécies que sejam contaminantes. Se é toda a Península Ibérica, podem ser contaminantes.
Exatamente, e podem destruir os ecossistemas que existem na outra. E hoje em dia existe ciência pra resolver o problema. E se não existir, que se faça. Se não existir, então é uma prioridade, porque a água é uma prioridade. Outra questão que é realmente importante é perceber-se o seguinte: nós precisamos de mais armazenamento, provavelmente. E ao fazer o armazenamento de uma albufeira, nós temos que ter a consciência que podemos estar a sacrificar alguns valores ambientais. A ideia de que uma albufeira é sempre muito bonita, é verdade e é mentira, mas é uma coisa necessária.
E não devemos ter medo de que a água se evapore toda, como aqui há uns tempos se dizia.
Claro, a albufeira evapora um pouquinho mais que as plantas.
Também depende do sítio onde a albufeira estiver.
Mas evapora sempre mais. Digamos, os meteorologistas calculam uma grandeza chamada evapotranspiração potencial, que é o que evaporaria se a água estivesse toda disponível à superfície. E essa evapotranspiração potencial em Portugal é maior que a precipitação. Nós não temos uma albufeira que vá dominar o Algarve ainda. E para vos dizer que, nesse sentido, claro que planos muito grandes de água causam mais evaporação. Mas, mais uma vez, primeiro, a evaporação volta à Terra e nós estamos no princípio. O tempo corre do Ocidente pro Oriente, o tempo meteorológico. E, portanto, nós estamos no princípio da cadeira, estamos encostados ao Atlântico, temos europeus, antigamente ia-se até aos Urais, agora desce até à Ucrânia.
Mas só temos rios até metade de Espanha, digamos assim.
Exato, mas é nosso.
Correndo para cá.
Mas nós já estaremos assim tão longe de ter que fazer uma gestão da água a nível europeu? Se calhar não estamos tão longe quanto parece. Nós temos que começar a pensar numa escala diferente, porque o planeta está muito mais pequeno. As necessidades estão muito mais globalizadas e mais tarde ou mais cedo, vamos ter que pensar mesmo nessa questão. E depois há outra questão da água, que também é muito importante e que tem a ver com a sua gestão quando há água a mais. E quando há água a mais, eu penso que tem sido razoavelmente claro que nós temos tido zonas urbanas em risco por cheias rápidas. Tivemos situações, recentemente, dramáticas.
Sobretudo na zona de Lisboa. A zona de Lisboa é muito dramática.
Mas a bacia do Radier costuma ser, a bacia do Mondego costuma ser já repetidamente a mesma coisa.
Sim, mas aí não são cheias rápidas.
Não, aí são cheias lentas, mas muito impactantes. E é preciso compreender-se que nós estamos a ter aqui uma mutação geracional e de idade dos habitantes muito grande.
Sabe que houve uma coisa que eu achei muita graça nas reportagens das cheias do Mondego, que foi, a certa altura, houve uma reportagem muito engraçada de uma senhora da vila de Ericeira, que é aquela vila que fica muitas vezes isolada, e que no dia da votação meteu-se no barco, foi votar e voltou na maior tranquilidade e as pessoas estavam muito impressionadas. E eu ao mesmo tempo pensava assim: "Mas isto era a vida dela, até há pouco tempo. Isto era todos os anos. Agora é que Ericeira não fica isolada todos os anos." Portanto, para aquela senhora meter-se num barco, foi para ir votar, se calhar antes era pra ir à mercearia ou para ir ao centro de saúde. É habitual. Só que essas pessoas nós vamos deixar de tê-las. Essa memória vai desaparecer.
Essa memória vai desaparecer, mas em contrapartida, já temos mais de quase 3 mil pessoas com mais de um século. Nós estamos a caminho de ter milhares de pessoas centenárias em Portugal. E é evidente que essas pessoas têm algumas dificuldades de locomoção e de contacto.
Sim, nós temos, sobretudo, um fim de vida com pouca saúde em Portugal.
E um fim de vida com pouca saúde leva a que o nível de segurança das cidades tenha claramente que aumentar, e a água tem a ver com esse nível de segurança. Eu já não falo dos passeios onde não passa uma cadeira de rodas, porque isso é uma coisa que devia fazer enrubescer todos os autarcas. Falo do fato de num dia de inverno, porque o inverno não desapareceu, o inverno vai voltar todos os anos, porque é astronômico, num dia de inverno, com uma chuva persistente, ser muito difícil uma pessoa de alguma idade avançada circular numa zona urbana, ficar presa por causa de uma cheia rápida ou de uma sarjeta que não escoa suficientemente. Nós temos que adaptar também as nossas cidades a uma gestão de água mais eficiente. Não se fala só de usarmos a água da chuva para regar, que era uma coisa que seria básica. Não se fala também só de ter cuidados e ter desenhos de jardins que sejam sustentáveis. Fala-se de vivermos uma vida diferente, no sentido de uma relação com a natureza, que também tem que ter o seu reflexo na vida das cidades.
Mas hoje nós temos cidades que em muitos aspectos foram construídas sem a memória do que eram as cheias naquela zona. É evidente que a ciência pode ajudar a resolver esse problema, porque dá-nos uma estimativa do que é a cheia dos 20 anos, dos 50 anos, dos 100 anos. Mas o que é impressionante é que nós olhamos, muitas vezes, parece que apesar da ciência saber disso, o planejamento, depois, desconhece. O que se passou, por exemplo, talvez o mais evidente seja Alcácer do Sal, mas a baixa de Coimbra também é um exemplo disso, é como é que se construiu em zonas que se sabe que inundavam ou que podiam inundar.
Porque a memória das pessoas é muito curta em relação aos desastres naturais.
É como a memória do tempo.
É como a memória do tempo.
Está sempre mais frio e mais chuva e mais supercaloro.
Exatamente. E existe uma história conhecida que tem a ver com os vulcões. Os vulcões têm erupções razoavelmente regulares, os vulcões ativos, e as pessoas voltam sempre aos vulcões. É como o criminoso que volta ao local do crime.
Também nós não saímos de Lisboa porque houve cá o terremoto.
Exatamente, não saímos de Lisboa e vivemos cá da melhor maneira possível. Mas já que falas nessa questão da cheia dos 100 anos, que tem sido um assunto muito repetido nas últimas semanas, é preciso dizer o que é isso, a cheia dos 100 anos. Os regimes de precipitação, os regimes hidrológicos, são caracterizados nos seus dados observacionais pelo facto de de vez em quando terem valores extremos. Portanto, a distribuição estatística conhecida é uma distribuição que não é gaussiana, não tem tantos pequenos como grandes, não tem aquela forma de sino bonita, que o Gauss inventou.
Chamada curva de Gauss.
Exato, que é chamada curva de Gauss, mas os matemáticos entendem, e os hidrologistas, que se aproxima muito daquilo que se chama uma distribuição de Gumbel, que é uma distribuição que tem uma presença significativa de eventos extremos. E o que se faz em hidrologia é agarrar nas observações que têm ou de caudais ou de um valor hidrológico qualquer, e ajustar uma curva de Gumbel, que só depende de dois parâmetros, que é a média desvio-padrão, e uma vez ajustada, dizer assim: "A probabilidade que nós temos de haver uma cheia deste valor é 1%." E quando é 1%, é os 100 anos. O que se passa é que o aquecimento da atmosfera faz com que essas figuras comecem a ficar razoavelmente desajustadas.
Há mais humidade, pode haver mais momentos de extremos.
Mas é que a distribuição é tão assimétrica que pode acontecer que a gente diga assim: "Ora, os 100 anos não são 100 anos, são 50 ou são 25." Mas não está a chover o dobro. Não tem que chover o dobro. E essa é a questão que é matematicamente mais difícil de compreender. Matematicamente, não. As matemáticas compreendem isso bem. Nós é que temos dificuldade.
Intuitivamente é mais difícil de compreender.
É mais intuitiva.
Às vezes, quase com a mesma quantidade de chuva, pode haver mais extremos.
Exatamente. E o que é que acontece aqui? Acontece uma coisa que é complexa: é que as obras de engenharia são feitas para um certo período, para 50 anos ou para 100 anos, e portanto são feitas para resistir e ser capazes de gerir uma quantidade equivalente àquilo que a distribuição matemática aconselha, que vai acontecer em 50 anos. Se ela em vez de 50 forem 25 ou forem 20, quer dizer que vai acontecer três ou quatro vezes durante a vida da infraestrutura. E nós aí temos um grave problema, porque temos que redimensionar as infraestruturas para os novos 100 anos. E isso é uma situação que tem sido discutida em vários países da Europa, e não só, e que leva a um aumento claro de custos das infraestruturas, mas que se torna absolutamente necessário. O que nós observamos no Mondego, além dos problemas habituais de manutenção, mas isso observa-se todos os dias em Portugal, infelizmente, quantos desastres não acontecem, cuja explicação é sempre a falta de manutenção.
Nós, em Portugal, facilmente mobilizamos verbas para o investimento e muito dificilmente mobilizamos verbas para a conservação, a limpeza, a manutenção, assegurar que tudo funciona. É sempre mais bonito inaugurar do que depois fazer a parte chata que é ir lá limpar, ajeitar e contestar todos os anos.
Pois, e é por isso que voltamos à água de canecas. É evidente que ainda não é claro como é que vai evoluir a disponibilidade de água doce em Portugal, apesar da situação não ser tão dramática como parecia ser há 20 anos. E quando eu era jovem, e tu também, tu ainda nem tinhas nascido, provavelmente, não sei se alguma vez ouviste.
Não, eu tinha. Por acaso, quando tu referiste à água de canecas, eu lembrei-me perfeitamente disso. Em minha casa não havia com regularidade. Também, se calhar, éramos muitos irmãos e não sei se em tua casa havia, talvez também são muitos irmãos. Mas eu tinha uma pessoa de família, era só um casal, e sempre que lá ia, havia água de canecas. O que é a água de canecas? Que a maior parte das pessoas não sabe. Quando a água começou a chegar a Lisboa, primeiro, muitas casas não tinham água canalizada e a água que chegava não tinha uma grande qualidade. Portanto, começou a ser distribuído em Lisboa, a partir de fontes em canecas, água em bilhas, bilhas de barro, que tinham uma coisa maravilhosa, que é: o barro é poroso. E como é poroso, quer dizer que a água evapora através do barro, e ao evaporar, faz baixar a temperatura da água. Portanto, é uma espécie de frigorífico natural, digamos assim.
Claro, eu ainda hoje me lembro do sabor a barro dessa água.
Eu lembro-me mais da frescura. Eu lembro-me mais da frescura e de ver aquelas bilhas, que depois vinham em carroças primeiro e depois em camionetas, e tiveram até os anos 70, final dos anos 60, princípio dos anos 70.
Isso, para mim, permite-me falar de Física, que sabes que é a minha vocação. E, portanto, esse arrefecimento, que na verdade tinha a ver com o que se chamava antigamente o calor latente de evaporação e agora se chama entalpia de evaporação.
Entalpia é uma palavra?
Entalpia é uma palavra que está correta do ponto de vista físico, obviamente, e que é usada hoje em dia no ensino secundário, e que mostra um sistema interessante. Eu não sei se hoje em dia o barro poroso podia ser vendido ou se havia alguma diretiva contra o barro poroso feita pela União Europeia com um número de três dígitos.
Exigir vidrados e coisas do gênero.
Que venha exigir qualquer outra coisa. Mas sei uma coisa. Mas sei porque aprendi agora, porque fui ver ao site da Câmara Municipal.
A Câmara Municipal de Loures tem um centro interpretativo.
Porque é muito interessante ir ver, e ver que já nessa altura, cada bilha tinha o selo, que era colocado pela autoridade local, com certeza, que identificava qual era a fonte da origem da água.
Havia quatro fontes, se não me engano.
Havia quatro fontes, e esse selo custava dinheiro a quem vendia a água e a quem a comprava. E, portanto, de alguma forma, de alguma brincadeira, este foi um dos primeiros impostos ambientais que existiram em Portugal, porque sabes que o ambiente é sempre uma fantástica razão para nós pormos mais um imposto.
Sim, para as pessoas que estão a achar isto estranho, por exemplo, a ideia de que a evaporação provoca uma descida de temperatura é algo que qualquer pessoa tem noção disso, porque qualquer pessoa já se desinfetou com álcool. E ficou depois com a pele fria. É uma transformação da energia. Para evaporar é necessária energia, e essa energia vai-se buscar à medida que desce a temperatura. É uma coisa penso que simples de compreender. Mas nós, sem água de canecas, não vamos deixar de ter água. Quer dizer, nós hoje em dia temos um sistema que vem de Castelo Bode, em Lisboa, e na maior parte dos sítios estamos dependentes. Varia um bocadinho, porque há zonas em que estamos a ir buscar água a aquíferos, portanto, as zonas subterrâneas, e aí é um dos tais problemas. Voltando ao princípio da nossa conversa, era uma das preocupações do Antimi e do Filipe Duarte Santos era que houvesse uma invasão salina dos subterrâneos, uma língua salina, como se diz.
Exatamente. Claro que se por acaso existisse a situação do degelo rápido, do gelo que existe nas calotas polares, obviamente tínhamos um problema grave de invasão salina a um nível que não existe hoje. Mas para já, pelo menos no futuro próximo, mesmo com uma redução que aconteça da precipitação no Norte, parece existirem condições suficientes para uma certa estabilidade no abastecimento de água ao país e da sua utilização, desde a agricultura até à alimentação. E se chegarmos a uma situação extrema, em que não temos capacidade, por exemplo, de utilizar água subterrânea, porque o subterrâneo é uma espécie de barragem debaixo do chão. Se nós não tivermos capacidade de utilizar esse reservatório, o que terá dramáticas influências na agricultura e na vegetação, mesmo que não seja agrícola, nós então vamos ter que pagar em energia. E se tivermos que pagar em energia a dessalinização da água, é bom que os homens da fusão nuclear trabalhem mais depressa, porque nós precisamos ter energia abundante e mais barata.
Estamos precisamente numa altura em que não sabemos se as centrais de dessalinização da Península Arábica não vão ser atingidas por causa da guerra que está a acontecer, porque isso aí seria uma tragédia humanitária imediata. Porque ali não há outra fonte de água. Bem, nós por hoje terminamos. Portanto, com memória das bilhas de barro, com a perspetiva de que a água, por enquanto, não nos falta, mas temos que agir também com cuidado e, sobretudo, tratar de fazer aquilo que os romanos fizeram, que é armazenar o que for possível.
E geri-la. Armazená-la e geri-la.
E geri-la.