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E o resto é história. É apenas fumaça.

Do encento e palavra ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura. Atende, atende.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, sejam bem-vindos ao 28º episódio de "E o Resto é História", com a dupla do costume, João Miguel Tavares, que sou eu, jornalista, e à minha frente tenho o grande historiador Rui Ramos. Rui, o grande tema da semana e da semana desta que passou, desta que está a passar, acho que das futuras semanas também é o caso Luanda Leaks, que envolve muito diretamente Isabel dos Santos e que através de mais de 700 mil documentos, lança um olhar inédito sobre os esquemas financeiros daquilo a que muitos chamam a cleptocracia angolana. Ora, esta tendência para a cleptocracia não é exclusiva de Angola, na medida em que ela atravessa muitos regimes africanos. E a minha pergunta é esta: quando tu olhas para a história da descolonização, Rui, o que é que falhou? O que a colonização portuguesa, e não só a portuguesa, mas neste caso a portuguesa, poderia ter feito de forma diferente para que a elite angolana estivesse devidamente preparada para enfrentar a liderança de um novo país?

É fatal que nós regressemos à questão da descolonização para-

É o pecado original

...é, para interpretar mais de 40 anos depois o estado do regime angolano e de outros regimes africanos. O que é que correu mal no caso, por exemplo, de Angola? O que correu mal foi que a prioridade em 1974, 75 não foi exatamente concluir um processo de descolonização, mas simplesmente acabar uma guerra. Eu vou tentar explicar isso. O que significaria concluir a descolonização? Concluir a descolonização significava, depois de desmantelar as instituições coloniais que menorizavam a população angolana, como, por exemplo, o trabalho forçado, as culturas obrigatórias, o Estatuto do Indigenado. E isso tinha sido começado a fazer pelos próprios governos do Estado Novo antes de 1974. O grande protagonista dessa primeira descolonização, digamos assim, foi Adriano Moreira, enquanto ministro do Ultramar em 1961. Desmantelaram-se essas instituições coloniais que tornavam aquela população excluída da vida cívica, até mesmo em relação a um Estado de direito. E o que faltava era criar instituições representativas que tivessem permitido a essa população, por exemplo, votar e votar livremente, em liberdade.

Isso nunca foi possível durante o Estado Novo.

Isso nunca foi possível. Antes de 74, durante o Estado Novo, durante a ditadura, mas mesmo depois de 1974, houve uma primeira ideia, logo a seguir à revolução de 25 de abril de 1974, de que iria haver um processo democrático, isto é, com eleições participadas por vários partidos em todos os territórios administrados por Portugal, mas imediatamente isso caiu e ficou reduzido ao território metropolitano da chamada metrópole, isto é, ao Portugal europeu. As outras colônias ou províncias ultramarinas, como o Estado Novo lhes chamava, não tiveram a possibilidade de votar. O que aconteceu foi, pura e simplesmente, Portugal, a potência administrante, trespassou o poder aos chamados movimentos de libertação, isto é, aos partidos armados que tinham combatido a administração portuguesa antes de 1974.

E por acharem que tinham combatido, tinham um direito de tomar conta do poder.

Tomar conta do poder. E, por outro lado, como a prioridade para os governos portugueses depois de 1974 era acabar com a guerra, a melhor maneira de acabar com a guerra era entregar o poder a quem fazia a guerra.

Claro.

Uma vez que esses partidos armados não estavam disponíveis para disputar eleições, isto é, eles consideravam-se os representantes legítimos dos vários povos africanos.

Infelizmente, como havia mais do que um grupo, todos eles tinham ideias diferentes.

No caso de Angola, havia mais do que um grupo, mas há sempre um grupo que predomina, quer na Guiné, quer em Moçambique com a FRELIMO, na Guiné com o PAIGC e mesmo em Angola, depois com o MPLA, apoiado, aliás, pela administração portuguesa. Ora bem, estes partidos armados, que nunca foram sujeitos a eleições, a debates, a contestação, de certa maneira continuaram a colonização. E continuaram a colonização por quê? Primeiro, porque eram dirigidos por minorias europeizadas, gente que tinha estudado na Europa, que tinha aderido às ideologias europeias, como era o marxismo-leninismo, no caso da maior parte dos partidos que tomaram o poder nas colônias portuguesas.

Graças ao qual também, com essa vantagem de estarem juntos à União Soviética, recebiam equipamentos de militar.

Exato, e da China comunista também, mas sobretudo da União Soviética e de Cuba.

Era uma questão estratégica.

Sim, era aquilo que lhes tinha permitido fazer a guerra à administração portuguesa. E também porque entenderam o seu governo como uma oportunidade para transformar completamente as sociedades africanas. Iniciaram uma espécie de segunda colonização No caso de Angola, de Moçambique, de acordo com os princípios do marxismo. Aquilo que para muitas das populações locais foi entendido como uma agressão contra os seus costumes, contra os seus direitos tradicionais e que levou a grandes revoltas, quer em Angola, quer em Moçambique. Revoltas que obviamente depois se articularam com as lutas da Guerra Fria e com as tensões na África Austral, isto é, quer a contestação à FRELIMO em Moçambique, quer ao MPLA em Angola, são depois apoiados pelos inimigos da União Soviética e também pela África do Sul, interessada em desfazer o cerco que os Estados independentes africanos estavam a tentar fazer nos anos 70. O que aconteceu foi que, a partir daqui, há um isolamento destas elites. No caso de Angola, a elite do MPLA está em Luanda praticamente defendida por um exército de ocupação cubano, portanto era tipicamente uma situação colonial, com a revolta da maior parte da população de Angola contra o seu governo. Inicialmente estão inspirados pelo marxismo e depois do fim da Guerra Fria, em 1989, do fim do apartheid na África do Sul, aquilo que fazem é entender os seus regimes como meios de enriquecimento pessoal, até para consolidarem o seu poder. Isto não é típico de Angola nem de Moçambique. Em Angola acontece bastante porque o país tem bastantes recursos e foi possível explorar esses recursos, sobretudo o petróleo, mas noutros países africanos também se passou o mesmo. É o que temos na África portuguesa, é também o que temos em outras ex-colônias europeias em África, onde o processo não foi idêntico, isto é, às vezes não houve o trespasse tão direto como foi o caso de Portugal, que basicamente entregou o poder nas suas ex-colônias aos partidos que tinham combatido a sua administração. Noutros territórios houve eleições, por exemplo, estamos a lembrar-nos do Zimbábue, da Rodésia, depois o Zimbábue, mas eleições muito condicionadas, porque são eleições em que participam partidos armados, que continuam armados, e que são os partidos que negoceiam com a administração europeia em nome da população que se vai tornar independente. Portanto, os resultados são extremamente condicionados e geralmente dão grandes maiorias a estes partidos, que tornaram-se também cleptocracias. A cleptocracia, por exemplo, no Zimbábue também é tão grave ou a corrupção noutros países, porque a corrupção começa a se tornar uma maneira destas minorias, que são minorias, são pequenos grupos europeizados, de, por um lado, criarem solidariedade entre si, comprometendo-se, por outro lado, se relacionarem com o resto da sociedade através da corrupção. É o que há em Angola.

Muito bem. Rui, na semana passada voltou-se a falar da velha questão da fusão entre a PSP e a GNR. O ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, afastou logo a ideia, mais uma vez. E eu lembrei-me que temos uma antiga promessa por cumprir, que é falar um pouco da fundação da GNR e da sua evolução histórica, já que ela desempenhou um papel importante tanto no tempo da República como no Estado Novo. Aliás, o ouvinte Alessandro Vieira Braga, há coisa de um mês, enviou-nos um e-mail pedindo isso mesmo. Dizia ele: "Olá, sou um assíduo ouvinte de 'O Resto da História' através de podcast. Resido em Peçanha, Minas Gerais, Brasil". Portanto, este programa já chega ao Brasil. E ele diz: "Vim cobrar uma dívida. Alguns programas atrás, vocês prometeram gravar um programa contando a história da GNR, Guarda Nacional Republicana. Estou aguardando ansiosamente". Então, vamos a isso, Rui? Já vem tarde.

Vamos lá cumprir uma promessa com algum atraso. Sim, o ouvinte tem razão, nós já falámos aqui da polícia há uns meses atrás. Falámos dos quadrilheiros que o rei Dom Fernando criou em Lisboa em 1383. Falámos da Intendência Geral da Polícia da Corte, criada pelo Marquês de Pombal em 1760. E falámos depois da Guarda Real de Polícia, criada em 1801 e que foi o primeiro corpo de polícia tal como hoje o entendemos: uma polícia profissional e militarizada, com uniforme, salário, armas, etc. E também dissemos, durante o século XIX, esta polícia parecida com aquela que temos hoje era um exclusivo de Lisboa e também do Porto, sob a forma quer da Polícia Civil, um corpo de Polícia Civil criado já nos anos 60 do século XIX, quer sob a forma das chamadas guardas municipais a cavalo, que no caso de Lisboa tinham o seu quartel no Carmo, no centro de Lisboa.

Onde permanece.

Onde permanece. E são dessas guardas municipais que deriva a Guarda Nacional Republicana. Basicamente, essas guardas municipais receberam o nome de Guarda Nacional Republicana quando se proclamou a República em 1910. Portanto, a partir de 1911, 12 passaram a chamar-se Guarda Nacional Republicana. E é com a Guarda Nacional Republicana Isto faz parte da história da polícia em Portugal, que começa a haver polícia no resto do país, uma vez que esta GNR, a Guarda Nacional Republicana, toma as funções de polícia nas vilas, aldeias, isto é basicamente fora das grandes cidades, como ainda hoje acontece. A GNR é a polícia em metade das cidades portuguesas e na totalidade, ou quase totalidade, das vilas e das aldeias do país. Portanto, é a GNR que está lá. Mas a história da GNR é um pouquinho mais complicada, sobretudo nos primeiros anos da República. E complicada por quê? Complicada porque os governos republicanos sempre tiveram razões pra suspeitar do exército, onde desconfiavam haver muitos oficiais monárquicos, ou pelo menos inimigos da orientação de esquerda radical, vamos dizer assim, que a República assumiu a partir, sobretudo, de 1911, 1912. A prova disso veio em 1917, quando o Sidónio Pais tomou o poder com o apoio do exército.

Certo.

Em 1919, os partidos republicanos que Sidónio Pais tinha afastado do poder voltaram, e voltaram então tendo confirmado as suas suspeitas em relação ao exército, que não só tinha apoiado Sidónio Pais, como ainda por cima tinha participado na chamada Monarquia do Norte. Isto é, na tentativa de restauração da monarquia a partir do Porto em janeiro de 1919 com o Paiva Couceiro. Isso levou ao saneamento de muitos oficiais do exército, mas de qualquer maneira, os governos republicanos, sobretudo os governos da esquerda radical, que estava identificada com o chamado Partido Republicano Português, ou também Partido Democrático, que tinha sido liderado por Afonso Costa, esses governos desconfiavam do exército e começaram a privilegiar a GNR como uma espécie de guarda pretoriana do regime. Como é que isso se manifestou? Bem, primeiro, a GNR está toda quase concentrada em Lisboa, precisamente pra defender os governos de qualquer tentativa de golpe, e é dotada no princípio dos anos 1920, do século XX, portanto há 100 anos, é dotada de material de guerra pesado, incluindo artilharia de campanha. E em determinada altura torna-se mesmo-

Isso já não tem a GNR.

Não, já não tem. Torna-se mesmo uma força talvez mais importante do que o exército em Portugal no princípio dos anos 1920. Isto é, pela dotação de meios, era comandada por oficiais do exército, mas neste caso eram oficiais do exército da confiança do governo e muito identificados com o Partido Republicano.

Certo, e as atividades de repressão que fossem necessárias estavam, sobretudo, a cargo da GNR mais do que do exército.

Da GNR, mais do que o exército nesta época e sobretudo em Lisboa. Bem, o resultado disto foi a GNR, e sobretudo os seus comandos, envolverem-se completamente na política republicana. Isto é, a partir de um determinado momento, os governos dependiam, sobretudo, mais até do que do apoio do Parlamento, do apoio da GNR. Eram os comandos da GNR que, na prática, começaram a decidir quem é que formava e quem é que não formava governo. E isso levou, em determinado momento, a que o chefe do Estado-Maior da GNR, que era o coronel Liberato Pinto, que tem uma história engraçada porque viria a ser pai depois de um dos mais íntimos colaboradores de Salazar, mas nesta altura era uma das grandes figuras da esquerda republicana. O coronel Liberato Pinto chegou a ser primeiro-ministro em novembro de 1920, numa espécie de reconhecimento que quem mandava era a GNR, então a GNR que governasse diretamente. Em 1921, através do presidente da República, António José de Almeida, há uma tentativa de afastar a esquerda republicana do poder, isto é, nomear o governo na chamada direita republicana, aqueles que tinham sido os opositores de Afonso Costa. Liberato Pinto é admitido e há uma grande reação dos militantes da esquerda republicana, do Partido Republicano, a esta tentativa do presidente da República dar uma orientação mais conservadora, mais direitista à República. Há uma insurreição armada em Lisboa em outubro de 1921, a chamada Noite Sangrenta, em que o primeiro-ministro António Granjo é assassinado, e são também assassinados os fundadores da República, o Machado Santos e o José Carlos da Maia, porque eram identificados precisamente com a direita republicana, são também assassinados. E nesta insurreição armada, em Lisboa, a GNR tem uma grande participação. O choque da insurreição, isto é, da chamada Noite Sangrenta, é um choque muito grande para a República, estes assassinatos, ainda por cima dos fundadores.

Uma violência brutal também.

Uma violência enorme e uma anarquia, isto é, grupos armados a matar pessoas em Lisboa.

E heróicos.

Exato. Esta insurreição leva os governos, mesmo então, já do próprio Partido Republicano, a admitir que é preciso tirar importância à GNR, basicamente desarmar a GNR. E em 1922, os governos mandam cercar Lisboa pelo exército, mandam avançar o exército sobre Lisboa, e desarmam mesmo a GNR, que a partir de então começa a ser Dispersa pela província. O librado pinta é preso, começa a ser dispersa pela província, isto é, de repente começa a haver muita GNR na província, precisamente por estar a ser tirada.

Portanto, essa justificação hoje em dia, o que está no campo é para tirar da cidade.

O país passou a ter uma polícia local quando os governos republicanos em Lisboa perceberam que era perigoso ter uma guarda pretoriana na capital. Agora, claro, isto pagou-se, porque o exército sem o contrapeso da GNR acabou mesmo por derrubar o Partido Republicano do poder em 1926 e instaurar uma ditadura militar.

Eu queria te fazer uma pergunta em relação ao 25 de Abril, porque nós temos esse acontecimento histórico, que é quando surge a revolução, onde Marcelo Caetano se vai abrigar é num quartel da GNR, como todos sabemos, no Largo do Carmo. Portanto, dá a ideia que a GNR também aí era uma espécie de guarda pretoriana, neste caso, do Estado Novo. Essa ideia é correta ou não?

A GNR tinha sempre como vocação especial, e esta é a designação desta corporação policial, a designação social, que é uma força militar de segurança pública, portanto, é uma força militar, não é uma polícia civil, é uma força militar de segurança pública. A GNR tinha tido sempre como vocação especial a manutenção da ordem, isto é, a resistência a sublevações dentro do país. Aliás, as forças que avançam, ou uma parte importante das forças que avança sobre o Quartel do Carmo para enfrentar os revoltosos, o movimento das Forças Armadas que cercavam o Quartel do Carmo, onde estava o presidente do Conselho, Marcelo Caetano, essas forças são forças da GNR, que avançam e depois acabam por não continuar a operação, tal como outras forças militares de cavalaria também não continuaram, mas eram forças preparadas e o próprio Salgueiro Maia, numa entrevista, dá a entender isso, que tinha dúvidas sobre a capacidade até dos seus soldados, que eram recrutas da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, em enfrentar os militares da GNR. Isto é, a GNR estava armada e estava capaz de enfrentar uma força militar em Lisboa. Isto faz parte mais até do que da relação da GNR com o Estado Novo, que havia, mas faz parte também da natureza da própria Guarda Nacional Republicana como precisamente uma força militar que faz papel de polícia no campo, mas é também uma força capaz de desempenhar missões militares.

Mas daí a lógica, então, de Marcelo Caetano ter fugido para o Largo do Carmo.

Curiosamente, também estava previsto de ir para outros lados. Escolheu aquele e há discussões sobre por quê, enfim, mas isso é outra-

É outra pergunta

É outra pergunta.

É outra pergunta para o resto da história. Vamos apontar, então. Muito bem, assim termina esta primeira parte de "E o Resto é História". Voltamos já a seguir. Olá, sejam bem-vindos à segunda parte de "E o Resto é História", o episódio 28. Como sabem e como é habitual, nós privilegiamos as perguntas dos ouvintes nas segundas partes. Pode enviá-las sempre que lhe apetecer para historia@observador.pt. E esta pergunta do ouvinte Nelson Bento não poderia ser mais direta, Rui. Ele pergunta assim: "Qual é hoje o documento mais antigo existente na península ibérica? Onde está? Quem o escreveu? Qual o conteúdo?" Não sei se sabe responder a isto, é que parece que é uma pergunta óbvia, mas se calhar não é nada óbvia, eu não saberia.

Estas perguntas são as mais difíceis. As perguntas diretas são sempre as mais difíceis. Não é uma pergunta para interpretar, especular, mas para dar informação e a resposta que eu vou dar é uma resposta sob reserva, isto é, admito que possa haver outras respostas. Esta foi o resultado de uma pequena pesquisa que fiz, mas admito que possa haver outras respostas, que possa ter escapado alguma coisa. Portanto, se há ouvinte com outra informação, pode-nos num próximo programa passar essa informação. Primeiro, tem que se interpretar a pergunta. Apesar de tudo, tem que se interpretar a pergunta. Eu entendi a pergunta como o seguinte: em relação ao documento, percebi que era um documento original e, portanto, não uma cópia posterior. O que isso quer dizer? Quer dizer que há documentos muito antigos que nós temos, mas que existem sob a forma de cópias que foram feitas em tempos posteriores.

Certo.

Por exemplo, um documento do século IX, mas que existe uma cópia do século XIV ou no século X.

Um pouco como os evangelhos, não é?

Pronto, exatamente. O resultado da tradição manuscrita. A tradição manuscrita foi aquela que conservou uma grande parte daquilo que é a documentação antiga. Isto é, nós temos algumas sobrevivências diretas, mas a maior parte conhecemos através desse sistema de cópias. E depois, percebi que ele estava a falar de documentos originais em pergaminho ou em papel e, portanto, não em pedra, porque aí teríamos de incluir os romanos e outras, e até populações anteriores aos romanos. Segundo, que é produzido em território ibérico e não importado, isto é Eu estou a dizer não é importante porque os museus da Península Ibérica têm papiros egípcios e até tabuinhas da Suméria. Mas não estamos a falar disso, estamos a falar de documentos produzidos em território ibérico e que também se guardam na Península Ibérica. Isto é, que estão em museus ou arquivos ibéricos. Desse ponto de vista, a informação que recolhi, mas sob reserva e salvo melhor opinião, como costumam dizer os advogados, é que esse documento mais antigo, em pergaminho, é a doação do rei Silo de 775 depois de Cristo, portanto tem 1.245 anos. O rei Silo era o rei cristão das Astúrias e doou a alguns monges propriedades dele para eles, perto de Lugo, na Galiza, fazerem um mosteiro. E portanto, este documento em pergaminho, escrito em letra visigótica, seria o documento mais antigo na Península Ibérica, o documento original mais antigo na Península Ibérica, e está conservado na Catedral de Leão.

Ok, isso fica onde?

No norte de Espanha, Leão. O mais antigo em papel, estava a falar do mais antigo em pergaminho. O mais antigo em papel, não só na Península Ibérica, mas na Europa, é o Missal de Silos, conservado no Mosteiro de Silos, próximo de Burgos, mas produzido no Mosteiro de Santa Maria la Real de Nájera, em La Rioja. Estamos sempre a falar do norte de Espanha. É os reinos cristãos produzidos. E é um documento, este Missal de Silos, é um documento anterior a 1080 depois de Cristo, portanto, da era corrente. É um missal, curiosamente, de rito moçárabe, portanto é anterior ao rito latino que se introduziu na Península Ibérica a partir do século XI, XII. E o rito moçárabe ainda hoje é o rito que é praticado na Catedral de Toledo. É uma liturgia diferente daquela liturgia que depois é importada de Roma. É uma liturgia própria da Península Ibérica, para dizer a missa, e é diferente da importada de Roma.

E pode-se ir à Catedral de Toledo apreciar o rito moçárabe.

O rito moçárabe. Aparentemente, há missas lá numa capela segundo o rito moçárabe. Isto era na Península Ibérica. Mas acho que seria interessante falar ainda, até para continuar no tema moçárabe, e dizer o que são os moçárabes, para aqueles ouvintes que ainda se tenham esquecido. Referir o caso português, isto é, qual é o documento mais antigo que existe em Portugal. E também da informação que recolhi, mas sujeita a correções, se for necessário, esse documento seria também uma doação para constituir um mosteiro, mas feita por dois indivíduos, dois particulares, chamados Muzara e Zamora, para a fundação de uma igreja, a Igreja de São Pedro de Lardosa, e que foi redigido, este documento, por um notário chamado Godinus, talvez Godinho, na linguagem de hoje, que era presbítero. É um documento em pergaminho e data do ano de 882 depois de Cristo, 27 de março de 882. A data que está no documento não é 882, porque eles usavam uma era diferente, que era a era de César, portanto, é 920. Este documento é dois séculos e meio anterior ao reino de Portugal, que é convencionalmente lhe atribuído como data de fundação 1143.

E essa Igreja de São Pedro de Lardosa ficava onde?

Ficava no concelho de Penafiel, no distrito do Porto. E há quatro notas interessantes sobre este documento. A primeira é que é um documento que está em latim, porque o latim era a língua da escrita no noroeste peninsular, como no resto da Europa. Mas há deste documento uma análise do professor António Emiliano, publicada em 1999, que demonstra que a língua do autor do documento do tal Godinho, que era presbítero, a língua falada pelo autor do documento, que estava a escrever em latim, mas a língua que ele provavelmente falava, já talvez pudesse ser considerada um antecedente do português, porque há no latim do documento afloramentos de língua romance, isto é, de uma língua vernácula, que já é originária do latim, mas já não é o latim. E esses afloramentos indicam uma fonética, isto é, permitem deduzir que a fonética era já a característica do português. Não me peças mais pormenores, porque aquilo é uma demonstração extraordinariamente complicada. Portanto, remeto para o artigo, para o estudo do professor António Emiliano, que é fascinante. Como se sabe, os documentos escritos em galaico-português mais antigos são bastante posteriores, do século XII e XIII à chamada Notícia do Torto, de 1214, que são uma lista de queixas de um fidalgo, Lourenço Fernandes da Cunha, e sobretudo o testamento de Afonso II.

Aí já estamos em pleno reino de Portugal.

1214, que é já escrito em galaico-português. Portanto, o documento está em latim. A segunda nota é que está em pergaminho. E agora também podemos referir o mais antigo documento em papel conservado na Torre do Tombo, que é de 1268 e que é também um documento, um tabelião, aliás, a registar um protesto contra o arcebispo de Évora, portanto, 1268. A terceira nota em relação a este documento é que está em escrita visigótica, que é característica da Península Ibérica desde o século VII e que é anterior, que é usada desde o tempo dos chamados Visigodos e que vai sendo substituída a partir do século XI, XII pela chamada escrita carolíngia, que é a escrita que vem de França, carolíngia refere a Carlos Magno, o imperador, e que se introduz na Península Ibérica nos séculos XI, XII, XIII. O que está escrito em escrita visigótica indica, de alguma maneira, que estamos a falar desta região como uma região periférica em relação àquelas que viriam ser as regiões culturalmente dominantes na Europa da Baixa Idade Média: França, Itália.

Portanto, já somos periféricos há muito tempo.

Ou tinha uma cultura própria, se não quiseres dizer periféricos. Há também uma quarta nota que era o nome dos doadores. Como eu referi aqui, Mozar e Zamora.

Soam a Marrocos.

Soam a Marrocos, têm um som oriental, portanto eles provavelmente eram moçárabes, isto é, cristãos que tinham vivido sob o domínio muçulmano na península. Repare-se que o Porto, aquilo que hoje é o distrito do Porto, só tinha sido recuperado pelos cristãos do domínio muçulmano uns 20 anos antes da produção deste documento, em 868, que Vimaraperjo ao serviço do rei Afonso III das Astúrias, reclama este território, aquele território do que viria a ser o condado portucalense como território cristão, isto é, põe termo ao domínio muçulmano. Portanto, estes doadores que fundam este mosteiro devem ter vivido sob o domínio muçulmano ou no Porto, naquela região do Porto, ou também acho que poderiam ter sido refugiados vindos do Sul, porque nesta altura, nesta época e nas épocas seguintes, há perseguições a cristãos no Sul muçulmano da Península Ibérica, em grande medida pela introdução na Península Ibérica de movimentos islâmicos mais radicais vindos do norte de África.

Mas se estes Mozar e Zamora eram muçárabes com posses suficientes pra doar o que quer que seja, significa que não só havia cristãos nesses reinos muçulmanos, como poderiam atingir uma certa fortuna e poderiam ascender na escala social.

Algumas dessas comunidades cristãs são comunidades importantes, até mesmo em cidades do sul da Península Ibérica, sob o governo muçulmano, são importantes em números, em riqueza, em influência política, embora claro, estivessem a ser comprimidas, cada vez mais reprimidas por processos de islamização ou de pressão maior de correntes muçulmanas com maior zelo em relação à defesa da sua fé.

Certo.

Já agora, a história da conservação do documento também é interessante. O documento foi conservado durante séculos no Mosteiro Beneditino de São Pedro de Cete, no Conselho de Paredes, que também fica no distrito do Porto, é um conselho vizinho de Penafiel. Este Mosteiro de São Pedro de Cete terá sido fundado, para alguns historiadores, no fim do século IX, para outros, no século X, mas este era um mosteiro que era o patrono da igreja de Lardosa, nomeava o pároco e tinha a documentação também. E foi daí que o documento veio para a Torre do Tombo no século XIX, durante aquele processo de que falámos no programa da semana passada, de extinção dos conventos, que levou também à incorporação destes documentos nos arquivos nacionais.

Alguns, porque ficámos a saber que outros até levaram fazer pira.

Outros perderam-se.

Muito bem. OK, aqui uma história bem interessante. Uma outra pergunta que eu gostaria de fazer e que já é também antiga, é do Duarte Mexia, que nos enviou uma pergunta muito curiosa que lhe surgiu quando estava a ler um artigo intitulado: "Sexo entre parentes causou deformidade facial dos reis espanhóis dos séculos passados." E segundo essa notícia que o Duarte nos refere, uma equipe de 10 cirurgiões maxilofaciais espanhóis investigou o grau de deformidade facial da linha castelhana dos Habsburgos, que reinou entre 1516 e 1700. E graças a esses 66 retratos dos monarcas, que estão dispersos por museus, de Filipe I a Carlos II, e isso inclui os Felipes que foram também reis de Portugal, ele conclui que os Habsburgos tinham aquilo a que tecnicamente se chama prognatismo mandibular, também conhecido como mandíbula de Habsburgo, e que consiste numa mandíbula inferior muito proeminente, que afasta o lábio inferior do lábio superior. Isto é bastante visível, de fato, nas pinturas que retratam os monarcas. E aquilo que os investigadores concluíram é que existe realmente uma associação entre deformidade facial e endogamia, ou seja, quanto maior o parentesco entre os pais, maior a deformação. A pergunta do Duarte Mexia é: se entre os reis de Portugal houve casos similares a este, de doenças ou de deformidades justificadas por problemas de consanguinidade, já que se sabe que reis e rainhas tendiam a casarem-se uns com os outros com proximidades, por vezes chocantes pra nossa mentalidade contemporânea.

Bem, em relação às deformidades, não conheço estudos nesse sentido, embora por vezes seja Sugerido esse tipo de problema, por exemplo, em relação ao rei D. Sebastião, no século XVI, um Habsburgo também. Aliás, ele também tem as características dos Habsburgos e também o resultado de relações entre parentes próximos. Isto é complicado, vou tentar não ser demasiado obscuro, mas o avô paterno de D. Sebastião, o rei D. João III de Portugal, era irmão da sua avó materna, D. Isabel, e o seu avô materno, o imperador Carlos V, era irmão da sua avó paterna, D. Catarina. Ou seja, o D. Sebastião era o resultado do fato de D. João III, rei de Portugal, e o Carlos V, imperador do Sacro Império Romano-Germânico e rei de Espanha, terem casado com as irmãs um do outro.

É muito patrimônio genético partilhado.

Mas não é claro que o D. Sebastião, para além do azar que teve em 1578, sofresse de qualquer deformidade especial. Há fontes que indicam que sim, mas outras talvez que não, e é muito provável que por vezes fossem-lhe atribuídas deformidades precisamente pela infelicidade com que acabou o seu reinado. Esta endogamia não é muito estranha, porque era o resultado do esforço que as dinastias europeias faziam para salvaguardar e para confirmar o seu prestígio real. Isto é, com dinastias reais e o seu poder. E isso passava, em grande medida, por famílias reais só estabelecerem alianças de matrimônio com outras famílias reais, isto é, evitarem casar para baixo, isto é, com aristocratas que não fossem da família real.

E ainda agora estamos a ver os problemas que isso dá.

O que quer dizer que ao fim de algumas gerações, uma grande parte dos noivos tinham parentes próximos. Tinham muitos avós em comum. Mas também às vezes acontecia serem mesmo eles próprios, isto é, os noivos, parentes ou mesmo muito próximos, como primos direitos ou até tios e sobrinhos, o que obrigava a dispensas papais.

O papa tinha que autorizar.

O papa tinha de autorizar estes casamentos. Isso acontece na dinastia dos Braganças, dos reis de Portugal. Por exemplo, a rainha D. Maria I, no fim do século XVIII, era casada com um seu tio, o infante D. Pedro, irmão do rei D. José, que era o pai de D. Maria I. Mas mais, o filho dos dois, o príncipe D. José, foi casado com a sua tia, a infanta Maria Francisca. E a Maria Francisca tinha 30 anos e o príncipe tinha 15 anos quando se casaram. E este foi um casamento, curiosamente, ordenado no leito da morte pelo rei D. José, em 1777. Há mesmo o documento com a caligrafia do rei, já muito degradada, porque ele estava a morrer, a dizer que queria que o príncipe D. José, seu neto, casasse com a infanta D. Maria Francisca, sua tia.

E qual foi o resultado?

O resultado é que o príncipe D. José foi considerado, no seu tempo, uma das mentes mais brilhantes que alguma vez houve. Portanto, resultado dessa endogamia tremenda, foi considerado um dos grandes reis que Portugal nunca teve, uma vez que ele morreu aos 27 anos, em 1788, e isso foi considerado uma tragédia enorme, porque toda a gente estava à espera que ele viesse a ser um dos grandes como D. José II, que nunca tivemos, um dos grandes reis de Portugal. A razão desta endogamia estava, mais uma vez, na preocupação dos Braganças não se rebaixarem em casamentos com famílias não reais, porque quando não havia disponíveis ou não convinha um casamento com uma família real estrangeira, acabaram por se casar sobrinhos e tios. E também por outra razão: era uma tentativa de não comprometerem a imparcialidade do rei, fazendo aliar-se por matrimônio com outras famílias aristocráticas. Havia várias fações aristocráticas, isto é, a nobreza estava sempre mais casada. E casar com uma das famílias que disputava o poder com as outras era tornar o rei parte de um partido aristocrático. Portanto, também havia esse cuidado. Claro que esta questão da endogamia régia é antiga e há casos ainda mais exagerados, como no Egito Antigo, onde aparentemente teria havido casamentos entre irmãos ou entre pais e filhos.

Certo. Isso depois desabou em pé.

Mas durou muito tempo.

E em Portugal, pelos vistos, não são conhecidos efeitos, não é?

Não são.

Muito bem, ao contrário dos Habsburgo. Bom, e assim terminou este 28º episódio de "O Resto é História" e cá estaremos de novo para a semana. Até lá.

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