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E o resto é história.

É a terra das pomares.

Do incêndio e de poeira ainda na zona do Chiado. Quer transformar este país numa ditadura.

Não, não.

Com João Miguel Tavares e Rui Ramos.

Olá, seja muito bem-vindo ao episódio sete de "E o Resto é História", o programa onde a partir do presente nos entretemos a olhar para o passado. O meu nome é João Miguel Tavares, sou jornalista e à minha frente, como sabem, têm...

Rui Ramos, historiador.

Rui Ramos, historiador. E se quiser enviar perguntas para mim ou para o historiador Rui Ramos, já sabe que tem à sua disposição o e-mail historia@observador.pt e também que o programa está disponível em podcast para subscrição via Spotify, iTunes ou Google. Estamos em pleno mês de agosto, como cantaria Quim Barreiros, mas não vamos trazer para aqui essa bonita canção. Mês em que o Algarve enche como um ovo. Mas curiosamente, nem sempre foi assim. Esta romaria ao sul é uma moda relativamente recente, embora eu penso que muita gente não tem noção disso. Há 100 anos, outras eram as praias favoritas dos portugueses. Quando é que o Algarve se tornou o lugar privilegiado de veraneio nacional, Rui?

De veraneio nacional, provavelmente fim dos anos 60, anos 70 já. Veraneio nacional, porque o Algarve-

Espera. Aqui estás a falar de anos 60 ou 70 do século XX.

Do século XX, exatamente. Estamos no século XX, portanto há 50 anos, o Algarve é descoberto primeiro enquanto lugar de veraneio, de praia, descoberto primeiro num sentido de significativamente, em termos de massas de turistas, de veraneantes, pelos estrangeiros, pelos ingleses, do que pelos portugueses.

Mas isso significa que os portugueses eram muito parvos e, portanto, só nos anos 60 é que: "Aquela água ali é mais simpática, está mais agradável."

Não exatamente, mas já lá vamos a esse aspeto das águas e das praias. Significa que o Algarve faz parte da descoberta das praias do sul da Europa pelas agências de viagens do norte da Europa, quando começam no pós-guerra, nos anos 50, 60, a organizar viagens baratas e férias baratas para trabalhadores do norte. Isto é, os ricos do norte da Europa sempre foram à Itália e ao sul de França ver os antigos lugares da cultura clássica, admirar as ruínas e as estátuas e essas coisas todas, e depois passar também lá alguns verões, até porque essas áreas, em termos de europeus, tinham uma reputação que era de terem costumes mais livres. Havia quem fizesse vida sentimental, para não chamar outra coisa, sobretudo no sul da Europa. Isto é, desde o Oscar Wilde até outras pessoas.

Conhecemos a literatura.

O norte de África, havia a ideia de costumes livres. Os literatos, as classes já passeavam.

Já passeavam pelas ilhas gregas há muito tempo.

Mas os trabalhadores, a população, a gente com as férias pagas, de férias pagas, isso é um fenómeno do pós-guerra, é um fenómeno ligado à aviação também, aos voos mais baratos. E é nesse momento que o sul de Espanha, que era também a costa espanhola no sul, também uma região mais ou menos árida e pouco considerada, de repente se desenvolve dramaticamente com o turismo do norte da Europa e Portugal, através do Algarve, é apanhado na mesma onda.

Espera aí. Mas então temos que corrigir aquilo que é uma injustiça histórica, porque nós, portugueses, temos aquela mania de que houve aqueles ingleses que vieram para cá e que nos roubaram o Algarve, mas, na verdade, os ingleses vieram para cá mostrar-nos que o Algarve estava lá.

Sim, obviamente, da parte das autoridades portuguesas, houve também um esforço para tornar o Algarve um local de turismo. É no princípio da década de 60, entre 63 e 65, que se fazem grandes investimentos, por exemplo, com o Aeroporto Internacional de Faro, sem o qual todos aqueles voos baratos não poderiam ter aterrado e ser fácil sair do aeroporto e ir dali um tempo para a praia. Ao mesmo tempo, também a escola de hotelarias e coisas assim, isto é, o desenvolvimento da hotelaria. Nós precisamos de pensar, tinha aqui um número interessante, que em 1951 o Algarve tem quatro hotéis Quatro hotéis em 1951. Tem três pensões e uma casa de hóspedes, que era o que havia ali. Obviamente devia haver particulares que alugavam quartos, etc. Mas isso era a infraestrutura. Não era quase nada. Nos anos 60, de repente, constrói-se uma quantidade enorme de hotéis, aliás, de hotéis de luxo também. Nós saltamos, os saltos são dramáticos, temos as estatísticas para isso. Trinta mil dormidas de estrangeiros em 1963.

No ano inteiro, não é?

No ano inteiro. Para 500 mil em 1967. Quinhentas mil, em quatro anos, de 30 mil para 500 mil e para 1 milhão em 1970. Em três anos duplicou outra vez. Isto tem um ritmo de crescimento, que é um ritmo que depois é interrompido durante a revolução do 25 de abril, 74, 75, e retoma depois a partir de 78, 79. São sobretudo estrangeiros. Curiosamente, no Algarve, aquilo a que os veraneantes portugueses deram tradicionalmente mais importância não era as praias, mas era as termas de Monchique. Esse era o destino.

Iam para o Algarve para ir para a montanha.

Para ir para a montanha, para as termas. Por quê? Primeiro, porque o Algarve não era propriamente um dos lugares mais acessíveis quem ia de Lisboa ou do Porto, em Portugal. Dou aqui só duas referências. O caminho de ferro chega a Faro em 1889. É talvez uma das últimas regiões do país a ser alcançadas pelo caminho de ferro. No século 19, antes do automóvel, o caminho de ferro era, apesar de tudo, a maneira mais confortável de viajar e mais segura. Havia também, obviamente, a navegação, mas estava sujeita ao mar e a uma série de imprevistos associados ao clima e à ondulação. Portanto, a maneira mais tranquila e segura, apesar de tudo, era o caminho de ferro. E para ir para o Algarve, só a partir de 1889 é que se podia chegar a Faro de caminho de ferro. E depois com uma estrada em condições, uma estrada como deve ser, é em 1932 que há uma primeira estrada em condições até ao Algarve.

Nós temos a mania que temos um país muito plano, mas quando vemos a A2 a vir desde Lisboa até Algarve, podemos falar de viadutos atrás de viadutos.

Portugal é um dos países mais acidentados da Europa. Aliás, da Península Ibérica, a península Itálica, a Itália e depois os Balcãs são as regiões mais acidentadas da Europa, é que estão à volta do Mediterrâneo, é aí onde está o grande relevo. A partir dos Alpes para cima, a Europa torna-se uma espécie de planície. Fazer uma autoestrada numa planície é uma coisa, fazer uma autoestrada entre vales, serras e barrancos dá isso. Uma autoestrada até ao Algarve, as pessoas também têm a experiência, aquilo é uma série de pontes. A partir de determinada altura é pontes até ao Algarve. Não era fácil. E agora imagine sem a estrada, sem a autoestrada, a subir e a descer aquelas serranias. Mas, por outro lado, também as praias que interessam aos veraneantes portugueses no fim do século 19 e no princípio do século 20, quando apesar de tudo, já há uma cultura de praia, mas uma cultura de praia muito diferente daquela que vai haver no pós-guerra. Essas praias não são as praias do sul, são as praias do norte. Isso vê-se no Ramalho Ortigão, que tem um livro sobre as praias de Portugal, e ele considera que as praias do norte são muito mais pitorescas. Por quê? Porque há muita ondulação. São praias onde as pessoas iam estar. Não iam bronzear-se, nem iam propriamente nadar, iam para estar, para se refrescarem. Ora bem, não havia nada mais refrescante do que as praias que nós hoje podemos considerar um bocadinho frias e agitadas, com uma boa nortada, ondulação, maresia, salpicos da rebentação, como as praias do norte. As praias do norte tinham associadas a um sítio muito mais interessante para se estar durante uma parte do dia.

As pessoas têm até um pouco a noção disso. Só quando as pessoas começaram a tirar a roupa na praia é que de repente ir para o Algarve se tornou muito mais interessante.

Exatamente.

Porque enquanto estávamos vestidos, mais vale estar em Espinho.

Estávamos vestidos de fato, gravata e as senhoras todas compostas de chapéu.

Antes a Nazaré do que Albufeira. Exceto para estar de fato.

Era muito mais agradável estar na Nazaré de fato e gravata do que propriamente estar em Albufeira, mesmo só com os calções. E os calções é uma aquisição bastante mais tardia. Basicamente o Algarve é o Algarve da agricultura, sobretudo das frutas secas, figos, passas e da pesca. Havia depois uma indústria associada à pesca, às conservas. Esse é o Algarve do Teixeira Gomes. É um Algarve onde acontecem coisas, onde há população, mas não é o Algarve que se desenvolve a partir, sobretudo, dos anos 70, em termos portugueses, quando também os portugueses começam a ir para o Algarve.

E quando a sua população começa até a aumentar.

Esse é um dos lados curiosos. A população do Algarve, como grande parte dos distritos portugueses, cresce até aos anos 50, depois tem uma quebra nos anos 60, como quase todos os distritos portugueses.

Por causa da emigração.

Por causa da emigração. Emigração interna para Lisboa, no norte para o Porto Sobretudo imigração para o exterior, para a Europa, para a França e a Alemanha. O que é curioso no Algarve é que enquanto os outros distritos tendem a não recuperar essa quebra populacional, o Algarve recupera largamente nos anos 80 e 90 e a população aumenta no distrito de Faro, que corresponde ao Algarve nessa época. É quase que uma das poucas regiões fora das áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto que cresce em termos populacionais, que se expande, e isso está obviamente associado ao turismo. Dali depende ter se tornado a nossa grande região turística, sobretudo até há pouco tempo, até há cinco, seis, sete anos, quando de repente os turistas também descobriram Lisboa e o Porto. Mas antes dessa descoberta, de facto, aquilo que uma grande parte dos turistas europeus conheciam de Portugal era o Algarve. E tínhamos aquele comentário curioso que era: "Portugal, nunca lá estive, mas fui ao Algarve" e imaginava-se que era perto de Portugal.

Atenção, historicamente, eu diria que esse comentário é até bastante preciso, não é?

Sim, se eles tivessem essas informações históricas e não fosse mera ignorância, mas está bem.

Ok. Vamos então a essas informações históricas, já que estamos a falar do Algarve. Eu acho que valia a pena satisfazer uma curiosidade que é minha, mas penso que não é só minha, que é: muitas vezes para falar dos reis de Portugal utilizava-se o título honorífico de Rei de Portugal e dos Algarves. Este plural deve-se soar esquisito à maior parte das pessoas. Como assim Algarves? Que plural é este? Afinal, o Algarve não é só um.

Havia aparentemente mais do que um Algarve.

Onde está o outro?

Onde é que estava o outro? O Algarve, os reis de Portugal associam-no ao título precisamente numa lógica que falámos nos programas anteriores, de aumentar as unidades políticas de que eram reis. O Algarve não era propriamente um reino com instituições autónomas, nem com nada, era um território que estava totalmente integrado no reino de Portugal.

Era para comprar o título, ficava mais bonito.

Para não ficarem só reis de Portugal, quando o rei de Castela e de Leão e demais, eles todos tinham uma série de títulos, os vizinhos dos reis de Portugal ao lado e portanto, o rei de Portugal também escolheu reis. Curiosamente, teve de disputar o título de Rei do Algarve com o rei de Castela, que também queria ser rei do Algarve, aliás, em sucessão de um primeiro rei do Algarve, o Emir do Algarve, que era o Emir de Niebla, que é uma povoação no sul de Espanha e os emires muçulmanos, estamos a falar antes da conquista cristã do Algarve, o Algarve ser sujeito a esse emir, que era o Emir do Algarve. Algarve queria dizer Ocidente, era uma designação geográfica para o Ocidente do Andaluz. Andaluz era a expressão árabe para a Península Ibérica, era o nome árabe para a Península Ibérica, e o Algarve era o Ocidente da Península Ibérica. A tradução Algarve Andaluz é o Ocidente da Península Ibérica. E ficou aqui este Ocidente, que era o Emir de Niebla, que para resistir às avançadas portuguesas se declarou vassalo. Estamos a falar do século XIII, declarou-se vassalo do rei de Castela e o rei de Castela sentiu que era herdeiro do Emir de Niebla e, portanto, herdeiro do reino do Algarve e quis também ser rei do Algarve. O rei de Portugal quis também ser o rei do Algarve e durante um tempo houve vários reis do Algarve.

Isso significa que tu também podes interpretar a conquista do Algarve como uma conquista contra os mouros, mas também contra Castela?

Também contra Castela, sim, porque Castela também reivindicava precisamente o Algarve, na medida em que tendo o soberano muçulmano do Algarve como seu dependente, achava que também tinha direito aos territórios que estavam nessa dependência e que estavam a ser conquistados pelos portugueses. Estavam a ser conquistados pelos portugueses contra quem, exatamente? Aparentemente, contra o Emir do Algarve, o senhor que estava lá em Niebla. Mas como o senhor de Niebla estava sujeito ao rei de Castela, estavam-se também a ser conquistados contra o rei de Castela.

Aí já temos um Algarve.

Pronto, aí temos o Algarve.

Onde é que vem o Algarve número dois?

O Algarve número dois aparece com o rei Afonso quinto, a partir da década de 70 do século XV, 1471, que começa a intitular-se de rei de Portugal e dos Algarves de Aquém e de Além-Mar em África. Aí é que está a pista. O outro Algarve era em Marrocos. O outro Algarve, o outro Ocidente de que o rei de Portugal também era rei, estava Além-Mar, estava em Marrocos, e isso tinha a ver, obviamente, com o processo iniciado pelo avô do Dom Afonso quinto, o rei Dom João primeiro, em 1415, quando conquistou Ceuta. E depois o Dom Afonso quinto conquista outras praças no norte de África. O Dom João primeiro intitulou-se apenas rei de Portugal, do Algarve e senhor de Ceuta, mas o Afonso quinto, tendo mais do que uma cidade, uma praça no norte de África, achou por bem pressupor uma espécie de unidade entre o Algarve de cá e essa parte do norte de África, chamar-lhe Algarve também e dar a entender que era rei desses Algarves de Aquém e de Além-Mar. É uma espécie de projeção, e que é um processo interessante, porque as conquistas dos reis peninsulares fora da Europa são vistas frequentemente como um prolongamento das conquistas que eles fizeram na Península Ibérica. Há um prolongamento e eles estão a entender que está a conquistar Ceuta Tânger e por aí fora, como se estava a conquistar Silves, Faro e Tavira.

Mas o que é curioso é que apesar de nós já não termos possessões em África desde o final do século XVIII-

No norte de África

Sim, peço desculpa, no norte de África, desde o final do século XVIII, o rei português continuou a ser rei de Portugal e dos Algarves. O rei Dom Carlos é rei de Portugal e dos Algarves.

E dos Algarves dá aquém d'Alemanha em África, e o rei Dom Manuel II também, rei de Portugal e os Algarves dá aquém.

Isto parece como no Vaticano, que também continua a ter umas espécies de bispos.

Sim, em pártibos. Isto é, dioceses já não existem.

Que são romanas há quatrocentos anos.

Curiosamente, deixámos de ter a última possessão, que era Mazagão, uma vez que Ceuta, que ainda é espanhola e ainda tem as armas de Portugal, em 1640 foi um dos poucos territórios que optou por ficar do lado de Espanha, isto é, que não regressou à monarquia portuguesa, enfim, do lado de Espanha, obviamente do ponto de vista deles, do rei legítimo de Portugal, que era Filipe IV. Mas tirando esse pormenor. Portanto, a última praça portuguesa, que é Mazagão, é abandonada em março de 1769, mas curiosamente deixou de se ter Mazagão no norte de África e passou-se a ter uma Mazagão no Brasil, onde ainda há, no estado do Amapá, e a população foi levada pra lá, chamava-se Nova Mazagão, acho que agora se chama só Mazagão. Portanto, é uma transferência dessa praça do norte de África. O Algarve podia ter-se estendido para o Brasil e esse Algarve dá aquém d'Alemanha, hoje está no-

Está no Brasil

...está no Brasil. A partir de 1769. Tem agora uma efeméride redonda, como costuma-se dizer.

Exatamente. Pois, 69, exatamente. Pois, 250 anos. Muito bem. Olha, e assim terminamos esta primeira parte d'"E o Resto é História". Voltamos já de seguida. Ora, sejam bem-vindos de volta ao "E o Resto é História". Voltamos às perguntas do ouvinte Francisco Martins, Rui, que para quem acompanha religiosamente este programa, que são já muita gente.

É muita gente.

Ele enviou-nos uma bela lista com uma dezena de questões.

Sim, para muitos programas.

Para muitos programas, acho que isto dava para encher até o final.

Ainda bem, ótimo.

Sim, mandem, que mais temos por onde escolher. E entre elas estava esta: o rei Afonso Henriques sabia ler e escrever? Que língua falava? Há testemunhos diretos da sua época sobre o seu caráter ou ação? Isto não é só uma pergunta sobre Dom Afonso Henriques, eu diria que também é uma bela pergunta sobre fontes. No século XII, imagino que seja um berbicacho. O que se sabe ao certo sobre Dom Afonso Henriques, Rui?

O que se sabe ao certo? Sim, as perguntas que o Francisco Martins faz são preguntas interessantíssimas.

Parecem muito simples, não é?

Muito simples, não está a perguntar coisas, mas não são nada fáceis de responder com a tal certeza. Isto é, especular, podemos todos especular, responder com uma maior certeza ou um maior consenso entre os historiadores. Isso tem a ver um bocadinho, e vale a pena falar disso, porque nós ouvimos os historiadores falar de épocas, de personagens, de acontecimentos, e por vezes perguntamos: "Mas como é que eles sabem isso? De onde é que lhes vem isso?" E isso vem-lhes da tal documentação, daquilo que os historiadores chamam as fontes. A documentação, é assim que se começou a fazer história nos últimos 200, 300 anos, com documentos escritos e outro tipo de documentação, iconografia também, imagens, mas documentos. E esses documentos não são apenas escassos quanto mais recuamos no tempo, mas também são difíceis de interpretar. Isto é, são difíceis de interpretar logo porque por vezes não temos a versão original do documento, temos cópias dos documentos, e nessas cópias não sabemos o que foi reproduzido fielmente e o que não foi. Por vezes, temos cópias supostas de documentos, mas as cópias são falsas, isto é, os documentos originais nunca existiram e as cópias são invenções, de alguém dizer: "Estamos a ter um documento do Afonso Henriques, manda isto e manda aquilo", e é uma cópia do século XVII ou XVIII. Diz-se que sendo uma cópia de um documento mais antigo, nunca ninguém viu esse documento mais antigo. E, portanto, os historiadores obviamente desenvolveram uma arte, uma ciência de olhar, ler e perceber: bem, isto não é daquela época, porque obviamente conhecem-se alguns documentos originais daquela época e os falsificadores tendem a cometer erros que permitem identificar anacronismos.

A veracidade ou a falsidade de certo documento.

Mas às vezes não é fácil, e os historiadores discutem entre si, o documento é falso, não é falso. E depois também há uma certa dificuldade em ler os documentos. Nós estamos habituados a ler os documentos hoje como se os autores dessa documentação, quando é uma narrativa, uma descrição Tentassem reproduzir aquilo que estavam a ver ou aquilo que existia. E por vezes não era bem isso que um autor de documentos medievais, e pode-se dizer até hoje, mas não vamos complicar a conversa, tentava. Por vezes, quando fazia uma descrição, mais do que tentar descrever, tentar reproduzir o que tinha à frente de si, como um pintor realista faz ou como um escritor realista faz hoje em dia, ou como um repórter, ou como um jornalista, ele estava a tentar construir um relato que correspondesse a um ideal. Para ir ao Afonso Henriques, quando está a descrever um rei, provavelmente não estava a tentar ser um fotógrafo, mas estava provavelmente a construir um retrato que correspondesse não à pessoa que ele teve à sua frente, se é que o conheceu, mas à maneira como os reis deviam ser, ao modelo, ao ideal de um rei. E portanto, as referências que por vezes nós temos na documentação ao Afonso Henriques dão-nos esse problema.

Ou seja, já se usava o Photoshop na época.

Era uma espécie de grande Photoshop, exatamente. E muito complicado e difícil também às vezes de reparar o que é que lá estava. Nós, sobre fontes, sobre o D. Afonso Henriques, temos a dificuldade às vezes não saber se essas fontes ou não ter a certeza se essas fontes eram contemporâneas do rei, mesmo quando dizem que são, ou 100 anos depois, 200 anos depois, ou então se não correspondem a uma espécie, nós hoje diríamos, uma idealização, um Photoshop do rei. Por exemplo, a Crónica dos Godos, que é uma das fontes, uma crónica sobre a datação da qual também há dúvidas, dá uma descrição do rei. O rei aparece nessa fonte como um homem destro nas armas, um bom guerreiro, eloquente, falava extraordinariamente, muito prudente, cauteloso, e de engenho claro, bastante inteligente. Isto parece uma fórmula escrita, que é usada em relação a um personagem que nós queremos apresentar da melhor maneira. Repare, isso é curioso.

Mesmo a história da espada de D. Afonso, o tamanho que a espada tinha.

Essas coisas todas são tradições, nós não podemos negá-las completamente, mas aceitá-las também às vezes é difícil. Repare, só em relação às pessoas, esta idealização era também às vezes feita em relação aos locais. Nós temos, por exemplo, transmissões de propriedade em que é descrita a propriedade ou o terreno, ou o bem que está a ser doado ou a ser vendido e vem com uma descrição. A descrição diz: um determinado terreno com os seus moinhos, vinhas, pomares, etc. Não quer dizer que essas coisas existam, isto é uma forma de tabelionar, é uma fórmula de escriba. Os escribas escreviam desta maneira. Reparem que eles, e é preciso também notar isso, isto são pessoas, isto tem a ver com que língua é que falava o D. Afonso Henriques, escreviam uma língua diferente daquela que falavam. A escrita está associada àquilo que eles achavam que era latim, nós hoje chamamos latim bárbaro, porque já não tem nada a ver com o latim antigo, o latim do tempo dos imperadores, dos césares. É uma forma degradada da língua. É já quase uma outra língua, em que por vezes se consegue reconhecer o português, isto se percebe quando eles são um bocadinho menos letrados, já dão a perceber que a língua que eles falavam-

O portunhol era um latinhol.

Um latinhol, exatamente. Já deixavam transparecer aquilo que falavam e usavam muitas fórmulas. É a partir daí que nós temos de especular ou de tentar imaginar como é que era o D. Afonso Henriques, o que é que ele fazia, quais eram as suas ideias. Isto é, com documentos que não sabemos bem se eram do tempo dele ou se são posteriores e se são verdadeiramente autores que tentaram fixar alguma coisa que existiu ou que pura e simplesmente estavam a usar fórmulas tabelionares, isto é, fórmulas de escriba, sobretudo para quem não tinha uma grande cultura.

Escritos do seu punho também não há nada, não é?

Não há nada. O ler e o escrever são tarefas ou operações especializadas, digamos assim, é como programar um computador hoje. A pessoa não tinha de fazer ela própria, sobretudo um rei tinha um escriba para lhe ler coisas e para lhe escrever as coisas. A necessidade que ele teria de aprender a ler e escrever está mais associada a uma espécie de educação do que propriamente a uma necessidade de uso da escrita.

Mas o que se está a dizer é que nem isso se sabe.

Não sabemos.

Ou seja, D. Afonso Henriques podia não saber ler nem escrever.

Podia saber ler e escrever, podia não saber ler e escrever, não sabemos. Nós sabemos que alguns dos seus descendentes próximos já escrevem ou são considerados autores de cantigas, de poemas e, portanto, têm algum contacto com fórmulas literárias. O rei também poderia ter, mas não lhe são atribuídos este género de produções. O impacto dele é grande. O impacto que ele tem na imaginação e nas tradições é grande. Por quê? Porque histórias associadas ao Afonso Henriques sobrevivem. Aliás, o António Gêssaraiva, que estudou isso, considerava mesmo que terá havido uma gesta de Dom Afonso Henriques. Isto é um poema narrativo que terá sido antes dos Lusíadas, portanto, o primeiro poema épico que teria como herói o Dom Afonso Henriques, da qual ficaram excertos ou excertos em prosa que são integrados em crônicas ou nos livros de linhagens, mas que são histórias associadas ao Afonso Henriques e que dá uma ideia da impressão que ele causou nos seus contemporâneos, que foi suficientemente grande para lhe deixar todas estas histórias associadas.

Estavas a dizer que havia já uma outra língua em formação, que não era o latim, que era diferente o escrito do falado, ou então o que é que Dom Afonso Henriques provavelmente falaria nessa altura?

Muito provavelmente poderá falar com os seus companheiros e com as populações, provavelmente, aquilo que era o dialeto falado no noroeste peninsular, que nós chamamos hoje galego-português e que nós conhecemos, quem passou pelo liceu ou pela escola secundária, das Cantigas de Amigo, etc. Portanto, deverá ser esse gênero, essa língua, provavelmente, que ele falava, mas é provável também que pudesse falar o leonês ou castelhano, uma vez que era a língua da corte, quer dizer, de Leão e Castela, e que era uma língua que talvez fosse mais importante em termos da nobreza do que propriamente o galego ou português, que podia ser uma coisa mais periférica. Podemos especular, podemos pensar e obviamente outros historiadores terão outras opiniões.

Isto também não é ciência exata, não é?

A ciência, às vezes, até permite várias exatidões, desculpem o paradoxo. Isto é, os mesmos historiadores, baseados com as mesmas fontes, podem chegar a conclusões diferentes. Algumas delas podem ser conciliáveis, outras que podem ser mutuamente exclusivas, isto é, uma está certa ou outra está errada. Isso acontece algumas vezes, mas a história desta época é uma imensa discussão entre historiadores, desde muito anteriormente, mas desde o século XIX, pelo menos, desde o tempo do Alexandre Herculano. É uma grande discussão sobre qual foi a data precisa de determinado acontecimento e às vezes mesmo se determinado acontecimento aconteceu ou não aconteceu. Isto é, coisas como a Batalha de Ourique e outras coisas que falaremos. Portanto, é um espaço de história onde existem fontes, essas fontes já são conhecidas desde há muito tempo, até porque não são muitas, é um corpo documental extremamente reduzido, mas onde as interpretações são muito variáveis.

Olha, acho então que não conseguimos clarecer, provavelmente, o Francisco, tanto quanto ele gostaria, em respostas de sim ou não, mas espero que ele tenha achado esta reflexão devidamente produtiva. E por falarem em Dom Afonso Henriques, aqui há uns problemas. Nós atrás falamos do Milagre de Ourique, esse mito fundador da independência nacional. E tu referiste de passagem um outro mito fundador que também parece que não existiu e que bate nesta conversa toda que estamos a ter aqui. As Cortes de Lamego, supostamente realizadas entre 1139 e 1143, onde supostamente o povo, a nobreza e o clero supostamente aclamaram Dom Afonso Henriques como rei de Portugal e pronunciaram aquilo que ficou conhecido para a história como o grito de Almacave: "Nós somos livres, o nosso rei é livre e as nossas mãos nos libertaram." É uma frase muito bonita. Este grito já foi bastante popular, isto hoje em dia acho que é uma coisa que está bastante esquecida, mas é uma fórmula bastante bonita. E este grito, embora bonito, tu também sugeres que ele não saiu da garganta de ninguém, ou melhor, talvez tenha saído da garganta de um frade do século XVII no escritório do Mosteiro de Alcobaça. É assim?

Enfim, pode ser assim.

É um bom grito. É bonito.

Pode ser assim. É um grito bonito.

Somos liberdade!

A sua fixação em termos de história acontece no Mosteiro de Alcobaça, na Ordem de Cister, onde viveram e trabalharam dois importantes historiadores portugueses.

E ficcionistas? Dois importantes historiadores e ficcionistas portugueses.

E provavelmente um deles, um grande ficcionista, não sabemos se ele estava, grande questão em relação, o ficcionista é Frei Bernardo de Brito, os dois são Frei Bernardo de Brito, Frei António Brandão, são dois monges da Ordem de Cister. Foram coronistas-mores do reino, ambos, e autores da chamada Monarquia Lusitana. A Monarquia Lusitana é basicamente a primeira grande história de Portugal, chamada Monarquia Lusitana, em vários volumes. Começou a ser feita pelo Frei Bernardo de Brito, depois continuada pelo Frei António Brandão e continuada por outros frades.

Esta é uma transição do século XVI para o século XVII.

É aí que aparecem a ata das Cortes de Lamego

Mas ele ainda vai mais atrás, isso ainda começa no tempo do Ulisses.

O Frei Bernardo de Brito, o primeiro volume da "Monarquia Lusitana", publicado em 1597, não se começa com o D. Afonso Henriques.

É tipo Bíblia, vai fazendo a ascendência toda.

Exatamente, ele inventa uma monarquia lusitana antes de haver Portugal, com reis, e antes dos romanos mesmo, com reis e com leis, etc. E vem por aí fora e põe o Ulisses a fundar Lisboa. Ele curiosamente diz que tinha documentação para isso tudo, que estava a usar documentos para isso tudo. Alguns deles desapareceram, outros pode-se imaginar o que eram esses documentos. Ele era muito novo, tinha 28 anos quando fez isto, mas era muito trabalhador. O livro é um livro que nós hoje podemos dizer de fantasia, mas corresponde um pouco à popularidade que no século XVI têm as fontes clássicas e sobretudo as origens clássicas para prestigiar algo, como, por exemplo, um país, um reino. Se queremos tornar importante o reino de Portugal, não é dizer que começou conosco. Não, é que começou anteriormente, com antepassados heróicos, começou com gregos, começou com romanos. Essa era a maneira de tornar prestigiado na Europa, numa Europa classicista.

Gregos, romanos e Nosso Senhor Jesus Cristo também aparecem. Entrava tudo, não é?

Entrava tudo, era a maneira de legitimar.

Um argumento pesado.

E reparem, eles estão a escrever sobre o reino dos Habsburgos espanhóis, Filipe II, 1580 torna-se rei de Portugal. O Frei Bernardo de Brito está a escrever sobre o Filipe II e provavelmente, ao ele tornar o país assim tão interessante e tão prestigiado, talvez não fosse até propriamente independentista, que ele fosse independentista, mas queria tornar o reino de Portugal dentro da monarquia hispânica, da monarquia de Filipe II e depois Filipe III, um reino importante. E a melhor maneira de o tornar importante era dizer que já existia há imenso tempo e que tinha tido estes antepassados.

E como é que entram as Cortes de Lamego?

A parte em que as Cortes de Lamego aparecem já não é de Frei Bernardo de Brito, é do seu sucessor, Frei António Brandão, um pouquinho mais novo, que publica os volumes seguintes já no século XVII, em 1632. E o Frei António Brandão é um historiador muito diferente do Frei Bernardo de Brito. É muito mais cauteloso, é muito mais prudente, é muito mais atento à documentação e às fontes. E isso vê-se na publicação das atas da Corte de Lamego, que ele diz que lhe veio uma cópia às mãos como sendo a cópia onde está esse tal grito de Almacaver, e ele olha e diz que não viu o original, portanto não sabe se é verdade, mas que vai publicar com algumas reservas, que vai incluir. Também não tem bases para excluir e, portanto, integra.

Mas isso já é uma preocupação genuinamente de um historiador.

O Frei António Brandão é, sem favor, talvez o primeiro grande historiador português. Não é o melhor autor, o grande escritor de história, porque aí o Fernão Lopes do século XV batia-o facilmente. Ainda hoje, mesmo sendo um português mais antigo, lê-se muito melhor o da Crônica de D. João I do que o escritor verdadeiramente notável, Fernão Lopes. O Frei António Brandão não é tão bom escritor, mas é um grande historiador. Faz um trabalho tremendo, anda por todo o país a procurar fontes, a procurar documentação. Uma grande parte da documentação sobre D. Afonso Henriques, a origem do Condado Portucalense, D. Sancho I, isto é sobre o começo da Idade Média em Portugal, deve-se ao Frei António Brandão. É ele o primeiro a identificar todas aquelas fontes e usá-las. Usa-as na monarquia lusitana.

Não só não inventou tudo, como teve um cuidado.

Teve um grande cuidado. Há muita coisa ali que depois o Alexandre Herculano mais tarde veio a dizer, como no caso das Cortes de Lamego, é falso, isto é absolutamente falso, mas que curiosamente o Frei António Brandão já incluiu com algumas reservas. O ponto aqui é que ele incluiu isso na parte que escreveu da monarquia lusitana, e é uma das partes que se tornaram imediatamente mais populares. E por quê? Porque de alguma maneira, reparem o livro, a monarquia lusitana, a parte escrita pelo Frei António Brandão, publicada em 1632, em 1640, restauração de Portugal com o Duque de Bragança. Ora bem, o que as Cortes de Lamego tinham a ver com isto? As Cortes de Lamego precisamente tinham supostamente estabelecido que os estrangeiros não podiam ser reis de Portugal e que as infantas casadas com estrangeiros também não podiam herdar, nem os seus descendentes, o rei de Portugal. E portanto, se as Cortes de Lamego fossem verdadeiras, excluíam os Felipes, os reis Habsburgo, da coroa portuguesa. Por quê? Porque Filipe II, em 1580, quando se torna rei de Portugal, era estrangeiro, é rei de Espanha, mas era filho de uma infanta portuguesa.

Portanto, as Cortes de Lamego impediam isso.

Se as Cortes de Lamego tivessem existido. E, por outro lado, as Cortes de Lamego também se tornaram interessantes, mais tarde, para os inimigos da monarquia absoluta, por exemplo, os liberais no princípio, nos primeiros anos do século XX. Por quê? Porque era a prova de que havia reis de Portugal que tinham sido aclamados pelo povo, quase que democraticamente. Isso o Alexandre Herculano também diz. É uma fantasia. Há fantasia no século XVII.

As fantasias também desempenham o seu papel.

As Cortes de Lamego tornaram-se depois aceitas como parte, a ata das Cortes de Lamego, como parte da legislação e da Constituição, numa espécie de Constituição, embora não sabemos quem as fabricou, mas alguém as fabricou. Embora haja historiadores que dizem que não há provas que sejam verdadeiras, mas também não há provas que sejam completamente falsas. É difícil. Digamos que são historicamente improváveis.

Muito bem. Muito obrigado, Rui. E nós acabamos assim o sétimo episódio de "O Resto é História". Nós vamos fazer uma pequena paragem para as nossas justas férias e regressamos em setembro com mais história, mas vão enviando as vossas perguntas para historia@observador.pt. Nós estaremos cá para olhar para elas. Adeus e até breve.

Até setembro, então.

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