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E o vencedor é na Rádio Observador, hoje com os comentários e a análise do Henrique Borné, especialista em assuntos europeus, e também do Luís Rosa, redator principal do Observador. Meus caros, sejam muito bem-vindos. Muito bom dia. Luís Rosa, vou começar por ti, até porque queres falar de um abanão sentido em Lisboa. Do que se trata esse abanão?

Um abanão como foi sentido aqui na zona de Alvalade.

Em Alvalade não pareceu ter acontecido nada. Consegue ser um pouco mais explícito?

Mas parecia que iria ocorrer um forte abanão na zona de São Bento, do Príncipe Real. A esquerda portuguesa antecipava um forte abanão dos alicerces do Tribunal Constitucional, do Parlamento, do Governo, da democracia, ao fim ao cabo, do edifício democrático do nosso regime. Isto se o Chega colocasse um juiz no Tribunal Constitucional. Ora, ontem o Parlamento conseguiu finalmente aprovar, com 176 votos favoráveis, claramente acima dos 154 necessários, a lista dos quatro novos juízes do Tribunal Constitucional. Um juiz indicado pelo Chega, Brito de Lamaeiro, foi eleito, faz parte dessa lista. Não houve nenhuma derrocada do edifício da nossa democracia, dos principais edifícios.

Acabou por haver, de certa forma, com a questão do cargo da Provedoria de Justiça. Esse ainda está meio embargado.

A Provedoria de Justiça acho que não faz abanar o edifício da democracia, mas já lá vamos à Provedoria de Justiça. Mas imperou aqui uma espécie de silêncio. Tivemos as notícias, mas parece que ninguém rasgou as vestes. Não houve aqui nenhum drama. Há meses, ouvíamos a esquerda parlamentar e muitos comentadores conectados com a esquerda, histéricos, que a democracia estava em causa, que o Chega não podia ter um juiz do Tribunal Constitucional, que todos os democratas tinham de dar as mãos e fazer um cordão sanitário para impedir a nomeação de um juiz do Chega. Ou seja, que o segundo partido mais votado nas últimas legislativas, que é o líder da oposição, não tinha qualquer direito a ter um juiz no Tribunal Constitucional. E que o PS, que é o terceiro partido parlamentar, deveria manter um direito monárquico, quase hereditário, de continuar a nomear juízes para o Tribunal Constitucional, como se ainda fosse o principal partido português. Portanto, a esquerda mostrou aqui uma faceta verdadeiramente, na minha opinião, antidemocrática. Chegamos a 12 de junho de 2026, o que temos? Temos o PS a dar um fric-frac à retaguarda. Começou por rasgar as vestes, inspirou-se no "Não passarão!" da "Pasionaria", mas acabou por aprovar esta lista depois do PS ter ido a cenar com a possibilidade de nomear um juiz para o Tribunal Constitucional e também nomear o Provedor de Justiça, que foi chumbado pela segunda vez. Portanto, o PS tem que resolver esse problema, porque a responsabilidade é do Partido Socialista indicar um nome que seja aprovado pela Assembleia da República.

Sendo que o nome avançado pelo PS tinha até acordo com o PSD.

Tinha, mas chumbou. O voto é secreto, não sabemos quem é que chumbou. O PS também já passou por essa situação, que é indicar membros, lembrando-me até a eleição do Parlamento, por exemplo. E também havia um acordo entre o PS e o PSD, e o nome também chumbou. Faz parte das regras da democracia. O Partido Socialista diz que vai insistir no nome que indicou para a Provedoria de Justiça. Vamos ver se consegue elegê-lo ou não. Mas seja como for, afinal, quem é o juiz indicado pelo Chega? Luís Brito de Lamaeiro. Nós aqui no Observador, foi uma peça que eu fiz logo na altura quando foi conhecido o nome, nós revelamos o perfil. Um juiz de carreira, que é professor no ensino universitário, especialista em direito civil, católico, descrito por muitos magistrados como alguém moderado, equilibrado e até lembro-me que na altura me disseram que poderia ter sido indicado pelo PSD. Não tem nada a ver com o perfil que associamos ao Chega. E de fato, quando Brito de Lamaeiro chegou ao Parlamento para a sua audição, que aconteceu há umas semanas, surpreendeu quem não o conhecia. Ou seja, afastou-se totalmente das bandeiras do Chega, da prisão perpétua, da pena de morte e até da perda da nacionalidade. Ele disse uma frase que eu acho que é muito importante, disse que estas medidas não fazem parte da nossa cultura jurídica, nunca fizeram. Historicamente, somos um país muito afastado dessa realidade. Deu mostra do seu perfil moderado. E nós temos também três juízes ontem eleitos, como Joaquim Cardoso da Costa, indicado pelo PSD, antigo secretário de Estado da Modernização Administrativa de Passos Coelho e atual diretor do Centro Jurídico do Estado. Temos Maria Paula Ribeiro Faria, professora catedrática da Universidade Católica, indicada pelo PSD, e temos Gabriela Cunha Rodrigues, indicada pelo PS, juíza desembargadora da Relação de Lisboa, juíza de carreira, foi chefe de gabinete do atual presidente do Supremo, Cura Mariano, e também do seu antecessor, Henrique Arós. Portanto, o processo dos novos juízes do Tribunal Constitucional foi encerrado, e acho que foi bem encerrado. Ou seja, temos juízes moderados, juízes que devem refletir, e esse é o meu ponto essencial que eu sempre manifestei na análise desta situação, juízes que devem refletir o pluralismo da sociedade portuguesa. Porque nós temos um problema, parece-me, que é muitas vezes a esquerda quer manter uma visão unidirecional do Tribunal Constitucional, uma visão de uma Constituição socialista. Ora, isso não é uma democracia. Uma democracia é algo que o Tribunal Constitucional, por exemplo, deve refletir o pluralismo onde existem diferentes sensibilidades sobre matérias tão importantes como o aborto, a eutanásia, matérias ligadas à organização econômica da sociedade, ou seja, pensamentos como o pensamento social-democrata, o pensamento liberal, o pensamento conservador, o pensamento progressista, liberais, conservadores, progressistas, todos eles, todas essas linhas de pensamento devem ter um reflexo no Tribunal Constitucional.

E qual é o reflexo em termos de nota destas escolhas para o Tribunal Constitucional, destes quatro nomes que estamos a falar?

Eu vou dar uma nota positiva, porque o processo terminou, mas aqui vou citar o Nuno Garoupa, que muitas vezes no Fora do Baralho avisou inúmeras vezes para a péssima imagem que os partidos estavam a dar ao não conseguirem aprovar estes juízes do Tribunal Constitucional. Há meses que não conseguem aprovar.

Vários meses para conseguir esta eleição.

Mesmo assim, apesar dessa questão, eu vou dar uma nota positiva, porque o processo terminou e acho que terminou bem. Vão haver novos problemas, mas não vamos já antecipar isso, falaremos deles quando eles acontecerem, nomeadamente a eleição do presidente e do vice-presidente do Tribunal Constitucional.

Será de 10 a 20 então, Luís. De 10 a 20, se é positiva.

De 10 a 20. Vamos já despachar, Rafael. Vou dar uma nota positiva de um 12 para a conclusão deste processo.

12 para a conclusão do processo da escolha dos quatro novos juízes do Tribunal Constitucional. Henrique Borné, tu certamente terás uma colherada para dar sobre este tema. Queres falar sobre o acordo entre o Irão e os Estados Unidos? Já lá vamos, é uma garantia. Primeiro, vamos ao discurso do 10 de junho, o primeiro 10 de junho de António José Seguro como presidente da República. O chefe de Estado pede coragem de fazer escolhas difíceis sem ceder ao populismo. Ora, sem ceder à tua colherada, Henrique Borné, ficaste satisfeito com o que ouviste de António José Seguro no 10 de junho?

Olá, bom dia, José Rafael. Bom dia, Luís. Fiquei satisfeito e já lá vou, mas deixa-me só fazer duas colheradas. Primeiro, por um momento assustei-me, porque quando vocês começaram a falar de abanões e se tinha sentido ou não em Alvalade, imaginei que o Luís estava zangado com a vitória de Alfama nas Marchas Populares e que o Luís tinha sido representante do bairro de Alvalade nas marchas e era isso que eu pensei que tinha acontecido, mas não. E portanto, por um momento achei que o programa ia ser muito mais divertido. Pronto, segunda nota. Eu estava a ouvir o Luís e percebo os pontos, mas vou fazer uma maldade ao Luís. O Luís disse duas coisas. Disse a certa altura, por causa da nomeação do juiz do Tribunal Constitucional, que o escolhido pelo CHEGA devia ter sido indicado pelo PSD, não tem nada a ver com o CHEGA, afastou-se das bandeiras do CHEGA. Para concluir que tudo bem o CHEGA ter indicado alguém, ter sido escolhido alguém indicado pelo CHEGA. E eu a maldade que vou fazer é dizer, no fundo, o que o Luís disse, e eu concordo com esta visão, é pluralismo, ma non troppo. Ou seja, as circunstâncias eleitorais são as que são, a situação do Parlamento é a que é, mas aquilo que o Luís elogia é que foram escolhidos um conjunto de juízes, entre eles um juiz indicado pelo CHEGA, mas teve que escolher alguém que está dentro do espectro das várias opções e, como o Luís diz, e bem, que fazem parte das escolhas legítimas no nosso modelo constitucional, que vão da esquerda à direita, dentro do espectro da democracia e do respeito da Constituição, e que se afastam de algumas ideias que estão completamente excluídas da Constituição em que vivemos. E portanto, é apenas essa a minha nota que acho importante.

Então não discordas de mim, Enrico. Na prática, eu concordo.

Não, estou só a dizer a maldade é dizer que disseste pluralismo, ma non troppo. Não exageremos no pluralismo. Ou seja, no fundo, estou a dizer que tu notaste que a escolha ficou dentro do espectro da Constituição.

Ficou. É um juiz que tem um espectro, se quiseres, conservador, ao fim e ao cabo.

Exatamente, mas que faz parte das escolhas políticas.

E essa linha conservadora deve estar representada no Tribunal Constitucional.

Exatamente.

E tu sabes muito bem, tu conheces bem a política europeia, o conservadorismo em Portugal, de forma completamente inacreditável, tem um nome e uma associação que nada tem a ver com aquilo que é o verdadeiro conservadorismo. Portanto, é importante não esquecermos esta dimensão democrática.

Se tivermos tempo, irei exatamente aí mais à frente a propósito das bandeiras. Mas o que eu estou a querer notar é isso, é que é dentro do espectro.

Mas o CHEGA tem direito a indicar um juiz para o Tribunal Constitucional, acho que tu também não discordas dessa ideia.

Exatamente, desde que seja dentro do espectro do tal pluralismo.

E foi o que aconteceu.

Dentro do sistema. No fundo, se quiseres, é aqui a provocação. Certo dentro do sistema, ou seja, a personagem que escolhem, como tu referes, é alguém que está dentro do sistema no sentido do regime.

O problema é que nós ouvimos muita gente a dizer que esse direito não devia ser respeitado. E nós ouvimos pessoas que se consideram democratas dizerem isto. Isso é que não faz sentido. Outra coisa é o CHEGA indicar um nome que não faz parte e não representa elementos que são fundacionais do Estado de Direito. Isso é uma questão. Agora, que eles têm direito a indicar, aí têm.

Eu acho que é o ponto que eu estou a sublinhar, Luís. A tua nota vai para o facto do nome indicado estar dentro dessas regras. E eu acho que esse é um ponto importante deste tema.

E em relação a António José Seguro?

E em relação ao 10 de Junho. Eu mais do que o presidente António José Seguro, queria referir dois discursos. Eu confesso que achei o do Miguel Mouzinho Jardim, o presidente destas comemorações, melhor, por razões mais ou menos expectáveis, mais denso, mais espesso, melhor. Mas eu acho que os dois discursos se complementam. O do Miguel Mouzinho Jardim foi de realismo e de desafio e o do presidente da República foi de desafio e de esperança. E eu acho que o presidente da República tem essa função. Em relação ao discurso do Miguel Mouzinho Jardim, eu queria chamar a atenção para algumas coisas. No fundo, o que o Miguel Mouzinho Jardim diz é que estamos a viver um tempo de medo, porque acabou um ciclo histórico e está a começar outro que não conhecemos, mas percebemos que por estar em dúvida, nos deixa preocupados e, portanto, esta cortina de medo. E depois aponta que os caminhos do futuro, enfim, há três potenciais caminhos ou persistir numa ideia de mundo multilateral que está difícil de manter, alinhar nesta lógica dos mais fortes e de poucas regras que não é desejável, ou aquela ideia destas coligações de potências médias, um pouco aquilo que o primeiro-ministro Carney disse em Davos e que está a marcar uma das linhas de pensamento neste momento. E aquilo que o Miguel Mouzinho Jardim diz é certo, mas mesmo nesse cenário, essas potências têm que fazer escolhas estratégicas, não basta dizer isto. E portanto, é a partir daí que o Miguel Mouzinho Jardim passa pra parte mais interessante do discurso, quando cita uma aluna que diz sobre a sua geração, mas que me parece que é verdade pra todos nós, pra todos os que são adultos desde o fim da Guerra Fria, que é: nós não aprendemos a pensar em participar em escolhas e decisões estratégicas. E, portanto, a pergunta que o Miguel Mouzinho Jardim faz é: como é que fazemos isto juntos? Como é que pensamos e participamos em escolhas e decisões estratégicas para os próximos tempos? E aquilo que o Miguel Mouzinho Jardim sugere no discurso é que o façamos com base em conhecimento e experiência, e não nesta intuição e rapidez destes tempos atuais. E, portanto, diz: "Não, isto tem que ser feito com experiência, com história, com pensamento, com reflexão e não com urgência." Embora depois diga atenção, porque o tempo é mais curto hoje em dia, o tempo da decisão política é hoje em dia mais curto e, portanto, a reflexão e o conhecimento não quer dizer que seja perdermos um tempo infinito a pensar. E depois diz uma coisa que às vezes é assustadora para políticos e para quem escolhe políticos, que é Aceitar que não nos compete dominar ou compreender todas as marés do mundo até 2030. Temos que pensar a médio prazo, conscientes que nós não dominamos os factos. E depois termina indo buscar inspiração aos surfistas da Nazaré, dizendo que também eles precisam de coragem, de treino, de preparação meticulosa, de avaliação de risco e de um ecossistema de apoio. O que está a dizer é que é isso que um país que queira pensar o futuro precisa de ter. E depois termina dizendo, ao contrário do que diziam os Rádio Macau, que o futuro não é longe demais. O futuro é já ali. Eu gosto do discurso do Miguel Albuquerque porque é realista em relação ao mundo em mudança, há muito que desconhecemos e há a necessidade de pensarmos em conjunto que Portugal é que queremos e Portugal na Europa e nas relações transatlânticas é que queremos. E o presidente da República, de uma maneira diferente, no seu discurso fala das ansiedades que sentimos e diz que para lhes responder faltam-nos cada vez mais as palavras do meio. E para ele, as palavras do meio, no fundo, são as palavras que trazem ao diálogo gente que pensa de maneiras diferentes, mas que está disponível para se entender. Isto não é distante do que falámos há pouco, ou seja, gente que pensa de maneiras diferentes, mas que se consegue entender, em vez de se acantonar em sítios diferentes. E a ideia de que o país deve ser um chão comum. Aliás, António José Seguro diz: "A pátria é um chão comum e isso deve nos unir." E essa ideia é uma ideia positiva que eu acho que se pede ao presidente da República que venha com ideias positivas. António José Seguro continua e diz: "Olho para Portugal e vejo um país que tem mais do que aquilo que por vezes reconhece a si próprio." E diz que Portugal não pode cair no fatalismo, nem ficar à espera de milagres. E termina com uma coisa que a mim me parece extremamente importante, que é: os países que crescem de forma sustentada têm algo em comum. Os seus cidadãos confiam uns nos outros, confiam nas instituições e arriscam junto, porque acreditam que os outros vão cumprir a sua parte. Esta ideia de acreditarmos que os outros, sejam os outros concidadãos, sejam as instituições, vão cumprir a sua parte, é fundamental. Nós precisamos de um país em que acreditemos uns nos outros e que acreditemos que as instituições políticas cumprem. E para isso as instituições têm de cumprir.

Henrique, eu preciso de notas.

Precisas de uma nota e eu tenho que cumprir, lá está. E portanto, vou te dar uma nota. Eu acho que esta nota tem que ser acima da média positiva, portanto a média dos dois discursos vai para o 17, eu gostei mais de um do que do outro. Mas acho que esta ideia de realismo misturado com esperança e pedindo-nos coragem é uma mensagem positiva para o 10 de junho. E portanto, mesmo que alguns digam que o discurso do presidente foi um discurso Miss Mundo, eu acho que um presidente da República que diz que nós podemos ser melhores e que dá pistas do caminho é um bom presidente. E portanto, é esta nota de 17.

Nota 17 deixada pelo Henrique Borné. Vamos avançar, falar sobre a prestação social única, a PSU vai baixar à comissão de trabalho, um acordo entre o PSD e o Chega assegura isso mesmo. Luís Rosa, esta decisão já era esperada, agora 10 dias para arrancar, quer dizer, 10 dias na altura, agora já nove. A minha pergunta é se este será, no teu entender, o grande tema quente neste verão.

É um tema que o governo tem, não sei se devidamente explicaçado por péssima escolha ou não, mas nós temos assistido nos últimos meses a uma série de medidas em debate na Assembleia da República que são importantes reformas, que são relevantes. O que eu estou a falar do ponto de vista da Segurança Social em termos abrangentes, é um grande tema, é um tema que nós precisamos de reformas. Esta questão exata da PSU é uma questão que precisa daqui de pontos prévios muito sintéticos. É uma medida que está inscrita no PRR, vale 500 milhões de euros de fundos europeus e foi inscrita pelo Partido Socialista. Portanto, é uma medida que é apoiada pela União Europeia. Não estou a dizer que todas as ideias que o governo quer implementar são apoiadas pela União Europeia, não é isso que eu estou a dizer. Estou a dizer que a unificação destas 13 prestações sociais do regime não contributivo numa só é uma ideia que é apoiada pela União Europeia. Depois, é uma medida do regime não contributivo, ou seja, pessoas que não descontaram e estamos a falar de um universo de 130, 150 mil pessoas. Inscreve-se, e aqui é um ponto que eu acho que é muito importante, inscreve-se no contexto de reforma do Estado social que muitos países europeus estão a fazer desde há 15, 20 anos, tendo em conta precisamente a falta de sustentabilidade financeira de um modelo social europeu devido a problemas demográficos. Portanto, há necessidade de termos um Estado social menos generoso e mais rigoroso. E quem começou, se tu quiseres, com estas reformas, até foram os países nórdicos: a Suécia, a Dinamarca. Eu recordo-me que em 2014, por exemplo, eu estive em Estocolmo, que quase que vou parecer o Henrique Borné a falar da União Europeia. Não quero me equiparar, como é óbvio, mas estive em Estocolmo.

O Henrique, se for preciso, faz-te já um fact check sobre o que se passa em Estocolmo.

Então faz já um fact check, se for preciso.

Faz nada. Tem que ir lá investigar.

Recordo-me de assistir a debates, ler na imprensa sueca, por exemplo, matérias que tinham a ver precisamente com esta reforma do Estado social, em que os suecos em 2014 tinham a necessidade de ter um Estado social menos generoso. Isso até tinha a ver com, por exemplo, a entrada da Roménia para o espaço Schengen, que fez com que existisse algo nas ruas de Estocolmo que chocava os suecos, que era ver pessoas a pedir dinheiro, que era uma coisa que os chocava, porque eles têm um Estado social extremamente generoso.

Estás a ver esta questão da PSU como uma aproximação de Portugal?

Eu estou a ver uma aproximação a uma reforma do modelo social. Não interpretes mal as minhas palavras, ok? Eu estou a equiparar à reforma do Estado social, nos itens do Estado social. Talvez, eventualmente, por questões financeiras, menos generoso, mas também mais rigoroso. São fundos públicos que estão aqui em causa. As prestações sociais são pagas com fundos que o Estado cobra aos portugueses, são pagos pelos impostos que os portugueses pagam ao Estado. Isso, portanto, exige rigor. E portanto, por princípio, parece-me que a ideia, genericamente em abstrato, parece-me correta. Agora, do ponto de vista político, houve esta baixa para a especialidade, sem votação, é algo que é aceito, é uma prática regimental perfeitamente normal. Agora O Partido Socialista, do ponto de vista político, está aqui numa posição complicada, e isso foi bem explorado pelo PSD e pela direita, que foi o PS que quis criar esta situação. Falando da questão do rigor, não consigo compreender, porque nós não temos petróleo, não somos um Estado com problemas financeiros, um Estado com recursos parcos, é importante o Estado gerir os fundos públicos com rigor. Eu não consigo compreender a posição do PS, em que é contra a existência de um canal de denúncias ou da esquerda em geral, num canal de denúncias sobre esta situação. É importante recordar, e eu acompanho bem essa situação de perto, foi o Partido Socialista que criou os canais de denúncia. Foi o Partido Socialista, com o governo de António Costa, que obrigou as empresas com mais de 50 trabalhadores a ter canais de denúncia e obrigou o Estado a ter canais de denúncia. Não é só para denunciar as situações de corrupção, porque esta matéria foi criada no âmbito da Estratégia Nacional Anticorrupção, mas é também e tem servido na prática para denunciar abusos laborais, situações em que pode haver até situações de abuso de assédio sexual, enfim, uma série de situações.

Temos de acelerar, Luís.

Se os canais de denúncia existem para denunciar este tipo de situações, por que razão não devem existir para denunciar situações de abuso de prestações sociais? Não consigo compreender essa posição do Partido Socialista. Dito isto, obviamente que há situações que merecem uma maior atenção. Eu, por princípio, por exemplo, sou a favor da questão do trabalho social. Acho que quem recebe prestações sociais contribuir para a sociedade que o está a ajudar com trabalho social, com 15 horas semanais, por exemplo, por princípio e em abstrato, parece-me uma ideia que faz sentido. Agora temos que ver em concreto como é que essa situação se vai implementar, se o Estado tem capacidade para ter estrutura para implementar essa medida, e como é que ela se vai implementar na prática. Tentei pesquisar, não encontrei informação sobre isso, mas desconfio que até nos países da União Europeia, esse contributo de quem recebe prestações sociais, contributos para a sociedade, através do trabalho social, isso provavelmente também deve existir. Não deve ser propriamente uma criação original deste governo. Portanto, eu quero dar uma nota positiva ao governo, porque do ponto de vista político conseguiu fazer com que a medida baixasse à especialidade. Veremos qual o trabalho na especialidade. Veremos também se o governo vai aceitar contributos do PS para eventualmente melhorar a lei, do Chega parece que está disponível para aceitar. Para já é uma vitória política da Ministra do Trabalho, no sentido de conseguir pelo menos fazer baixar esta medida para a especialidade e provavelmente ela vai ser aprovada, portanto é uma vitória política para a ministra.

Desce com esse acordo entre PSD e Chega, esta nota positiva deixada pelo Luís Rosa. Henrique Borné, tenho um minuto e meio para falarmos sobre o acordo entre Irão e Estados Unidos, que era o teu primeiro tema. A conversa adiantou-se aqui um pouco, digamos assim, mas estamos cada vez mais perto. É esse também o teu entender, de um entendimento e de paz no Médio Oriente?

Desta vez parece que estamos, de facto, mais perto, porque por uma vez, tanto os Estados Unidos como o Irão estão a dizer que sim. Embora tanto os Estados Unidos como o Irão depois digam coisas diferentes, mas a verdade é que à certa altura o presidente dos Estados Unidos até retuitou uma coisa dita pelo ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano. Não a primeira coisa que os iranianos andaram a dizer, mas a segunda. Portanto, parece-me que podemos achar que estamos mais perto. Dizendo isto com estas cautelas, parece-me que podemos achar que estamos perto de um acordo. Agora, eu acho que em um minuto e meio dir-te-ia o seguinte: primeira coisa, é um acordo ou vai ser? Ou seja, isto é um acordo sobre os vários temas ou é um acordo para depois negociar o verdadeiro acordo, aquele que tem a ver com o nuclear, ou seja, o acordo substantivo. E este é apenas um acordo para um cessar-fogo completo, porque nós temos tido um cessar-fogo limitado, não por causa das pequenas escaramuças, mas porque sem bombardeamentos, a verdade é que continuou fechado o Estreito de Ormuz e o bloqueio ao Irão. E portanto, a primeira pergunta é: isto é um acordo para reabrir o estreito para os dois lados e começar as outras negociações ou é um acordo global? Parece-me que vamos estar mais no primeiro caso. É um acordo para começar um acordo. Segunda questão: quando a questão do nuclear surgir, como é que vamos trabalhar o tema das inspeções? Porque mais importante do que o Irão dizer que não quer ter armas nucleares, essa é a mentira que o Irão diz há vários anos, é como é que se inspeciona isso, como é que se fiscaliza isso e o que acontece ao urânio já enriquecido. A outra pergunta que vamos ter, e isso talvez seja anterior a estas que eu estou a colocar, é se com quem os Estados Unidos e os mediadores paquistaneses estão a falar no Irão é de facto quem decide. Ou seja, neste momento parece que no Irão a resistência militar tem estado organizada, o poder político pode estar fragmentado e portanto vai ser preciso perceber se quem está do lado de lá representa o Irão e portanto se o Irão assina isto ou não. E depois, as consequências regionais, porque Israel não é obviamente parte direta do acordo, não vai assinar certamente acordo nenhum com o Irão, nem o Irão com Israel. Isto tem ou não tem consequências para Israel, para o Líbano, para o Hamas e para o Hezbollah? Portanto, com estas dúvidas todas, estes são os aspetos que temos que ver quando olharmos para o acordo. Portanto, se quiseres, a minha nota é um 12, porque o mundo que neste momento deveria querer é que o Irão não tivesse armas nucleares nem apoiasse o terrorismo. Neste momento, a economia mundial quer é que o estreito reabra e portanto o 12 é estamos nesse caminho e isso é um bom sinal. Depois veremos o resto.

Bem, Henrique, para a próxima compensamos-te com o tempo, falas tu mais tempo que eu.

Eu tive culpa, porque eu entrei na tua conversa também.

Querias me provocar, mas acho que não me conseguiste provocar.

Para a próxima fazes a marcha de Alvalade.

Isso.

Para a próxima cá estaremos também. Luís Rosa, Henrique Borné, muito obrigado. Fica por aqui a edição de hoje de "E o Vencedor É".