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Começa agora o "Ilven Sourey" das manhãs 360. Já sabe que para além de nos ouvir na rádio, também nos pode ver. É só acompanhar-nos em direto através das nossas redes sociais ou do site do Observador. E Carla, esta terça-feira estão conosco o José Manuel Fernandes, o Miguel Pinheiro e o Miguel Santos Carrapatoço.

E esta manhã vamos naturalmente à convenção do Bloco. Temos também uma indignação do momento, mas Miguel Pinheiro, começamos com uma nota para o Presidente da República, que ontem teve um momento inesperado.

Sim, e acho que tudo isto poderia eventualmente fazer-nos pensar mais seriamente sobre um ponto que é o da saúde dos presidentes da República. Felizmente, estamos aqui a tratar de um problema de saúde, apesar de tudo, menos grave. Com certeza, foi preciso uma cirurgia de emergência, por assim dizer, mas estamos a falar de um problema que estará resolvido. Mas podia ser interessante pensarmos nisto como uma oportunidade para importarmos algumas tradições que existem noutros países, por exemplo, nos Estados Unidos, onde o presidente da República faz um check-up de saúde anual e depois são dadas algumas informações ao público. Tem a vantagem de os presidentes terem mesmo de fazer esse check-up anual, independentemente das suas idiossincrasias. E nós queremos que os presidentes da República estejam bem de saúde, têm uma obrigação para com o país e uma missão num cargo que é unipessoal, portanto, é bom que estejam bem. E depois também é um exercício de transparência. É verdade que nos Estados Unidos não tem havido muita transparência.

É só recordar a história recente.

É preciso reconhecer, claro. Com Joe Biden, por exemplo, os médicos do presidente evitaram fazer determinados exames porque tinham medo dos resultados. Com George Bush também há dúvidas sobre a fidedignidade de tudo o que é dito. A partir do momento em que nos dizem que ele tem quase a saúde de um adolescente, nós somos autorizados a duvidar. E ao longo da história houve muitos presidentes americanos a esconderem situações de saúde graves, de Roosevelt, a Kennedy. É uma história de muito pouca transparência, mas há ali uma lição a aprender. E nós devíamos começar a levar mais a sério a saúde dos nossos presidentes. E o facto de não levarmos a saúde a sério, para isso eu dou um oito, na esperança de que possamos melhorar.

Muito bem, um oito então. A primeira nota. Tens um outro tema, Miguel, mas agora saímos da cama do hospital pro divã. Paulo, foi isso que o Bloco esteve a fazer este fim de semana.

Acho que sim, e acho que fê-lo bem e fê-lo a um nível e a uma profundidade de autocrítica, de autoanálise, de reconhecimento de erros vários, não todos, eventualmente, mas bastantes, a um nível muito mais profundo que aquilo que é habitual assistir-se nos partidos portugueses, sobretudo nos partidos de esquerda. Os partidos de esquerda têm mais dificuldade em mudar de liderança, já sabemos, independentemente dos resultados, as lideranças muitas vezes vão-se prolongando. E depois em achar que são eles que estão mal. Não, eles acham sempre que têm o mau resultado eleitoral. Não sempre, mas quase sempre. Sempre que há um mau resultado eleitoral, os eleitores é que se enganaram e a prazo vão pagar por isso. O Bloco de Esquerda teve uma atitude muito diferente este fim de semana, a começar por Mariana Mortágua, que sai a dizer que o Bloco tem que mudar quase tudo. Portanto, isto está um bocado dito. José Soeiro diz que o Bloco tem que refazer o elo emocional com as pessoas, que a estratégia do Bloco na última campanha não resultou. Marisa Matias a admitir que o Bloco perdeu encanto e responsabiliza toda a direção por ter uma estratégia defensiva. Jorge Costa diz que o partido não foi capaz de criar uma nova cultura interna, mais inclusiva, mais participativa. Enfim, eu podia estar aqui vários minutos a ir citando aqui e ali dirigentes ou ex-dirigentes, pessoas com mais responsabilidades no partido, agora ou no passado recente, que no fundo foram pondo o dedo em várias feridas. Às vezes também é natural que depois atribuam a elementos externos os maus resultados do partido, em parte, que foi a ofensiva da direita e sobretudo da extrema-direita. Sim, é verdade, mas os partidos têm que saber adaptar às circunstâncias que não estão congeladas. Quer dizer, o país de hoje é diferente do país há 20 anos, e há 20 não, há 30 anos, quando o Bloco apareceu, também já eram diferentes.

Estão a reveredar os olhos aos 30 anos. Já é muito.

Quando o Bloco apareceu também foi para ocupar espaços que o Bloco achava que estavam vazios e fizeram isso bem e também se implantaram com rapidez. E eu queria saudar isso. Há aqui uma questão, eu acho que toda a gente do Bloco mantém a teimosia, que é de ter sido positiva ou negativa a ida de Mariana Mortágua na flotilha. Continuam a dizer que é um motivo de orgulho e que fez bem. Enfim, lá farão a avaliação deles. Não temos nenhuma Nenhuma avaliação mais objectiva ou científica sobre isso. Dá-me a ideia que ter a líder, a única deputada do partido fora do país durante um mês e meio, não seja muito positivo nesta altura do campeonato, mas é a avaliação deles. E eu queria dar essa nota positiva, achar também que José Manuel Pureza, pelo seu perfil, de alguma maneira, pode ser um perfil interessante, pode ser um líder interessante para o Bloco fazer a sua adaptação política ou o seu reposicionamento político, se quisermos. Ele que tem um discurso mais moderado, é uma pessoa mais empática quando fala em público. É católico, embora eu ache que isso não é relevante, sinceramente, mas o que também ajuda a caracterizá-lo, de alguma maneira. Vamos ver o que é que isto vai dar, mas eu acho que é um bom tiro de partida para um novo ciclo do Bloco de Esquerda, este reconhecimento público dos erros que foram cometendo e a noção de que as coisas estão difíceis.

Miguel Santos Carrapato, você que acompanha esta convenção a pari passu, foi um bom exercício de autoanálise e autocrítica?

Foi raro. Foi, sobretudo, um exercício raro de autocrítica. Se esta autocrítica nasce do desespero ou se nasce de um sentimento genuíno de que as coisas correram mal, não consigo, nesta altura, avaliar. Ainda assim, e acompanho o Paulo quando diz que, sobretudo José Manuel Pureza, centrando-me nele, lançou as bases para o que será um novo bloco. Nisso acompanho o Paulo pelo simples facto de José Manuel Pureza ter feito uma coisa que é rara, sobretudo à esquerda, que é o pedir desculpa. Erramos, pedimos desculpa, porque não soubemos interpretar o pulsar dos eleitores. Isso é raro. E nós até há meia dúzia de semanas, tínhamos ainda depois das eleições autárquicas em que o Bloco somou mais um péssimo resultado, tínhamos Mariana Mortágua a dizer que a estratégia estava correta. Portanto, há aqui uma diferença. Se é uma operação cosmética ou não, não sabemos. É muito cedo ainda para avaliar. José Manuel Pureza ontem deu a sua primeira entrevista enquanto coordenador do Bloco de Esquerda e fê-lo na SIC, e mais uma vez disse que era muito fácil resumir isto a um problema de comunicação. Não foi apenas um problema de comunicação. Houve decisões erradas. Isto é um primeiro princípio. Não sei exatamente pra onde é que levará o Bloco de Esquerda. A esquerda em si mesma não está numa posição fácil. O Bloco quer ser agora uma nova plataforma de convergência, mas ninguém parece muito interessado em falar com o Bloco de Esquerda. Depois há sinais contraditórios. Um partido que quer ser ou quer fazer essa convergência à esquerda tem uma candidata a correr em pista própria nas eleições presidenciais. Portanto, há aqui uma série de contradições que precisam de ser resolvidas. Mesmo a questão da assunção dos erros, percebo por algum pudor, mas ainda é muito frágil. Ontem mesmo, José Manuel Pureza várias vezes desafiado a dizer o que errou ou o que o Bloco fez de mal. O discurso ainda custa a sair, portanto, é por isso que eu tenho alguma cautela.

Porque aí começam a estar em causa pessoas.

Exato. Percebo que possa ser um pouquinho por pudor, mas por isso é que eu estou assim com algumas reservas em perceber se isto é de facto um ato de contrição ou uma operação cosmética.

Isso é o mais importante. Se não se diz o que correu mal, fica só a dizer.

Há aqui coisas que ele disse.

Tem que se ter noção do que é que correu mal.

Sim, acho que estão muito ainda voltados pro plano interno e não necessariamente pro plano externo.

Até porque no fundo há duas linhas dentro do Bloco, uma que correu mal porque acham que eles foram pouco radicais e os que acham que correu mal porque foram muito radicais. Portanto, convém entenderem-se.

Há uma ideia interessante que é: passamos demasiado tempo na defensiva ou de forma reativa, sempre a reagir à agenda dos outros. Se o Bloco, que eu duvido que consiga, até por questões práticas e evidentes, com um deputado num sistema rotativo, com o líder fora do Parlamento, será uma missão muito difícil. Mas num mundo ideal em que o Bloco consiga marcar a agenda e introduzir novas ideias, pode ser por aí. Mas ainda assim acho que é preciso tempo para perceber se isto é uma operação cosmética ou se é de facto um ato de contrição pra levar a sério.

Miguel Pinheiro, que sinais é que deu José Manuel Pureza?

Equívocos, de facto. Eu percebo que ele esteja numa posição difícil, porque se ele fosse falar sobre os erros que foram cometidos, então tinha que começar a criticar toda a gente que está à volta dele e que o escolheu pra chegar àquele lugar. Mas há coisas que me fazem especial impressão. E há uma tese que o Bloco de Esquerda tem tentado impor nos últimos tempos, que é o de que Mariana Mortágua, as coisas não correram bem, porque ela foi, e vou citar a entrevista do fim de semana do José Manuel Pureza, "asperamente atacada por ser mulher". Esta teoria de que o problema não é de Mariana Mortágua, o problema é do heteropatriarcado, que não pode ver uma mulher à frente de um partido e começa imediatamente a atacá-la. Enfim, tenho duas dúvidas sobre isso. Como?

A anterior líder não era mulher.

Não, precisamente. O meu primeiro ponto é esse. Catarina Martins era mulher e chegou aos 19 deputados e quando saiu, não disse que estava a sair

Por ser mulher. Esse é um ponto. Outro ponto é que outros partidos tiveram já, felizmente, mulheres na liderança. O PSD com Manuela Ferreira Leite, o CDS com Assunção Cristas. Também houve ataques por serem mulheres.

A Iniciativa Liberal tem actualmente uma líder mulher.

Também tem, Mariana Mortágua.

A Iniciativa Liberal tem uma líder mulher. Não sei como é que vai correr, mas para já tem uma líder mulher.

E finalmente, acho que há aqui uma questão de coerência do Bloco. A anterior líder fracassa porque foi atacada por ser mulher e o que o Bloco faz é escolher um homem? Então o Bloco cede à pressão do heteropatriarcado e decide substituir uma mulher por um homem? Se o argumento é este de Mariana Mortágua ter fracassado por ser mulher, nós podemos perguntar: escolheram um homem para não terem uma outra líder mulher que vá ser atacada também por ser mulher? O que vos levou a fazer esta opção? Cá está mais uma vez o Bloco de Esquerda a refugiar-se nas explicações de género e outras parecidas para justificar falhanços políticos. Mariana Mortágua falhou porque foi uma má líder do Bloco de Esquerda. Seja mulher, não seja mulher, independentemente de ser mulher, não é nada disso que está em causa. Ela foi uma má líder do Bloco de Esquerda, tomou decisões erradas, juntamente com o resto da direção, que é a mesma direção que manda no Bloco há muitos anos e que vai continuar a mandar no Bloco há muitos anos. Tomou decisões erradas. Não vale a pena estar agora a inventar motivos para o fracasso de Mariana Mortágua.

Vamos à tua nota então, Miguel.

Para este argumento um bocadinho infantil, eu acho que dou um cinco, talvez.

E tu, Miguel Santos Carrapatoço?

Vou dar um 11 a José Manuel Pureza. Acho que percebeu para onde deve ir. Não sei se conseguirá fazer o que se propõe fazer.

E tu, Paulo, a tua nota?

Eu tinha aqui um 12, mas este argumento que eu não conhecia da mulher foi-lhe retirado um ponto, de facto, para 11 também. O argumento é infantil. É muito comum, de facto, mas é infantil.

Aqui ficam as notas sobre a convenção do Bloco. José Manuel, queres ir a um assunto de ontem? Uma publicação que a Direção-Geral da Saúde fez nas redes sociais a propósito do Dia Mundial da Sida e que acabou por retirar depois de haver críticas ao facto desse cartaz só ter pessoas negras.

Basicamente é o seguinte: eu aconselho as pessoas a irem às fontes, como se costuma dizer. Vão ao site da Organização Mundial de Combate à Sida, que é uma organização das Nações Unidas, e vejam o que lá está. Eles distribuem imensos materiais para as redes sociais, para divulgação, capas de cartazes, capas de relatórios, imensa coisa. A proporção de figuras de origem africana é esmagadora. Aliás, a própria presidente da organização é africana. Não sei se é porque ela tem mais preocupação por ser africana com isso do que outras pessoas teriam. E olhando para os cartazes, para todos os materiais propostos para o dia de ontem, há aqueles que inclusivamente já vêm com tradução para português, que é fácil de utilizar. O único imediatamente utilizável, digamos assim, porque o outro também com tradução para português. Dos outros dois com tradução para português, um tem a ver com uma operação na Guatemala e outro com os tratamentos em 2024. Digamos, o único com tradução em português e que era fácil de utilizar era precisamente aquele que a Direção-Geral de Saúde utilizou. E não se compreende esta reação, sobretudo este medo. Quem provocou isto tudo, quem originou isto tudo, foi uma deputada portuguesa, mas de origem africana, do Partido Socialista, é uma rapper, que se tornou já conhecida em várias ocasiões.

Eva Cruzeiro.

Eva Cruzeiro, exatamente. A Direção-Geral de Saúde deu uma justificação e cedeu. Não vejo necessidade disso. Vamos lá ver, porque é que neste momento a Organização das Nações Unidas para o Combate à Sida, que é uma coisa chamada UNAIDS, tem como diretora executiva uma africana? Porque é que a maior parte dos materiais que distribui tem pessoas não caucasianas? Porque também há aqui muçulmanos, também há aqui pessoas que se percebe que são de outras origens. Porventura, porque é em África que estão centrados os problemas e não pela razão apontada ou aparentemente apontada por Eva Cruzeiro, que era o estereótipo. O estereótipo, o preconceito, agravaram o preconceito. Eu penso que a Sida nunca teve um preconceito relativamente a pessoas não caucasianas. Pelo contrário, ao princípio tinha sobretudo a ver com a orientação sexual, como todos nos recordamos Portanto, eu acho que esta reação, em vez de dizer: "Vão à fonte e digam lá se nós estamos assim tão mal", não devia ser. Devia haver mais coragem para enfrentar este politicamente correto que está sempre a vir de todos os lados. Depois imagino que deve ter havido imediatamente imensos trolls nas redes sociais a seguir a Eva Cruzeiro. Não andei lá a ver. Em vez de andar nas redes sociais, fui à fonte. A fonte é de facto esta, e é isto que lá está. Porque é que eles fazem essa opção? Não te sei dizer, mas os outros materiais são...

São todos semelhantes.

São todos semelhantes.

Não deixa de ter pouco cuidado. É óbvio, se queres representar a população portuguesa, não pões três pessoas negras, nem pões três pessoas brancas, eventualmente. Provavelmente aqueles materiais em África são acertadíssimos, adequados.

Mas o objetivo era representar a população portuguesa.

No fundo, estás a dizer que a SIDA não morreu.

Era o Dia Mundial de Luta contra a SIDA. Neste momento, nem sequer tem o destaque que tinha antigamente. Antigamente havia sempre imensa chamada de atenção. Simplesmente, o problema está em boa parte mitigado. Não está resolvido, mas está em boa parte mitigado. E, portanto, eu continuo a achar.

Não vês razão para tanta...

Usaram o que veio. Não vejo razão. Deixavam estar, davam uma explicação. Podiam fazer outra a seguir, se fosse caso disso, só com caucasianos ou com caucasianos misturados com indostânicos para ser completamente politicamente corretos ou uma coisa desse género.

Vamos pôr quotas. Mas aí temos que ter 47 pessoas que é para representar tudo entre homens e mulheres.

Toda a nossa diversidade.

Mais altos, mais baixos.

Vamos só à tua nota.

Portanto, eu fico sempre surpreendido com esta hipersensibilidade. Eu creio que se tivessem só lá brancos, ninguém dizia nada. Ou só lá caucasianos, ninguém diria nada.

Aquelas imagens do Dom Quixote.

Vou dar um nove a tudo isto que se passou. Preferia que não tivesse acontecido. Acho que para discussão no Dia Mundial da SIDA é a discussão errada.

Ficou redutor. Não havia necessidade.

Como costumo dizer, não havia necessidade.

E o Vencedor é regresso a mais logo na tarde política. Numa versão alargada que começa a seguir ao jornal das 18h, esta terça-feira dão notas a Judite França, o Alexandre Borges e o Nuno Gonçalo Poças.