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Está no ar o "E o Vencedor É..." Hoje a análise aos protagonistas da atualidade é feita pela Filomena Martins e pelo Rui Pedro Antunes, que se juntam ao José Manuel Fernandes, ao Paulo Ferraro e ao Júlio Magalhães. E nunca é demais dizer que também nos pode acompanhar e ver em direto através do Facebook, do YouTube e do site do Observador. Carla, esta manhã vamos ter dois grandes temas em análise: a frota de automóveis da TAP e os discursos do cinco de Outubro.
São dois grandes temas. Comecemos pela decisão da administração da TAP de renovar a frota automóvel para administradores executivos, diretores de topo, poupando, ficámos também a saber no comunicado, 630 mil € por ano. Filomena Martins, queres começar?
Posso começar. Até porque eu acho que tu estavas a enganar bem, que remover era a palavra quase certa.
Pois, mas não é.
Pois era, pois não é. Mas era uma boa poupança, se calhar. Eu se calhar começava até pelo remover.
O meu lapso.
Vamos pelo teu lapsus lingual. Mas como é que eu diria isto? Eu se calhar até começava pelo cinco de Outubro, que era outro tema que o Marcelo falou no final do cinco de Outubro. Se calhar as palavras mais certas do que disse ontem, que é contenção e bom senso, teriam sido aqui as coisas mais certas a ser utilizadas num caso destes. Porque o que me faltou aqui ainda foi ouvir Pedro Nuno Santos, o responsável do governo pela TAP, que ainda não disse nada. E o próprio António Costa, que apesar de não ter dito nada, teve um comentário, disse que ainda não tinha lido as notícias todas, mas mandou uma boca claríssima, disse que ia entrar no seu mais modesto Nissan Leaf, que de facto não é um BMW. Porque de facto, este não é o momento para uma empresa como a TAP, que está em crise e em dificuldades, que está sob o novo resgate, que nos vai custar 3 bilhões de euros. Para quê um governo andar à procura de um novo acionista? E como o Paulo, aliás, já disse aqui neste programa, que devia olhar há muito tempo para o exemplo alemão e ter percebido que é possível recuperar uma companhia aérea e devolver toda a dívida que já teve e pagar-nos de alguma forma, a todos nós, aquilo que deve. E numa altura em que estamos, em que pode ter de enfrentar uma nova crise mundial face à recessão prevista, a que se junta, aliás, ainda, o aumento dos preços dos combustíveis. Como é que uma administração não percebe que, independentemente de um contrato destes da frota automóvel estar a acabar e esses contratos acabam, e ser necessário mudar uma frota, que é possível e devem-se dar sinais necessários, e um destes são as frotas automóveis. E trocar Peugeots por BMWs, por mais explicações de poupanças que nos sejam dadas, não colam. São ética e moralmente condenáveis. Eu não percebo nada de carros, posso já dizer aqui, confesso. Para mim, carros têm umas rodas e andam e pronto, acabou. Mas uns andam mais do que outros. É isso. São todos iguais, não é? E eu acredito mesmo, Paulo, vou-te já dizer, que haja Peugeots mais caros que BMWs. Pois, certamente. Até acredito que haja muito boa intenção em ter carros mais amigos do ambiente, e estes são híbridos, plug-ins, ou lá como é que isto se chama. Mas senhores, são carros todos que custam, e isto é o que me detém aqui, 50 e 60 mil € para administradores e diretores. E há 50 a ter direito. E mesmo que os contratos tenham acabado e não sejam mais renováveis, essa conversa toda da poupança, eu fui ao Google, que é muito meu amigo nestas coisas quando eu não sei nada, e descobri carros destes, híbridos e plug-ins, bem mais baratos e até com bastante bom ar. E também são amigos do ambiente, também dão benefícios fiscais e, digo eu, não envergonha nenhum administrador ou diretor da TAP enquanto ele for a conduzir para a empresa, espero eu que fazer planos de como poupar e reformular a empresa de uma vez por todas, para depois finalmente ela poder ser privatizada, como já devia ter sido, ou aliás, nunca devia ter deixado de ser. E já nem vou falar de tantos diretores, de administradores estrangeiros, de grandes e grandes empresas, que andam de transportes públicos com grande orgulho, já que pelos vistos até o objetivo é ser mais verde. E se estamos, de facto, num plano de reestruturação da TAP, talvez poupar em tantos administradores, diretores com carros, fosse um bom primeiro passo. Repito, são 50. Isso é muito importante. Se estamos a cortar nos tais, aliás, o Miguel falou disso há pouco, o mau vilão, a cortar em ordenados de pilotos, que de facto são aqueles que me preocupam, porque quando eu vou de avião, conduzem aquelas coisas. Preferia que cortassem nos carros desses 50 diretores e administradores executivos. Ora, 500 a 750 € por mês, isto está lá na explicação da administração, por cada carro. Dá no mínimo, Paulo ajuda, mas é 6 mil € por ano, vezes 50, é fazer contas, como diria alguém que nós conhecemos. Eu penso que o que devia ser do mais elementar bom senso, aquela comunicação em explicações, é uma sonsice com a qual nos querem fazer passar a todos por sonsos. Portanto, tenham lá santa paciência e um bocadinho de vergonha na cara, que nos fica bem a todos. Aqui não passa, portanto o teu lapsus linguae era a minha vontade de começar este texto. E ficamos simpaticamente por aqui. Queres que eu comece por um zero? Vamos começar.
Começa a expor, começa a rozer.
Para usar amanhã, porque é sonsisse. O Miguel estava a dizer: "Eu não quero fazer isto tudo, andar por aqui. Não quero estar aqui com coisas, não tem nada que os administradores tenham carros". Mas estamos a fazer uma reestruturação. Há 50 administradores e diretores da TAP a ter direito a carro. E quando estão a fazer uma reestruturação, renovam isso. Não podemos cortar aqui neste item, já que é para renovar. Mas pronto, vamos lá. Como é que é? Híbridos plugin vezes 50 carros e que sejam BMW.
Ó Carmo.
Rui Pedro.
Não, eu só vou dar uma nota sobre isto.
O Rui Pedro sabe imenso de carros.
Não sei, não. Há três pistas. Uma que eu queria dar era que pode ser uma opção de gestão para vender à Lufthansa, já que estão cá os carros alemães. Isto é uma hipótese.
É uma operação de charme.
Exatamente. Contrapartidas de submarino.
Exatamente.
A segunda hipótese é que nós temos um ministro que tutela a área, que ia pôr as perninhas dos banqueiros alemães a tremer. Se calhar, agora quer colocar os administradores com o rabinho tremido nos carros dos alemães. Segunda hipótese. A terceira é que eu acho que está resolvido um mistério, porque há anos que ouvimos André Ventura a dizer assim: "Não compreendo alguém que viva dos nossos impostos e tenha um BMW à porta". Agora já percebemos do que é que ele está a falar. O homem nunca diz o nome da comunidade, a comunidade são os administradores da TAP. Pronto, está resolvido.
Será que está resolvido, José Manuel Fernandes, ou isto é uma sonsisse, como diz a Filomena Martins? José Manuel. Penso que o José Manuel não. Agora sim, estamos a ouvir. Sinceramente, eu acho que é pior que uma sonsisse. Há questões que são muito delicadas nas empresas. Eu já vivi algumas dessas situações, e uma das questões mais delicadas nas empresas é, em períodos de reestruturação, pedir sacrifícios, pedir compreensão às pessoas, haver alterações no parque automóvel. E há uma razão simples para perceber isso. As alterações no parque automóvel muitas vezes têm até justificação económica simples. Muitas vezes olhando para as contas, quanto é que se gasta em combustível, os gastos do parque, as propostas financeiras que são feitas pelas empresas de renting, todas essas coisas, até pode ser vantajoso fazer as trocas. Só que acontece que os chamados carros de companhia, carros de função, é uma forma de pagar mais às pessoas, não pagando tudo em impostos.
No recibo de vencimento.
Basicamente é isso, não vir tudo no recibo de rendimento. E é por isso que em Portugal existe um número de carros de função absolutamente extraordinário quando comparamos com outros países do nosso campeonato ou de campeonatos que estão bem à frente de nós.
O número e a qualidade média.
E a qualidade média. O parque automóvel das empresas é muito impressionante. Não vou contar a história do porquê disso, tem a ver com a descida das taxas de juro, enfim, muitos outros mecanismos, mas é um parque impressionante. E portanto, o cidadão, o trabalhador, que não está naqueles escalões de rendimento, ou melhor, de responsabilidade, que lhe permite ter o carro de função, olha para os carros de função e muitas vezes são carros que custam, agora já não diria que custam o preço de um apartamento, porque os apartamentos subiram muito de preço, mas muitas vezes custavam o preço de um apartamento. E dizia: "Mas que é isto, quando nos estão a pedir sacrifícios?" E portanto, é o mínimo de sensibilidade não fazer esse tipo de erros de gestão. E depois há outra coisa, e eu gostava de chamar a atenção para isso. Um dos argumentos da TAP é que trocou os automóveis velhos, a diesel, os tais Peugeot, por automóveis que agora são mais eficientes, são híbridos plugin, mais amigos do ambiente. Ora bem, acontece que há duas coisas que se passam com os híbridos plugin quando eles são carros de função. É basicamente o seguinte, há um podcast aqui do Observador, do Alfredo Lavrador, em que ele explica tudo isso com grande detalhe. Mas basicamente o que acontece são duas coisas. Primeiro, estes carros são eventualmente mais baratos do que aqueles que a TAP tinha antes, porque têm benefícios fiscais. Portanto, isto significa que o Orçamento do Estado está a subsidiar a compra do novo parque automóvel da TAP. Reparem, o Orçamento do Estado, através de isenções fiscais, estes carros, por exemplo, não pagam IVA. Todos nós, para comprarmos uma Mitsubishi qualquer, temos que pagar IVA. Se comprarmos um híbrido plugin, em nome da transição energética, não pagamos IVA. E estes carros de luxo não pagam IVA. Sendo que, por regra, os híbridos plugin, mesmo com a ajuda fiscal, são carros que ficam às vezes mais caros ao bolso do cidadão comum, a não ser que estejam nestes esquemas dos rentings. Ora bem, o que acontece? O cidadão comum tem cuidado e usa o plugin, liga o carro ao carregador lá de casa. Só que quando o carro é um carro de função e muitas vezes as próprias funções vêm juntamente com o carro, vem uma senha de gasolina ou de combustível, esse cuidado não é tido e, portanto, o carro, em vez de se tornar mais ecológico, torna-se menos ecológico, porque a pessoa usa basicamente o outro motor, o híbrido quer dizer que tem dois motores, usa o motor tradicional, porque consome pouco, não tem a necessidade de estar a recuperar o investimento, que não foi ele que fez o investimento, foi a empresa, e acaba por ligar poucas vezes à tomada, sendo que um híbrido, porque é um carro mais pesado, tem que ter lá o peso da bateria e o peso do segundo motor, é um carro que habitualmente gastará mais que um carro idêntico, da mesma categoria, mas que não tenha lá a bateria e o motor. Portanto, tudo a perder. É isto que a TAP está a fazer com esta troca, que além da falta de sensibilidade de gestão, de poder dar cabo da boa vontade, ou já da pouca boa vontade que existia relativamente a este processo. De certeza que havia outras formas de resolver o problema dos contratos que estavam a acabar, até porque os carros eram carros muito antigos, eram 2017
Tinham cinco anos, tinham de ser deitados fora, substituídos. Mas que usem, que as pessoas da TAP andam aos carros. A maior parte das vezes irem para casa, casa, trabalho, trabalho, casa.
A Filomena deu um zero, que nota é que lhe vais dar, José?
Eu vou acompanhar o zero da Filomena, porque acho que de facto isto é muito errado.
Zé, e eu acho que a ala de BMWs plugin, como tu lhes chamas e essas coisas todas, também há, aliás, como o próprio António Costa deve ter dito, aqueles Nissan Leafs que ele tem também é plugin, se não é plugin é uma coisa parecida.
Esse é o mesmo princípio.
Esse é elétrico. Mas há outra coisa plugin sem ser BMW, não há?
Mas é utilizado.
Pergunto eu.
Sim, claro, todas as marcas já têm híbridos plugin.
Ele fala disso, o António Costa, mas quando ele vai daqui de Lisboa para o Porto, não vai no Leaf.
Para chegar numa hora e meia ao Algarve, como fez aqui há tempos, não é no Leaf, certamente. Portanto, aquilo é basicamente marketing.
É para voltinhas aqui em Lisboa.
Sim.
Também é publicidade então.
Portanto, aqui tudo avaliado em zero nesta questão da renovação da frota automóvel na TAP. Vamos mudar de assunto. Paulo, queres falar do dia de ontem, do 5 de Outubro?
Quero, sem entrar nos discursos, porque obviamente que há uma análise que pode ser feita aos discursos, mas eu ia mais a estas celebrações rotineiras, do regime a cumprimentar-se, a dar bacalhausadas a si próprio e todos muito contentes. Há três momentos ao longo do ano em que nós fazemos isto, o 25 de Abril, o 10 de Junho, o 5 de Outubro e mesmo pessoas fora da bolha mediática e política ficam de alguma forma atentos ao que vão dizer os discursantes nestes dias, sobretudo o presidente da República de turno. Fazem-se uns discursos, há uns aplausos, a seguir comenta-se. Ontem tivemos aquela particularidade de termos o presidente da República a comentar-se a si próprio, já nada de novo também. E depois o regime segue a sua rotina. Só que essa rotina é uma rotina medíocre, como nós temos visto. Aquilo que devia estar ali ontem celebrando a República, obviamente, que é um regime que eu pessoalmente prefiro à monarquia, como é evidente, mas atenção, isso não me faz desmerecer a monarquia. A República é importante dependendo daquilo que nós fazemos dela. E aquilo que nós temos feito dela é que nos devia envergonhar de alguma maneira. Desculpem lá este cinismo e o cinismo cada vez maior com que eu olho para estas coisas todas, mas somos muito bons na coreografia, na cenografia, quando nós não andamos a hastear a bandeira e não a colocamos de pernas para o ar. Mas está lá tudo certinho, os palanques, o protocolo, quem é que está primeiro, quem é que está à frente, a seguir, as cadeiras todas alinhadas. Até costuma haver já nestas coisas o cantinho do manifestante, que é um sítio devidamente resguardado pela polícia onde as pessoas podem ir para ali gritar, uma espécie de Speakers' Corner, mas aqui nas comemorações oficiais. Ontem eram professores que se manifestavam por lá. Ouvia-se ao longe. A grande questão é que nós confundimos meios com fins e instrumentos com objetivos. A República é um regime, mais uma vez, melhor do que a monarquia, por razões que não vêm ao caso, mas é sobretudo importante por aquilo que nós podemos fazer dela. E o que temos feito dela, sobretudo nas duas últimas décadas, devia mais envergonhar-nos do que encher-nos de orgulho. E estas comemorações são sempre muito cheias de orgulho. Há mais de 20 anos que nós andamos aqui a patinar, não temos razão nenhuma para estar satisfeitos com a forma como nos temos servido das nossas instituições. A última grande reforma, grande mudança do país, foi feita no virar do século, foi a adesão ao euro, do país ao euro. Foi a única grande mudança. Depois disso, temos andado ou em crise ou a preparar a própria crise em que nos vamos afundar, basicamente. Antes da adesão ao euro, tivemos Mário Soares com a adesão à então CEE, à União Europeia, foi uma grande mudança. Depois Cavaco Silva com a primeira utilização dos dinheiros que vinham da Europa, com a abertura da economia e depois disso, esqueçam, não aconteceu mais nada. Desde aí, de facto, andamos a patinar e eu acho que estes rituais que não põem o dedo na ferida e que vão para ali acentuar caráteres positivos institucionais do regime A ao regime B, sem no fundo fazer as contas à forma como se dá a ser utilizado, acho que só nos enganam de alguma maneira. E acho aquilo tudo muito pindérico e cada vez mais pindérico, sobretudo quando é feito por pessoas que estão lá décadas sucessivamente. Mas comemora o quê aquela gente?
Então esse pindérico vale quanto?
Este pindérico vale quatro. Mais do que andarmos ali com bacalhaozadas, deviam era olhar-se ao espelho para saber aquilo que têm feito.
Um quatro que está a ser a nota mais alta até ao momento. Rui Pedro Antunes, também queres olhar para o 5 de Outubro, para a forma ou para o conteúdo?
Um bocadinho para o conteúdo.
Então vamos lá.
Deixem-me só dizer aqui uma coisa, a título de curiosidade. Estava aqui agora a verificar a declaração de rendimentos de António Costa e ele tem um Peugeot e um BMW na sua vida, na sua garagem privada. Portanto, tem logo o melhor de dois mundos. Mas pronto, cada um tem a Oktoberfest que merece.
Mas são plugins ou não? Eu agora estou aqui muito fascinada com este mundo novo.
Eu nem sei o que isso é, Filomena, não faço ideia.
Mas eu agora fui ao Google.
O BMW é um 318, pronto. E é um Peugeot agora 2008, mas que isto não sei.
Eu depois explico-vos o que é um plugin. Eu tenho um, o Zé Manuel vai me matar a seguir, mas eu tenho um.
Eu sei que tu tens um, mas eu já te vi ligado à tomada.
Sim, mas o Zé Manuel sabe ligar.
Todos os dias ligado à tomada.
Nós temos um minuto.
Pagaste eu tuite, portanto tens que reparar o investimento. Carla, eu vou te ajudar, eu vou ser muito rápido nisto, porque já esgotei com o BMW, mas vou ser muito rápido nisto.
As nossas baterias estão a chegar ao fim, sim.
Exato. É que Marcelo Rebelo de Sousa, de facto, nos últimos dias tem andado meio perdido a dar recados por aqui e por ali. Envolveu-se numa história de um envio para o Ministério Público. Neste xadrez político em que ele está, viu-se envolvido em algumas tramas sobre os vários casos que se sucederam no governo, de incompatibilidades, recebimento de fundos por familiares, etc. Foi sempre: "Eu não falo do caso concreto, tem que se apurar. Se há incompatibilidade, ele tem que decidir se acaba com ela ou se sai do cargo", mas sempre sem querer ser muito assertivo. Eu acho que um dos grandes problemas de Marcelo Rebelo de Sousa é precisamente, embora seja uma figura popular e consegue chegar a uma pastelaria e comer sete tipos diferentes de bolo, depois tem uma dificuldade em às vezes falar uma linguagem que as pessoas percebam, o que é estranho para um professor que até é bastante elogiado pelos seus alunos em Direito. E é sempre preciso estar a ler o que ele quer dizer. Eu acho que às vezes era mais útil, de facto, ele dizer o seguinte: "Este caso é inadmissível em democracia. Informei-me." Ele diz sempre: "Eu não sei, não conheço o caso concreto." Pois se não sabe, devia saber, porque se ele quer ser o garante último da democracia e se quer que ela tenha mais qualidade, tem que fazer esse escrutínio, e esse escrutínio faz-se fazendo perguntas ao governo. Portanto, quando ele vem sempre dizer: "Eu não conheço o caso concreto, eu falo em abstrato." Não, ele pode falar de casos concretos, sem se imiscuir diretamente, pode utilizar a palavra, que é o magistério que ele tem de influência, para dizer que estes casos não são permitidos. Ele não pode só usar o veto de um determinado ministro a uma crítica para impedir João Gomes Cravinho de ser ministro da Defesa, como fez antes da composição do governo, e depois não ser consequente durante o mandato. Mas mesmo assim eu queria dar uma nota positiva a Marcelo Rebelo de Sousa, porque depois desse tempo todo, eu vou lhe dar um 12. Lá falou de uma maior qualidade da democracia e dos erros e das omissões que matam a democracia. Portanto, conseguiu, de alguma forma, sempre de uma forma meio velada, fazer essa crítica ao governo e deixar esse aviso. E disse, como sempre, atenção, que há grandes diferenças de há 100 anos para agora, e uma delas é que eu posso dissolver o Parlamento. É sempre um aviso, é uma espécie de aviso permanente.
É mais uma ameaça no ar.
É como se António Costa pudesse ter um toque de telemóvel que dizia: "O presidente pode dissolver o Parlamento". Ele está sempre a lembrar disso, dessa situação, e por isso eu dou um 12 a Marcelo Rebelo de Sousa, pelo menos para ter dito finalmente qualquer coisa que se perceba. Mais qualidade da democracia, acho que é uma coisa que toda a gente consegue perceber sem grande leitura e perceber que há ali um aviso ao governo.
E então terminamos assim, um vencedor mesmo com uma nota positiva, um 12 para o Presidente da República.