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E o vencedor é na Rádio Observador e também em vídeo no YouTube e nas redes sociais do Observador, hoje com a Judite de França, junta-se a Helena Garrido e o Anselmo Crespo. Avançamos para a grande notícia do dia, a notícia do arquivamento da averiguação preventiva contra Luís Montenegro. O DCIAP decidiu não avançar com o inquérito criminal contra o primeiro-ministro. Helena Garrido, que leitura faz? Já hoje aqui na Tarde Política ouvimos várias opiniões, desde Ricardo Sá Fernandes a dizer que isto é um dia péssimo para o combate à corrupção e para a justiça em Portugal. Também ouvimos, por exemplo, Marinho Falcão defender exatamente o oposto, a dizer que o DCIAP fez o que devia ter sido feito. Que leitura faz também desta decisão?

Eu não posso dizer que é um dia péssimo. Nós não sabemos. Temos de confiar na justiça e confiar na decisão que foi tomada, considerando que não existiam indícios ilícitos criminais, é assim que se diz. E se a justiça considera que não existem, nós temos de confiar na justiça, como confiamos noutras situações. Dito isto, parece-me que há aqui, uma vez que envolve o primeiro-ministro, há aqui aspetos que valia a pena garantir, nomeadamente que o despacho é público e que os documentos também são de acesso público.

O despacho de arquivamento não é público.

Tanto quanto sabemos, não vai ser público. Mas penso que isso é um erro, porque suscita ou legitima posições como aquelas que referiste, de que isto pode não ser um dia muito positivo para a corrupção. Eu diria que para já é positivo acabar com esta nuvem que pairava sobre o primeiro-ministro e que gerava incerteza quanto ao seu futuro. A incerteza não é boa para ninguém, não é boa para o país como um todo, muito menos numa altura em que vamos ter eleições e tudo isso. Já antes tinha sido arquivado o processo da Ordem e, portanto, isto, em princípio, encerra este processo. Mas independentemente de existirem ou não razões de investigação na justiça, mantêm-se dúvidas quanto ao perfil ético do primeiro-ministro. Penso que isso nós não podemos apagar, porque o primeiro-ministro devia ter encerrado a empresa e mantê-la também agora detida pelos filhos não me parece o mais correto para um primeiro-ministro. Mas Luís Montenegro tem sido teimoso e depois todo este processo foi acompanhado por um romance de documentos que chegam e que não chegam, e que entregou e afinal não entregou, mais aquela cena do dossiê, está aqui o dossiê e depois afinal o dossiê não foi. Em nada este processo foi edificante para o primeiro-ministro e penso que o primeiro-ministro tem que ter consciência disso, independentemente da questão jurídica ou não. Esperemos que tudo fique mesmo por aqui e que nós daqui a uns anos não olhemos para trás e não tenhamos de dizer: "Afinal, havia aqui razões para desconfianças", como já aconteceu na nossa história recente.

Anselmo Crespo.

Eu acho que não ter um primeiro-ministro sob suspeita é melhor do que ter um primeiro-ministro sob suspeita, do ponto de vista criminal, obviamente. E portanto, desse ponto de vista, eu acho que é uma boa notícia, não é para Luís Montenegro, é uma boa notícia para o país. Da mesma forma que também acho que nós, independentemente, como a Helena dizia, do julgamento ético que possamos fazer, ético e político, da forma como Luís Montenegro lidou com todo este processo, e eu fui muito crítico com a gestão política que ele fez do processo, eu também defendi que ele devia ter encerrado a empresa, ponto final, parágrafo. Abria uma ao lado em nome dos filhos ou abria os filhos uma ao lado. Sobretudo porque Luís Montenegro, quando estava na oposição, quando não era primeiro-ministro, teria defendido exatamente o mesmo para um adversário político dele, qualquer que ele fosse. E portanto, eu acho que era o mais óbvio, e ele de facto foi teimoso, não quis ir por aí. Mas independentemente do julgamento ético que nós façamos, a verdade é que Luís Montenegro foi a eleições, provocou eleições, ele próprio quis ir para eleições aproveitando este caso Pinoviva para precisamente se relegitimar através do voto. Nós depois podemos achar essa atitude censurável ou não, mas a verdade é que foi isto que aconteceu. Nós fomos para eleições.

E venceu.

E venceu. E portanto, desse ponto de vista, ele acha que essa natureza ética ficou limpa. Ele acha.

Eu sei que ele acha.

Ele acha. Pronto.

Mas só o facto de ele achar já é revelador.

Pronto, mas é o que é. Nós não temos que estar sempre de acordo com os nossos primeiros-ministros. E em terceiro lugar, nós não podemos, perante esta decisão da Justiça, quando a Justiça toma uma decisão que vai ao encontro daquilo que é a nossa avaliação Nós concordamos com a Justiça e elogíamos a Justiça. Quando vai em sentido contrário àquela que é a nossa avaliação, nós já criticamos a Justiça. Não, se a Justiça entendeu que não havia ali matéria criminal e se responsabiliza, em primeiro lugar, o Ministério Público, que se um dia mais tarde se vier a descobrir qualquer coisa e agora o Ministério Público decidiu arquivar, isso responsabiliza antes de mais a Justiça. Eu acho, no entanto, que a Justiça tem aqui uma coisa que é criticável. Eu não percebo a demora nesta averiguação preventiva.

Aparentemente foi porque não foram entregues os papéis.

É sempre qualquer coisa.

Foram nove meses.

Se está a chover é porque está a chever, se está sol é porque está sol. Há sempre qualquer coisa que faz com que as coisas se arrastem por um tempo que eu não consigo compreender.

Ainda temos a do António Costa.

E ainda temos a do António Costa.

Mas aí é um inquérito, não é?

Certo, mas essa não foi prenda no sapatinho de ninguém.

Não. E depois esta incapacidade não é deste procurador, parece que é uma condição para se ser um ator da Justiça, não se saber comunicar, sobretudo do Ministério Público. E em terceiro lugar, eu queria dizer só uma coisa que já disse durante o auge desta história da Spin & Viva e até a propósito de outros processos e que me incomoda cada vez mais na forma como a nossa democracia está a funcionar, que é esta cada vez maior tentação de se fazer política através da Justiça. Nós estamos a entrar numa campanha presidencial, já estamos a ver o que é que aí vem. Já há suspeitas e notícias e a seguir vai haver umas denúncias anônimas para o Ministério Público, provavelmente, e a seguir vão investigar também Luís Marques Mendes. Isto passou a ser uma prática em todas as campanhas eleitorais. Se vocês repararem, não há uma campanha eleitoral onde não haja uma suspeita qualquer sobre um candidato. E essa suspeita normalmente nasce na comunicação social, a seguir resulta numa denúncia anônima para a Justiça, a Justiça depois tem que investigar, não é? Não pode fazer outra coisa, ou abre um inquérito ou faz esta coisa.

Esta classe política está a suicidar-se.

E portanto, esta estratégia de fazer oposição ou de fazer combate político usando ou instrumentalizando a Justiça é uma coisa que me está a incomodar cada vez mais, porque eu não sei muito bem onde é que isto vai parar. No limite, eu não sei onde é que isto vai parar. Ficamos aqui sempre com um manto de suspeita e isto não tem a ver com esquerda, nem com a direita, nem que agora está o PSD no governo, se tivesse o Partido Socialista aconteceu exatamente a mesma coisa quando António Costa foi primeiro-ministro, com ministros dele, cada vez que havia campanhas, nas presidenciais, Cavaco Silva era a casa da Coelho, até Manuel Alegre, andaram a falar de uma história de Manuel Alegre lá na terra de Manuel Alegre, Águeda, de uma casa de família de Manuel Alegre. Não há uma eleição onde neste país não se comece a inventar histórias, inventar ou não, às vezes podem ser reais, mas que só aparecem em período de campanha eleitoral, tipicamente, e que têm já este modus operandi muito concreto. E isso incomoda-me, porque eu acho que não estamos a fazer bem nenhum à democracia e, portanto, se há suspeitas, claro, tem que se investigar, mas agora tentar criar uma suspeita e obrigar a Justiça a investigá-la.

Em vez de lutarem no terreno da política.

Em vez de lutarem no terreno da política, eu acho que não é uma boa forma de fazer democracia.

Eu concordo agora com o Anselmo. De facto, não há eleição onde não haja uma suspeita qualquer que começa nos jornais. Começa nos jornais e depois acaba, de facto, numa denúncia anônima, porque é muito fácil fazer denúncias anônimas e também é muito fácil o Ministério Público pegar em qualquer denúncia anônima. Não, não tem. Se elas não forem minimamente fundamentadas, não tem que o fazer. Da mesma forma como a Autoridade Tributária, se tu fizeres uma denúncia anônima, não pega nela se não for fundamentada, por exemplo.

Aqui fez uma averiguação preventiva.

Aqui fez uma averiguação preventiva, mas havia...

Mas a notícia de eventual crime tem de ser investigada, tem de ser apreciada.

Tem de ser apreciada, mas como te digo, não pode ser uma denúncia anônima apenas assim. Se é por uma denúncia anônima, apenas por um papel escrito a dizer: "Eu acho que X pessoa fez isto", então é uma tragédia, isto seria uma tragédia, porque eu amanhã só para te chatear fazia isso.

É o seu problema.

Não pode ser assim.

Ah, então foste tu.

Mas isso não pode ser assim. Isso não faz sentido. Da mesma forma como em países desenvolvidos, muitas vezes os processos não chegam a tribunal porque o juiz diz: "Isto não serve, nem vou chegar a tribunal, nem vou olhar, isto não serve. Quer me dar mais motivos para eu investigar? Bom, então traga-me documentos, traga-me alguma coisa." Dito isto, eu acho que o primeiro-ministro teria mais sorte do ponto de vista da suspeita, não ficar nenhuma suspeita se tivesse havido um inquérito. E acho que uma averiguação preventiva que dura nove meses e que só vai a fontes abertas, etc., é curto para o tipo de suspeita que existia, que é recebimento indevido de vantagem.

E no atual quadro, e depois de todas as situações que já tivemos, se fosse aberto o inquérito, Helena, seria possível ao primeiro-ministro continuar em funções com o inquérito aberto?

Aparentemente, sim, o próprio primeiro-ministro penso que até abriu a porta de se manter em funções sendo arguido. Porque isto depois cria estas situações. Já se tornou de tal forma normal este fazer queixa sobre os políticos.

Daí a forma como fiz a pergunta.

Exato. Já se tornou de tal forma normal andar a denunciar políticos por tudo e por nada, uns contra os outros. Uns a denunciarem os outros, porque é guerra entre a classe política Depois atingimos este patamar em que isto já é de tal maneira que é um bocadinho como o menino e o lobo.

Ninguém sabe o que é que deve acreditar.

Desvaloriza-se totalmente aquilo que se está a passar e percebo perfeitamente que a partir de determinada altura, quem é arguido diga: "Qual é o problema? Já há tantos arguidos, eu posso ficar aqui." Mas eu penso é que o primeiro-ministro se expôs e se colocou a jeito para que isto lhe pudesse acontecer. E o procurador também não ajudou quando trata este assunto com a leviandade de dizer que era uma prenda de Natal.

Mas politicamente o assunto também fica resolvido, Anselmo? Eu acho que politicamente o assunto fica resolvido. O que eu ia acrescentar é: o primeiro-ministro fez mais do que isso, ele aproveitou-se da situação, ou seja, ele transformou aquilo que supostamente era uma adversidade, sob minha expressão em inglês, uma liability, ele aproveitou-se da situação para usar aquilo a favor dele. Aquela moção de confiança é claramente o tentar virar o jogo ao contrário.

O Pedro Nuno Santos cai na armadilha.

Pedro Nuno Santos cai na armadilha. Depois há uma denúncia anónima sobre Pedro Nuno Santos, repara. Há uma denúncia anónima sobre Pedro Nuno Santos. Também completamente estapafúrdia aquela averiguação preventiva. Mas mais do que isso, o que Luís Montenegro fez foi: fez a falta, aquilo que no futebol diz, fez a falta. Está aqui uma excelente oportunidade. Eu estou aqui numa condição hiper minoritária, está aqui uma excelente oportunidade para tirar uma maioria absoluta.

Não lhe correu bem.

Não lhe correu bem porque não teve a maioria absoluta, mas também não lhe correu mal. Está melhor agora do que estava há um ano. Tecnicamente, está melhor agora do que estava há um ano. Tem uma maioria maior, o PS passou para terceiro partido e apesar de tudo, não me parece que ele esteja com muita dificuldade a governar com o CHEGA. Não está a correr mal. E a avaliar pelo que disse ontem, no jantar de Natal do grupo parlamentar do PSD, some e segue.

Exatamente, parece que sim.

Desculpa, Judite, só por causa do processo Influencer. Eu gostava de dizer uma coisa muito clara sobre isso, que digo desde o primeiro dia, desde aquele dia 7. O primeiro-ministro António Costa não tinha condições para continuar, acho eu. Não era por causa do parágrafo.

Não, era pelo que aconteceu no dia seguinte.

Era por causa do dinheiro encontrado nos cheques. Agora, há uma diferença de facto. Foi no dia seguinte também. Também, de acordo. Foi no dia seguinte à demissão dele. Mas há uma diferença de facto, que é, para já eu quero acreditar que ele soube no dia. Nós só soubemos no dia seguinte, mas em princípio, eu imagino que ele tenha sabido no dia. Mas o meu ponto é outro, há uma diferença, apesar de tudo, que é: uma coisa era António Costa ter-se demitido e ter-se recandidatado, ter feito uma espécie de jogada à Luís Montenegro, que é vou a votos e agora digam lá se confiam em mim ou não para ser primeiro-ministro. Outra coisa, de facto, é haver ali uma suspeita que, na verdade, nós até hoje ainda estamos para saber o que é aquilo. E o que eu acho extraordinário é que a Justiça... Até no caso Miguel Albuquerque também. O caso Miguel Albuquerque, mas apesar de tudo, Miguel Albuquerque foi uma coisa um bocado mais concreta. Porque houve, de facto, constituição de arguidos, houve investigações, averiguações. Houve aquele aparato todo na Ilha da Madeira. O processo Influencer, eu acho extraordinário que a Justiça não corra de vergonha todos os dias em sair à rua sem nada. Como é que ao fim deste tempo todo, a Justiça acha normal demorar o tempo que lhe apetece demorar?

Com um caso destes, não é um caso qualquer. Sim, depois de ter feito o que fez no caso da Operação Influencer, de ter feito cair uma maioria absoluta.

Isso é mais relativo. Quem a fez cair? António Costa tinha outras opções. Nós politicamente podemos achar que não.

Era impossível. Ele ficava muito fragilizado. Com dinheiro em cash ao seu lado. Não era dele, obviamente, não é isso que estamos a dizer, mas ele ficava muito fragilizado. Agora, nesse caso concreto, há aí uma série de traços num processo que suscita a maior das dúvidas, mesmo no caso do envolvimento do projeto da Start Campus, tudo aquilo suscita a maior das dúvidas.

Olha, Helena, se nós perguntarmos a um português se alguém em Portugal sabe o que raio é o processo Influencer, eu duvido que alguém em Portugal saiba o que é o processo Influencer. O António Costa era suspeito de quê? Eu acho que ninguém sabe. Vamos voltar já daqui a pouco para a segunda parte de "E o Vencedor É..." Segunda parte de "E o Vencedor É..." hoje com a Judite França, Helena Garrido e o Anselmo Crespo. E ficaram notas por dar da primeira parte. Um abraço aos ouvintes que ficaram no carro à espera de saber que notas vão dar os nossos comentadores. Anselmo, que nota te merece todo este caso? Eu vou dar a nota José Manuel Fernandes, 4, a esta forma de fazer política instrumentalizando a Justiça. Acho que quando se quer derrotar um adversário político, derrota-se pelas ideias e não exatamente pela luta na lama. Helena.

Eu dou um 9 ao primeiro-ministro, que nos podia ter poupado a tudo isto se tivesse encerrado a empresa assim que ascendeu a líder do PSD.

Judite

Eu vou dar uma nota a Pedro Benevides e vou dar um 16 ao primeiro-ministro que deve estar felicíssimo da vida e é por isso que vai fazer agora uma comunicação ao país às 8 da noite.

A partir de Bruxelas e que vamos poder ouvir aqui em direto na Rádio Observador. Avançamos então para outras matérias. Judite, podemos começar por ti, pelo debate de ontem entre António José Seguro e Cotrim Figueiredo. Estou aqui em pulgas para saber as tuas notas.

Eu só vou dizer uma coisa: Golegã. Não digo mais nada.

Eu sei o que fizeste na Golegã.

Eu sei o que é que fizeste na Golegã passada. Eu acho que Cotrim Figueiredo nunca imaginou que aquela viagem a cavalo que ele fez na feira, em que passou por toda a gente mostrando que sabia, de facto, galopar. Não sei se se diz a galope, não é?

Não devia ir a galope. Se ia no meio da feira, não devia ir a galope. Devia ir quanto muito ao passo e eventualmente a trote.

Nunca imaginou que aquela viagem a trote ia sair tão caro, porque aquela fração de segundo de silêncio e de olhar completamente perdido com que Cotrim Figueiredo reagiu quando António José Seguro o confrontou com o facto de ter dito na Golegã que promulgava a lei da nacionalidade e depois no debate ter dito que faria alterações depois do tribunal ter considerado algumas normas inconstitucionais, eu acho que deu a vitória por muito poucochinho a António José Seguro. Houve momentos que não correram bem a Seguro e acho que houve uma abertura de leão com Cotrim Figueiredo a mostrar que o adversário era débil em algumas posições. Eu acho que esse momento correu muito bem a Cotrim Figueiredo. Confrontou com posições que são vagas, no mínimo, aquela ideia que tem para o Serviço Nacional de Saúde, por exemplo, que é organizar melhor. Obrigada. Toda a gente acha que é preciso organizar melhor o Serviço Nacional de Saúde, não é nenhuma ideia genial. Não sabemos é como é que isso se faz. E portanto, eu acho que Cotrim Figueiredo apanhou bem essas debilidades e dou um 12 a Cotrim Figueiredo e um 13 a António José Seguro, mas é ali quase taco a taco.

Helena.

Olha, eu diria que foi um debate muito fraco, muito confuso, muito desorganizado. Ninguém pareceu estar muito preocupado em capitalizar o seu eleitorado, pouco focado, eles pouco focados. Muito a mostrar os seus galões, eu é que tenho experiência, é melhor talvez mostrarem em vez de dizerem que têm. Depois, para cada um deles, Cotrim de Figueiredo tem de facto um momento Golegã, que o fragiliza imenso, que vai ficar famoso nestas edições.

O momento Golegã é muito famoso.

Eu não sei se concordo com a Judite. Eu não sei se aquela maneira de começar ao ataque daquela forma, que começa com o elogio e depois com o ataque, se é muito adequada ao tipo de eleitorado que o Cotrim de Figueiredo tem, mas aquilo causa desconforto, fazer aquele tipo de ataque. E agora dou-te um elogio e a seguir dou-te uma facada.

Porque se estivéssemos todos ali sentados à mesa...

Teríamos ficado constrangidos.

Exato, é deselegante.

Se fosse a ceia de Natal, por exemplo, ficávamos logo mal. Deixávamos cair um garfo.

Todos nós sentimos a deselegância do momento. Depois há a Golegã, mas também Seguro comete um erro, pelo menos na minha opinião, que é: vai-se meter no tema em que Cotrim de Figueiredo é melhor, que é na área da economia. Mas não havia outros temas? É que foi ele que puxou por ele. Os incentivos às fusões e aquisições é um tema para o eleitorado de António José Seguro?

É um tema.

A questão, Helena, é qual é o eleitorado de António José Seguro? Essa é a questão.

Teoricamente, é o eleitorado do PS.

Mas aquele só com o eleitorado do PS não vai lá.

Pois, ele quer alargar fusões e aquisições de PMEs.

Ambos querem alargar.

Ambos querem. Mas o que me pareceu foi um erro entrar num tema em que Cotrim de Figueiredo é muito forte. Foi a sua vida. E obviamente que Seguro pode sempre dizer que também é um pequeno empresário, mas não conhece aquilo com que Cotrim de Figueiredo lutou toda a vida, até como protagonista no início do século, em defesa do interesse nacional quando havia aquela história do compromisso de Portugal, não sei se te lembras. E portanto, ele envolveu-se também nas reivindicações dos empresários em matéria de políticas públicas. Portanto, ele entra a debater no terreno que é favorável ao seu adversário.

E as tuas notas, Helena?

Incompreensível. Eu dou um 8,8.

8,8?

Exato. Considero aquele debate muito fraco, foi dos mais fracos que eu vi.

Celso?

Eu, para ser coerente, tenho que dar as mesmas notas que dei ontem à noite. Eu dei 14 a António José Seguro e 10 a João Cotrim Figueiredo. A diferença justifica-se com o momento Goulart, naturalmente. Eu acho que aquilo foi gravíssimo para João Cotrim Figueiredo, porque revela duas coisas.

Que não se lembra o que é que disse.

Que ele não se lembra do que disse. Não é no verão passado, é no mês passado.

É na Feira da Covilhã.

É que ele não tinha maneira de se defender.

E em segundo lugar, revela de facto uma contradição insanável. Uma pessoa que se está a candidatar a presidente da República, que diz que promulgava uma lei de olhos fechados e a seguir, quando o Tribunal Constitucional diz que a lei é inconstitucional, ele diz: "Tem toda a razão o Tribunal Constitucional, pois claro que é inconstitucional." Então, mas em que ficamos? Significa que uma pessoa não pode confiar muito neste presidente da República, porque ele sobre Constituição, nada. Sobre economia, pode perceber alguma coisa. Sobre Constituição, aparentemente não percebe nada. E sobretudo, António José Seguro apanha-o muito bem e aquilo é um momento que eu acho que é dramático para João Cotrim Figueiredo. Mas depois eu concordo muito com o que tu disseste. Eu acho que o debate, em geral, foi muito confuso, mesmo o tema da saúde. Eu acho que Cotrim Figueiredo gosta muito de ser fora da caixa. Ele é daquelas pessoas fora da caixa. Ele levou aquela coisa preparada do está aqui o elogio e a seguir o espeto da faca, como dizia a Helena, e levou aquele conjunto de perguntas que o objetivo era-se tentar demonstrar a vacuidade das ideias de António José Seguro. O problema é que a determinada altura, eu já duvidava, estava a ouvir aquilo e a pensar: "Mas quem é que está a perceber alguma coisa em casa do que eles estão a falar? Eles estão a falar de quê?" Porque aquilo era que o óbito, que determinou a altura, mas leu o pacto, não leu o pacto, mas qual pacto?

O pacto eu só dei, eu não sei. Como se, de facto, o pacto só tivesse sido conhecido por André Ventura.

Sim, e parecia o sketch dos gatos fedorentos do papel, qual papel. Depois, de repente, eu já não percebia se Cotrim Figueiredo estava a gozar com António José Seguro ou se não se lembrava, de facto, do pacto. E mesmo na parte da economia, vocês têm toda a razão. De facto, Cotrim Figueiredo percebe mais do tema do que António José Seguro, mas aquilo já estava num nível de detalhe tal, num debate de meia hora, porem-se a debater a microeconomia das fusões e aquisições, eu pensei: "Mas quem é o eleitor, a não ser muito interessado no tema, que sabe acompanhar o que os dois estão a dizer?" E portanto, eu acho que o debate correu mal a Cotrim Figueiredo por estes dois motivos: porque a estratégia que ele levou, eu acho que não foi eficaz, só por isto. Ele levava uma estratégia, só acho que não lhe correu tão bem como ele imaginou em casa e em frente ao espelho que ia correr, e sobretudo por causa do momento Goulart. E António José Seguro estava particularmente arguto ontem no debate com Cotrim, que é uma coisa que nós também não identificamos em Seguro. Normalmente, António José Seguro está meio adormecido e adormece-nos a todos. E ele ontem não estava assim.

Vamos também a outro caso, porque as notas estão dadas, vamos a outro caso que marcou as últimas 24 horas, que é a polémica com o ministro da Educação, Fernando Alexandre, que depois se desdobrou em explicações. Foi só um momento infeliz, Celso?

É daquelas polémicas que nós gostamos muito em Portugal e depois estamos há 24 horas a debater isso. Atenção, eu acho que o ministro é infeliz na formulação, como diz aquilo, parece-me óbvio. Eu quando ouvi os primeiros 30 segundos, pensei: "Perdeu a cabeça. Aconteceu-lhe qualquer coisa, bateu com a cabeça de manhã e esqueceu-se de ir ao médico." E depois quando de facto vou ouvir tudo, percebo o espírito do que ele quer dizer. Acho que não lhe sai bem a formulação, mas depois de se perceber, percebe-se. E depois eu acho que tem que haver alguma honestidade intelectual, quer para nós que comentamos, quer sobretudo para os partidos da oposição. Ambos temos responsabilidades diferentes, mas também somos responsáveis por influenciar de alguma maneira a opinião pública. O Partido Socialista vem pedir a demissão? Também menos. Eu até percebo que peça que ele clarifique, no limite o que o PCP disse. Acho um exagero estar a chamar um ministro ao Parlamento só por causa disto, mas é uma prerrogativa que os partidos têm, a chamar ministros ao Parlamento.

O PCP até costuma ser ponderado nessas coisas.

E a seguir, deputados do Partido Socialista nas redes sociais, nem falo Pedro Nuno Santos, mas estou a dizer deputados agora em funções, a pedir e a partilhar, a escrever as coisas mais surreais. Eu ontem pensava assim: se os ministros de António Costa caíssem por gafes de comunicação à velocidade que o PS está agora a pedir a demissão do ministro da Educação, António Costa estava todos os meses a refazer governos, porque era mato, era todos os dias. E portanto eu acho que foi uma pseudopolémica. Acho que o ministro, como é óbvio, tendo dado o brado que deu, tinha que se explicar. Acho que ele se explicou bem e, portanto, por mim, o assunto está encerrado.

Tá tomado. Julite?

Eu também vou arrumar o carro muito rapidamente. Vou arrumar o carro muito rapidamente. Isso não, que eu não tenho muito jeito. Arrumo devagarinho. E eu não falo das explicações a posteriori, eu falo mesmo das declarações no púlpito, que ficaram fora do contexto com aquele corte ali. E esse corte ali não foi bem feito.

Também é uma responsabilidade da comunicação social.

E é uma responsabilidade dos jornalistas, que também quando é, é, e eu acho que foi de facto uma responsabilidade dos jornalistas. E depois é uma responsabilidade dos políticos que vão atrás de uma frase. Eu ontem ouvi aquela frase, eu disse: "Épa, é preciso ouvir isto tudo." Porque isto vindo de um ministro, e ainda por cima vindo deste ministro, que é o ministro que eu já ouvi mais falar do elevador social do que outro qualquer. E, portanto, eu acho de facto que houve mau jornalismo e depois houve excesso dos partidos políticos, que à mínima coisa e sem contexto, começaram a disparar para as redes sociais. Portanto, é um bom momento para fazer uma autorreflexão.

Helena?

Concordo inteiramente com o que foi dito, as críticas, nomeadamente ao jornalismo, e a centrar fundamentalmente no Partido Socialista, que tem responsabilidades. O Partido Socialista não se pode precipitar em reações emocionais como aquelas que nós temos quando estamos nas redes sociais e não conseguimos ter filtro. É de uma enorme irresponsabilidade aquilo que o Partido Socialista fez. Perdeu até a oportunidade de apoiar o ministro naquilo que ele queria fazer e que as universidades se opuseram, que foi não fazer das residências públicas, que são para as pessoas com rendimentos mais baixos, uma espécie de guetos para os pobrezinhos. Quando o PS vem manifestar a sua revolta sobre um discurso do ministro que pretendia combater isso, os guetos dos pobres, parece que o Partido Socialista quer que as pessoas se mantenham eternamente pobres.

Que a situação se mantenha.

Sabem perfeitamente que uma forma de garantir coesão e integração social é a diversidade das origens socioeconômicas. Sabem isso perfeitamente. Portanto, penso que foi de uma enorme falta de honestidade intelectual esses ataques. E mais grave ainda, quando se criticam as redes sociais, a precipitação das redes sociais, ver alguma classe política a comportar-se institucionalmente, tendo comportamentos como aqueles que criticam nas redes sociais, parece-me lamentável.

Amanhã há mais e o vencedor é logo pela manhã, a partir das 08h30 nas manhãs 360.