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Está no ar o "Youven Soré". Para além da rádio, já sabe que também nos pode acompanhar em direto no Facebook. E esta sexta-feira, para pontuar os protagonistas da atualidade, juntam-se à Helena Matos e ao Paulo Ferreira, o Miguel Pinheiro, a Sara Antunes de Oliveira, que já aqui estão conosco em estúdio. À distância está a Alexandra Machado. Diogo, é véspera de fim de semana, vamos avaliar as eleições angolanas, a Jornada Mundial da Juventude, mas começamos pelo gás.
Que vai ficar mais caro. Alexandra Machado, bom dia. Há uma boa ou uma má nota para o ministro do Ambiente?
Há uma nota positiva, o que é raro, mas não muito alta, o que também não é de espantar. Duarte Cordeiro ontem naquela conferência de imprensa pareceu-me que estava com pouco gás, já deve ser algum efeito do que se passa na energia. A medida anunciada, na prática, foram duas, mas uma de maior relevância, que é a de permitir que os consumidores possam voltar ao mercado regulado, o chamado regulado. É importante, de facto, para conter preços junto às famílias, e isso não pode ser negado, mas há muito ainda por esclarecer. E esse é o senão da coisa. Não se percebe ainda qual vai ser o alcance desta medida, nem de que forma é que esta migração vai ser feita. E aqui há muitos pontos de interrogação ainda, há um conjunto de dúvidas sobre os consumidores que têm os chamados contratos duais, que é ter na mesma fatura a eletricidade e o gás juntos, ou se poderão incorrer ou não em algum tipo de custos pela transferência, nomeadamente por auditorias ou análises aos conteúdos de gás. E ainda também há dúvidas se há fidelizações neste tipo de contratos, nomeadamente dos duais, que o consumidor para se despegar deles incorra também em algum tipo de custo. Isso são tudo dúvidas que se espera que o diploma, quando sair, esclareça. Vamos ver, por isso, o alcance destas medidas. Na eletricidade, aliás, já era possível voltar ao regulado, mas era muito baixo o nível de pessoas que tinham transitado para o regulado. Portanto, parece aqui que pode não ser tão fácil assim mudar. Para já sabemos que os portugueses têm alguma inércia nesta coisa de mudar de operadores e, na realidade, sabemos todos que dá um trabalhão qualquer tipo de mudança de contratos ou de operadores. Não é só neste setor, em qualquer setor, o trabalho é muito e as pessoas simplesmente não estão para isso. Vamos ver, por isso, qual é o alcance e vamos ver também o que é que a ERSE vai decidir em termos de preço este mercado regulado no futuro, que também tem vindo a aumentar os preços, não na ordem de que a EDP e a Galp anunciaram mais do que duplicar, bem mais do que duplicar os preços. Mas há aqui neste processo também outro ponto a salientar muito rapidamente, que é a mudança de atitude do governo. A mudança de atitude que teve em relação agora à EDP e à Galp e a que teve quando Nuno Ribeiro da Silva, presidente da Endesa, falou nos tais aumentos de 40%. Duarte Cordeiro ontem voltou a criticar Nuno Ribeiro da Silva, mas o tempo parece que me está a dar razão é ao presidente da Endesa, embora o governo diga que Nuno Ribeiro da Silva passou a mensagem que os aumentos seriam generalizados. Mas o que é certo é que o governo também passou a ideia contrária, de que não ia quase haver impacto para o consumidor da crise energética, e isso não se está a verificar.
Apesar de tudo, o ministro recebe uma nota para passar?
Recebe uma nota pra passar, mas há ali mesmo résvés. Vou dar um 11, porque Duarte Cordeiro precisa mesmo de ligar o gás e produzir mais chama.
Vai pra segunda época, não é?
Sem pagar mais por isso.
Seguimos com as eleições angolanas. A Sara Antunes de Oliveira quer dar uma nota a este processo eleitoral. A quem e por que ângulo?
A João Lourenço. Sabes que é sempre muito difícil falar sobre resultados em Angola. Temos sempre este fantasma de não sabermos exatamente o que é credível e o que não é. Mas há aqui um dado que é inegável. O MPLA está perante uma vitória nas eleições, mas perdeu Luanda. E o próprio MPLA vem ontem dizer que é uma derrota significativa, que é uma coisa que eu acho positiva terem vindo dizer isso, que tem um significado político, até pela expressão dos votos da UNITA, cerca de um milhão contra 600 mil do MPLA. E perante isso, creio que João Lourenço tem uma reflexão a fazer sobre o que esta derrota em Luanda significa. E há duas opções nisto. Há a opção de olhar pra este resultado, tentar perceber por quê, em que ele resulta de uma insatisfação dos moradores de Luanda e dos angolanos em relação a ele próprio e ao seu mandato, e fazer alguma coisa em relação a isso. Pode, por exemplo, retomar aquilo que lhe deu mais popularidade no início do seu mandato, que foi uma luta à corrupção, um combate à corrupção, mas fazê-lo de forma consistente, cega, coerente e séria. Coisa que foi uma das grandes críticas que lhe fizeram, foi que a meio do caminho a coisa perdeu-se e percebeu-se que não era propriamente uma coisa generalizada, cega como deve ser. Ou então, pode ignorar o que isto significa e optar por uma via de repressão, de tentar calar a oposição, fazer aquilo que se fez durante muitos anos em Angola e que seria desejável que não acontecesse. E infelizmente, eu lamento que seja essa que já estejamos a ver, que provavelmente será essa a via, porque eu sei que o Miguel provavelmente quer falar sobre isso, mas desde ontem começaram a acontecer umas coisas estranhas, democraticamente estranhas em Luanda Ou se calhar, pouco estranhas para aquilo que vimos nas últimas décadas, que nos dão péssimos indicadores. A própria reação do MPLA a esta derrota, apesar de assumir que politicamente tem grande relevância, é dizer: "Mas atenção, Luanda é só uma província, como qualquer outra província, só elege cinco deputados como qualquer outra província". E depois culpar a massa militante por causa de questões internas e, portanto, já tirar valor político e social a esta derrota. E nós ouvimos nas reportagens da Dulce Neto, nas reportagens que foram feitas ao longo destas semanas em vários meios de comunicação social, muitos angolanos a dizer que têm fome. Eu desejaria que perante este sinal, apesar da vitória do MPLA, fosse o suficiente para João Lourenço fazer uma reflexão e tomar decisões importantes, mas eu temo que não vá ser assim. A minha nota é para estes primeiros sinais de que se calhar a reação não vai ser a melhor, e levam um oito só porque são primeiros sinais. Vamos esperar para ver. Eu sou uma otimista.
A caminho da positiva.
Vamos esperar para ver, ainda que eu não tenha grande esperança.
Dedos cruzados.
O Paulo Ferreira está a fazer figas aqui.
Vamos fazer figas. O Miguel Pinheiro também quer falar sobre as eleições angolanas. Acompanhamos estas eleições através da TPA, também muito, com uma emissão com muitos meios, muitos repórteres. Gostaste da emissão da TPA, Miguel?
Foi uma maravilha.
Foi, adorei. Se calhar muitos dos nossos ouvintes tiveram outras coisas para fazer, como é natural.
O que é estranhíssimo.
E louvo-os por isso, mas gostava de dizer a esses que não seguiram pela TPA que na noite das eleições, ao começo da madrugada, a Comissão Nacional Eleitoral, a CNE de Angola, apresentou os primeiros resultados provisórios. Aliada à altura, foram convocadas duas conferências de imprensa de urgência, uma da CNE e outra da UNITA. Aliás, se calhar uma coisa tem a ver com a outra, porque subitamente a CNE quis mostrar resultados provisórios e a TPA passou a conferência de imprensa da CNE. E depois começou a conferência de imprensa da UNITA, que é o maior partido da oposição, que, como vimos, segundo os números do regime, ganhou de forma esmagadora em Luanda. E o que a TPA deu? Deu um debate em estúdio. A televisão pública de Angola achou que não era relevante, na noite das eleições, passar a conferência de imprensa do maior partido da oposição a reagir aos resultados. Isto mostra-nos que o MPLA continua a julgar-se dono do país, dono dos recursos do país. Aquelas pessoas na TPA recebem um salário. São pagas, aquele estúdio é pago, aquela transmissão é paga pelos angolanos, que são pobres, que passam fome, mais de 50% desempregados entre os mais jovens. E o MPLA acha que manda na TPA e manda na TPA. E depois ontem, realmente, vimos em direto em Portugal, na CNN Portugal, um delegado de uma mesa de voto a ser detido, a ser levado pela polícia a meio de uma conversa com um jornalista, sem a menor preocupação. Chega o polícia, agarra nele e leva-o. Está feito. E a Deutsche Welle, a alemã, publicou um texto ontem à noite a revelar que um dos seus jornalistas foi detido durante umas horas enquanto cobria as eleições e o motorista do correspondente deles foi raptado por polícias à paisana, foi posto na mala de um carro e foi levado, depois acabaram por soltá-lo ao fim de umas horas. Portanto, Angola é isto, e eu oiço alguns observadores das eleições a dizerem já, imediatamente, que tivemos aqui sinais positivos e que é uma democracia.
Alguma credibilidade.
Exato, dizer que tudo isto tem alguma credibilidade, é uma democracia em desenvolvimento. Nós durante anos, disseram-nos, eu ouvia essa conversa, não foi ninguém que me contou. Ouvia essa conversa várias vezes. Que tínhamos que olhar isto, corrupção, por amor de Deus, isto é um país no começo do desenvolvimento, isto aconteceu em todos os países do mundo, claro, cria-se uma classe, não sei o quê. Isto é mesmo assim. Eu ouvi isto tantas vezes, lembro-me tão bem, quem me vem com esta conversa, lembro-me tão bem destas conversas. E agora vem um novo presidente a dizer que há corrupção em Angola. Portanto, afinal os portugueses que diziam que não havia corrupção em Angola, os próprios angolanos dizem que há. E também ouvi muitas vezes a conversa de que ditadura, por amor de Deus, Miguel, como assim ditadura? Isto é uma democracia a crescer. E agora vemos outros angolanos, como falou a Helena, nomeadamente, bem informados, como Tchizé dos Santos e Isabel dos Santos, a dizerem que, Tchizé dos Santos, principalmente, que nos revelou que o seu pai foi um ditador. Portanto, eu só espero que daqui a uns anos não sejam os angolanos a reconhecerem que estas eleições tiveram problemas, enquanto alguns portugueses fazem de conta que não veem nada.
Hoje vais dar uma nota a alguém?
Aos portugueses que nunca veem nada, que acham sempre que está tudo bem e maravilhoso, eu dou-lhes o zero que eles merecem.
Do Miguel Pinheiro pra Helena Matos, que também tem aqui duas vencedoras, não sei se serão vencedoras, são as duas filhas de José Eduardo dos Santos, que merecem aqui um reparo por parte da Helena Matos.
Mas antes disso, quero só lembrar ao Miguel que ele anda distraído da realidade política em várias latitudes do mundo. Tu não sabes que para o motorista é sempre pior. E a culpa do motorista, seja em diferentes situações e circunstâncias e com diversos protagonistas, tens que perceber que o motorista é uma figura crucial da história. Um dia se fará um estudo sobre o motorista, está bem?
Um estudo sociológico.
E psicológico.
O motorista no mundo.
Como é que o homem acaba sempre no centro de tudo?
E a mala do carro também pode não ser assim tão mau, depende.
Uma coisa, temos de entender isso do motorista. Lá iremos
Há uma coisa que me tem deixado perplexa. Eu sei, grande parte das mulheres tem uma relação muito especial com os seus pais. Mas uma coisa é nós gostarmos muito do nosso pai, e isso é humano, faz parte da vida, e pena de quem não experimentou ou não tem esse extraordinário sentimento, nem vive essa relação tão profunda. Isto é uma coisa. Outra coisa é estas duas almas, Isabel e Txié dos Santos, de repente, parecerem duas ativistas. Para além do mais, a sua vida correu, coitadinhas, tiveram uma vida que não foi em nada melhorada pela circunstância do seu pai ter sido presidente de Angola. Portanto, tudo aquilo correu de uma forma alheia à forma como seu pai geriu aquilo que era o bem público em Angola. Eu percebo que seja muito importante, pelo menos Txié tenha dito que o seu pai era um ditador, mas tinha morrido reformado ou fora do poder.
Reformado.
Reformado. Mas isto é uma coisa que eu acho inqualificável. Nem há classificação para isto. Depois, tenho uma dúvida. Eu sei que o Paulo tem sempre aqui umas grandes questões com tudo que mete a Igreja e não mete a Igreja Católica, mas tu devias dedicar-te mais às espiritualidades e perceber qual é que é a onda. Eu sei que há aquela coisa do karma, as pessoas acham que estão todas conectadas, ligadas à natureza, ligam todas as mãozinhas. Que mãozinhas é que se dão para que sim, que o nosso presidente faz um telefonema, o "Expresso" publica a notícia? Nós somos jornalistas, como é que isto se consegue, senhores? Mais, nós ficamos a saber que o nosso presidente tem ligado para ambas as partes.
O que isso tem a ver com a Igreja?
Não, com a espiritualidade. Tu só te preocupas com os dinheiros, mas devias também dar conta deste lado espiritual da dimensão da política, porque isto é uma espiritualidade.
Claro, obviamente. Eu acho que é até telepatia mesmo.
Tu não estás a achar que as fontes de Belém, sejam as fontes quem sejam, telefonam para o "Expresso" a dizer qualquer coisa? Não sei, é uma dúvida que eu tenho.
Acho. E acho que fontes no plural, se calhar, está errado. Se calhar é uma fonte.
Há umas coisas em Belém que eu adoro, que são os fontenários, umas fontezinhas para dar água aos passarinhos. Eu acho que são essas que telefonam para o "Expresso".
Isto porque o "Expresso" está hoje a dizer que Marcelo Rebelo de Sousa está a fazer aqui uma ponte entre a UNITA e o MPLA.
Sim, o título é: "Marcelo ao telefone em ponte com os dois lados", Deus nosso Senhor me perdoe. Vários presidentes portugueses têm tido e tiveram papéis ativos nas questões angolanas e noutras questões no mundo. Para além de tudo, a saída destas notícias, duvido eu muito que traga algum valor acrescentado, a divulgação destas notícias. Não estou a falar dos telefonemas em si mesmos, a divulgação destas notícias parece-me que não.
E a nota vai para quem, Helena?
Para a fonte.
É uma nota alta.
É uma nota altíssima. E por fim, desculpem lá, eu comecei a semana passada a escrever sobre galinhas poedeiras e a contagem obrigatória das galinhas poedeiras em Portugal, que tem que ser efetuada pelos seus proprietários duas vezes por ano, em fevereiro e setembro, têm os proprietários de mais de 349 galinhas poedeiras de contar as ditas das galinhas poedeiras, preencher uns formulários extraordinários sobre quantas galinhas poedeiras possuem e como é que as ditas estão acondicionadas. E penso que quem tem 349 galinhas poedeiras não está isento, não, tem depois de fazer outros registos. Nós estamos aqui com um problema com os javalis. Aliás, houve ainda por cima um acidente mortal.
Ontem houve um acidente com uma motociclista.
Tinha havido também um vídeo em que se viam os animais. Sabe-se, neste momento, as populações de javalis cresceram imenso, estão descontroladas e o governo encomendou em 2019 um estudo sobre as populações de javalis em Portugal, porque não é apenas o problema de se chocar com o javali, é que temos culturas destruídas.
Eles destroem muita coisa.
Muitas vezes, quando se fala de abandono rural, de populações envelhecidas, há culturas que se podiam fazer, que não se fazem, porque de facto os javalis chegam e viram aquilo tudo ao contrário. O estudo foi encomendado em 2019. Está prometido agora para o final deste ano, 2022. Portanto, eu acho que ou se põe os proprietários de galinhas poedeiras a contar javalis, porque as pessoas têm muita prática de contar animais, ou há alguma coisa que, de 2019 pra agora, desculpem, ainda por cima houve a pandemia.
Helena, mas foi criado algum grupo de trabalho?
Não, vou contar.
Pode ser esse o problema.
Não, foi encomendado ao instituto.
A Sara já identificou o problema.
Eu creio que sem grupo de trabalho, sem uma task force, ainda não sei se isso vai lá.
Eu tenho aqui uns nomes sobre a mesa.
Ou então foi criado, mas não saiu do papel.
Em 2019, o governo encarregou o Instituto de Conservação da Natureza e Florestas de realizar um estudo sobre o estado dos javalis em Portugal. Foi criado o Plano Estratégico e de Ação do Javali em Portugal, que foi entregue à Universidade de Aveiro. Então nós temos um plano estratégico e de ação do javali em Portugal. Eu acho que este meu toque rural dá um tom querido neste programa, vocês não acham?
Temos mesmo que ir à nota, Helena.
Para os javalis em si mesmos e sem Obélix, eu acho que vai a minha nota desta semana, nota 14, pelo menos, porque estes animais expandem-se pelo país, causam enormes prejuízos, acidentes gravíssimos, mas a verdade é que eles estão também a dar mais ou menos 14 x 0 à burocracia em Portugal.
O Paulo Ferreira hoje quer falar sobre o regime de exceção de ajustes diretos criado pra Jornada Mundial da Juventude. Para quem é que vai a nota, Paulo? Estás-me já a despachar pra nota?
Não, pode começar ao contrário.
Posso começar ao contrário. Não sei, se calhar vai pro contribuinte. Vamos lá ver. A Helena falou aqui do meu distanciamento em relação às questões da fé. Eu acho muito bem que Portugal realize a Jornada Mundial da Juventude, isto e outros eventos, como acho bem que reúna cá também a Igreja Universal do Empreendedorismo, conhecida como Web Summit, desde que as contas sejam certas, sejam apresentadas e que se olhe pra aquilo e diga: "Ok, este investimento ou este custo de dinheiros públicos vale a pena por isto, isto e isto." Eu acho que os 11 milhões, por exemplo, sou daqueles, se calhar poucos, que acham que os 11 milhões de euros que pagamos anualmente pra ter a Web Summit é um bom investimento, é uma boa política pública. Agora, eu não consigo sequer fazer o mesmo desdobramento com a Jornada Mundial da Juventude, porque não sabemos neste momento quanto é que aquilo custa. Há três semanas houve uma festeira lá, foi o presidente da República, meio governo e tal. Ninguém sabe dizer quanto é que custa. Estamos a menos de um ano. O contador há pouco aqui no site dizia que eram 339 dias, 15 horas e mais uns minutos que faltam. Portanto, estamos a menos de um ano, ninguém sabe. E ontem, pela TVI, fiquei a saber que neste momento, até ontem ou antes de ontem, o Tribunal de Contas confirmou que ainda não tinha recebido nenhum contrato relacionado com isto para verificação. E por quê? Porque foi criado o tal regime de exceção, que o Diogo já falou, que isenta qualquer compra, qualquer contrato ou qualquer obra relacionada com a Jornada Mundial da Juventude, feito pelas autarquias, portanto, uma norma de exceção que permite adjudicações diretas ou dispensa de fiscalização prévia do Tribunal de Contas. Pergunta-se: há aqui uma urgência? Não, há uma urgência porque nós criamos a urgência. Nós estamos a menos de um ano, mas sabemos desde janeiro de 2019 que íamos organizar o evento e já passaram três anos e meio desde isso. E nós não fizemos nada em três anos e meio.
Pandemia. Spoiler, vai ser isso. Mas isto daqui a 10 anos, pandemia é o novo passe escolhe.
É, exato. E depois entra vem a guerra.
Certo.
Agora já temos o terceiro passe escolhe que é a guerra.
E foram escolhas nos anos 80. Não te esqueças, aqueles anos 80 foram terríveis.
Eu não quero vir aqui um toque de refano nisso, modo algum, mas parece-me que o problema foi o tal plano estratégico de ação do javali que também começou no início de 2019.
Houve um alinhamento astral que induziu isso.
Uma pessoa não dá pra tudo. Ou contas javalis ou faz as contas de 2019.
A pandemia não impedia ninguém de estar sentado em sua casa em isolamento com um telefone e uma ligação à internet, de se reunir várias vezes com um grupo de pessoas. "Manda-me o Excel, quanto é que isso vai custar?" Metem um valor para se dizer ao país: "Olha, isto vai custar X." Não sei se são 50 milhões, se são 100, se são só 10, não faço a mínima ideia. Provavelmente é o melhor negócio que o Estado vai fazer durante décadas. E é fácil porque o Estado, por regra, faz negócios ruinosos. Mas digam-nos quanto é que vai custar. Autarquias, Lisboa, Loures, o Estado, o Estado central, o governo, ninguém sabe quanto é que custa.
E a questão da fiscalização é particularmente grave, porque mesmo que tenhamos pressa, não é possível encontrar aqui um mecanismo pra garantir que pelo menos alguém está a olhar pra aquilo.
Sem dúvida, porque o Estado cria regras draconianas que supostamente dão transparência e dão alguma garantia de que os dinheiros públicos são bem entregues. Mas depois é o próprio Estado que acha que nestas ocasiões não vale a pena, porque aquilo só atrasa e não vai permitir fazer as coisas a horas. Então o próprio Estado diz que agora aqui não se aplicam estas regras. E ficamos neste regabofe absoluto em termos financeiros. Portanto, não sabemos quanto é que custa, não temos forma de controlar que contratos é que estão a ser feitos, nem a quem, nem se está a ser pelo preço justo, e andamos nisto. O Bloco de Esquerda já fez uma série de perguntas, já agora, no dia 26 de julho, na Assembleia, dirigidas ao governo, que até agora não tiveram resposta sobre isto.
Se é regabofe, a nota tem que ser alta ou não?
A nota é alta, mas eu acho que a nota é para o contribuinte. Além do Bloco de Esquerda, que deve insistir agora na abertura dos trabalhos parlamentares pra ver se pelo menos sabe um montante, um número que aquilo custa, eu acho que o contribuinte que aguenta isto tudo e que paga e cala, basicamente, é isso que está em causa, é que merece uma nota. E o contribuinte português, eu acho que cada vez mais merece um 17, talvez.
Uma nota alta. Antes de fecharmos, gostava só de voltar à Alexandra Machado, porque tem aqui mais duas notas pra dar. Alexandra, muito rápido.
Duas? É só uma.
É só uma? Ok.
É.
Podes dar duas se quiseres.
Tenho tempo para isso? Não.
Tens.
De facto, Fernando Medina fez duas nomeações, mas eu só tenho a nota para Fernando Medina. Estou a falar agora do caso da ESTAMO. Fernando Medina está no governo há seis meses. Seis meses parecem já anos. Agora nomeou dois antigos colegas seus na Câmara de Lisboa para a empresa pública que gere o imobiliário, que se chama ESTAMO. Primeiro escolheu António Furtado, que foi diretor da área de gestão patrimonial da Câmara, e agora, segundo o “Économie”, Fátima Madureira, que foi sua chefe de gabinete na Câmara de Lisboa, para a vice-presidência da mesma empresa. Medina em um mês consegue não só pôr a PLANAP, que é aquele organismo público criado para avaliar políticas públicas, função que Medina queria pôr Sérgio Figueiredo a fazer para o seu ministério, mas Medina não só conseguiu pôr a PLANAP no mapa, como agora pôs a ESTAMO, que quase ninguém sabia bem o que era.
Tem essa vantagem.
Eu conheço a ESTAMO porque está debaixo da parpública.
Era bom questionar o que continua a fazer a ESTAMO. Gera o património imobiliário do Estado.
Detém mil milhões de imóveis do Estado.
Mas património cujo Estado não conhece. A ESTAMO ao longo destes anos todos de atividade, este conhece, mas são meia dúzia, não direi, mas umas dezenas de imóveis dos bons.
Mil milhões em imóveis dos bons.
A ESTAMO ainda não teve, ao longo dos anos todos de atividade, tempo para fazer o inventário dos milhares de imóveis.
É agora, Paulo.
Mas sabe quantas galinhas poedeiras é que tem o Estado?
Eu acho que isto se resolvia entregando isto tudo às finanças e cobrando IMI, porque se estes imóveis pagassem IMI, já se sabia tudo.
O próprio fisco já tinha descoberto onde é que elas andavam.
Pensei que a Helena ia pôr os mesmos que contam os javalis a contar os imóveis do Estado.
E as galinhas poedeiras, duas vezes por ano.
Que nota para Fernando Medina?
Fernando Medina leva o cinco porque, Diogo, estamos juntos.
Fica essa nota baixa a fechar o "E o Vencedor é..." de hoje. Agora mete-se o fim de semana, voltamos na segunda-feira.