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Está no ar o Youvençoré, que também pode acompanhar em direto através do Facebook, YouTube e site do Observador esta quinta-feira a pontuar. Temos conosco a Helena Matos, que já aqui está em estúdio. Olá, Helena, bom dia. E também Rui Pedro Antunes. Luís, esta manhã temos várias greves e protestos a marcar o dia, mas começamos com um e-mail preso no servidor.
Tem isso a ver com as explicações dadas por João Gomes Cravinho ontem na Comissão de Defesa sobre a derrapagem nas obras do Hospital Militar. Rui Pedro Antunes, ficaste convencido com esses esclarecimentos?
Eu antes de mais, Luís, mais do que convencido, não percebi muito bem se aquilo era uma comissão de inquérito ou o Biggest Loser, porque percebemos que o e-mail não chegou ao ministro porque foi rejeitado por excesso de peso, ou então um casting pra modelo, ou uma coisa assim. Foi rejeitado por excesso de peso. Isso é logo uma coisa bastante caricata, enfim, já tem sido referida várias vezes. Mas de fato, o que choca acabam por ser as explicações do ministro, que assume umas coisas, não assume outras, mas acaba por não esclarecer completamente e de forma propositada. Ele tem aquele dom dos diplomatas de dizer só aquilo que quer, mas parece-me que ontem também disse algumas coisas que aparentemente ou não queria, ou se calhar não devia. Eu recordo, por exemplo, que ele disse por acaso não informou o secretário de Estado Jorge Seguro Sanches, que era na altura secretário de Estado dele, que era só aquela pessoa que tinha questionado completamente as opções de Alberto Coelho. Portanto, foi um esquecimento muito seletivo do ministro, que é como quem diz, não quis comunicar a Jorge Seguro Sanches porque sabia que era completamente contra a ideia. Depois diz outra coisa que também é extraordinária, que é que não reconduz Alberto Coelho como diretor-geral de Recursos de Defesa Nacional, por causa das dúvidas suscitadas nas ilegalidades no tal relatório, mas que isso não era suficiente pra não o nomear pra Empordef Tecnologias de Informação. Eu estive a fazer uma pesquisa rápida e só essa Empordef IT teve, por exemplo, contratos públicos nos últimos anos de 1,7 milhões de euros. Portanto, alguém que não cuida das contratações ou que há suspeitas, pode ter que gerir isto. Isto além de fazer parte de uma holding, a IDD, uma holding da defesa, que apresenta, pra termos uma ideia, negócios de base tecnológica industrial na área da defesa de 4,6 mil milhões de euros. Portanto, numa perspectiva mais global, aquilo que pode ser contratos e valores que passem. O que João Gomes Cravinho diz é: "Bom, ele não serve pra continuar no cargo em que estava, mas serve pra nomear pra outra empresa pública que também tem relação com contratação pública e portanto isto correu muito mal a João Gomes Cravinho. Este é um bocadinho ministro pescada. Antes do seja ao era, porque ele antes de ser ministro dos Negócios Estrangeiros, já tinha sido proibido de ser ministro da Defesa. Muita gente não se recorda disto, mas antes deste governo ser formado, Marcelo Rebelo de Sousa informou a António Costa que havia uma pessoa a quem não daria posse: João Gomes Cravinho como ministro da Defesa. Portanto, houve um pré veto presidencial à escolha de João Gomes Cravinho. António Costa, com a sua habilidade do costume política, aqui tendo um bom sentido, e até de jeito de provocação, porque quem faz o governo é o primeiro-ministro, nomeou o então ministro dos Negócios Estrangeiros, mas com outra coisa caricata e também altamente fragilizadora, se quisermos, que é o principal diploma ou principal pasta diplomática do ministro dos Negócios Estrangeiros de um país como Portugal, é os assuntos europeus, que também não está com João Gomes Cravinho. Portanto, já tínhamos um ministro dos Negócios Estrangeiros que não mexia na Europa, um ministro dos Negócios Estrangeiros que tinha sido proibido pelo presidente de ser ministro da Defesa, e agora cada dia que passa com essas histórias do Hospital Militar, de fato, João Gomes Cravinho está muito fragilizado. Vamos ver, eu dou-lhe um seis. E fico muito curioso para quando em setembro o comentador político, sócio da Tecmacal e ex-ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, como é que ele se irá referir a estes seus antigos camaradas do Conselho de Ministros. E estou muito curioso também com essa opção, isto por falar em novas vidas de ministros, até porque Pedro Nuno Santos era conhecido por mandar longas mensagens a comentadores políticos. Eu espero que a caixa de mensagens dele encha tanto como ele encheu o juízo dos comentadores que o comentavam a ele.
A não ser que fique preso num servidor.
Exato. Exatamente, fica aqui um seis a Gomes Cravinho, sob revisão do futuro comentador político Pedro Nuno Santos, que estou muito curioso o que é que ele tem pra dizer em setembro, ainda falta algum tempo, sobre as prestações dos seus antigos camaradas de governo.
Fica então essa expectativa. João Fernandes, como é que acompanhaste também estas explicações de João Gomes Cravinho?
Com alguma inveja. Eu também gostava de ter um servidor daqueles. Um servidor daqueles às vezes dava muito a propósito. Nós tínhamos, às vezes, aquelas comissões de inquérito, assistimos àqueles lapsos de memória: "Não me lembro, não me recordo." Mas ninguém se recordou, ninguém teve a ideia de dizer que não cabia no servidor. Vinha com muitos anexos, aquilo era uma complicação. E como vinha com muitos anexos, o ministro não se lembrou de reparar noutras coisas, porque aquilo estava publicado noutros locais. Enfim, eu acho que toda a prestação ontem de João Gomes Cravinho foi particularmente penosa de seguir. E penosa não apenas pelo peso do e-mail, mas também por ele ter reconhecido que tinha ido ao Parlamento já com o conhecimento da auditoria do Tribunal de Contas, mas não falou da auditoria porque ninguém lhe fez perguntas. Portanto, a obrigação do ministro não é ser transparente, é ser o mais opaco possível até que o obriguem a ser transparente. É uma nova leitura do que é a contabilidade dos ministros perante os deputados. É também verdadeiramente notável ele ter dito que nomear alguém para uma empresa pública onde vai lidar com dinheiros, quando há suspeitas sobre dinheiros, é uma despromoção, portanto, não ter reconduzido o senhor como diretor-geral. Enfim, tudo isto é bastante penoso, tudo isto não se resolve, porque já sabemos que temos um primeiro-ministro que não gosta de remodelações. Só se calhar quando apanharem o ministro dos Negócios Estrangeiros com a mão no e-mail é que ele vai finalmente pedir a renúncia e o primeiro-ministro vai ser obrigado a aceitá-la e mesmo assim tentará movê-lo, seguramente, de dar esse passo. Enfim, o costume. Eu para não seguir aqui a lógica do Rui Pedro e não dar uma nota muito negativa, vou dar uma nota positiva ao servidor de e-mail, porque portou-se bem.
A inteligência artificial a funcionar.
Permitiu dar uma A inteligência artificial a funcionar. Como é que se consegue fazer escapar um ministro de um aperto? É através de não deixar o e-mail passar.
É um lapso de memória informática.
É um lapso de memória informática.
Eu queria só notar, não sei se é uma tendência, temos que verificar isso nas próximas semanas, que o governo passou, por altura do Ano Novo, de uma fase de animal feroz, basicamente o "habituem-se, é mesmo assim", para a fase do "perdoa-me". Porque o primeiro-ministro já veio admitir erros, na entrevista que deu à RTP. Agora o ministro dos Negócios Estrangeiros também, continua no cargo, mas já veio dizer que se fosse hoje não teria feito a mesma coisa. Há ali uns certos atos de contrição, que só não podem ser vistos como genuínos porque não foram feitos em devido tempo. Há aqui uma reação a algumas circunstâncias. E agora temos uma versão de gatinhos fofinhos, mais do que animais ferozes.
O que é que ele sabe hoje que não soubesse na altura?
Pois, já tinha a auditoria.
Já sabia da auditoria. A única coisa que ele sabe hoje é que a Polícia Judiciária estava em cima do antigo diretor-geral. Bem, isto, aliás, que eu acho de particular mau gosto, alguém que diz isto, que se soubesse o que sei hoje, não admitia.
Não o contactava.
Alberto Coelho é uma figura muito estranha e que andou pelo Ministério da Defesa em governos de várias cores políticas e estava inclusivamente ligado ao CDS e como tal foi candidato à Câmara de Lisboa. Agora, naturalmente que alguém que diz que tendo a obrigação de saber, tendo lá os médicos que não entraram, tendo a auditoria que não falou ao Parlamento, que quem o candidatou à Assembleia Municipal de Lisboa, que tinha que saber o que ele não sabia, é verdadeiramente extraordinário.
Isso já ultrapassa tudo.
José Manuel Fernandes, chegaste a dar uma nota concreta?
Não, eu dou.
Ou ias dar positiva?
Vou dar uma nota concreta. Vou dar uma nota positiva. Enfim, o servidor, admito, foi muito útil e portanto cumpriu a sua função e quando se cumpre a sua função leva-se um 13.
Fica então o 13 para o servidor de e-mail do Ministério da Defesa. Hoje é dia de greve nos comboios, mas também é um dia de protesto da CGTP, com paralisações. Há manifestações também em serviços e empresas, tanto no setor público como no setor privado. Paulo, como é que olhas para esta sucessão de greves promovidas por vários sindicatos e agora este dia? Enfim, não é uma greve geral e para já a CGTP não descarta isso, mas como é que olhas para o atual panorama de contestação em Portugal?
De uma forma genérica, como fruta da época, de alguma maneira. Em termos políticos, em termos económicos e sociais. É normal que aconteça, porque nós olhamos para o contexto financeiro das famílias e percebemos isso. Uma forma genérica, aumento salariais muito abaixo daquilo que é a taxa de inflação, perda de poder de compra e tem todo o contexto, isto em termos genéricos, tem todo o contexto para haver mais contestação social e isso em termos económicos e financeiros. Os motivos estão lá. Em termos políticos, nós percebemos que houve uma certa acalmia nas relações laborais no tempo da João Gonçalves, aliás, as estatísticas mostram isso. Estive a olhar para elas agora e de facto há uma quebra do número de greves e de protestos em termos oficiais durante os anos 2016, 2017 e 2018. Em 2019 já começaram a crescer. Depois em 2020 por causa da pandemia também Foi um ano muito atípico. As pessoas nem podiam sair de casa para protestar se quisessem, em termos de medidas sanitárias, e agora voltaram, é evidente, porque o PCP e o Bloco de Esquerda estão "à solta" do governo. É normal. Contestação tinha que haver, até há uma válvula de escape quando ela é, de alguma forma, enquadrada institucionalmente. Mas eu queria só olhar aqui para casos muito concretos de greves e conflitos pontuais prolongadíssimos. É o caso da CP, que são semanas, são meses. Nós olhamos para os últimos meses e é recorrente.
E essa agora vai para duas semanas.
Duas semanas esta. E o caso dos professores. São casos diferentes, um é uma empresa, o outro é um serviço público, mas também há um conflito prolongado. Ora bem, quando há estes conflitos prolongados, das duas, uma: ou os trabalhadores não têm uma razão que justifique a utilização da bomba atómica, porque greves destas são a bomba atómica utilizada pelos sindicatos e pelos trabalhadores, é o nível máximo de contestação que eles podem fazer, e portanto aí estarão, se quisermos, a abusar de um direito moral de greve. Ou então eles têm razões de queixa, e eu penso que os professores é um caso clássico disso, ninguém lhes tira essa razão de queixa. Têm razões de queixa, mas aí temos que olhar então para a entidade patronal, para os administradores, para os ministros, no caso do Estado, para a tutela política, porque então alguém não está a fazer o seu trabalho. Quando há razões de queixa e quando isso não é satisfeito, isto é, não se promove a paz social, de alguma maneira, numa empresa ou numa entidade, alguém não está a fazer o seu trabalho. A ideia de que não há greves no privado não é verdade. Aliás, durante o tal ano atípico, 2020, houve períodos em que só no privado havia 50, 60 greves marcadas e no público zero. Não têm é tanta visibilidade no privado. E por quê? Porque são resolvidas rapidamente. E aqui vai ao ponto a questão dos incentivos. No Estado, raramente. No caso da CP, por exemplo, é clássico, ninguém tem o incentivo para resolver aquilo. As administrações quando pegam na empresa, já pegam na empresa falida, tecnicamente falida.
Não têm muita margem?
Não têm margem. Ou melhor, até podiam ter margem para resolver aquilo. Agora, as consequências de deixar prolongar o conflito são nulas, porque é assim: não têm clientes, nem utentes. Nós, como estamos a ver esta manhã, e utente em Portugal de serviços públicos, já percebemos, é carne para canhão. Não interessa, ninguém se preocupa com eles. Não vão de comboio, vão a pé, vão de autocarro, vão de carro, é problema vosso. A empresa nunca vai à falência. Isto é, numa privada, uma administração que deixe prolongar um conflito destes, corre sérios riscos de perder clientes, de perder mercado, de perder negócio e de basicamente pôr em causa a viabilidade da empresa. Portanto, não há problemas de rentabilidade, não há problemas de perda de clientes, que eles estão cativos. E portanto, basicamente, não há nenhum incentivo de parte a parte, nomeadamente das administrações, para lidar com isto de uma forma construtiva e para resolver os conflitos.
Queres dar alguma nota, Paulo?
Dou uma nota a este caldo de cultura de absoluta irresponsabilidade. Podemos falar da CP, podemos falar de outras empresas da área de transportes, Ministério da Educação. Só por contraponto, na TAP está a resolver-se o conflito laboral, porque aí há um grande incentivo para resolver. Não só a empresa está no mercado concorrencial, como está no mercado para ser posta a venda. E também é uma empresa pública. E portanto, a questão dos incentivos é absolutamente fundamental.
Helena, também queres falar das greves? Hoje, imagino, não tenhas vindo de comboio.
Claro que não. Posso garantir que Lisboa acordou cedo e frenética, porque as pessoas estavam todas com muito receio, de como é que iam conseguir chegar aos locais. Aliás, eu creio que o maior contributo que Portugal podia fazer para a descarbonização era acabar com as greves da CP. Porque, sem dúvida, se nós tivéssemos transportes públicos ferroviários e também rodoviários a funcionar como deveriam, muito menos pessoas utilizariam o automóvel. Nestas condições é, de facto, muito difícil confiar. Eu queria só fazer aqui uma notazinha em relação aos servidores. Eu, por razões outras, durante muito tempo, tive de mandar ficheiros muito pesados. Eram ficheiros com filmes, com episódios de séries. E eles fazem uma notificação quando as pessoas para quem nós queremos mandar não conseguem receber. O servidor daqueles ministérios deve ser um pombo correio, qualquer coisa assim. Pronto. Desculpem lá, depois de muito tema totado, porque eu sou uma pessoa que compra passe social todos os meses e tenho-me confrontado com esta questão de uma boa parte do mês andar a fazer na minha viatura e a pagar estacionamento.
Ninguém devolve o dinheiro do passe.
Ou a vir do Uber. Acho eu que nós, os utilizadores da CP, da Transtejo, só temos visibilidade se nos constituirmos como comunidade. Porque chegamos a um tempo em que uma pessoa tem que ter uma diferenciação como comunidade sexual, seja ela qual for, LGBTQIA+, e eu acho que agora a estes todos nós temos de juntar os PQUs, que são as pessoas que usam o comboio. E as pessoas que usam o comboio são pessoas trans, porque são pessoas que estão em transição para se tornarem pessoas PQUs, que são as pessoas que usam o automóvel. No limite, as pessoas PQUs, que são as pessoas que estão em transição para usar o automóvel, são pessoas que certamente estão a ficar fartas de pagar impostos para isto e portanto são pessoas que têm a vantagem de ser pessoas PQFPQP. E portanto, o que nos dá, na qualidade de PQFPQP, podemos integrar os LGBTQIA+ e portanto nós somos os PQFPQP, porque se isto não vai lá assim na forma de comunidade, as pessoas usam o comboio e podem eles passarem, como a língua portuguesa é traiçoeira, usar o comboio pode ter várias conotações em português. E portanto, ou conseguimos ter uma visibilidade como comunidade ou de facto ninguém nos liga nenhuma. Todos os meses as pessoas compram os seus passes, as pessoas contam. Tem essa vantagem de estas pessoas, PQUs, que são as pessoas que usam o comboio, além desta questão que há aqui, que eu acho que poderá haver uma diferenciação sexual, também são pessoas muitas vezes racializadas e portanto também temos esse valor acrescentado. Agora há tanto essa coisa da racialização. Portanto, ou nos constituímos como comunidade e vamos para as marchas do orgulho disto e do orgulho daquilo, ou de facto não se vê, aceita-se como uma fatalidade do destino que as pessoas comprem os passes ou que tenham direito a eles gratuitamente, mas de tal maneira eles acabam por ser pagos de outra forma pelos impostos.
E depois não possam usar os transportes.
E não podem usar os transportes. E depois enche-se a boca com a descarbonização, com as cidades verdes, com o vá de transportes públicos.
As pessoas é que são péssimas, não utilizam os transportes públicos.
Claro, fazem aquela conversa de ondoça, mas sei lá, por que não vai de comboio ou de autocarro? Sei lá.
Claro, ou de carro.
Não há comboios, porque eles não andam.
Queres dar alguma nota, Helena?
Sim, a esta nova comunidade dou, porque eu acho que nós temos que estar na Marcha do Orgulho ou qualquer outra coisa, ou da tristeza, seja do que for. Portanto, há uma coisa que está assim a começar, eu acho que uma pessoa tem que dar para aí um 14 ou um 15, uma coisa qualquer.
Esta nova comunidade. Fica então por aqui. O Vencedor É de hoje. Voltamos amanhã.