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Este é o som do YouVin Sou Ré, das manhãs 360. Já sabe que para além de nos ouvir aqui na rádio, também nos pode ver. É só acompanhar-nos em direto através das nossas redes sociais ou do site do Observador. E Carla, esta segunda-feira está conosco Alexandre Machado e é também nosso convidado Ricardo Ferreira Reis, diretor do Centro de Sondagens da Universidade Católica.

É verdade que sim. E esta manhã ainda voltamos à cerimônia da abertura dos Jogos Olímpicos e às tabelas de retenção do IRS. Vimos o governo limpar a casa, mas vamos começar precisamente com o nosso convidado, Ricardo Reis. Convidado para olhar para a Venezuela. Ricardo Reis, bom dia, bem-vindo aqui ao YouVin Sou Ré. E neste caso, nem precisávamos de sondagens para adivinhar uma vitória de Nicolás Maduro, pois não?

Bom dia. Aparentemente, não. Ele, aliás, ontem estava a dizer que estava muito confiante de que aceitaria os resultados, quase que dava a entender que já os conhecia de véspera. De fato, a situação na Venezuela é bastante complexa. Os resultados que eles anunciaram são o pior que podiam ter anunciado, porque são demasiado próximos. 51,2% é muito próximo e, de fato, cheira a esturro, para usar uma expressão mais comum. O processo eleitoral venezuelano é muito complexo. O voto é eletrônico, com verificação em papel imediata. Ou seja, na prática, o que uma pessoa faz é: introduz o seu voto numa maquineta e essa maquineta imprime um boletim de voto, que a pessoa verifica, dobra e deposita numa urna. E os resultados, as famosas atas de que eles estão a queixar, é os resultados destas verificações. Eles auditam cerca de metade das mesas e estão a pedir para se auditarem todas neste momento. Pelo menos a oposição e a comunidade internacional está a pedir que isso seja feito. Portanto, fazer fraude na Venezuela ou é com a conivência de toda a Comissão Nacional Eleitoral ou é extraordinariamente difícil. E a dúvida que existe é, de fato, se não há uma conivência da Comissão Nacional Eleitoral. E depois, as consequências e o alastrar disto em toda a região têm sido também bastante eloquentes, com muitos partidos ou governos de partidos de esquerda na região, a começar pelo presidente do Chile, que tem um governo bastante de esquerda e, no entanto, ele tem sido bastante coerente na crítica à Cuba e à Venezuela, a denunciar que aquilo é muito pouco verosímil. O próprio governo da Colômbia, embora a Colômbia tenha sempre problemas, mas neste caso o Petro também é de esquerda e também não deu mostras de acreditar muito no resultado. E o Peru, que também é um governo de esquerda, também a não acreditar muito naqueles resultados. Depois, tem partidos de direita a governar alguns daqueles países que denunciaram imediatamente os resultados. E a minha grande incógnita é o que fará Lula e o Brasil neste contexto.

Ainda não fez nada, não é? Ainda não disse nada. E vai ser importante o que Lula disser.

Vai ser determinante, porque é quem vai, de fato, validar aquilo, porque para usar a expressão em inglês, é um kingmaker. Portanto, ou aceita este resultado com todo o odor de fraude, de cheirar a esturro, ou então vai dizer: "É melhor haver outra eleição, é melhor verificarmos isto melhor, é melhor isto ter uma melhor escrutinado do que aconteceu desde o princípio até ao fim". Não foi só o resultado de ontem que é cheirar a esturro. Todo o processo de recenseamento de eleitores, sobretudo no exterior, e nós aqui em Portugal tivemos alguma evidência disso, de que não votaram os venezuelanos todos que queriam ter votado. E lembrem-se que há oito milhões de eleitores fora da Venezuela que saíram depois deste regime ter sido instaurado. E isso é mais do que suficiente para virar uma eleição que estava bastante no limite dos resultados. Lembre-se que aqui menos de 10% da comunidade venezuelana terá votado aqui em Portugal.

Ricardo, houve observadores internacionais neste domingo, no dia da votação?

Haver, há. E há mais do que apenas os amigos de Maduro. Quer dizer, estão lá os amigos de Maduro e depois há mais alguns observadores internacionais, mas não em volume suficiente para impedir uma Comissão Nacional de Eleições controlada pelo regime de alterar o resultado.

Ou para aferir a forma como o processo correu.

Eu volto a dizer, não é fácil fazer uma fraude eleitoral sem a conivência de toda a estrutura. Há outro kingmaker importante neste contexto, ao acaso esquecimo de o mencionar.

Que está além do Brasil. Quem é quem?

Além do Brasil. São as Forças Armadas venezuelanas que poderão ter uma palavra determinante, que não precisa de ser em registo de golpe, basta ser em registo de anuência, de dizer: "Isto não é aceitável". E, portanto, reveja lá isso ou aceite os resultados que afinal terão sido diferentes daquilo que estão a anunciar. Parece muito pouco provável que esses resultados sejam verdadeiros.

Ora, aqui neste YouVin Sou Ré, dá-se notas de zero a 20. A quem, Ricardo, é que vai dar nota?

Ao povo venezuelano, que tem aguentado uma situação muito dolorosa e muito Muito penosa para a população e que continua a ter uma fé inabalável em si mesmo, no seu próprio povo. Foi ontem enternecedor ouvir a comunidade venezuelana pedir para votar, clamar pelo direito a voto. São imagens sensibilizantes e, portanto, ao povo venezuelano, eu não posso dar senão a nota máxima neste contexto. A este povo que quer votar, que quer participar e que muitas vezes não o deixam participar. E aqui em Portugal, volto a dizer, terão sido cerca de 90% dos venezuelanos que não puderam exercer o seu direito de voto.

Que não conseguiram. E por isso começamos a semana com um 20 atribuído pelo Ricardo Ferreira Reis. Alexandra, agora vamos a ti, porque queres ir às tabelas de retenção do IRS. Já estás a pensar em setembro, é isso?

Sim, mas agora não vamos todos na loucura começar a gastar o dinheiro, não, que vão ser muito poucos euros. Sim, na decisão de o governo decidir já aplicar ou publicar as novas tabelas de retenção de IRS já em setembro e retroagindo a janeiro, havia este irritante nas negociações do Orçamento do Estado. O governo tirou este irritante da equação e fez bem. A questão agora vai ser futuro. O IRS está publicado, já não depende em nada do Orçamento do Estado. Enfim, há dúvidas se alguma vez dependeu, mas ao publicar já as tabelas, o governo coloca já a perda de receita quase toda em 2024, deixando para 2025 apenas os acertos nos reembolsos que o governo tinha estimado em pouco mais de 100 milhões. Portanto, assim o grosso do impacto vai ser já absorvido em 2024 e as receitas com o IRS, só temos dados até maio, mas até maio estavam a crescer 330 milhões de euros, precisamente quase o valor que é absorvido agora com as novas tabelas de retenção. E como disse, os portugueses não se achem que isto agora vai ser um subsídio de férias adicional, não vai. A atualização das tabelas de IRS vão dar poucos euros mensalmente aos portugueses, mas deixa caminho ao governo para pôr no Orçamento do Estado e nas negociações outras medidas e outras discussões. Pedro Nuno Santos, do Partido Socialista, reagiu logo na sexta-feira a este anúncio do governo dizendo que era uma decisão natural. Eu também acho que é uma decisão natural. O Parlamento aprovou uma lei, o presidente promulgou-a e o governo executa, sem dramas. É a democracia a funcionar e é o nosso regime a funcionar. O governo sabe também que tem alguma margem ainda neste orçamento de 2024 para executar alguma destas medidas. Se bem que vale a pena pensar que isto são medidas que têm efeito e impacto permanente. A receita é cortada, sim senhora, este ano, o maior, mas depois as tabelas continuam a ficar estas vigentes, portanto, é uma redução permanente da receita, que se acredita que pode ser compensada com o aumento dos níveis salariais e da população empregada. Lembro que a população empregada está desde janeiro acima dos cinco milhões de pessoas, o que dá aqui algum conforto às receitas de IRS. Admite-se que este número é bom, que se mantenha e possa ser mantido e dar esta solidez às receitas do IRS. E é obviamente importante ver o que aí vem de contas certas no orçamento para 2025, mas muitas das medidas que estão a ser anunciadas, nomeadamente a subida dos complementos e da reposição do tempo de serviço dos professores, os complementos na Justiça, na Administração Interna, na Defesa, começam já a ter efeitos este ano. E como eu estava a referir, de facto, há aqui uma margem de acomodação ainda este ano que o orçamento tem. Sem querer trazer grandes números, só dois ou três números para dar conta que em 2023, e eu falo muito da taxa de execução dos orçamentos ministeriais, em muitos destes ministérios onde estão a ser dados os complementos e a reposição de tempos de serviço, não atingiram os 100%. Isto significa o quê? Que o que estava orçamentado não foi totalmente gasto. E isto acontece na Defesa, que foi anunciado agora os complementos. A Defesa ficou abaixo, o que gastou face ao orçamentado em 200 milhões, a Educação ficou abaixo em mil milhões, a Justiça em 100 milhões. A Administração Interna foi a que ficou menos, ficou abaixo em 20 milhões. E, portanto, dá aqui algum espaço para o governo decidir estes aumentos que, mais uma vez digo, são permanentes. Isto leva-nos aos anúncios que foram feitos na sexta-feira também em relação à Defesa. Fez bem o governo em colocar também água na fervura em relação às Forças Armadas, que ainda assim, as associações socioprofissionais dizem que vão continuar a pressionar o governo porque acharam insuficiente estes anúncios. E mais do que isso, não gostaram da forma, não é tanto do conteúdo, mas da forma como foram anunciados. Dizem que não tiveram negociações propriamente ditas com o ministério Fez bem o governo em colocar água no fervor das Forças Armadas, depois de ter revisto os complementos às forças de segurança, à justiça, nos professores. Também os policiais agora dizem que vão voltar a reivindicar mais aumentos salariais. Percebo que Nuno Melo, Ministro da Defesa, tenha enfatizado muitas vezes que o governo estava há 115 dias. Não sei se Nuno Melo ainda pensa que o número de emergência é 115.

115. Se calhar é desse tempo.

Nós também somos desse tempo.

Sim, mas ainda está nesse tempo.

Eu pelo menos sou desse tempo.

Sim, acho que aqui estamos todos.

Não sei se o Nuno Melo ainda acha que o 115 é que é o número de emergência, mas fez bem em anunciar as medidas de emergência da defesa. Agora falta tudo o resto e acho que foi curto nos anúncios da defesa, porque falta o plano propriamente dito para as defesas e para os equipamentos e para tudo que rodeia a defesa, que é muito mais. É muito importante recursos humanos, mas é muito mais do que recursos humanos. Falta saber se haverá dinheiro.

Fica aí essa questão, a dúvida para o orçamento. Então a tua nota vai pra cá, Inês.

A minha nota, segmento aqui a minha nota. Eu vou dar 14 para Joaquim Miranda Sarmento e Montenegro pelo IRS, estendendo, acho que é justo fazê-lo, a Pedro Nuno Santos, porque a medida partiu do PS e fez questão de pôr tônica na descida de IRS já este ano, e dou um 12 a Nuno Melo, porque ainda falta o resto.

O resto daqui uns meses talvez fique feito.

E já agora, porque o 12 é 112 o número de emergência.

Não se esqueçam disso. Pode ser necessário. Alguém marca o 115.

E no plano de exonerações do governo, alguém terá ligado para o 112, Bruno?

Há aqui algumas baixas. Já é um número bastante significativo. Eu estava aqui a fazer uma recolha.

Estavas a fazer um levantamento.

Um levantamento do peso destas baixas. Fernando Araújo, diretor executivo do SNS.

O primeiro mais sonante.

O diretor nacional da PSP, Ana Jorge, a provedora da Santa Casa, estes três foram logo nos primeiros tempos do governo, mas depois também a direção da Agência para Modernização Administrativa, a direção da AICEP, a presidente do Instituto de Segurança Social e agora a diretora-geral da Administração Escolar. Não sei se estão incluídos, mas há mais.

Há mais. Não são só sete. O teu levantamento dá pra sete.

Dá. Se calhar é a nota que vou dar no fim. Neste caso, o Ministério da Educação justificou a decisão com a falta de prestação de informações ou prestação deficiente das mesmas, o que me parece que é a mesma coisa, mas não é. E pode gerar diferentes avaliações. Informações que seriam essenciais ou consideradas essenciais para o cumprimento da política global do governo. O que o ministério está a dizer é que a responsável pelo concurso de colocação dos professores ou não prestou informações de que o governo precisa para tomar decisões, ou seja, para desempenhar as suas funções corretamente, ou então prestou, o que se calhar é um pouco mais grave, informações incompletas. O governo, o ministério diz prestação deficiente das mesmas. Isto com certeza é grave, porque o governo tem que ter na administração pessoas que lhe deem informação correta, informação completa, que permita ao governo depois tomar as medidas. A exonerada Susana Castanheira Lopes contestou de imediato as razões invocadas pelo ministro, disse que os fundamentos apresentados não são verdadeiros. Não é a primeira exonerada que o faz, que contesta. A justificação do governo, se o governo sente, se o Ministério da Educação sente que não lhe estão a ser prestadas informações sem as quais não pode decidir de uma forma correta.

Se não tem confiança.

Se não tem confiança, então é perfeitamente compreensível que tome esta decisão. A defesa da exonerada também é perfeitamente compreensível e legítima. Se sente que as razões invocadas pelo ministério não são verdadeiras, então é natural que se defenda. A questão é que isto é indicador de um problema mais grave. Há aqui algo que não funciona. Ou o governo está mesmo a fazer uma purga, uma limpeza dos serviços, ou as pessoas nomeadas pelo anterior governo dedicam-se a pôr pedras na engrenagem, ou o próprio sistema devia prever a substituição de pessoas que desempenham estas funções em caso de mudança do governo. Ou seja, se muda o governo, então há ali uma série de cargos na administração pública que têm de mudar e não se gera esta situação em que há uma desconfiança de parte a parte. Se o governo toma uma decisão de exonerar alguém, desconfia-se logo que está a fazer uma purga, quando pode simplesmente ser essa falta de confiança política. Mas o que acontece nestes casos? O governo tem de justificar esta exoneração e isso faz com que se cole um rótulo ou de incompetência ou de má fé por parte de quem.

Ou de deslealdade.

Ou de deslealdade. E isso não é bom pra ninguém, quando a administração pública deveria estar acima destas questões políticas e deveria ser o próprio sistema a prever isso. Muitas vezes depende da boa vontade de todos os intervenientes no processo. Mas para que o processo fosse o mais transparente possível, e visto que nós defendemos ou respeitamos a legitimidade do governo pra tomar estas decisões, então o próprio sistema deveria prever a substituição destas pessoas para não se cair neste, eu diria, quase pântano em que há acusações, as pessoas saem de alguma forma com o seu percurso profissional posto em causa, com a sua lealdade posta em causa, com a sua competência posta em causa, e isso não é bom pra ninguém. Também não é bom para o governo, porque desde o início, desde que começaram estas exonerações, questiona-se: isto faz sentido? Estas pessoas foram mesmo incompetentes, não fizeram o seu trabalho, não desempenharam as suas funções com competência e lealdade, ou é o governo que quer pôr naqueles lugares os seus, os boys, independentemente de questões de confiança política. Eu acho que isto prejudica, não é bom pra administração pública. A administração pública devia estar acima destas guerras partidárias e deveria ser o próprio sistema, um regulamento que previsse estas substituições, porque senão dá a entender que, no fundo, é um bocadinho à medida dos interesses do governo e sempre com casos com o governo a atacar a competência destas pessoas, as pessoas a defenderem-se, naturalmente, têm todo o direito de o fazer, mas não é bom pra ninguém. Daí a minha nota, eu vou dar um sete.

Um sete, então.

Mas é curioso. Eu não sei se Fernando Alexandre não tem que vir explicar um bocadinho melhor esta exoneração à luz do concurso de colocação dos professores, porque há aquela ideia de que o concurso foi feito com vagas a mais e Fernando Alexandre ainda não foi taxativo na conclusão sobre esse concurso de colocação de professores. O que eu acho é que isto pode indiciar que ele já tem uma ideia concreta do que é que aconteceu nessa colocação de professores e se de fato houve ou não vagas a mais e por que houve essas vagas a mais e professores agora sem saberem bem o seu futuro.

Portanto, ainda às pedras viajadas.

Deixa-me só acrescentar um elemento que eu acho que é um elemento também importante. Eu acho que neste momento, além destes problemas que o Bruno estava a falar, saber se temos ou não um sistema à inglesa, em que os quadros da administração pública se mantêm de governo pra governo, ou um sistema à americana, em que são todos substituídos no dia em que chega um novo presidente, uma nova administração. Ambos têm vantagens e desvantagens. Nós às vezes temos a mania de ficar no meio da ponte.

É que nós temos parece que o pior dos dois mundos.

Pois, é isso que muitas vezes temos. Mas acho que há um problema adicional: é que muitos destes lugares da alta administração pública, hoje em dia são lugares pra que é muito difícil contratar gente competente, gente capaz de executar aquelas tarefas. Não são lugares políticos, portanto, não têm nem a projeção, nem a perspectiva de carreira que um lugar político muitas vezes implica. São lugares de administração, são lugares onde é muitas vezes cada vez mais difícil realizar o trabalho de forma competente, porque estão enfiados em coletes de forças e muitos deles se querem às vezes resolver problemas, acabam a pagar multas ao Tribunal de Contas, e não são multas pequenas. E, portanto, aquilo que eu tenho ouvido referenciar pra muitos destes lugares, em vários ministérios diferentes, é que é muito difícil encontrar gente competente que esteja disponível a trabalhar em lugares onde muitas vezes a própria administração se degradou em termos de qualidade dos seus técnicos e com um quadro de trabalho também muito limitado. Muitos destes concursos, que andam na CReSAP às vezes anos a fio, não é apenas por pressão política, que ela existe, existiu sempre, não vamos ter ilusões sobre isso, é também porque às vezes é difícil encontrar pessoas à altura dos quadros que vão desempenhar. Este é um dos problemas de nossa administração pública de que infelizmente se fala muito pouco.

Aqui fica essa reflexão também. José Manuel, e queres refletir ainda sobre a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos? Gostaste?

Sim. Não. Mas não gostei, até devo dizer que aquela polêmica que há sobre aquele quadro.

Sobre o quadro, que é o quadro da última ceia ou não, já há quem diga que não é a última ceia.

Quer dizer, aquilo é obviamente a última ceia, agora estão a disfarçar. Porque aquilo tem toda uma iconografia que não é possível dizer que não é. Ora bem, mas independentemente disso, eu só vi isso a posteriori. Aquilo que eu achei é que aquela cerimônia transformou-se num pot-pourri de esquetes. Vi ontem, ou vi hoje de manhã, no Figaro, uma pequena entrevista com um filósofo francês, que aliás é um filósofo que vem do maio de 68. Eu tenho que sempre muita dificuldade em dizer o nome dele. Alain Finkielszrantz, acho que é assim que se diz. Ou Finkielszraut. Que é um companheiro do André Glucksmann, dessa gente toda, com uma obra muito publicada, e ele teve uma expressão que eu achei muita graça. Basicamente, o que ele diz é assim: "Eu julgava que não era possível fazer pior que um Festival da Eurovisão, mas afinal é. Afinal foi." Talvez aquilo que me deixou mais olhar pra aquilo e dizer: "Mas o que é isto?" foi o desfile das equipes em barco. Em que a certa altura reparava-se mais no barco, se o barco era grande, se o barco era pequeno, se o barco tinha linhas modernas, tinha linhas antiquadas, do que propriamente naquilo que era importante, que são os atletas. Que iam ali, depois iam ali com os seus telemóveis a saltinhos, em vez de marchar como marcham com aquela dignidade que nós vimos tantas vezes em todas as cerimônias. E aquilo que depois uma mistura de quadros, alguns que faziam sentido, outros que não faziam sentido nenhum, e uma vontade aparente de ir para um politicamente correto levado ao extremo, com algo que eu desde o princípio desconfiei que podia dar pro torto, que é ter escolhido como consultor para aquela cerimônia, um historiador que é uma espécie de Fernando Rosas francês, quer dizer, um historiador muito ligado à França Insubmissa, que é o partido de extrema-esquerda francês, e que acha que a história da França é toda pra deitar pro lixo. Não podia dar muito bom resultado, mas eu acho que sobretudo isto que o Christiano diz no seu artigo é muito verdade. O génio francês brilhava pela sua ausência. Provavelmente é isto mesmo, porque aquilo houve muita coisa. Quem é que está a rir?

É o Ricardo Reis que está a rir.

É o Ricardo. Acho que foi um bocadinho isto tudo. Agora, polêmica mais para um lado, polêmica mais para o outro lado, nem me interessa muito. Não quer dizer que não houvesse partes que tivessem alguma coisa que eu gostei. Gostei de ver aquele senhor em cadeira de rodas levar um bocadinho a tocha. Gostei de ver a Celine Dion no fim, mas depois tudo o resto aquilo era uma misturada, que me pareceu mais destinado a tentar recuperar Paris para o seu estatuto de grande cidade do mundo, estatuto que ela tem perdido nas últimas décadas.

Que nota dá então?

É o que temos. Aquela cerimônia, não sei, dou um sete. E se calhar já estou a ser generoso por uma coisa que ainda é pior, que às vezes a Eurovisão é mesmo.

O Ricardo também não gostou. Um sete então no fim.

Temos sempre Filipa Martins.

Temos sempre Filipa Martins e vamos ver até hoje se há outras coisas.

Sim.

Temos o desporto.

No meio disso tudo. Depois começa o desporto.

O desporto é o que conta. Ontem só ver a Simone Biles reconciliando-se com tudo. Portanto, ver o que ela fez depois do que se passou há quatro anos.

É verdade, o Ricardo está a recordar também o narral.

Mas isso é mais uma.

Também vai ser bom de acompanhar. Ricardo Reis, muito obrigada por ter estado aqui no "E o Vencedor É", que regressa amanhã com mais notas e mais protagonistas. Até lá.