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Há notas para dar, de zero a 20, no Juventude. Nesta edição de sábado, nas manhãs 360 de fim de semana, juntam-se a nós a Mafalda Pratas, cientista política e colunista do Observador, e ainda a Eunice Lourenço, editora de política do Expresso. A moderação deste Juventude é do Miguel Videira.

Bem-vindas, Mafalda Pratas e Eunice Lourenço. Têm um tema em comum, a gestão da tempestade. Particularmente, Eunice Lourenço, queres falar sobre a gestão que tem sido feita pelo governo?

Olá, bom dia. Sim, quero falar, sobretudo, sobre a gestão feita pelo governo e, em concreto, pela figura da ministra da Administração Interna, porque nestas situações, como as que temos vivido nos últimos dias, é muito importante para as populações sentirem alguma segurança ou sentirem o máximo de segurança possível por parte do Estado e de acompanhamento. E eu penso que não foi isso que aconteceu. E no caso da ministra da Administração Interna, parece-me impossível transmitir a segurança, a confiança, o conhecimento que uma situação destas exige. Agora, a responsabilidade disso é da escolha que aconteceu neste governo, como tem acontecido noutros governos, de pessoas que não têm o perfil indicado para a função de ministro da Administração Interna. O ministro da Administração Interna tem de ter um conhecimento do país, um conhecimento das instituições, mas além disso, uma autoridade política que lhe permita ser decisivo e decidido em momentos destes. E aquilo que vimos ao longo dos últimos dias com a ministra a dizer que tinha estado a trabalhar na invisibilidade do gabinete. Agora, soubemos ontem que afinal, nas primeiras horas da manhã a seguir à tempestade Kristin, foi entregar espadas numa cerimónia formal da GNR com o seu secretário de Estado adjunto. O que coloca a questão de afinal quem é que estava na coordenação política. Era o ministro Leitão Amaro, como parece ser, e que parece ser para esta ministra, como foi para a anterior ministra da Administração Interna, uma espécie de babysitter, de alguém que está ali para suprir as necessidades e acompanhar. Há muito que se fala de uma eventual remodelação, que ainda antes da tempestade o governo estaria a preparar para a primavera, e Maria Lúcia Amaral é sempre um dos nomes falados. Eu acho que de facto não se sujeita o país a isto e também não se sujeita uma senhora a estas figuras. Portanto, é preciso fazer alguma coisa e é preciso não ter nem receio de ser criticado por escolher alguém do aparelho, nem pudores e problemas em escolher alguém do aparelho e pôr alguém com conhecimento do terreno, com conhecimento do funcionamento dos serviços de proteção civil, à frente de uma pasta tão importante para a segurança coletiva. Depois, a gestão do governo também me parece ter aqui falhado em muitas outras coisas. Claro que depois diz-se sempre que falhou a comunicação. O presidente Marcelo remete tudo para falhas da comunicação, seja do governo, seja as falhas das Forças Armadas, que, como o Expresso noticiou, demoraram quase uma semana a entrar em prontidão máxima. Mas as falhas de comunicação parece-me que são quase que uma muleta para aquilo que são as falhas de coordenação política. No meio de tudo isto, acho que a ministra do Ambiente esteve bastante bem, mostrando que havia prevenção na sua área, mostrando segurança. A segurança de alguém que tem experiência nessa área.

Um perfil mais político.

E tem um perfil mais político, precisamente, porque tem peso político, porque tem uma carreira política. E depois, houve alguém aqui que também me parece que mostrou que a experiência conta, que nós no Expresso, na brincadeira, numa secção humorística que é a Gente, chamámos de a ministra da Administração Interna do centro, que é a Ana Isabel Brilhosa. Seja a dar indicações, seja na prevenção, também conseguiu passar essa imagem de segurança e de saber o que se estava a passar e como lidar com o que se estava a passar.

Presidente da Câmara Municipal de Coimbra. Mafalda Pratas, partilhas esta ideia aqui expressa pela Eunice Lourenço, de que esta gestão da intempérie, desta catástrofe, vem pôr nu a ausência de perfil por parte da atual titular da pasta da Administração Interna, Maria Lúcia Amaral?

Sim, antes de mais, bom dia. Eu acho que sem dúvida que veio demonstrar isso, mas não veio demonstrar apenas isso. Ou seja, eu acho que não foi apenas Maria Luísa Amaral que não teve perfil ou que esteve mal. Eu acho que houve aqui uma série de erros por parte do governo, por parte do próprio primeiro-ministro e por parte de outros ministros também. Nós podemos dizer que são meros erros comunicacionais, mas não são apenas meros erros comunicacionais, especialmente em situação de crise, porque revelam não saber bem o que fazer nos primeiros dias após a catástrofe e que são dias fundamentais. São dias fundamentais não só para assegurar as pessoas de que as coisas estão a ser resolvidas com a expertise suficiente, mas também que há alguém no governo que tem noção do sofrimento delas e que tem noção de como melhor resolver a situação, seja através de apoios mais tarde, etc. Agora, eu acho que sem dúvida que também revelou que a ministra da Administração Interna não tem muito perfil, eu costumo brincar, não é um assunto sério, mas eu costumo brincar dizendo que já não sei como é que ainda há pessoas em Portugal que aceitam ser ministro da Administração Interna, porque é de facto um cargo muito exigente e que parece ser extremamente difícil que um ministro da Administração Interna saia popular do cargo. A Eunice deu o exemplo da Ana Abrunhosa, é um exemplo, mas eu acho que se recuarmos 10 anos, quase todos os ministros da Administração Interna saíram ou foram de certa maneira consumidos pelos próprios eventos que acontecem.

Não pela Administração Interna, da Coesão Territorial.

Sim. Se calhar teria sido um melhor nome.

E foi coordenadora da CCDR Centro.

Exatamente, se calhar teria sido um melhor nome para a Administração Interna do que outros nomes.

Sim, mas se nos lembrarmos de Eduardo Cabrita, Miguel Macedo, de facto uma série de ministros da Administração Interna que não saíram propriamente com uma imagem reforçada no governo.

É extremamente difícil.

A Margarida Blanco é outro caso de perfil errado.

Exatamente.

Quer Eduardo Cabrita, quer Miguel Macedo, quer José Luís Carneiro, eram pessoas com peso político nos partidos. As suas saídas podem não ter sido boas, a de Miguel Macedo e de Eduardo Cabrita, mas em momentos de catástrofe, em momentos de crise, eles tinham o peso político quer no Conselho de Ministros, quer para fora, na relação com os autarcas e com as entidades da Proteção Civil, eles sabiam o que fazer. E agora o que parece é que não se sabe sequer o que fazer. E tal como a Mafalda diz, claro que a responsabilidade não é só da ministra da Administração Interna. Eu quis focar nela para salientar esta questão de perfil. Mas a responsabilidade máxima é sempre do primeiro-ministro, que aliás é quem deve presidir à Comissão Nacional de Proteção Civil, podendo delegar na ministra.

Sim, sem dúvida. Eu só queria acrescentar aqui uma coisa que é o seguinte: se nós olharmos para os casos que correram pior, se quisermos dizer, geralmente são casos de pessoas que são extremamente competentes como académicas, como pessoas no setor mais profissional e liberal, mas que não têm duas características muito importantes. Primeiro, como a Eunice referia, não têm peso político, mas não é apenas peso político no Conselho de Ministros, é não terem experiência política de lidar com todos os órgãos políticos que o ministro da Administração Interna precisa lidar, que são as autarquias locais, que são as CCDRs, que são os próprios partidos, e que são os outros ministros, como a Eunice disse, e de facto, se uma académica ou se uma pessoa que foi provedora de justiça ou juíza do Tribunal Constitucional, que podem ter um enorme conhecimento legal do país e podem ser pessoas extremamente inteligentes e competentes, mas é a primeira vez que estão a aprender, como a própria ministra disse, a aprender a lidar com outros órgãos políticos do país que são muito importantes de coordenar em casos de emergência, a própria Proteção Civil também é um deles, e as autarquias, depois não têm esse know-how e não têm essa experiência passada para o fazer de imediato. E de facto, o ministro da Administração Interna não pode ser, a meu ver, um técnico. Não quero dizer um técnico no sentido se foi alguém que teve uma carreira nestas áreas, claro que pode ser, mas eu estou a falar de uma pessoa, por exemplo, um jurista altamente prestigiado, que nunca teve grande cargo político. Deve ser uma pessoa que tem experiências com autarquias, que tem experiência política e que tem experiência nas CCDRs, que tem experiências na coesão territorial.

E experiência a tomar decisões em situação de crise.

Exatamente. E depois, claro, há aqui um problema mais fundo, mas que também se põe em vários ministros da Administração Interna. Eu acho que se nós tivéssemos que dizer os dois cargos que costumam ser mais difíceis, para além obviamente do primeiro-ministro, nos últimos anos têm sido, sem dúvida, o ministro da Saúde e o ministro da Administração Interna. E o ministro da Saúde é um ministro que nós ouvimos quase mensalmente, quando não há nada, quando não há catástrofes. É sempre um ministro muito pressionado para reformar a saúde. No entanto, o ministro da Administração Interna é um cara que nós só falamos quando há catástrofes e se calhar não pode ser isso só que acontece. Tem de haver planos muito mais específicos, muito mais detalhados sobre o que fazer em vários tipos de situação de emergência. Não podemos estar sempre à espera que ocorra uma catástrofe e depois que em cima do joelho se tente resolver, se tente coordenar em cima do joelho os vários órgãos, que se tente inventar apoios também em cima da hora pra depois colmatar as falhas do que não foi feito.

É preciso haver um padrão de atuação, não é? Deve haver um padrão de atuação.

Sim, acho que tem de ser um ministério que deve ter mais atenção, não necessariamente midiática, mas política, nos momentos que não são de crise, pra depois isso não acontecer nos momentos de crise. E, portanto, obviamente, a minha nota é negativa.

Vamos então precisamente às vossas notas. Posso começar por ti, Mafalda Pratas, que nota para a forma como o governo tem gerido estas emergências?

Sim, eu vou dar um sete, é uma nota obviamente negativa. Obviamente que qualquer governo teria muita dificuldade numa situação destas, porque parece-me que, de facto, havia muitas localidades que não estavam prontas do ponto de vista da organização territorial para este tipo de coisas acontecerem. No entanto, de facto, o desastre comunicacional, por um lado, e a sensação de que não têm as coisas bem preparadas, bem pensadas, acho que merece uma nota negativa.

E a Eunice?

Eu, como gosto de seguir a doutrina Benevides, essa figura que eu não encontro por aqui há muito tempo, dou um 14 à Maria da Graça Carvalho, ministra do Ambiente, e um 15 à Ana Abrunhosa.

As notas para a forma como o governo tem gerido estas crises provocadas pelas diferentes tempestades que têm atingido Portugal. Estamos aqui numa encruzilhada, temos cinco minutos e dois temas, o que dá dois minutos e meio a cada uma das nossas convidadas. Então vou começar por ti, Eunice Lourenço, pedindo precisamente que faças um comentário inversamente proporcional ao tamanho da página do jornal Expresso. E o teu tema é a gestão das queixas de abusos pela Iniciativa Liberal.

Sim, para assinalar que a Iniciativa Liberal decidiu divulgar esta semana, talvez tentando que o assunto passasse por entre tempestades mais despercebido, que afinal teve duas queixas em 2023 de assédio, duas queixas internas. Parece-me que fica muito mal à Iniciativa Liberal vir reconhecer isto agora, quando se não mentiu, pelo menos omitiu durante a campanha eleitoral de Cotrim Figueiredo para a primeira volta das presidenciais. E portanto, acho que, como escreve o João Miguel Tavares no Público, mostra que afinal é um partido de paredes opacas e é preciso que sejam feitos mais esclarecimentos sobre este caso.

Que nota, Eunice?

Um 13 pro João Miguel Tavares, pelo partido de paredes opacas sobre o qual escreve.

Não queres atribuir uma nota à forma como a Iniciativa Liberal geriu esta polêmica?

Não.

A Mafalda Pratas traz o último tema desta edição de sábado de "E o Vencedor É?". O Washington Post de Jeff Bezos despediu um terço dos funcionários.

Sim, foi mais do que um terço, foi quase metade, na verdade. Não chega à metade, mas é mais do que um terço. São quase 300 funcionários, jornalistas, todos eles. Tem sempre algum problema, porque revela que a administração, neste caso comprada e gerida por Jeff Bezos, não tem propriamente dificuldades financeiras, digamos assim, e o que pretende fazer com isto é não apenas substituir os jornalistas que está a despedir, porque não há sinais de que seja essa a intenção. Não vai vender o jornal, porque se tivesse achado que o investimento tinha sido um mau investimento, há muitos compradores interessados nos Estados Unidos em comprar o jornal. Já várias pessoas vieram dizer que gostariam de comprar o jornal. E também não é uma questão financeira, porque os dois outros grandes jornais norte-americanos, quer o New York Times, quer o Wall Street Journal, um mais à esquerda, um mais à direita, são jornais que não estão a dar prejuízo, são jornais muito prestigiados, muito lidos e que estão financeiramente bem geridos. Ora bem, Jeff Bezos, com todo o know-how que tem de gestão de empresas e ainda mais com a enorme fortuna que tem, podia certamente fazer uma destas opções, mas não é isso que escolhe fazer. O que escolhe fazer é despedir grande parte da redação do jornal, não a substituir. Algumas das secções que ele cortou é a secção metropolitana da área de DC. O Washington Post começou por ser um jornal obviamente mais focado localmente e tinha sempre uma secção mais local, digamos assim, ligada à DC. Fechou também muitas secções internacionais do jornal, fechou a secção de esporte e já sabemos também que muitos jornalistas, os mais prestigiados e os colunistas mais prestigiados foram saídos ao longo do último ano, o que levou também a um declínio muito grande da base de subscritores. O que isso significa? Se nós olharmos pra isto juntamente com outras coisas que têm acontecido mais ou menos ao mesmo tempo, nomeadamente na CBS, e com as mudanças programáticas e editoriais da CBS, são milionários em ambos os casos, de um lado a família Ellison e do outro lado Jeff Bezos, que querem tornar a cobertura midiática não um fiscalizador do poder, mas sim uma forma de agradar ao poder e neste caso a Donald Trump, sem dúvida que é essa a intenção, acho que ninguém consegue negar. E é muito triste que um dos jornais mais prestigiados da história norte-americana, que teve um enorme papel, nomeadamente, por exemplo, levantar o caso Watergate, morra assim e ainda mais irônico que há uns anos, há quase 10 anos, tenha adotado aquele slogan "a democracia morre na escuridão" e no fundo quem parece estar a querer morrer na escuridão é o próprio jornal. Não vou dizer que a democracia morre, porque obviamente ainda estamos longe disso, mas mostra como nem o próprio jornal esteve imune a esse próprio slogan.

Mafalda, e que nota assume essa tristeza que aqui expressas?

Vou dar uma nota muito negativa, vou dar um quatro a Jeff Bezos.

O dono do Washington Post, jornal que vai despedir várias centenas de trabalhadores, resultado dos prejuízos, é pelo menos o motivo invocado pela administração do jornal. Mafalda Pratas e Eunice Lourenço, muito obrigado pela vossa presença e análise dos temas que aqui trouxeram à edição deste sábado de "E o Vencedor É?". Bom fim de semana.

Obrigada, bom fim de semana.

Bom fim de semana.