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E o Vencer a Toré das manhãs 360, que também pode acompanhar com transmissão em direto através das nossas redes sociais ou site do Observador. Carla, esta segunda-feira estão conosco, além do José Manuel Fernandes, a Helena Matos e o Miguel Pinheiro.
E esta manhã falamos de resgate animal, de presidenciais e inevitavelmente do Bloco de Esquerda. Mariana Mortágua anunciou este fim de semana que não será recandidata. Bruno, queres fazer um balanço da liderança de Mortágua?
Sim, é a altura de o fazer e a decisão de Mariana Mortágua de não se recandidatar já é em si um balanço da sua liderança, e é um balanço negativo, porque o Bloco de Esquerda, que diga-se em defesa de Mariana Mortágua, já vinha em quebra, não soube inverter, não conseguiu inverter essa tendência de quebra. E essa responsabilidade cabe também a Mariana Mortágua, apesar de haver vozes dentro até do partido, que dizem que Mariana Mortágua foi vítima apenas das suas circunstâncias, das circunstâncias políticas gerais da esquerda em particular, ou seja, de entrar no momento em que a esquerda no seu todo está em quebra. Vemos que isso não é completamente assim, porque o LIVRE conseguiu afirmar-se neste período, não conquistou o número de deputados e de votos como o Bloco de Esquerda nos seus melhores momentos, mas a verdade é que registou uma tendência de crescimento, o que mostra que esta quebra não era inevitável e que Mariana Mortágua, com o seu estilo de liderança, com as decisões que também foi tomando, contribuiu para agravar este problema. Ou seja, não foi parte de uma solução. Depois, aqui surgem, dentre as várias explicações, uma corrente, uma teoria que diz que Mariana Mortágua, no fundo, foi prejudicada por ser mulher, por ser uma voz incômoda, ainda não se aceitar que uma mulher tenha estas opiniões. Eu devo lembrar que Mariana Mortágua afirmou-se na política portuguesa pelo seu estilo bastante enérgico, sem fazer reféns, por assim dizer, pelo seu papel nas comissões de inquérito. Mostrou sempre ser bastante aguerrida, bastante preparada e nessa altura ninguém falava no fato de Mariana Mortágua ser mulher. Foi assim, com esse estilo, que Mariana Mortágua se conseguiu afirmar dentro do partido, na sociedade portuguesa em geral, e depois de Catarina Martins sair, ser quase a sucessora natural de Catarina Martins, porque era o rosto mais reconhecido do Bloco de Esquerda e talvez aquele que inspirava mais confiança para que se invertessem os resultados. Então eu acho que essa explicação não é suficiente para explicar aquilo que aconteceu e que continua a acontecer ao Bloco. Não é o fato de Mariana Mortágua ter um determinado estilo de liderança que não casa bem com a forma como os portugueses veem as mulheres na política. Não acho que tenha a ver com isso. Agora, nem sempre um bom deputado, um excelente deputado, um deputado que cumpre a sua função, que se destaca pelo seu caráter aguerrido, pelas suas intervenções, dá um bom líder de partido. Aliás, muitas vezes acontece que um bom deputado nem deve pensar em ser líder, porque as qualidades de um líder são necessariamente diferentes. E esta ideia de que Mariana Mortágua, por ser uma deputada bastante capaz e que se destacou ao longo do tempo nessas suas intervenções, daria logo obrigatoriamente uma boa líder, é que talvez tenha sido um dos erros do Bloco de Esquerda. Mas isso também é uma coisa que se vê agora. Sem dúvida que durante este período em que esteve na liderança do Bloco, Mariana Mortágua cometeu vários erros. O partido também se viu envolvido em polêmicas, como aquela do despedimento das funcionárias do Bloco, que não ajudaram em nada quem estava a ocupar a liderança naquele momento, apesar da responsabilidade não ter sido de Mariana Mortágua, mas acabou por também sofrer os efeitos dessas polêmicas e em nenhum momento se sentiu que seria capaz de dar a volta. O último momento em que isso ficou provado foi esta questão da flotilha. Mariana Mortágua desertou das suas responsabilidades. A verdade é esta. Por muito que tenha querido arranjar aqui uma causa, e o partido sempre foi um partido de causas, uma causa que motivasse o seu eleitorado, a sua base eleitoral, a verdade é que não conseguiu e aquilo que deu a entender foi que estava desligada das preocupações precisamente do seu eleitorado ao ir aqui numa ação que trouxe midiatismo, o Bloco voltou a ser falado, mas se calhar não pelas melhores razões, ou não no equilíbrio, depois ao olhar-se para aquilo que foram as vantagens da participação nessa ação e as desvantagens, aquilo que retirou ao Bloco, se calhar a avaliação que se faz é uma avaliação negativa.
Negativa.
E Mariana Mortágua fez essa avaliação também. Nós tínhamos visto aqui há duas semanas, uma semana e pouco, Daniela Oliveira, antigo militante do Bloco, a pedir a saída de Mariana Mortágua e isso só poderia resultar de uma avaliação muito negativa da liderança e Mariana Mortágua teve essa sensatez, essa lucidez de fazer também essa avaliação.
Que nota vais dar então à Mariana Mortágua?
Eu vou dar para a liderança de Mariana um balanço de um quatro.
Dás um quatro. Muito negativo. Miguel, para já, o nome apontado para substituir Mariana Mortágua será o de José Manuel Pureza. Como é que vês essa possibilidade? Será que consegue reverter alguns dos danos dos últimos anos do Bloco?
É uma boa pergunta. É uma grande mudança. Claro, vamos ver se é ele, mas aparentemente é o indicado pela lista da direção, da lista que apoia Mariana Mortágua. Os críticos dentro do Bloco não têm muito poder e por isso o bloco da direção é que vai, em princípio, escolher isto. José Manuel Pureza não é que tenha tido resultados eleitorais incríveis. Ele foi candidato em Coimbra nestas autárquicas. Eram circunstâncias especiais, desde 2009 que o Bloco não aparecia nas listas com o seu símbolo, porque houve um movimento de cidadãos no qual o Bloco se diluiu, por assim dizer, desde 2009. 2009 foi a última vez e foi com Catarina Martins, penso eu, não sei. Mas este ano o movimento de cidadãos apoiou Ana Abrunhosa, do PS, e o Bloco lá teve de aparecer outra vez. Teve 2,9% dos votos, o PCP teve 4,8%, não conseguiu eleger vereadores e elegeu um deputado na Assembleia Municipal. Portanto, não é propriamente extraordinário. Agora, José Manuel Pureza tem uma imagem muito mais moderada do que Mariana Mortágua. Aquilo que se diz sempre que se fala em José Manuel Pureza é que ele é o único católico entre os dirigentes do Bloco. Ele fez parte da Juventude Universitária Católica e só isso dá-lhe uma imagem de moderação. Foi ele quem esteve à frente das posições do Bloco em relação à eutanásia. Isso até ajudou o partido. Enfim, temos aqui um católico que é a favor da eutanásia. Já viram? Isto não é uma coisa tão radical quanto isso. Mas eu olhando para tudo isto, olhando para o fato de nestes últimos anos com Mariana Mortágua, com a radical Mariana Mortágua, aquilo que nós vimos foi o Bloco a definhar, enquanto ao lado, no LIVRE, tínhamos Rui Tavares a tentar ter uma imagem de bom senso, de diálogo com o PS, e vimos o LIVRE a subir, eu não posso deixar de pensar que José Manuel Pureza é uma espécie de Rui Tavares. Vai ser o Rui Tavares do LIVRE. Dá a ideia de que o Bloco de Esquerda quer seguir um bocadinho o caminho que o LIVRE seguiu. Pode fazer sentido, porque a verdade é que o Bloco perdeu votos e o LIVRE ganhou votos e por isso, se calhar, alguma coisa de bem o LIVRE estará a fazer. Portanto, por um lado faz sentido, por outro lado, enfim, aquela concorrência gémea. Nós tivemos as gêmeas Joana e Mariana Mortágua, se agora tivermos os gêmeos José Manuel Pureza e Rui Tavares, será que isso vai resultar? Não sei. Dou um 10 para ver como isto corre, mas pelo menos mostra que o Bloco está a pensar na sua vida. Vá lá, ao menos isso. Ao menos ali qualquer coisa, não se mantém no mesmo rumo. Mas enfim, vamos ver por onde é que isto vai.
Vamos esperar para ver. Para já, esse 10. José Manuel, ótima deixa esta ideia de Pureza ser o Rui Tavares, mas vamos deixar isso para o Contracorrente, onde o assunto vai ser analisado por ti. Agora queres ir às presidenciais? O que destacas?
Olha, o que destaco é alguma estranheza com a forma como as coisas estão a passar. De repente, os candidatos parece que querem embrolhar-se todos entre eles e trocar de pé, trocar de posição. Repara, eu não sei até que ponto é que eles, de alguma forma, estão a perceber aquilo que pode ou não mobilizar os eleitores. Nós temos, por um lado, António José Seguro, que tem vindo, na prática, a consolidar uma posição de centro-esquerda, mas a querer falar com o centro-direita, claramente. E temos o almirante a achar que, nestas circunstâncias, ele pode ultrapassar António José Seguro pela esquerda, o que é no mínimo arriscado. Eu não sei se os eleitores estão a seguir as eleições com a atenção que nós olhamos para estes jogos, vai mais para um lado, vai mais para o outro, regressa, vai por cima, por baixo, dribla, esconde a bola, sei lá. Essas coisas todas. Eu creio que não. Mas estas hesitações de posicionamento a mim deixam-me relativamente surpreendido e não sei se vão ter grandes resultados, porque de certa forma contrastam com uma candidatura que não sai do sítio onde sempre esteve e vai tentando amearar pontos com alguma dificuldade, que é de Marques Mendes, mas que também não parece ter qualquer capacidade de levantar voo. E, por outro lado, com um registo mais histriónico. Eu não queria chamar extremista, porque acho que aquilo não corresponde a nada, é apenas ser mais histriónico, achar que se pode dizer cada vez mais aquilo que vale é o que dizem os taxistas, sem desprimor para os taxistas, que é o registo adotado este fim de semana por André Ventura, que garantiu que se falasse dele o fim de semana todo, a propósito de que Portugal precisa de três Salazares, mas que é a típica frase que nós ouvimos às vezes quando apanhamos, agora já me acontece menos a mim que com o Uber as pessoas não fazem comentários políticos Acontecia muitas vezes quando se apanhava um táxi e a pessoa estava furiosa por uma razão qualquer. Isto começa a estar um pouco paralhado. Vamos ver o que acontece, mas pelo que tenho visto, não estou a gostar da forma como está a arrancar esta campanha presidencial, sendo que agora vamos estar nos próximos tempos algo divididos entre as propostas de alteração a um orçamento pré-aprovado, que começa hoje a ser discutido, e as movimentações dos candidatos. Veremos se quando eles falarem uns com os outros e fizerem os debates, isto melhora um pouquinho, porque para já este arranque não é auspicioso. Para a forma como está a correr neste momento a campanha presidencial, sendo que nem sequer é totalmente definido quem são os candidatos. Pode-se saber esse mistério, se vamos ter ou não candidato do LIVRE. E se algumas figuras do Partido Socialista vão ou não apoiar José António Gouveia e Seguro, ou estão a ficar muito arrepiadas com o centrismo de António José Seguro, como ainda deu agora sinal Alexandre Letão mais uma vez. Vou dar para já um oito à forma como os candidatos têm tentado estar no terreno de formas diferentes, mas que eu não creio que para já estejam a resultar muito. Mas sou eu, cidadão comum, não sou especialista em comunicação, como alguns gostam de se apresentar.
Aquilo vai fazendo assim, vai faltando aí uma bússola para percebermos estas presidenciais. Helena Matos, queres falar do IRA? Atenção, o Núcleo de Intervenção e Resgate Animal, que entretanto foi reconhecido como uma entidade de proteção e socorro dos animais. O que te espanta aqui? Para já precisávamos de ouvir a Helena, que se calhar tem ali um botãozinho do mute, o botão do microfone ligado ou desligado, que não nos permite que a Helena Matos consiga falar. Podes estar a falar, se calhar está a falar, mas não está.
Pois estou, estou a falar.
Agora estás e bem, e entraste aqui com muita emconjança.
Sim. A questão é mesmo essa. Não se percebe se de facto foi reconhecido, porque o Jornal de Notícias traz hoje exatamente uma notícia, uma investigação sobre isso, tentou perceber junto das entidades oficiais, ou seja, junto do Instituto de Mobilidade e Transportes e também junto da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, terão mesmo contactado o próprio governo, mas na verdade, ninguém confirma, ninguém desmente esta passagem das viaturas do IRA ao estatuto que têm, por exemplo, as viaturas dos bombeiros, as viaturas médicas e as viaturas policiais e que lhes permitem, quando estão em missão, circularem com sinalizadores, sirenes, aquelas luzes azuis e aquelas sirenes. Ora, o que acontece aqui em relação ao IRA, e em primeiro lugar, é perceber se de facto este estatuto foi reconhecido ao IRA. É fundamental perceber isso, porque há aqui um estatuto excecional. Todos nós gostaríamos muito de andar com avisadores e sirenes, mas não é possível. Isto é um estatuto excecional e que equipara de facto o IRA, que é uma associação, a uma associação de bombeiros, a uma viatura médica, a uma viatura policial. E depois cabe também perguntar como é que isto se pode explicar. É preciso entender que já que desde junho de 2023, que o IRA passou a ter uma espécie de colaboração direta com a Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, portanto, eles têm legitimidade para intervir em teatros de operações. Por exemplo, se há um incêndio, poderão estar nesse teatro de operações. Mas eu creio que muito daquilo que tem acontecido em relação ao IRA resulta um pouco deste estado de não fazer perguntas desde que se fale de animais. Porque o IRA, e eu recomendo, aliás, em 2017, eu já sei que isso foi há muito tempo, o Observador publicou uma reportagem sobre o IRA e em que à época o grupo apresentava-se exatamente como os irados, que faziam operações clandestinas de resgate de animais com a cara tapada. Já que agora se discute tanto estas questões da ocultação do rosto, uma das coisas que sempre me fez ter muito pouca simpatia por esta associação é o facto de eles terem o culto das operações feitas de cara tapada, em que, como eles assumiam, em 2017, estavam mesmo para lá da legalidade, mas como escreviam os jornais, em estado de beatitude pelos animais, eles pisam a linha, quer dizer, e pronto. E pisavam a linha, entravam nas casas das pessoas, nas propriedades das pessoas, em alguns casos puseram informações sobre pessoas nas redes sociais que depois em tribunal se confirmaram não ser verdade, e tolerou-se, e tem-se tolerado, o facto deste culto, eles falam de um treino quase militar com operações de cara tapada. Ainda houve no princípio, é curioso, sobretudo em uma imprensa online mais próxima do Partido Comunista Português, em que se associava esta associação, o IRA, à extrema-direita, e temos mesmo o caso de Cristina Rodrigues, que agora está no Chega, mas que foi chefe de gabinete de André Silva, o então deputado do PAN, ter sido apresentada, repito, ter sido apresentada como um dos elementos encapuzados que surgia num dos vídeos publicados pelo grupo no Facebook. Nunca tal foi provado, mas isto está aliás em reportagens que foram feitas à época, mas com isto tudo e com esta simpatia toda, desde que se diga que se vai salvar um animal, sobretudo se for um animal com pelo, tudo é possível, tudo é permitido e sobretudo não se fazem perguntas. Mas em 2017, numa reportagem da TVI referia mesmo Como o grupo tem estado envolvido em perseguições perigosas, intimidações, grande pressão sobre os proprietários dos animais. Com isto tudo, em 2025, vemos o IRA a ter este estatuto, se for verdade, este estatuto equiparado às viaturas de bombeiros e às viaturas médicas, para poder fazer aquilo que eles designam como "defesa e proteção animal". Eu nestas coisas, para já nunca gostei. Acho que o fazer operações de cara tapada é uma excepcionalização que se dá a bombeiros, esses até por outras razões, aos polícias, em casos muito excepcionais. Não tenho qualquer simpatia por grupos que acham que impressionam mais quando aparecem de caras tapadas, seja qual for aquilo que os leva a isso. E, por outro lado, creio também que temos que ter muito cuidado com esta excepcionalização de quem é que pode circular ou não com sirenes e luzes azuis. Todos nós um dia gostávamos de ter sirenes e luzes azuis, mas não é assim. E, sobretudo, contra aquilo que, e o Miguel Pinheiro passa aqui a vida a falar nisso por causa da Climáximo, que é invocando um valor superior e urgente, de repente está-se ali a pisar tudo aquilo que são normas e regras.
Com isto tudo, só falta a tua nota.
Só falta a minha nota e só quero dizer: as causas não justificam todos os meios. Temos que ter cuidado com isso. E eu quero mesmo saber, enquanto não chegar cá a informação do Instituto de Mobilidade e Transportes, por que concedeu ao IRA a autorização de permitir ou não. Não se sabe, neste momento não se consegue uma resposta. Eu não posso dar a nota porque o Instituto de Mobilidade e Transportes ainda não respondeu, nem o governo, nem mais ninguém. Portanto, estou assim, estou à espera, vou continuar atenta.
Então pronto, vamos ficar aqui todos atentos e à espera. E o Venceré regressa mais logo na tarde política.