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E o Vencedor é na Rádio Observador, edição de sexta-feira à tarde com a Judite França, o António Costa e o Anselmo Crespo. E há um tema comum aos três: a pensão social única, que dúvidas está a gerar na oposição e também muitas críticas. Anselmo Crespo, o que o governo está a pedir ao Parlamento é mesmo um cheque em branco?

Eu acho que o governo está finalmente a querer meter ritmo nisto. Não sei se repararam, mas ultimamente o governo está com pressa pra tudo. E eu acho que não é inocente. Enfim, não direi que é uma resposta direta a Pedro Passos Coelho, mas é a minha leitura e apenas a minha leitura, eu acho que é uma clara sensação que Luís Montenegro tem de que isto pode não chegar ao fim da legislatura e de que é preciso começar a acelerar processos. É preciso começar a acelerar mais do que decisões, porque uma coisa é as coisas serem aprovadas em Conselho de Ministros, depois outra coisa é elas passarem pelo processo parlamentar, sobretudo num contexto em que não há uma maioria. O governo vai tentando governar por decreto, mas aquilo que nós temos visto nos últimos dois anos é que é só mesmo uma tentativa, porque mesmo quando se tenta que as coisas passem apenas pelo crivo do Conselho de Ministros, acaba por haver sempre um partido que chama ao Parlamento as decisões do governo. Essas decisões acabam por gerar o debate normal em democracia, mas acabam por tomar o seu tempo. E, portanto, a sensação que eu tenho tido nas últimas semanas é de que o governo e o PSD no Parlamento, ou AD se quisermos, têm tido alguma pressa em marcar o calendário, em acelerar o calendário para várias áreas.

Neste caso em particular, até pediu mesmo o formato de urgência pra discutir, pra acelerar o processo no Parlamento.

Sim, o formato de urgência, neste caso, o governo tem um argumento que tem a ver com os fundos europeus. E, portanto, justificar-se-á esta pressa do governo por causa disso mesmo. Mas toda mundo já sabia que os fundos europeus acabavam em agosto ou que este prazo acabava em agosto, e este governo não tomou posse propriamente em março deste ano. Mas enfim, vamos dar isso de barato. Seja como for, sobre a medida em si, eu acho que a medida genericamente é positiva, ela vai no bom sentido em várias áreas. Tenho muitas dúvidas, já o disse aqui também uma vez, sobre esta ideia do trabalho voluntário, porque a não ser que alguém me explique que existe um conceito novo, pra mim trabalho voluntário, como o próprio nome indica, é voluntário. Quer dizer, há trabalho remunerado e depois há trabalho voluntário. Acho que a palavra autoexplica-se, não precisa de outra conceção. Ainda que eu acho que o que está subjacente na intenção do governo seja positivo. Não sei é se o governo está a tentar fazer isto da forma mais correta e também desse ponto de vista, tenho alguma esperança que o Parlamento, que é também pra isso que servem os partidos, consiga trabalhar a medida, não no sentido de anular o espírito com que o governo está a tentar criar esta medida, que eu acho que vai muito pra lá de tentar apanhar os apoios fraudulentos ou aqueles que andam a escapar entre os pingos da chuva. Tem subjacente a ideia de que qualquer apoio social deve servir para reintegrar e para trazer de volta, no caso das pessoas que ainda estão em idade ativa ou no caso das pessoas que estão em idade escolar, não estou a falar da terceira idade, naturalmente, mas trazer as pessoas que ainda estão em idade ativa para o mercado de trabalho e fazê-lo da forma mais suave e mais positiva possível, no sentido que essas pessoas possam, de facto, não regredir, não voltar atrás, não voltar a uma situação de dependência, que consigam entrar no mercado de trabalho e consigam fazer um percurso e reerguer-se. Eu acho que por isso é que o espírito da medida é positivo. Tenho é muitas dúvidas sobre a forma que o governo encontrou para aplicar esta medida.

E que no passado já falhou, não é? Já houve esta intenção do trabalho dos beneficiários da rendas.

Também por isso. Ainda que eu acho que talvez fosse possível, de facto, encontrar aqui uma modulação qualquer. Não faço ideia se vou dizer um disparate, mas eu não percebo porque é que é exatamente a mesma ideia que o governo tem, de que as pessoas que estão a receber a PSU podem contribuir de alguma forma pra sociedade, seja em trabalhos de voluntariado, seja em apoio às câmaras, os exemplos que a ministra deu. Eu não percebo por que não pode ser remunerado de alguma maneira esse trabalho. E dizem: "Bom, mas isso aumenta a despesa do Estado." Mas por que tem que ser o Estado? Se há falta de mão de obra em algumas áreas, claramente, se há falta de pessoas, de força de trabalho em algumas tarefas, sejam elas de câmaras municipais, de misericórdias, do que quisermos estar a pensar. E se há procura, então por que não são essas entidades a remunerar de alguma maneira estas pessoas enquanto elas estão neste processo de transição? Não estamos a falar de criar-lhes uma carreira ou de as reintegrar, não é disso que estamos a falar. Nem do trabalho a tempo inteiro, mas por que elas não podem ser remuneradas? Eu acho que ultrapassava-se esta questão do trabalho voluntário à força. O que o governo está a dizer é que quem recebe a PSU vai ter que trabalhar voluntariamente à força e isso eu não sei se é legal ou ilegal, mas não me parece de todo correto.

António, esta questão da necessidade de haver aqui alguma pressa pra aprovar a pensão social única deixou a lei com algumas questões ainda por resolver?

Levou o governo a fazer este modelo de autorização legislativa mais portaria. Ainda agora estávamos aqui sentados e estava o primeiro-ministro a ter que virQual bombeiro explicar que vai dar todas as explicações. Se isto tivesse sido bem explicado, não era preciso o primeiro-ministro vir dizer ao fim de dois ou três dias, uma semana que se conhece esta autorização legislativa, que vai dar todas as explicações. Elas já deviam ser claras. Eu sou defensor desta lei, mesmo criticando alguns aspectos, mas eu chego ao fim de uma semana da discussão, de reflexão e de análise do detalhe do que já se sabe que é a autorização legislativa que entretanto chegou ao Parlamento, que é uma boa lei num péssimo momento. Por acaso ainda não ouvi o PS a dizer isto, ou a oposição. Bem, o Chega diz um disparate do teu tamanho, porque vem falar com aquela agenda que têm de que isto é uma vergonha. Só falta dizer isso. Eu acho que ainda não ouvi dizer isso, mas deve faltar pouco. É uma vergonha, porque isto não pode ser dado a imigrantes que nunca contribuíram. Para já, eles têm que estar há um ano em Portugal para beneficiarem destas prestações, mas estas prestações são não contributivas, é exatamente para as pessoas que não tiveram condições para contribuir, imigrantes ou não imigrantes. Portanto, são pessoas que, infelizmente, por razões de trabalho, sociais, de vária ordem, não formaram a contribuição necessária para terem as prestações que decorrem da sua contribuição, nomeadamente o subsídio de desemprego, ou outras prestações sociais. É para isso que estas 13 prestações existem. Portanto, colocar esse tema nos imigrantes, porque não contribuíram, não sei se é por ignorância, por má fé, qualquer das duas é grave. Mas há um tema que me espanta, a ministra que é, de facto, inquestionavelmente competente. Não sei se a responsabilidade, não quero ser injusto, é da ministra do Trabalho na condução política do tema, mas é muita coincidência. Volta a ser a ministra do Trabalho, Maria Rosário Palma Ramalho, que é trazer esta alteração, que surge por causa de € 500 milhões que temos para receber do PRR. E daí a pressa. Qual é a pressa? A pressa são os € 500 milhões e estar a acabar o prazo para o PRR, para apresentar as mudanças que são necessárias. Com estas medidas, que no detalhe correspondem a um aperto significativo da prestação, nomeadamente quando se reduz o valor de condição de recurso a partir do qual não se pode aceder à prestação. Basicamente estava nos 30 IAS, que é a referência salarial, estava nos 60 e passa para 30. Grosso modo, quem tiver património mobiliário ou imobiliário superior a € 20 mil já não pode aceder a esta prestação. Até agora, nas prestações que estavam em vigor, ia aos 60 indexantes de prestação, é o dobro, na ordem dos € 30 mil. Quando agora a nova lei ou nova autorização pede um limite aos € 16 mil, números redondos. Mas isto é feito com um impacto político que já se está a ver, o primeiro-ministro teve que falar, por causa de um orçamento. Estas medidas todas juntas valem € 500 milhões. Há duas ou três medidas que valem seguramente 70% a 80% do valor destas medidas, nomeadamente o RSI. Mesmo com este aperto na condição de recurso, no fundo, no património, se é que lhe podemos chamar património para quem está nesta circunstância, talvez seja um excesso de linguagem. No momento, situação económica apertada. Ora, isto não faz grande sentido do ponto de vista político, do ponto de vista social, do ponto de vista, se calhar, até moral. Vamos ver. Como eu dizia, a lei tem bons princípios, cria o incentivo que eu acho que é muito importante a quem regresse ao trabalho para manter durante algum tempo a prestação. A prestação vai dos € 240, ou coisa que o valha, até aos € 1 mil. Pode ir, no caso de agregados, se tiver três filhos, se tiver uma série de condições. Mas nós estamos a falar das pessoas que, tirando talvez os indigentes, que estão mesmo fora do sistema, que o sistema não sabe deles, as pessoas que estão no âmbito destas prestações são das mais fragilizadas da sociedade. Estamos a falar de valores muito baixos.

Sobretudo, António, desculpa, as pessoas que já não estão em idade ativa.

Nomeadamente as que já não estão ativas.

O que é que as pessoas vão fazer? Vão vender a casa? Têm um património, a casa delas vale 25 mil €. Vão vender a casa pra viver?

Com risco. Repara, por exemplo, o princípio parece bem feito, mas neste contexto particular é muito difícil. Quem vive numa habitação social, a diferença entre o que paga e o valor referência, que ainda não se conhece, conta pra esta prestação. Mas a habitação social, nós sabemos, existe em Lisboa e Porto, ou Grande Lisboa e Grande Porto. No resto do país não existe habitação social nenhuma. Já perceberam a disparidade e a diferenciação de tratamento entre quem vive com condições exigentes numa grande cidade, numa Lisboa, como no Porto, numa área metropolitana, ou quem vive numa zona do interior, a pressão que é, porque tem, por razões obviamente sociais, uma habitação social, e bem, e há ali uma diferença, e em vez de receber € 300, recebe 200. O impacto que isto tem. Ora, nós estamos a discutir esta lei, que tem bons fundamentos, e eu reconheço isso, e o tema dos 500 milhões do PRR seguramente são muito importantesNo momento em que estamos a discutir que o Estado todas as semanas tira e dá apoios aos automobilistas, a quem tem carro, para andar para trás e para frente com os combustíveis, quando estamos a discutir um aumento de preços que é evidente, nomeadamente em alguns bens alimentares. Ora, isto de facto, do ponto de vista político, é muito desastroso estar a discutir isto nestes termos. Deve haver das vantagens e desvantagens, até de uma moralização de sistema. Acho que poderiam aproveitar algumas medidas, o incentivo ao regresso ao trabalho. Há outras que a vantagem, mesmo a vantagem de acabar com fraude, que haverá, é como aquela coisa do tribunal, mais vale deixar dois suspeitos fora do que condenar uma pessoa que é inocente. Mesmo com a vantagem e a virtude de apertar o que pode ser fraude nestas prestações, neste contexto em que o país está a discutir é mais apoios e se os apoios são suficientes ou não. Não é político, o momento económico e social é mesmo o mais desaconselhado para a fusão das prestações e para algumas das medidas inerentes à fusão. Eu creio que obviamente no Parlamento isto vai cair metade das coisas.

Era isso precisamente que ia perguntar, Judite, esta pensão social única corre o risco de, no fim de contas, perder grande parte das propostas iniciais?

Corre o risco e eu acho que em algumas delas ainda bem.

Então e para que o governo está a assumir este custo político?

Eu não sei.

É para captar os votos da malta do Chega? Mas isso faz sentido aos dois lados. Quem já não votava no governo e quem é sensível ou alinha nesta tese de que vamos é trabalhar malandros que recebem 250 euros, portanto têm que ir trabalhar, porque depois isto vai ter que ser negociado e vai cair, e depois no final do dia andamos a discutir exatamente o quê em torno das pessoas mais vulnerabilizadas. Não consigo perceber.

Tens razão. E eu acho que esta arte de legislar a prazo, remetendo tudo para portarias, também é chão que deu uvas. Acho que isto não faz sentido nenhum, nem faz sentido pôr os deputados a tentar adivinhar o que diz uma portaria. Não sabemos qual é o valor de referência, como é que se conta o património, não sabemos exatamente. Sabemos uma coisa: o que parece que acontece é que para os atuais beneficiários nada muda, mas para os que entram de novo, isso vai mudar.

Não, mas vai mudar para os atuais que tiverem que renovar dentro de 12 meses a partir do momento em que entra a lei em vigor, não é?

Isso sim, quando tiverem que renovar vai mudar também.

O custo-benefício ganha mesmo alguma coisa quando ainda por cima há uma discussão tão importante que é o do Código de Trabalho, e eu presumo que o governo continua a achar que o Código de Trabalho é que é realmente importante para a produtividade do país. Foi isso que nos disseram nos últimos 10 meses. Para trocar por esta discussão, que pode ter algum interesse e tem interesse, lá está, nas contas com Bruxelas, mas que traz uma discussão social que eu acho mesmo desnecessária.

Depois temos aqui a questão do Chega, só para terminar, porque o Chega consegue sempre votar contra uma medida restritiva por ela não ser restritiva o suficiente. Consegue sempre fazer este número, é incrível. Porque agora, como tu tinhas dito, não quer que imigrantes que nunca descontaram tenham direito à prestação, quando ela é não contributiva, pela própria palavra dela também se explica.

Exato.

Eu acho que o governo escreveu aqui uma reforma que o PS acusa de ser uma cedência à agenda da direita radical, e depois temos a direita radical que responde que ainda é pouco. Portanto, o executivo fica no meio e não ganha nada com isto. A explicar a um lado que não está a cortar e a tentar convencer o outro que já cortou o suficiente. E portanto, eu acho que é a posição mais desconfortável da política portuguesa, sendo que acho que foi o próprio governo que se pôs nela e portanto agora vamos ver como é que sai.

E as notas deste tema?

Eu vou dar um oito ao governo, porque acho que começou isto mal desde o início, outra vez. E aquilo que começa mal, tarde ou nunca se endireita.

Eu, para já, ainda não dou negativa, porque eu acho que o espírito da medida é positivo. Dou um 10, na esperança de que aquilo que me parece manifestamente errado nesta proposta seja corrigido agora no Parlamento. E já agora, que seja corrigido rapidamente para ver se não perdemos os 500 milhões.

Sim, mais essa. 620, aliás.

Dou um 10 por causa disso, mas reconheço que vai ser preciso uma segunda oportunidade outra vez para uma primeira boa impressão. Não é uma coisa fácil.

É a estratégia da ministra do Trabalho para este segundo governo. Judite, começo agora por ti. António José Seguro, presidente da República, lançou vários alertas sobre o envelhecimento, secundado também pelo presidente da União das Misericórdias, Manuel Lemos, que diz que este problema é um tsunami que já está na praia. Como é que avalias a intervenção do presidente da República neste tema?

Eu acho que foi um registo que por vezes até lhe faltou em campanha. Foi um registo de um presidente que escolhe uma causa que é difícil, que é esta do envelhecimento, e a vai transformar numa das bandeiras do mandato. E eu acho que o diagnóstico que fez foi um bom diagnóstico. Nós somos o terceiro país da União Europeia com menos camas em lares. Uma cama no privado custa duas vezes e meia uma reforma média e as mensalidades sobem de 200 a 250 euros num ano. Em 2050, seremos o quarto país do mundo com a maior proporção de população acima dos 65 anos. E portanto, isto são números que descrevem um país que está a rebentar pelas costuras, de um problema que toda a gente via há muitos anos, mas que ninguém tratou a tempo. E, portanto, eu acho que no discurso há uma frase forte, que é o facto da solidariedade da sociedade civil não poder substituir a responsabilidade do Estado, que é a responsabilidade primeira.E há um exemplo que é concreto, que é a questão do internamento social, que só funciona graças às camas das misericórdias, quando funciona. António José Seguro diz que deve recusar-se isto ser uma espécie de novo normal. E eu acho que é bom que o presidente recuse que sejam as misericórdias a tapar o buraco da política pública. Eu acho que isso é um bom princípio. Agora, é evidente que o papel de António José Seguro aqui é curto, é lembrar ao Estado as suas obrigações, é ser uma voz que amplifica, mas é um poder simbólico, como sabemos, sem responsabilidade executiva. E eu acho que há uma magistratura de influência que pode apontar caminhos e sublinhá-lo várias vezes. Eu acho que esse trabalho tem sido feito de forma assertiva por parte do presidente da República.

E sempre, Anselmo, puxando aqui as orelhas ao governo, neste caso, diz que a responsabilidade é do Estado, o que não significa que seja propriamente culpa deste governo, mas lembrando que é um setor muito dependente dos privados e do setor social.

Não é só deste governo, naturalmente, mas é um daqueles exemplos que eu acho que é paradigmático de como as prioridades políticas muitas vezes não estão propriamente alinhadas com as necessidades do país. Nós estamos, quero recordar, há quase um ano a debater uma reforma laboral. Agora preparamo-nos para estar mais três ou quatro meses a debater a PSU. Não desvalorizo a importância destas duas coisas, mas diria que este problema para o qual o presidente da República alertou esta semana, se não é urgente, eu não sei o que é que é urgente, honestamente. A Judite já falou aqui de alguns dados estatísticos. Nós temos um quarto da população com mais de 65 anos. Neste momento, há quase 200 idosos por cada 100 jovens no país. Este número é particularmente impressionante. E quando nós andamos aqui muitas vezes a debater as urgências, a saúde, a falta de resposta, a falta de macas, a falta de ambulâncias, nós não temos consciência que muitos destes problemas que hoje em dia impactam no Serviço Nacional de Saúde são problemas que a Segurança Social devia ter resolvido, devia estar a resolver e não está. Não é só esta ministra, não é só este governo, foi também o governo do Partido Socialista durante oito anos. Não há uma resposta e o problema está-se a agravar e está a ser galopante. Eu tenho dois ou três números para acrescentar a estes que a Judite deu. Em março deste ano, havia um total de 2807 pessoas internadas em hospitais públicos depois de terem tido alta clínica. São quase 3000 pessoas que estão encostadas numa cama de hospital sem precisarem de estar naquele hospital, a ocupar uma cama que provavelmente faria falta a alguém que precisava dela, mas que não têm sítio para onde ir. Não têm um lar, não têm um centro de cuidados continuados, não podem muitas vezes ir para casa. Na maior parte dos casos, estas pessoas para ficarem no hospital é porque a assistente social considerou que elas não tinham condições para ser autónomas, para voltar para a casa delas ou porque não têm família. Claro, também haverá nestes casos, nestas pessoas, alguns casos de abandono familiar. Nós sabemos que todos os Natais há notícias disso, mas a dimensão já transcende a época festiva ou a época em que algumas famílias, alguns filhos vão depositar os pais no hospital porque não querem carregar com esse peso. A estas quase 3000 pessoas que estão internadas, acresce uma média de dias de internamento social. Esta média de dias passou de 25,6 em 2023 para, pasmem-se, 38,9 dias em 2024. E em novembro de 25, já em 47,8 dias. É mais de um mês e meio de pessoas que estão à espera numa cama de hospital de uma resposta social. O que este governo já anunciou? Só para termos números gigantes, este governo anunciou no início deste ano a criação de 400 vagas. 400 vagas. Claro, eu não sou ingénuo, eu tenho absoluta consciência que um problema desta dimensão não se resolve num estalar de dedos e agora, de repente, surgem lares. A resposta no privado é absolutamente avassaladora. Claro, quem tiver meios financeiros para ir para o privado, seguramente também está bastante cheio o privado. Atenção, já não é só uma questão de dinheiro, mas enfim, com dinheiro, neste país as coisas ainda vão andando. Mas eu quando estou a dizer com dinheiro, estou a falar de valores que podem chegar aos 3000, aos quase 4000 € por mês. É deste dinheiro que eu estou a falar, é de famílias com capacidade para pagar 3 a 4 mil € por mês no privado, seja em cuidados continuados, seja em lares. E há uma indústria a crescer neste país e a florescer neste país à conta da falta de resposta do Estado. E, portanto, o meu ponto é: o presidente da República basicamente não só faz bem em puxar este assunto e em não largar este assunto, como eu espero que não fique sozinho neste debate, porque os partidos da oposição também servem para isto. E se é possível na Assembleia da República, já que o governo não consegue dar resposta, se é possível na Assembleia da República, tantas vezes os partidos terem iniciativas parlamentares para acabar com as portagens nas antigas SCUT, para tomarem medidas e decisões que lhes parecem muito popularesQuando forem às próximas eleições, eu acho que também era possível os partidos da oposição chegarem-se à frente. Hoje em dia nós temos uma geometria parlamentar tão variável que dá para fazer de tudo. Dá para o PCP aprovar coisas com o Chega, dá para o Chega aprovar coisas com o PS. Por que os partidos não vão atrás disto que o presidente acabou de dizer e por que não tomam essa iniciativa, já que o governo está mais preocupado com outros temas, já que a ministra da Segurança Social claramente não parece ter isto no topo da agenda dela, por que os partidos não o fazem? Vou já dar um 18 ao António José Seguro, ao presidente da República, porque eu acho que este tema é absolutamente urgente e é, sobretudo, um daqueles testes do algodão sobre a forma como nós tratamos com mais ou menos dignidade as pessoas que estão numa situação como estas que estão neste momento encostadas numa cama de hospital à espera de uma resposta.

Em primeiro lugar, apetece-me dizer que António José Seguro está a sair melhor que a encomenda. Acho que se pode dizer isto ao fim destes meses. No exercício da política é sempre bom dizer até agora. Começou agora, mas estes meses têm sido importantes e este tema em particular é de facto muito importante. Mas depois, ainda há dias discutimos aqui no Dia da Criança os números da Pordata e chegámos à conclusão: não há creches. Só 50% das crianças têm acesso às creches pagas pelo Estado, no âmbito daquele programa que foi anunciado há uns anos. O país não é para crianças nem para jovens. Os jovens qualificados vão-se embora, crianças não têm lugares onde ficar. Nas escolas ficam muito mais horas, também por razões evidentes, de que não há capacidade dos pais terem outras alternativas. E depois somos confrontados com esta discussão, que não é provavelmente nova, mas que é importante estar na discussão mediática e política, e também não é um país para velhos. Porque os mais velhos não têm dinheiro para ir para uma residência privada, não têm enquadramento familiar que permita um apoio. Com problema de saúde, ficam com um grande problema, porque os hospitais têm dificuldade em recebê-los e em mantê-los. Obviamente, também os hospitais não é suposto serem sítios para manter pessoas já depois de terem os seus tratamentos.

Para além do risco de infeção hospitalar.

Nós sabemos. Mas como depois não têm literalmente lares disponíveis. Mas pede-se pactos para tudo e eu não gosto muito, é tão cansativa a discussão dos pactos. Parece que os pactos são a solução.

Mas pede-se pactos para tudo, mas não há pactos para nada. Pedir, pedir, pedimos.

Ou quando existem, não se materializam.

Qual foi o último pacto que o país teve?

É preciso um pacto. Eu acho que é daqueles casos em que isto não é ideologia. É preciso dar resposta.

É dignidade.

À dignidade humana e às pessoas que precisam, e o Estado precisa de responder por isso. Não me parece mal, acho que a Judite nunca isto sugerisse, que as misericórdias também estejam envolvidas. O Estado pode e deve contratualizar com as misericórdias à falta, obviamente, de espaços próprios, como faz na saúde ou como faz na educação, quando é necessário. Se não há capacidade para construir de um momento para o outro, porque não há, não é possível, que se aumente muito o orçamento para criar soluções em que os privados têm infraestruturas, imóveis, e depois capacidade para contratar, porque também temos um problema: é de pessoas, é de competências de pessoas para acompanhar os mais velhos.

O Manuel Lemos fala disso. Não há enfermeiros suficientes.

Não há enfermeiros, não há cuidadores.

Sim, como o setor começa a ficar dependente também dos imigrantes para mão de obra.

Sim, mas depois há um nível nos menos especializados, depois há um nível de cuidado que exige especialização.

Fisioterapia.

Fisioterapia, já nem digo só enfermeiros.

Higiene, enfermeiros.

Higiene, exige um cuidado, por falar de uma acessibilidade social, um cuidado e uma experiência para a qual também faltam pessoas. É preciso formá-las, é preciso que o Estado, se não tem condições para responder construindo os próprios, porque é difícil, nós percebemos isso na habitação, é uma evidência, é que faça contratos com os privados, que faça contratos com as instituições de solidariedade social, para que haja uma aceleração. Não se vai responder a tudo, mas também ficar com a ideia de que como não há resposta imediata, é melhor ir se fazendo. Não, que se faça alguma coisa.

Nós estamos a ficar já sem tempo, mas íamos só ao tema final dos guarda-sóis nas praias. Para também acabarmos com uma nota um bocadinho mais positiva, ou do tema um bocadinho mais lixo.

Eu só trago isto aqui.

Já que estamos à porta do fim de semana.

O país está a debater este tema há duas semanas, três semanas? Eu estou há duas semanas, desde que isto começou, a evitar o tema, porque me pareceu que era um não tema. Mas eu esta semana não consegui deixar de ficar um bocadinho indignado. Veio o presidente da APA esclarecer já duas ou três vezes a lei. Depois emitiu uma nota técnica para dizer: "Aquilo que eu disse está aqui agora por escrito". E eu ouvi esta semana uma senhora que era representante dos concessionários, depois da nota, dizer: "Isto ainda não está esclarecido". E as notícias todas eram: "Concessionários ainda não estão esclarecidos". E eu estava em casa e estava a pensar: "Mas qual é a dúvida?"Qual é a parte que os senhores concessionários não entendem? Há uma zona que está concessionada, há uma zona que é de segurança e o resto da praia é pública. Qual é a parte? É preciso um desenho? E agora vem a ministra dizer: "As câmaras que façam um desenho para cada praia para explicar."

Quando não houver maré cheia, como é que faz o desenho? Faz o desenho na entrada. Vai lá desenhar mesmo na areia. Faça assim uma coisa na areia.

Eu, que até sou insuspeito, porque sou cliente dos concessionários, eu já tenho a minha provecta idade e eu não dispenso uma boa espreguiçadeira, ainda que não goste de ser assaltado no verão, quando estou a alugar uma espreguiçadeira.

Mas és, mas és assaltado.

Mas pronto, é daquelas coisas, uma pessoa faz opções. Em vez de beber mais três cervejas, também és assaltado a beber cerveja. No Algarve, basicamente és assaltado por respirar. Mas cada um faz as suas opções e eu sou um homem que gosta da sua espreguiçadeira e gosta da sua palhota.

Estás numa família de cinco. Imagino é que uma família de cinco.

Não, para já são só quatro. Para já são só quatro e se calhar vai continuar só quatro. Mas eu quero lá saber que alguém ponha o chapéu à frente. É-me indiferente, eu não estou lá para ver as vistas.

Há uma discussão dos concessionários que é de facto despropositada. Vamos lá ver.

É tentar alargar a área da concessão.

Vamos lá ver. Mesmo nas concessões, quem vai a uma concessão sabe que paga mais por uma linha do que paga por outra. Só a primeira linha, que está mais desimpedida, porque não tem mais uma linha à sua frente. Mas todos os outros que pagam uma cama de uma concessão, tirando essa primeira linha, têm pessoas à sua frente, que são as pessoas que estão na linha da frente. E isso não constitui problema para as pessoas que alugam a cama ou as camas, porque no caso são muitas. De preferência, cá para mim, fico logo na mais próxima, que é mais barata.

Mas acabem com esta discussão. São horas de televisão, rádio e jornais e o senhor da APA, coitado, já não sabe como é que há de explicar mais aquilo. Larguem o homem, ele já explicou que a praia é pública, é de todos. Pronto.

Já só falta mesmo o desenho. Veremos se ainda aparece o desenho até à abertura de um balnear. Chegamos assim ao fim de "O Vencedor" é desta tarde política com o Anselmo Crespo, António Costa e a Judite França.