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Este é o Som do Ivens Oreias, Manhãs 360. Carla, esta segunda-feira está conosco o Miguel Santos Carrapatoso. E hoje só dá PS. Este fim de semana houve reunião da comissão política do Partido Socialista e, Bruno, a primeira mudança no PS é da narrativa?

É, a narrativa, esta narrativa retrospectiva, que a mim me choca um pouco, porque os partidos depois de uma liderança devem ter um período de nojo, de algum recolhimento, em que devem ponderar, refletir e falar menos do que refletir. Não convém vir logo alterar tudo o que se passou para trás ou grelhar o ex-líder. E é exatamente isso que o PS tem estado a fazer nos últimos dias. Eu, na semana passada, elogiei o PS porque estavam a surgir algumas figuras aparentemente disponíveis para disputar a liderança. Entretanto, só ficou o José Luís Carneiro, que é o que já todos sabíamos, e que está a ser criticado por ter avançado logo, quando era o único que eu acho que o poderia fazer sem ser acusado de traição à antiga liderança, porque foi ele que disputou a liderança com Pedro Nuno Santos. Mas numa semana as coisas mudaram bastante e uma das coisas que mudou mais foi atribuir todas as responsabilidades pelo resultado, pela estratégia e pela política do PS a Pedro Nuno Santos. Parece que Pedro Nuno Santos hipnotizou o PS, deixou toda a gente à sua volta num estado de hipnose em que foram atrás, estavam a ouvir uma flauta, a flauta de Pedro Nuno Santos, e seguiram atrás dele e agora acordaram, despertaram desse transe e viram: "Não, era tudo errado e nós sabíamos que era errado". Portanto, a estratégia de reeditar a geringonça, que era o grande ativo político de Pedro Nuno Santos, e que toda a gente sabia que Pedro Nuno Santos, se tivesse condições, ou seja, votos para isso, o faria, e que foi apoiado por toda a gente dentro do PS, até aqueles que criticaram a primeira edição da geringonça, ou muitos daqueles que criticaram, agora eram a favor da estratégia, era aí que o PS se devia posicionar. De repente, Pedro Nuno Santos sofre uma derrota que devem ter considerado humilhante. Eu aqui na semana passada disse que em democracia não há derrotas humilhantes, mas foi uma derrota pesada, e vêm todos apontar o dedo a Pedro Nuno Santos. Foi ele o único responsável, porque toda a gente estava com um pé atrás. A moção de confiança. Eu tenho ouvido nos últimos meses, desde que foi apresentada a moção de confiança, que a responsabilidade, pelo menos dos setores PS e à esquerda, da crise e do governo ter caído era de Luís Montenegro, porque tinha apresentado uma moção de confiança que sabia que ia ser chumbada. Ora, eu não consigo compreender como é que esta ideia casa com a ideia de que foi Pedro Nuno Santos o único a defender, ou aquele que conseguiu impor, esta vontade de chumbar a moção de confiança, porque aparentemente dentro do PS e à volta de Pedro Nuno Santos, toda a gente achava que era uma má ideia chumbar a moção de confiança e derrubar o governo. Agora aparecem todos a dizer: "Não, aquilo que devia ter sido feito era: abstinha-se, deixava passar a moção de confiança, depois havia a comissão parlamentar de inquérito e depois Luís Montenegro iria perder as eleições ou derrubavam o governo da AD quando fosse necessário, quando surgisse uma melhor altura, e então o Luís Montenegro seria derrotado." E estas análises de pessoas, umas mais perto do círculo de poder, outras um pouco mais afastadas de dentro do PS, revelam a falta de vergonha ou falta de caráter, porque vêm dizer que agora não fizeram esta avaliação, não manifestaram a sua opinião, aparentemente a opinião que tinham na altura, em nome da união. Bem, das duas, uma: ou na altura falavam e agora tinham legitimidade para vir falar, ou então tinham se calado e agora continuavam calados, mas fazem exatamente o contrário, que é: na altura em que a sua opinião podia ter alterado alguma coisa, calaram-se.

Os órgãos coletivos servem pra pouco assim ou pra nada, não é? Não adianta. Se as pessoas participam em órgãos coletivos para não darem a sua opinião e para seguirem aquilo que é voz de chefe, então não é preciso, basta um líder.

Mas então depois não venha dizer que a culpa é do chefe. Ou se fala na altura, ou então depois o que parece, quando vêm falar depois de as coisas correrem mal, é que no fundo estão a tentar livrar-se de responsabilidades e atribuir todas as culpas ao único que entretanto saiu de cena, que é Pedro Nuno Santos. Pedro Nuno Santos eu acho que escolheu a estratégia errada, de facto. Já antes achava que era uma estratégia errada o PS colar-se demasiado à esquerda, mas essa foi a estratégia. Não era de agora. Esse pensamento de Pedro Nuno Santos não é uma novidade, toda a gente sabia. Pedro Nuno Santos era assim, apesar de terem dito que se estava a moderar. A questão aqui não é da moderação ou do radicalismo. Era um PS, de facto, mais inclinado à esquerda, e essa é uma opção completamente legítima. Agora, de repente, o problema é que dentro do PS parece que ninguém concordava com essa estratégia. Parece que Pedro Nuno Santos era o único lá dentro.

Ainda por cima, acho que acontece uma coisa, é que é pouco credível

É pouco credível. Algumas das pessoas que têm surgido nos últimos dias com esse discurso não têm fama de ser pessoas que estejam habituadas a ficar caladas. Alexandra Leitão, por exemplo, teve problemas com António Costa quando fazia parte do governo. Agora, Alexandra Leitão estava ali sentada ao lado de Pedro Nuno Santos. Nós vimos aquele debate quando a certa altura o Montenegro inclusive-

Montenegro.

Montenegro.

Os caras já viram. Já corrimos todos em coro.

Todos, é verdade. Quando o Montenegro diz: "Então, pronto, vamos fazer uma comissão de inquérito mais curta e podiam ter dito: "Aproveita." Não, nada, ela seguiu em frente sempre. É muito pouco credível e se quer que eu diga, acho muito feio.

Não, e dizer que é em nome de-

Acho muito feio.

Calarem-se em nome de união.

Até ajuda a explicar as declarações de Pedro Nuno Santos, claramente irritado no sábado de manhã. De repente, foi como o: "Até tu, Brutus?" Claro.

Mas se na altura se calaram em nome da união, antes das eleições, agora deveriam permanecer calados em nome da decência, porque é indecente, de facto, depois das coisas acontecerem, virem largar aquele que foi o único que desapareceu de cena. Pedro Nuno Santos anunciou o fim da sua vida política partidária.

Até breve.

Até ver. Mas eu acho que fica mal a quem esteve sempre ao lado de Pedro Nuno Santos e agora vem renegá-lo e renegar toda a sua estratégia.

Paulo, Pedro Nuno Santos está aqui a arder em lumbrante agora.

Claro. Mas também penso que já pertence ao passado de alguma maneira. Vira-se rapidamente a página e não tarda nada, está tudo nos braços do novo líder. Eu queria, ainda falando da saída de Pedro Nuno Santos, olhar aqui pra duas ou três coisas que ele disse nos últimos dias. No fundo, ele fez o balanço possível da sua carreira até. Disse basicamente que foi tudo aquilo que havia para ser no partido. Foi líder da JS, foi secretário de Estado, foi ministro, foi deputado, foi líder do partido agora, candidato a primeiro-ministro. E eu acho que esta forma de colocar as coisas, atenção que não é a única, muitos políticos colocam a coisa nos cargos que eles ocuparam e apresentam o seu currículo, precisamente por terem ocupado este e aquele cargo. Portanto, não é o único. Pedro Nuno Santos foi o último, agora o mais recente a fazer isso, que é curioso que não digam qual foi a marca que deixaram. Estes cargos todos, Pedro Nuno Santos daqui a cinco ou 10 anos, vamos recordar-nos ou ele próprio vai recordar-se de quê? O que ele deixou ao país, de alguma maneira? Tipo, olha, há uma lei, há um segmento da população, há uma obra ou há qualquer coisa que eu lancei, fiz, por aí fora. Isto não é exclusivo dele, atenção. Esta coisa de olhar pra trás. Os políticos deviam olhar mais para aquilo que fazem e não para os cargos que ocupam. Isto não é sobre eles, é sobre o país, de alguma maneira. E pensando um bocadinho nisso, na marca que Pedro Nuno Santos deixa, tirando obviamente os quatro anos em que ele foi o secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, na Jerónimo Sá, que isso é trabalho político de bastidores, não é uma coisa visível, de alguma maneira. Mas também temos que perceber que trabalhos como a manutenção da Jerónimo, ou a estabilidade política, se quiserem, nunca é um fim, é um meio. Portanto, os governos querem essa estabilidade para atingir um fim, e o fim são as medidas e a marca que deixam no país. E de facto, com a pasta executiva que ele teve, uma pasta importantíssima como a das obras públicas e transportes, olha, só se veem problemas. É a TAP e os 3.200 milhões enterrados que nunca mais vamos recuperar, são a informalidade de decisões por WhatsApp. Naquilo que é obra lançada, temos atrasos e mais atrasos e nem de propósito, o público anda a acompanhar muito bem esta evolução das obras na linha da Beira Alta, e eu peço desculpa também por voltar sempre aos mesmos assuntos, mas a culpa não é minha, a realidade é que se vai repetindo. Porque o público diz-nos hoje que há mais um atraso na linha da Beira Alta, agora já com o novo ministro, Miguel Pinto Luz, que está há um ano e tal no cargo. Estamos a falar, atenção, da obra de uma linha que está fechada há três anos para obras, quando devia ter sido por nove meses. E o próprio Miguel Pinto Luz já se comprometeu, já se tinha comprometido publicamente, porque são essas informações que lhe dão, como davam antes a Pedro Nuno Santos, como é evidente, que as obras estariam concluídas no final de março, depois havia ali uns procedimentos burocráticos de certificação para abrir. Mas houve um técnico da IP, da Infraestruturas Portugal, que num colóquio nos últimos dias veio dizer que esses prazos já estavam todos ultrapassados, que a obra ainda não foi concluída, depois disse ainda há a certificação, que não depende da IP, e por aí fora. Isto só pra notar uma coisa, basicamente. Foi assim com Pedro Nuno Santos, é assim com Miguel Pinto Luz. Eu acho que há muitos ministros, sobretudo quando têm pastas que envolvem alguma execução de medidas no terreno, que não mandam nada. Os ministros não mandam nada, os ministros e os secretários de Estado. Eles podem dizer o que quiserem, eles podem querer ter a vontade que quiserem, mas são os serviços, são a incompetência dos serviços que acabam por mandar nisso tudo. E estes casos das obras que vão atrasando demonstram isso. Isto é só um exemplo, provavelmente é o que está mais à mão. Mas os ministros podem dizer o que quiserem, anunciar, comprometerem-se com prazos. As coisas não andam, as coisas derrapam, seja por incompetência técnica, por incompetência jurídica, porque há concursos que ficam desertos, porque há coisas que vão pra trás, porque há obras que simplesmente não avançam. E eu acho que é um estado, basicamente, em que nós estamos nestas pastas executivas, que é ser ministro e secretário de Estado, neste momento, significa mandar muito pouco nos serviços. A degradação dos serviços é tão grande, que a vontade política não serve rigorosamente de nada O triste disto tudo é a absoluta impunidade com que isto se passa. As coisas vão acontecendo. Passa na cabeça de alguém que um diretor de novas obras da Sonae no continente, que demorasse três anos a abrir um hipermercado que estava previsto abrir em nove meses. E ele continuava no cargo, a gerir os hipermercados, as aberturas, e que ainda existisse outra coisa qualquer, uma fábrica de uma empresa privada. Três anos, nove meses. Não passa pela cabeça de ninguém, só no Estado é que isto se passa desta maneira.

A quem vais dar nota?

Nem sei muito bem. Pedro Nuno Santos, no meio disto tudo, é um passageiro que não é diferente dos outros, de alguma maneira. Mas ainda assim, acho que ele devia ter mais atenção à marca que deixa ou que não deixa, e à incapacidade que teve, se calhar, para a deixar, e aos erros que cometeu também, e devia ter alguma modéstia a mais do que este elencado de cargos. Vou lhe dar um sete. Mas sendo que por este caminho vamos ter muitos.

Outros com sete. Bruno, tu vais dar a quem crítica Pedro Nuno Santos agora?

Sim, vou dar um um. Acho que nunca dei um no vencedor.

É hoje.

É hoje, vou dar um.

É hoje. Fica, aparentemente, Miguel Santos Carrapatoso, José Luís Carneiro agora com o menino nas mãos.

É, fica com o menino nas mãos. E para usar tudo que foi dito sobre o Partido Socialista e sobre aquilo que aconteceu a Pedro Nuno Santos, que supostamente estava rodeado de gente que lhe era muito leal. Não sei se fizeste referência ao artigo do "Público" que nos leva a discutir tudo isto. É um artigo assinado pela Ana Sá Lopes, em que diz que, por exemplo, Alexandre Leitão e Pedro Delgado Alves foram manifestamente contra a decisão de chumbar a moção de confiança. Duas pessoas que são das mais próximas. Alexandre Leitão era a pessoa mais importante a seguir a Pedro Nuno Santos no Partido Socialista.

Segundo o próprio. Como ele próprio dizia.

Exatamente. E a quem convém que aquele artigo saia agora? A quem quer fugir a sete pés do legado de Pedro Nuno Santos. E há uma pessoa que vai a votos e tem uma eleição muito importante pela frente, que é Alexandre Leitão. Não estou com isto a sugerir que foi ela a fonte da notícia, mas não deixa de ser grave que pessoas que eram muito leais a Pedro Nuno Santos aproveitem agora que ele está no chão para espetarem a última faca. Mas enfim, é a política e é a natureza humana. E isto leva-me a falar de José Luís Carneiro, porque se Pedro Nuno Santos teve as dificuldades que teve e tinha supostamente muita gente de confiança ao seu lado, o que fará ou o que será de José Luís Carneiro nos próximos meses? Creio que José Luís Carneiro cometeu o seu primeiro grande erro ao ter dado muito nas vistas de que estava com muita pressa. E o facto de ter estado com muita pressa, de não ter permitido que nascesse uma candidatura rival, ou pelo menos que se esgotassem todos os meios para que essa candidatura rival surgisse, isso pode ser um problema a médio e longo prazo para José Luís Carneiro, porque o PS, ninguém se engane, não está pacificado com esta transição de poder. José Luís Carneiro representa uma ala que era minoritária até há bem pouco tempo, uma ala que tinha sido derrotada por António Costa, que depois relançou José Luís Carneiro, integrou José Luís Carneiro, mas até pelo que se viu nas últimas eleições internas do Partido Socialista, José Luís Carneiro tem muitos anticorpos. Portanto, não será agora por herdar o poder da forma como herdou, que vai resolver ou sanar todos os problemas internos que o Partido Socialista tem. Desde logo, basta ver as declarações que foram feitas por Fernando Medina à cabeça, mas também Mariana Vieira da Silva, que marcaram desde o minuto zero, que se afirmaram desde o minuto zero como sombras de José Luís Carneiro. Portanto, eu acho que cometeu um erro ao ter acelerado demasiado, ou ter forçado que o processo fosse demasiado rápido, porque estas pessoas não ficarão satisfeitas até terem uma oportunidade de pelo menos medirem forças com José Luís Carneiro. Portanto, é verdade que o Partido Socialista precisava de ter um líder. José Luís Carneiro tem a legitimidade natural de quem foi a votos nas últimas eleições, mas o próprio poderia ter tido menos pressa na contagem de espingardas, porque mais à frente isto vai lhe custar caro ao primeiro erro que cometer. Até ver, toda a gente está mais ou menos alinhada com a necessidade de abrir uma ponte de diálogo com o PSD. José Luís Carneiro já disse, já se predispus a aprovar o programa de governo e o próximo orçamento de Estado, mas nós também já vimos no passado como esta abertura do Partido Socialista para supostos diálogos ao centro só dura enquanto é necessária para o Partido Socialista. Isto aconteceu com António José Seguro, foi torcido quando havia condições para o derrubar. E portanto, este apelo à união e este alinhamento de todas as sensibilidades do Partido Socialista é positivo nesta fase, mas o facto de não ter existido um confronto entre dois candidatos dignos desse nome vai custar caro ao Partido Socialista a médio e longo prazo.

Faz dar nota a José Luís Carneiro.

Vou dar nota à pressa de José Luís Carneiro. Mais uma vez, tinha toda a legitimidade de ser candidato, podia ter permitido que outras figuras aparecessem, até porque seria bom pra ele. Não vejo que tivesse Um adversário propriamente à altura ou capaz de lhe roubar o momento. Não quis fazer, não deu sinais nesse sentido, precipitou, contou as pingardas, arregimentou apoios. Eu acho, pelo que vi até no que aconteceu ao PSD no pós Pedro Passos Coelho, que isto não augura nada de bom. Portanto, vou dar um oito a José Luís Carneiro.

Um oito. José Luís Carneiro, que não vai ter na bancada parlamentar Fernando Araújo. José Manuel, e queres falar desta decisão do cabeça de lista pelo Porto, que afinal quer voltar a ser médico.

Sim. Eu acho que nem sei bem como é que quero classificar, porque Fernando Araújo não foi uma figura secundária durante a campanha eleitoral. Fernando Araújo teve muito protagonismo, foi a voz do Partido Socialista no que diz respeito a todos os problemas, a tudo o que tinha a ver com saúde e com o SNS. Fernando Araújo foi-nos vendido durante muito tempo como uma espécie de gênio da gestão e de repente o gênio da gestão, que não se vê que volte a sê-lo, vai voltar a ser médico, claramente. E claro, isso é importante, e ser professor, e não tenho dúvidas nenhumas sobre isso. E Fernando Araújo tem algumas características. Como gestor do Hospital de São João, ele ganhou bom nome. Como diretor-geral do SNS, eu diria que não resolveu os problemas, porventura até acrescentou outros, fez uma reforma muito centralizadora, muito centrada nele, uma pessoa que se tem em grande consideração e aparentemente os eleitores contam pouco para ele. Numa altura em que vamos entrar com um governo em que os temas da saúde não vão sair de cima da mesa e onde ele poderia, eventualmente, no Parlamento, ter um papel, até porque não há um governo maioritário, para todos os efeitos, as discussões vão passar muito também pelo Parlamento. Ele acha que na política só talvez fosse ministro. Ele já foi secretário de Estado, talvez se fosse ministro ficasse na política. Para isso era preciso que o PS ganhasse as eleições. Ele não teve a intenção de perceber que isso não ia acontecer. Regressa ao hospital, é bom para os seus doentes, seguramente, mas é um sinal negativo para a forma como se instrumentaliza a política. A política precisa de figuras que não sejam apenas políticos profissionais. E Fernando Araújo até poderia ser uma delas se não tivesse comportado desta forma. Isto é, a meu ver, um sintoma negativo do ambiente político geral. Porque quando alguém se sente atraído pela política, alguém com competência profissional, um médico reconhecido, um gestor hospitalar reconhecido, que diz que "sim, senhor, estou disponível para a política" e ao primeiro revés diz: "Olha, adeus, não estou para isto." Não fica ele bem, não fica bem o partido que o candidatou e não ficamos nós todos bem, porque temos falado há muito tempo que isto não devia ser só para aqueles que fazem da política uma profissão. Eu creio que todo este processo não foi bonito e Fernando Araújo não sai bem dele e, independentemente das suas competências profissionais, eu tenho que lhe dar, neste caso concreto, um seis e com alguma margem de generosidade.

Sim, preparava-me para ouvir o chumbo direto, mas é segunda-feira.

Alguma margem de generosidade. É segunda-feira, está sol, vento e calor.

Um seis para Fernando Araújo, que não vai assumir o cargo de deputado para que foi eleito nas últimas eleições legislativas. E o vencedor regressa para a segunda edição da tarde política da Rádio Observador.