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Este é o Youven Sorê das manhãs 360, que também pode acompanhar com imagem através das nossas redes sociais ou pelo site do Observador. E Carla, esta segunda-feira, além do José Manuel Fernandes, está também conosco o Miguel Pinheiro. Sendo que a campanha eleitoral para as presidenciais vai a meio, ótima oportunidade para olharmos para o que tem acontecido até agora. E Miguel, o que tem acontecido é uma presença muito forte das sondagens, os candidatos têm comentado muito. Isto pode ter algum efeito na forma como todos nós olhamos para a prestação dos candidatos e o que podemos fazer no dia 18 de janeiro?

Tem, claro, mas a primeira responsabilidade é dos próprios candidatos. Eu já começo a sentir no ar aquela ideia recorrente de que temos aqui uma série de sondagens que não valem nada e os jornalistas são uns ignorantes, porque não sabem ler sondagens e veem nas sondagens coisas que não estão lá. E tudo isto é quase uma grande conspiração da comunicação social para influenciar as eleições. Enfim, com certeza que haverá sondagens mais rigorosas, outras menos rigorosas, umas com mais pessoas a serem ouvidas, outras com menos. Seguramente que haverá jornalistas que sabem ler sondagens, haverá jornalistas que se entusiasmam, sem dúvida. Mas os primeiros a colocarem as sondagens no centro das suas estratégias eleitorais são os candidatos. Aquilo que nós temos visto nesta campanha são alguns candidatos a mudarem de tática quase a cada dia, levados pelas sondagens que vão vendo, e isso é responsabilidade deles. Quer dizer, é suposto cada candidato ter uma ideia muito clara daquilo que querem dizer aos eleitores e da maneira como vão conseguir ter o voto deles, em vez de perderem a cabeça de cada vez que ligam uma televisão ou vão à internet ver uma notícia. Por isso, acho que isto acontece porque os próprios candidatos não sabem muito bem como é que vão conseguir passar à segunda volta. Estão a ver as coisas muito equilibradas e passam da euforia ao desespero em poucos minutos, quando há uma décima que muda numa sondagem, mas a responsabilidade é deles. Eles é que são os primeiros responsáveis por manterem uma narrativa coerente, uma mensagem única e consistente, em vez de andarem aqui de um lado para o outro. Pronto, chegam ao fim, quem perder, já se sabe, a culpa é das sondagens e dos jornalistas.

José Manuel, há também o risco das sondagens falsas. Andarmos pelas redes sociais é fácil de encontrá-las.

Aliás, este ponto que o Miguel sublinhou é relevante. Vamos lá ver. Nós estamos com muito menos sondagens do que é habitual. Habitualmente nós teríamos várias empresas a fazer sondagens e publicá-las, pelo menos com a regularidade de uma vez por semana. A única coisa que temos neste momento é uma tracking poll. Uma tracking poll não é exatamente uma sondagem tradicional, é uma sondagem de 600 pessoas, que abrange uma amostra pequena, 600 interrogados, em que há 200 que saem, 200 que entram todos os dias e vão se registando pequenas flutuações. A margem de erro é muito grande. Estamos a falar de quatro pontos percentuais, o que quer dizer que ontem, por exemplo, o título era como de repente Marques Mendes ficou a mais de quatro pontos do primeiro, aquilo já não estava na margem de erro. Eu diria para ter calma, mas seja lá como for, as sondagens vão dando tendências. Esta tracking poll, em concreto, já deu mau resultado no passado. Porque já houve uma altura em que nas eleições em 2022, salvo erro, foi este sistema que criou a ilusão de que Rui Rio podia ultrapassar António Costa, e depois António Costa teve maioria absoluta. Portanto, podem vir muitas surpresas. Agora, dito isto, e que devia obrigar os candidatos a pôr água nos pulsos antes de falarem, não há dúvida que muita da campanha, e principalmente a campanha que vai aparecendo nos órgãos de comunicação, é determinada por estas flutuações. Nós percebemos isso pelas guinadas de discurso que vão sendo feitas. E aqui se quer que diga, aquilo que me deu um sinal mais forte de como isto está a influenciar os partidos foi a reação de Ventura, que também ele começou a falar de Cotrim Figueiredo, que era uma coisa que nunca tinha feito, que eu me recordasse, a não ser nos debates, e sobretudo o facto de eu ontem ter sido confrontado com mensagens que recebi de pessoas qualificadas, pessoas que sabem olhar para as fake news. Sabem ler e que de repente disseram: "Já viste isto, acreditas?" Era uma sondagem completamente diferente das sondagens que estão a ser publicadas, com todo o aspecto de ser uma sondagem publicada num órgão de informação, só que era falsa. Eu andei à procura, procurei, procurei, procurei, procurei, mas eu estou treinado para isso. A maior parte das pessoas não sabe fazê-lo da forma que nós Saber fazer e passado um bocado cheguei à conclusão inevitável que era uma sondagem falsa. Ela foi partilhada na conta do André Ventura, não foi numa conta anónima do Chega, foi na conta do André Ventura e basicamente o objetivo era dizer eu estou em primeiro e o Cotrim está em último, porque como sabem na Tracking Poll o Cotrim passou à frente do Ventura. Não falo nada dessa passagem à frente em termos estatísticos, é uma daquelas ilusões que nós vemos quando os corredores fazem os 200 metros e a gente não percebe bem quem é que vai à frente, enquanto estão na curva. Isto são métodos inaceitáveis, porque apanhar-se isto naqueles apoiantes anónimos é uma coisa, apanhar-se isto no próprio candidato, ele não anda a dizer isto abertamente nos comícios, porque sabia que seria checado, mas as redes sociais dele são muito eficazes e muito grandes e têm muitos seguidores. Quando chegamos a este ponto, já é um ponto, para o meu ver, um ponto de alarme e temos que estar preparados para mais coisas destas. Não sei se mais alguém está a fazer o mesmo. Agora, não há dúvida que vendo também outras redes de pessoas ligadas ao Chega, de repente, viraram-se todos contra o Cotrim, o que é um sinal de que estão a valorizar muito as sondagens.

Alguma subida. Mas isto também a partir do princípio de que este tipo de sondagens podem influenciar a votação final.

Pode. Eu não sei quantas pessoas é que estão a seguir. Nós profissionais que andamos nisto, seguimos isto quase doentiamente. Há muita gente que segue também com muita atenção, muitas pessoas que me passam a vida a perguntar como é que estão as sondagens, mas eu não sei se metade dos eleitores por aí está a seguir isto com o mesmo grau de atenção e o mesmo detalhe, se está a perceber o que é que isto possa ou não significar. As sondagens servem mais para perceber mudanças no vento, digamos assim, no sentimento do eleitorado, sobretudo quando estão muito próximas, e são sondagens feitas em Portugal. Há países onde isto é feito com muito mais certeza e há muito mais sondagens e, portanto, podem-se fazer médias de muitas sondagens muito mais facilmente, é diferente. Mesmo assim, às vezes enganam-se. Agora, esta obsessão é muito aquilo para quem anda ali precisa de estamina, precisa de uma força e não gosta nada de baldes de água fria. Portanto, estas sondagens funcionam ou como um shot de cafeína ou como um balde de água fria nas caravanas. E por isso é que lhes dão tanta importância. Não sei se é a mesma coisa junto dos eleitores. Não sei se há assim tantos eleitores que estejam à espera da última sondagem para decidirem o sentido de voto. Haverá alguns, mas não sei se são eles que vão decidir as eleições.

Com o apelo ao voto útil, pode ser importante perceber aqui quem vai concentrando mais intenções de voto.

Voto útil pode ser mais importante nestas eleições do que noutras.

A tua nota, João Manuel, vai para quem?

Vai para o André Ventura e para aquele post na rede social dele. Portanto, vai um zero. Isto é inqualificável.

Miguel, onde te perguntei a quem vais dar nota perante a tua abordagem.

Dou um oito às excitações, aos entusiasmos e às depressões dos candidatos com as sondagens.

A verdadeira sondagem é aquela do próximo domingo, não é verdade?

Ora, é mais.

O que é certo é que João Cotrim Figueiredo, Bruno, foi alguém que começou com baixas intenções de voto, chegou uma altura que até protestou muito por estar tão bem colocado.

E com alguma razão, porque houve uma sondagem que lhe dava 3%. Eu, honestamente, nunca acreditei nesses valores, não me parecia um valor credível para João Cotrim Figueiredo.

Ou seja, que ele tivesse menos do que a Iniciativa Liberal.

Sim, isso nunca me pareceu credível. Alguma coisa deve ter acontecido para haver uma sondagem com esse resultado, mas eu acho que ele aí teve razão e aproveitou isso também para fazer o que todos fazem, que é vitimizar-se quando as sondagens não lhe são favoráveis. Mas em primeiro lugar, parece-me óbvio que João Cotrim Figueiredo vale mais que a Iniciativa Liberal, vale mais do que os outros líderes da Iniciativa Liberal, aqueles que vieram depois dele, mas também vale mais do que o próprio Cotrim enquanto líder da Iniciativa Liberal. É bom não nos esquecermos que em 2022, João Cotrim Figueiredo, como líder da Iniciativa Liberal, teve 4,22%. Estamos a falar agora de valores totalmente diferentes. E eu acho que há aqui três fatores: o próprio Cotrim, que de facto tem feito uma boa campanha, tem conseguido ir além do eleitorado natural da Iniciativa Liberal e tem conseguido alterar um pouco a imagem que tinha, muito colada àquela ideia do empreendedorismo jovem, que é um candidato Schweppes, um bocado dos anos 80, mas com aquele ar de falar para os jovens, o yuppie dos anos 80. Acho que conseguiu descolar, que era um objetivo da Iniciativa Liberal, mesmo com estes líderes, com o Rui Rocha, que era sair um pouquinho dessa bolha do empreendedorismo e do eleitorado urbano e chegar a um outro eleitorado. Acho que Cotrim Figueiredo está a consegui-lo por mérito próprio. Há outro fator que é o descalabro de Marques Mendes, podemos falar, já vou falar das sondagens, mas é verdade que Marques Mendes entrou aqui numa espiral negativa e há a circunstância das presidenciais, que faz toda a diferença. Aqui o voto útil não funciona como nas legislativas. O eleitor médio de centro-direita não olha da mesma forma para a possibilidade de ter, por exemplo, Seguro No Palácio de Belém, como olhava para a possibilidade de ter Pedro Nuno Santos ou novamente um governo do PS em São Bento. E Luís Montenegro e a AD, com a estratégia que seguiram nas eleições, beneficiaram desse pânico do eleitorado de centro-direita de ter novamente um governo do Partido Socialista depois de tudo aquilo que tinha acontecido e isso fez com que uma parte do voto que poderia ser da Iniciativa Liberal tivesse sido canalizado para a AD. Portanto, aquele eleitor que até poderia votar na Iniciativa Liberal, mas não votou pra dar o voto à AD, aqui não tem esse problema, não se sente pressionado da mesma forma, o que prejudica objetivamente Marques Mendes e beneficia Cotrim, que já tinha beneficiado desta lógica diferente nas europeias, onde atingiu os 9%, mas aqui poderá ainda beneficiar muito mais, porque recordo, João Cotrim de Figueiredo, como líder de Iniciativa Liberal, teve 4,92% nas legislativas de 2022. Não deixa de ser uma surpresa pra mim ver Cotrim tão bem posicionado. Estamos a falar da Tracking Poll. Eu acho que fazem falta outras sondagens, mas é inegável que esta sondagem diária da CNN tem tido influência no comportamento dos candidatos, na percepção que creio, as pessoas têm de como a campanha está a decorrer. Eu nunca acreditei que João Cotrim de Figueiredo estivesse a lutar para ser o primeiro dos últimos, ou seja, estivesse naquele campeonato de António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto, mas também nunca pensei vê-lo tão depressa com possibilidades, de acordo com estas sondagens, de passar à segunda volta. É uma surpresa vê-lo lutar pela segunda volta, porque me pareceu que estava ali no limiar das possibilidades, entre os 12 e 13%, ou seja, poderia entrar entre os quatro primeiros, mas dificilmente poderia aspirar a mais do que isso. Só que, entretanto, acontece o descalabro de Marques Mendes. Eu acho que esse é o fator condutor.

Está havendo um desvio de potenciais eleitores de Marques Mendes para Cotrim.

Tanto quanto me parece, sim. Acho que é claro que a subida de Cotrim de Figueiredo muita dessa subida se explica com a quebra de Marques Mendes, o que pode aumentar à medida que nos aproximamos do ato eleitoral.

Há uns cartazes novos de Cotrim que dizem precisamente isso: "Eu votai AD, mas agora voto Cotrim."

Mas é óbvio que é aí que ele pode ir buscar votos. E não me surpreende nada que uma parte do eleitorado da AD, que olhando pra as sondagens, começa a ver que o candidato do centro-direita da sua área política que tem hipóteses de ir à segunda volta é Cotrim de Figueiredo, acabe por votar em Cotrim de Figueiredo. Podemos discutir o efeito, se esta sondagem é suficientemente válida, alargada para ser um bom barômetro do que se está a passar. A verdade é que está a ter um efeito, e eu acho que à medida que nos aproximamos do ato eleitoral, pode acontecer isso. Uma parte do eleitorado da AD, vendo que o candidato da sua área política alargada, que pode ter hipóteses de passar à segunda volta é Cotrim de Figueiredo, acabar por votar em Cotrim de Figueiredo. Não acho que isso surpreenda. Agora, é inegável que há um efeito desta sondagem da Tracking Poll no comportamento dos candidatos e na percepção que as pessoas têm dos candidatos.

Robo, deixamos só reforçar um ponto. Eu creio que também as pessoas devem estar atentas ao que se passa nos WhatsApps deste mundo, porque aquilo que aí circula e que é muito complicado, diria eu, para Marques Mendes, eu começo a receber de muitos sítios diferentes. Parece que aquele debate com o almirante abriu uma barragem.

Foi um ponto de viragem.

Digamos, abriu uma barragem, abriu uma inundação e de fato, ele não tem conseguido sair debaixo d'água.

Não está a conseguir segurar a boia, não está, claramente.

Vais dar uma nota a Cotrim?

Sim, eu vou dar uma nota positiva a Cotrim de Figueiredo, vou dar um 15, porque acho que tem beneficiado, tem conseguido aproveitar, por vários fatores, mas há uma parte que é mérito próprio da forma como tem conduzido a campanha.

Cotrim é um dos candidatos que tem recordado, citado Sá Carneiro, também Passos Coelho. Estes, Paulo, são dois nomes que andam permanentemente em campanha, sem estarem.

Sobretudo o de Sá Carneiro. Não se falava tanto de Sá Carneiro, nem no tempo de Sá Carneiro se falava tanto de Sá Carneiro, diria eu, quase. Ainda agora, este manifesto de 100 pessoas, 100 figuras do PSD e CDS, que declaram seu apoio a Gouveia e Melo, usam o legado de Sá Carneiro pra dizer que o almirante é o único que consegue, vai por aqui, por ali.

O Ventura ontem foi discursar em frente a uma estátua de Sá Carneiro, em Braga.

Sim, e qualquer estátua, em Viseu também, a estátua que está ali no Largo de Santa Cristina também tem sido peregrinação quase. Ventura já foi lá e Gouveia e Melo também já passou por lá. Este manifesto de 100 pessoas, eu acho que tem em si mesmo.

Levaram flores.

Pois, não sei, não. Tiraram selfies, seguramente. Aliás, Ventura começou lá a sua arruada por Viseu. E eu pergunto-me por quê? Primeiro, é abusivo, de alguma maneira, estar a invocar o nome de uma pessoa que já cá não está há muito tempo e que não pode vir ao aterro, no fundo, corrigir as utilizações que podem ser abusivas do seu pensamento, da sua ideologia, daquilo que queria para o país. Caso diferente é o caso de Passos Coelho, que pode ser invocado, mas se ele se sentir de alguma forma abusado politicamente, obviamente que pode vir sempre corrigir o tiro e no fundo, desautorizar quem comete os abusos. Agora, quanto a Carneiro, tem sido um abuso De alguma maneira, sobretudo Govêra e Mello e sobretudo André Ventura. André Ventura aliás já teve o descaramento de dizer que se fosse vivo Sá Carneiro, e cito: "Sentir-se-ia muito mais próximo de Chega, dos valores de Chega, da forma de fazer política de Chega, do que do próprio PSD." Eu pergunto onde é que ele foi buscar isto? O que lhe permite fazer este tipo de colagem e de utilização? Ventura também sabemos passa a vida a invocar Passos Coelho. Eu acho que isto, sobretudo, é um reflexo de alguma fraqueza que estes candidatos, que estes líderes têm em relação a líderes passados. Sá Carneiro, sobretudo, Passos Coelho, de alguma forma também, porque se eles precisam para reforçar o seu papel, para reforçar as suas propostas, se eles precisam permanentemente de estar a invocar líderes passados, pegando na tal herança política que ninguém lhes encomendou ou que ninguém lhes entregou, neste caso, é porque eles de facto acham que sozinhos não chegam lá, não estão à altura, de alguma maneira. E eu acho que deviam pensar um pouco, além do caráter abusivo, pensar um pouco nesse efeito, na sua, se quiserem, fraqueza ou insuficiência para sentirem essa necessidade. Acho que é um dos traços mais negativos desta campanha, sobretudo pela intensidade e frequência com que isto está a acontecer, e mostra muito bem também que o desespero quando se chega a este ponto, com sondagens que apontam para empates. Este contexto acaba por apelar um pouco a uma cabeça fria e a estratégias de campanha e táticas de campanha, que nem sempre depois são correspondidas no terreno. Vamos ver no que isto vai dar até sexta, não é?

Sim, aliás, nem o artigo de Cavaco Silva, que tentou de alguma forma, creio, estancar a ideia.

Por ordem.

Por ordem e estancar a ideia de ir evocando Sá Carneiro, de alguma forma travou os candidatos. O assunto é sempre a busca de referências e a referência é alguém que nem sequer foi presidente da República. Também há aqui alguma ironia.

E eu pergunto-me quantos eleitores neste momento é que têm uma ideia firme daquilo que foi Sá Carneiro em termos políticos. Haverá alguns, certamente, provavelmente acima dos 50, 60 anos, e mesmo assim nem todos gostarão daquilo que foi Sá Carneiro, porque na altura Sá Carneiro também estava na luta política, havia os seus seguidores e os seus detratores. Mas será que é uma referência hoje em dia que faça ganhar votos Sá Carneiro?

Faria mais se Passos Coelho entrasse em campanha.

Claro, isso sim, porque é uma memória muito mais recente.

Mas tem essa particularidade, é que por razões distintas estão ambos em silêncio. Sá Carneiro já morreu há muitos anos e Passos Coelho está calado, porque se olharmos para as outras referências do PSD que ocuparam, foram primeiros-ministros. Durão Barroso, praticamente ninguém invoca o seu legado, quer dizer, está fora das contas, e Cavaco Silva está vivo e a falar, e por isso é difícil alguém invocar ou reclamar-se de herdeiro de Cavaco Silva, porque o próprio apoia Marques Mendes. Então sobra quem? Sá Carneiro, que é aquela figura já mítica, e Passos Coelho, que está em silêncio.

E Pedro Santana Lopes.

Ainda há Pedro Santana Lopes, mas lá está.

Também invoca muito Sá Carneiro.

Também invoca muito Sá Carneiro e também foi primeiro-ministro, mas também não é um legado que ninguém queira reclamar.

Mas até aqui João Cotrim já colocou uma leitura para o facto de Passos Coelho estar calado. Se continuar calado é porque não apoia Marques Mendes. Isto podemos concluir.

Eu acho que é uma leitura válida.

Legítima.

Eu acho que é uma leitura legítima, que se não declarar o apoio a nenhum candidato, pelo menos não está a apoiar Marques Mendes. Claro, é uma interpretação que convém a Cotrim Figueiredo, mas não acho que seja descabida. Acho que é a interpretação mais natural do silêncio, não sabendo quem é que ele apoia, sabe-se que estando em silêncio, não apoia Marques Mendes.

Eu acho que é tentador fazer essa leitura. Eu acho que é abusivo, no fundo, obrigar quase alguém a fazer uma declaração política sob pena de nós interpretarmos aquilo que o silêncio dela quer dizer. Passos Coelho poderia sempre dizer: "Então, mas há alguma dúvida de que eu apoiaria Marques Mendes, o candidato natural?"

Então por que ele não o diz?

Porque não é preciso, de alguma maneira. Não sei, estou aqui a fazer uma pergunta.

Sim, claro.

É um silêncio esquisito.

Ruidoso.

Vamos ver. Uma pessoa que foi, e isto não é propriamente a política e as responsabilidades políticas não são propriamente, parece-me a mim, como aquela história do Herman José do interruptor, que se acende, que se liga ou desliga. Quer dizer, há responsabilidades que ficam um bocadinho para sempre, a não ser que um responsável político, um antigo responsável político se transforme num ermita. É assim, quem entra na política sabe que é para sempre. E alguém que foi líder do PSD e que foi primeiro-ministro, não pode surpreender-se pelo facto de as pessoas quererem saber qual é a posição dele numa eleição tão importante como esta. Quer dizer, o esquisito é não ter posição. Passos Coelho não foi propriamente viver para o Pico, para uma casa remota no Pico dedicar-se à pesca.

E até tem falado bastante. Para quem se diz completamente afastado, até tem intervindo regularmente.

Interveio nas legislativas, não é?

Sim. Paulo, só falta a tua nota, portanto.

Olha, eu dou um quatro a este recurso abusivo a figuras do passado, sobretudo às figuras que já cá não estão para fazerem justiça ao seu próprio nome.

E o vencedor é: Estado de Regresso mais logo na Tarde Política. Numa versão alargada, começa a seguir ao Jornal das seis. Esta segunda-feira dou notas eu, o António Costa, e o Gonçalo Duarte Safada. Assim que acabar, há ideias feitas para ouvir.