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Está na hora do "E o Vencedor É" na Rádio Observador. Já sabe que todos os dias pontuamos os protagonistas da atualidade de zero a 20. Hoje, para escolher os vencedores, temos Eunice Lourenço, editora de política do jornal Expresso, e também Mafalda Pratas Fernandes, colunista do Observador. Como sempre, a moderação é do jornalista André Maia.
Bom dia, Eunice Lourenço. Bom dia, Mafalda Pratas Fernandes. Como estão? Mais um sábado aqui na Rádio Observador, mais um "E o Vencedor É". Vamos dar notas e vamos falar, principalmente, da campanha eleitoral, sendo que hoje estamos no sétimo dia de campanha. Muita coisa ainda vai acontecer, sendo que hoje temos António Costa e Rui Moreira como convidados de honra de PS e Aliança Democrática. Eunice Lourenço, começo por ti. Muito bom dia, bem-vinda. Vamos falar precisamente sobre a campanha e fazer aqui um balanço destes sete dias. Ao sétimo dia, quem é que está mais perto de conseguir o voto da maioria dos portugueses, na tua opinião? Quem é que se está a sair melhor?
Bom dia, eu acho que ninguém se está a sair especialmente bem.
Ora bem, já estragaste a pergunta.
Por isso é que temos tantos indecisos. E uma coisa que eu acho extraordinária, como mostrou a sondagem do Expresso e da Sic publicada na quinta-feira, além dos indecisos, que são muitos, são muito mais do que eram no mesmo período de campanha em 2022, e em 2022 já tinham sido muitos. Em 2022 eram 11% no início ou no fim da primeira semana da campanha, ou no início da segunda, e agora são 18%. Além disso, temos entre aqueles que tencionam votar, 22% admitem ainda mudar o sentido de voto. Portanto, eu acho que estamos no meio de campanha ainda muito volátil, em que qualquer erro, qualquer bom desempenho, podem mudar resultados e percepções, ainda por cima num cenário em que os dois principais partidos estão na margem de erro.
Como dizia o João Pinto: " prognósticos só no final do jogo", desta vez.
É mesmo. E depois há outra coisa que nós não conseguimos sequer avaliar, que é o efeito das próprias sondagens na mobilização de eleitorado, que foi o que aconteceu em 2022, quando tínhamos sondagens muito taco a taco, e isso levou a uma grande mobilização do eleitorado a votar no PS. Portanto, prognósticos só no fim do jogo, sim. Ainda assim, acho que a campanha tem corrido muito sobre o passado, demasiado sobre o passado, demasiado com figuras e discussões sobre o passado, seja o passado do PSD via Passos Coelho, seja o passado do PS via António Costa, e hoje António Costa chega à campanha e continuaremos a falar de passado, provavelmente, seja na campanha do PS, seja nas outras campanhas, a criticar o passado socialista.
Achas que o vencedor até agora ou o mais marcante desta campanha é mesmo o passado e não tanto o futuro?
É o passado e é pena que seja, porque há tantos desafios de futuro, há um mundo tão desafiante e com tantas incógnitas à nossa frente, que era bom, como foi ontem Francisco Pinto Balsemão dizer à Universidade de Coimbra, que era bom que os políticos também colocassem o foco nisso. E estão só a pôr o foco ou no passado ou em casos e casinhos. E a campanha do PSD, por exemplo, tem tido muitos casos e casinhos, dependendo do valor que atribuímos ao negacionismo climático ou às posições sobre aborto e sobre a imigração.
Ora, e portanto, que nota é que vais dar?
É sobre o vencedor, não é?
É isso, é o passado. Diz-me lá.
O meu vencedor tem de ser uma declaração de confiança nos eleitores e dar-lhes um 13, acreditando que os indecisos, em parte, são indecisos porque querem votar o melhor possível e que vão fazer todo o esforço nesta segunda semana de campanha para terem um voto esclarecido.
Ora, e portanto, Mafalda Pratas Fernandes, queres falar precisamente sobre estes desafios? E aqui, como dizia a Eunice Lourenço, houve muitos casos e casinhos até agora nesta semana de campanha do PSD, desde a questão da lei do aborto, desde agora das alterações climáticas, o destaque que a AD dá ou não, ou o negacionismo que a AD pode ter ou não quanto a este tema. Como é que achas que o Luís Montenegro se sai no final desta semana? Queres falar sobre a prestação do líder da AD? Conseguiu fugir a estes casos e casinhos?
Bem, fugir, não conseguiu fugir, mas acho que teve uma reação a todos os casos que foi positiva. Acho que é, sem dúvida, entre Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos, foi o político que esteve melhor na primeira semana. E note-se que, apesar de ter sido o político
Que teve mais problemas dentro da sua casa e que lhe poderia ter corrido muito mal a primeira semana e, de certa maneira, ainda vamos ver qual será o impacto eleitoral de todos estes casos e casinhos. Antes de mais eu gostava só de dizer que estou de acordo com a Eunice na questão do passado. Eu acho que se discute demasiado a questão do governo entre 2011 e 2015. Não tem sentido, dado que não é Passos Coelho que está a concorrer e nem sequer é o programa económico de Passos Coelho, nem mesmo a sua visão social que está a concorrer a primeiro-ministro. E quanto a António Costa e à geringonça, eu acho que se deve discutir os últimos dois, três anos. É esse o panorama que está a ir a votos. É isso que os eleitores devem julgar e também as propostas que cada um, Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro, estão a propor para os próximos anos e para uma legislatura. Eu acho que estar a ir principalmente ao período entre 2011 e 2015 e estar sempre com a questão da intervenção externa é uma técnica muito demagógica, porque é evidente que qualquer pessoa, e eu estudo estes temas profissionalmente, e posso dizer que nenhum governo numa democracia avançada toma o tipo de medidas que o governo de Passos Coelho tomou entre 2011 e 2015 se não tivesse sob intervenção externa. Estar a imputar ao PSD de 2024 as mesmas preferências ou as mesmas políticas que implementou por quase necessidade em 2011, 2012 e 2013 é muito demagógico, mas é também aquilo que Bloco e PCP estão a tentar utilizar para terem um resultado melhor do que aquele que as sondagens lhes dão, que é muito baixo. Por que a minha nota positiva vai para Luís Montenegro? Porque no meio de tudo isto, creio que tem sido o político mais sensato e mais moderado e que percebeu que os eleitores estão interessados em discutir, por um lado, o futuro e, por outro lado, em discutir soluções ponderadas e moderadas e ao centro. Ao contrário dos seus colegas de partido, nomeadamente Pedro Passos Coelho, com a questão da imigração e com um discurso que foi, a meu ver, bastante fraco, não só nessa questão da imigração, mas em tudo em geral. Basta comparar, por exemplo, com o discurso que ontem à noite João Barroso fez, que foi de uma qualidade muito melhor do que o discurso de Pedro Passos Coelho. E, por outro lado, claro, as declarações de Paulo Núncio quanto ao aborto e as declarações do candidato por Santarém quanto às alterações climáticas, embora também tenho que dizer que estas declarações do candidato não foram propriamente de negacionismo. Mas há de fato muitos trade-offs que têm que ser analisados entre a questão económica e a questão ambiental e que todos os países têm que lidar com isso. Agora, é evidente que foram mal formuladas e eu não sei quais são as opiniões deste candidato em particular. Luís Montenegro, ao contrário de todas estas pessoas, percebeu que as eleições portuguesas se ganham ao centro, apesar de tudo aquilo que muitos comentadores gostam de dizer, que o país está muito polarizado e pode estar um pouco, mas ainda assim, a maioria dos eleitores portugueses são eleitores que estão ao centro e as eleições ganham-se ao centro. E basta olhar para a sondagem que precisamente o CS, o CT e a Expresso lançaram ontem para ver um dado que eu considero que é o dado mais importante da sondagem e que não tem sido falado, que é o seguinte: na sondagem que a mesma equipa realizou em janeiro, há pouco mais de um mês, a diferença entre PS e PSD entre os eleitores com mais de 65 anos, entre os reformados e idosos, era de 40 para 20. O PS tinha 40% das intenções diretas de voto e a AD tinha 20. Na sondagem lançada ontem, um mês depois, em fevereiro, Montenegro tinha conseguido eliminar toda a diferença que existia. Está 28, 29, estão empatados no eleitorado com mais de 65 anos. Isto é completamente um game changer e é em parte mérito de Montenegro de se ter conseguido moderar, de ter garantido que não ia cortar as reformas, de dizer: "Eu quero fazer uma campanha mais ao centro". E de fato, ele está a fazer uma campanha ótima. O problema são estas pessoas todas que lhe parecem estar a querer morder os pés.
Mafalda, pode me ter escapado, tu disseste que davas uma nota positiva, qual é a nota?
Exatamente. Eu vou dar um 14 a Luís Montenegro, não vou dar mais pelo seguinte, porque também é responsabilidade dele ter uma direção de campanha competente, que saiba gerir que pessoas aparecem, o que as pessoas dizem e claro, que pessoas escolhe para ter ao seu lado. Mas eu acho que ele próprio tem tido uma campanha muito eficaz e mais eficaz que Pedro Nuno Santos.
Eunice Lourenço, vamos agora falar sobre a PGR, a Procuradora-Geral da República. Lucília Gago diz que não quer um novo mandato como procuradora. Fala aqui nesta situação, diz que está fora de questão, recusa continuar no cargo. É uma surpresa para ti, depois de tantas polémicas também recentes e com muitos pedidos de uma intervenção mais transparente de Lucília Gago, esperavas agora esta retirada para breve?
Esperava, porque a questão com Lucília Gago é que ela assume que não vai continuar no cargo quando ninguém, ou pelo menos aquilo que era previsível, era que de fato não continue, porque a manter-se a doutrina que o Presidente da República usou para não reconduzir Joana Marques Vidal, que é a doutrina segundo a qual o presidente entende que pela Constituição, o mandato do Procurador-Geral da República é um mandato único e portanto nem sequer se coloca a recondução, é só chegar a outubro para que Lucília Gago termine o seu mandato. E independentemente das avaliações que cada um faça do desempenho da atual Procuradora-Geral da República, ela deixar o cargo era só uma questão de tempo acabar o mandato. Não se coloca sequer a hipótese de ela continuar, mas não querer continuar. Para ela continuar, era preciso que o presidente mudasse o seu entendimento constitucional e que governo e presidente alinhassem na escolha de Lucília Gago. Como nada disso parecia ir acontecer, nem era provável que acontecesse, eu acho positivo que Lucília Gago tenha já assumido que está de saída, evitando assim polêmicas à beira do fim do mandato sobre a influência política na sua saída. Será uma saída normal e natural, e acho positivo que ela o tenha assumido já.
Podemos pôr uma nota alta, não é?
Não muito alta.
Positiva, pelo menos.
Porque podia tê-lo assumido de forma mais digna. E não entre portas, com microfones atrás. Portanto, dou-lhe um 12 por ter assumido aquilo que iria acontecer de forma natural.
Mafalda Pratas Fernandes, vamos agora voltar à campanha eleitoral e queres falar aqui muito rapidamente para ainda irmos a mais dois temas. Sobre a relação entre o Bloco de Esquerda e o Livre, uma relação que esfriou, tendo em conta as declarações de Rui Tavares durante esta semana, que abriu aqui portas, não vamos dizer a uma parceria, mas abriu portas a diálogos com a direita, que diz ser a direita democrática. Mariana Mortágua deixou críticas a Rui Tavares por este aperto de mão à direita, diz que o importante é a concentração total para derrotar esse lado. Achas que esta relação fica aqui quebrada entre Bloco de Esquerda e o Livre?
Sim, a relação nunca foi muito positiva, mas eu quis referir esta relação como também forma de mostrar o contraste existente entre a posição do Bloco de Esquerda e a posição do Livre. Ora bem, o Livre, ao contrário do que se disse inicialmente e do que muita gente, precisamente dentro do Bloco de Esquerda tentou imputar, não disse que faria uma coligação com a AD, nem que faria um acordo parlamentar com a AD. O que disse foi que estaria disposto para dialogar em determinadas matérias com um governo de direita democrático, sendo parte da oposição. E isto, evidentemente, é a posição natural de se ter. É a posição menos demagógica e mais sensata de se ter. A posição do Bloco de nós vamos simplesmente ser totalmente contra tudo o que o outro lado apresentar, é uma solução que não resolve nada. E é uma solução que polariza em vez de aproximar e de tentar resolver os assuntos. Por que eu também trouxe aqui a relação entre os dois partidos? Porque eu acho que isto fica bem espelhado, que a reação que vários, não foi só Mariana Mortágua, mas também várias pessoas, vários outros candidatos do Bloco, vários comentadores mais afetos ao lado do Bloco de Esquerda, ficaram muito afetados com as declarações de Rui Tavares e não perderam tempo em insultar e até em retratar de forma errônea as declarações que ele disse. E isto parece-me que é porque perceberam, em muitas sondagens, que estão muito perto, nalgumas estão mais, noutras estão menos, do Livre e que, talvez não nesta eleição, mas mais a médio e longo prazo, se a tendência continuar, que poderão vir a ser ultrapassados pelo Livre. E eu acho que também se nota aqui uma grande diferença entre aquilo que é uma esquerda, que é a esquerda do Bloco de Esquerda, que é uma esquerda marxista, de certa maneira, velha guarda, e uma esquerda que pretende ser uma nova esquerda e muito inspirada, por exemplo, nos Verdes alemães, que são um partido de esquerda, naturalmente, mas são um partido sensato e moderado, que entra facilmente em coligações, e já entrou várias vezes em coligações, quer à esquerda, quer à direita na Alemanha. E eu acho que esse modelo, que é um modelo de diálogo para resolução dos problemas e que é um modelo mais europeísta, mais moderado, é o modelo que o Livre pretenderá ter e que deixa muito medo ao Bloco de Esquerda e que os deixa muito irritados. E vai uma nota muito negativa para o Bloco de Esquerda pela campanha de desinformação e pelos ataques e pelo desejo de polarização que alimenta os extremos dos dois lados, mas que é precisamente isso que parece que pretendem fazer, afinal de contas, ao contrário do Livre, que pretende ser uma voz mais de despolarização. E vou dar uma nota muito negativa ao Bloco de Esquerda, vou dar um seis.
Um seis. Uma nota negativa, não tem aqui possibilidade de melhoria. Vamos ver se possibilidade de melhoria tem a situação política na Madeira. Eunice Lourenço, ficamos contigo com este tema. Como é que está, afinal, a temperatura, como é que está a meteorologia na Madeira? Normalmente, a temperatura é amena, a situação política está fria ou está quentinha?
A temperatura costuma ser amena. A situação política está quentinha, uma vez que vai haver disputa eleitoral no PSD Madeira. Manuel António Correia acabou por entregar a candidatura à liderança do PSD Madeira, apesar dos prazos muito apertados com que Miguel Albuquerque tentou condicionar a sua própria sucessão, à qual ele se recandidata. Acho que Miguel Albuquerque tem vindo a prestar péssimos serviços à democracia com toda a sua atitude ao longo deste processo. Esta semana entregou a sua recandidatura ao PSD Madeira e acha que não está, de forma nenhuma, condicionado pela investigação em curso ao seu governo regional e a si próprio e vai não só ser recandidato à sua sucessão, como também disse que não tenciona, de forma alguma, renunciar ao lugar de presidente da mesa do Congresso do PSD e arrisca-se a ser mais um dos embaraços de Luís Montenegro, que já disse que faria diferente de Albuquerque, mas por outro lado, também não lhe retira confiança política. O PSD Madeira vai a votos já dia 21 de março. Será muito interessante perceber o equilíbrio ou desequilíbrio de forças. E com tudo isto, dou um 14 a Manuel António Correia por se candidatar, ele que perdeu para Miguel Albuquerque na sucessão do jardinismo, mas agora ter aqui um regresso à política, apesar da situação ser claramente adversa.
E terminamos então com uma nota alta, um 14. Obrigado Mafalda Pratas Fernandes, Eunice Lourenço. O Vencedor É está de regresso amanhã, à mesma hora, depois da síntese das 10h30. Obrigado às duas, até amanhã.
Obrigada.
Obrigada.