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Investorena, Rádio Observador, hoje com Helena Garrido, Anselmo Crespo e Alexandre Borges. Estamos como gostamos, com uma campanha eleitoral em marcha, uma espécie de feira popular para a bolha dos jornalistas e comentadores. Alexandre Borges, já consegues identificar qual é o candidato mais sacarnista? Difícil distinguir. Cavaco Silva. Que é candidato também. É verdade, realmente é difícil. Os últimos dias trouxeram-nos isso. Aqui há uns anos era só Pedro Santana Lopes que estava sempre a reclamar. Do PPD/PSD. PPD/PSD, exatamente. E sempre a reclamar ser herdeiro de Sá Carneiro. De repente, não sei, quanto mais o tempo passa, mais sacarneiristas as pessoas se sentem. E tens André Ventura, que já há algum tempo defende que é a reencarnação de Sá Carneiro. Só para efeitos dramáticos, ainda não disse isso. Convem esclarecer. Mas muito lá perto. Mas vale a pena recordar que isto vem da mesma pessoa que quer acabar com os 50 anos de bandalheira e de corrupção. Há o ligeiro problema de Sá Carneiro ter sido primeiro-ministro alguns durante esses 50 anos. Mas são aquelas incongruências que André Ventura não se dá demasiado ao trabalho em resolver. Agora, nos últimos dias tivemos Cotrim de Figueiredo e talvez mais surpreendente, o almirante Covai Melo, ontem a discursar em Viseu, junto a uma estátua de Sá Carneiro, e a citá-lo como referência no seu equilíbrio entre a visão do papel da economia e do Estado enquanto garante social. É curioso que nenhum deles, de facto, concorre pelo partido fundado, já nem vou dizer dirigido, mas fundado por Sá Carneiro, que de facto seria Marques Mendes. Com duas ligeiríssimas contradições aparentes nestes dois herdeiros mais recentes, que é: Cotrim de Figueiredo diz que tem o espírito, só quem o ouve, tem o espírito reformista de Sá Carneiro. Eu não sei se já avisaram Cotrim de Figueiredo quais são as atribuições de um presidente da República. É porque se não é fácil um primeiro-ministro fazer reformas em Portugal, eu tenho ideia que constitucionalmente é capaz de não ser mesmo possível. Não sei exatamente o que é que um presidente pode fazer de reformas. Pode vetar tudo o que seja antirreformista e só deixar passar as coisas que mudarem alguma coisa, independentemente do sentido? Não sei, não lhe fica essa atribuição. Além de que também não vejo.
Desculpa, é que nem o Palácio de Belém pode reformar. Ao contrário de Donald Trump, em Portugal, o presidente da República, nem o Palácio de Belém pode reformar sem a Assembleia da República lhe dar dinheiro. Quem lhe dá o orçamento é a Assembleia.
É o exemplo perfeito. Mas dá para fazer umas festas no jardim. Isso ainda dá. Conta como reforma, isso? Não. Festas para idosos, aposentados? A vida também se faz de rega bofe. Já tens título para hoje. Está resolvido. O almirante também é muito giro. O almirante Covai Melo, vamos ver. Primeiro, reclama-se como uma pessoa perfeitamente acima dos partidos, mas já sabemos que os partidos são essa coisa infeta ao contacto com a pele. Depois tem como os seus apoiantes Rui Rio, Isaltino, o major Valentim Loureiro, pessoas profundamente ligadas à política partidária de que o almirante se queixa. Depois tem outra coisa, ele é contra os partidos, mas reclama-se, afinal, identifica-se com os fundadores dos partidos todos. Ele gosta imenso de Mário Soares, ele gosta imenso de Ramalho Eanes e ele agora também gosta imenso de Sá Carneiro e vê neles as referências para tudo. Com este pormenor adicional: eu não sei se pessoas mais jovens terão desculpa, eu penso que não é o caso do almirante, para não saber que ele não só está a falar de pessoas diferentes, como está a falar de terríveis adversários políticos. O Soares e Eanes. Eanes, que depois queria tomar o PS a Soares e que por não conseguir, vai fundar um partido ao lado chamado PRD. E Sá Carneiro, penso que vamos passar por isto também, vamos passar por esta coisa chocante de agora, aparentemente o primeiro-ministro não poder apoiar um candidato a presidente. Luís Marques Mendes recordou que Sá Carneiro, que até morreu a participar numa campanha presidencial, imagine-se, contra Ramalho Eanes. Helena, queria ouvir também sobre esta proliferação de invocação de Sá Carneiro, cada um com o seu.
Causa alguma perplexidade se nós tentarmos gerar alguma racionalidade nisto.
Até porque há uma fatia do eleitorado considerável, diria, que não se lembra de Sá Carneiro.
Adivinhaste. Exatamente isso. Qual é o racional? É que não se consegue sequer entender quantos eleitores é que se vai buscar com estas invocações a Francisco Sá Carneiro. Estão a perder o eleitorado mais idoso, que é aquele que se lembra melhor de Francisco Sá Carneiro. Aparentemente, é o Partido Socialista que concentra a maior fatia de eleitorado mais velho. Não se percebe a racionalidade de andarem aqui todos à briga por causa de Francisco Sá Carneiro e de até o ex-primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva vir escrever um artigo sobre este tema. Isto vai mobilizar que eleitorado? A falta de racionalidade está a bater todos os recordes. Nós temos aqui vários paradoxos nesta eleição presidencial e agora começamos a ter também vários sinais de irracionalidade Outro tema recorrente é usar a troika como ferramenta de combate político. Hoje ou ontem foi usada por Gouveia e Melo. Já passaram 15 anos.
E Catarina Martins também para atacar António José Seguro.
Sim, ela com muita frequência. E o Gouveia e Melo a dizer que ele foi mais longe que a troika. Ele, António José Seguro. Sempre a tentarem atacar António José Seguro com a troika e por causa das posições que ele tomou de viabilização ou, pelo menos, de não chumbo do orçamento. A minha questão é: ele não podia chumbar, mas pelo menos abster-se.
Abstenção violenta.
Abstenção violenta, exato. Para pacificar o país. Não se consegue entender como é que passado 15 anos, há pessoas que nasceram naquela altura, que hoje têm 15 anos, e pessoas com 15 anos que hoje têm 30. Eu não percebo como é que isto mobiliza eleitorado, apresentar o medo como ferramenta de mobilização e de atração de eleitorado. Alguém acredita que se vão tomar medidas como aquelas que foram tomadas na altura da intervenção financeira só porque sim?
E mais uma vez, Helena, desculpa dizer, é o presidente que vai tomar essas medidas, ainda por cima.
Ou pelo menos inviabilizá-las.
Exato. E cabe na cabeça de alguém culpar António José Seguro pelos eventuais males da troika. É tão distante isto que eu, de facto, não consigo perceber o raciocínio.
Ou é falta de tema, eu já achava toda esta quantidade de candidatos um paradoxo incrível. Não consegui perceber. Eles dizem: os candidatos de direita, aparentemente, estão a trabalhar para a esquerda e os candidatos da esquerda, parece que estão a trabalhar para a direita. Já isso era um paradoxo desta campanha. E agora temos um conjunto de irracionalidades, como também ficarem todos ofendidos, porque o primeiro-ministro vai a terreiro à campanha, quando tem o seu candidato a perder nas intenções de voto das sondagens, vamos admitir que elas estão corretas. É, de facto, um início de campanha um bocadinho irracional.
Hoje vamos ter novos números e vamos tentar perceber se há aqui uma tendência ou não. De resto, o radar das sondagens que nós temos no Observador mudou da noite para o dia com o tracking poll da CNN. São Crespo, que leitura fazes deste arranque de campanha? Vamos agora no terceiro dia oficial.
Eu vou tentar dar uma teoria que é só minha, para esta tentativa de toda a gente apadrinhar ou querer que Sá Carneiro os apadrinhe. Concordando com tudo o que já foi dito, a sensação que eu tenho, sobretudo no caso de André Ventura e agora Henrique Gouveia e Melo, é que, por qualquer razão, eles acham que Sá Carneiro representa a pureza do PSD. O que é mais puro no PSD? O que é o PSD puro? É Sá Carneiro. Tudo o resto a seguir foi contaminado por um vírus qualquer. Uns ficaram mais populistas, os outros ficaram mais liberais, os outros ficaram mais qualquer coisa. E, portanto, Sá Carneiro é a pureza. E por qualquer razão, que eu de facto acho que não encontra nenhum racional nos números e no eleitorado. Por qualquer razão, eles acham que se apelarem a essa pureza da social-democracia, esquecendo-se que o PSD nem sequer se chama Partido Social-Democrata, mas verdadeiramente não é social-democrata. Mas enfim, não vamos entrar nessa discussão. Mas por qualquer motivo, eles acham que estão a banhar-se com água benta da social-democracia. Esta é a minha teoria. E eu, na verdade, acho que isto comprova um bocadinho a ideia do que se está a passar neste arranque de campanha. E eu acho que estão a passar-se duas coisas. Por um lado, há um tiro ao Marques Mendes. Neste momento, Marques Mendes tem um pelotão de fuzilamento à frente dele e toda a gente está a disparar sobre Marques Mendes. Não é neste momento, ao data de hoje, nas últimas semanas.
Foi desde o debate com o Gouveia e Melo.
Desde o debate com o Gouveia e Melo, até um bocadinho antes, quando começaram a sair as notícias e quando Cotrim começou a atirar a Marques Mendes.
Acho que basicamente é desde o momento em que Marques Mendes liderava as sondagens, que se tornou o alvo.
E por quê? É muito simples, porque para passar à segunda volta é preciso tirar Marques Mendes da frente. Está aqui um senhor à minha frente, é preciso movê-lo para o lado, que é para eu conseguir passar.
Mas aparentemente está a resultar.
E está a resultar. E a segunda razão pela qual eu acho que está a resultar é porque o PSD, do ponto de vista do eleitorado, é uma espécie de Black Friday neste momento. Toda a gente lá vai buscar eleitorado. E por quê? Porque Marques Mendes não está a conseguir, nem agora, nem há um mês, nem há dois meses, segurar o eleitorado da AD. E a AD é mais do que o PSD, apesar do CDS não representar grande coisa hoje em dia, a AD é mais do que o PSD. E Marques Mendes claramente não está a ser eficaz para segurar esse eleitorado que pouco ou muito votou na AD e deu uma vitória a Luís Montenegro nas últimas legislativas. Isso faz com que este eleitorado esteja em saltos. E, portanto, neste momento, Cotrim Figueiredo, pela sondagem da Pitagórica de ontem, tem 25% do eleitorado da AD
E se olharem para quanto é que tem Marques Mendes, tem 29. Portanto, isto no limite, daqui a pouco há candidatos que não são apoiados pela AD, que têm mais eleitores da AD do que o próprio candidato que é apoiado pela AD. Isto se Marques Mendes não der corda aos sapatos e não se fizer ao caminho.
Se nós levarmos em consideração-
Foi um ótimo timing este. Podia me ter calado em qualquer momento, menos agora. Mas agora não. O melhor timing da história.
O moderador acaba de se engasgar. Ninguém me respeita. Helena e António.
Se nós olharmos para o radar das sondagens do Observador e compararmos com aquilo que foram os resultados eleitorais de 2025, apenas cinco em 10 eleitores da AD têm intenção de votar em Marques Mendes. E se olharmos para a tracking poll da CNN, tu tens um valor ainda mais baixo. Só três em 10.
Três em 10.
Portanto, há aqui qualquer coisa que aconteceu a Marques Mendes.
Para começar, aconteceu Marques Mendes. Isso é um princípio, como no PS aconteceu o António José Seguro.
Exatamente. Mas António José Seguro está a conseguir o caminho inverso, porque se tu fizeres o mesmo exercício com o Seguro, Seguro está quase a fazer o mesmo ao PSD.
Vamos já voltar a esse ponto, vamos retomar precisamente nesse ponto, se será Seguro quem está agora a capitalizar esses votos e esse descontentamento na segunda parte do E o Vencedor É?. Vamos regressar já a seguir. Segunda parte de E o Vencedor É?, na Rádio Observador, com Helena Garrido, Anselmo Crespo e o Alexandre Borges. Já falámos de Sá Carneiro, mas Alexandre, temos de falar de outra pessoa que tem sido muito citada, Pedro Passos Coelho, que se mantém em silêncio, não sente a obrigação de dizer em quem vai votar, no entanto, tem sido um nome amplamente citado.
Exato. Sá Carneiro tem a vantagem de estar morto. E Passos Coelho é uma pessoa que fala pouco. Aqui está qualquer coisa.
Não sei se o próprio concorda.
É uma vantagem, deste ponto de vista.
Pensei que ias dizer: Passos Coelho tem a vantagem de se fazer de morto.
Sim, é muito melhor. Obrigado. É isto. Nunca vamos ter este problema com o Marcelo. Nunca ninguém vai criar um mistério a dizer-
Ou com o Cavaco.
Exato. Por exemplo.
Nesta fase.
Lá está, é isso, é verdade. Passos Coelho fala pouco, agora também toda a gente quer criar um mistério com este assunto ou quem é que tem o apoio, mas Passos Coelho ainda é capaz de aparecer. O Anselmo tinha há pouco a sua teoria pessoal sobre a questão Sá Carneiro. Eu tenho uma teoria pessoal acerca do caso Passos, mas de facto, só me vincula a mim. Eu acho que Passos Coelho deixou o seu apoio mais ou menos implícito quando não recusou o apoio, quando convidado a comentar o apoio de André Ventura ou a declaração de Ventura de que o seu candidato era Passos, como não o conseguiu, que avançava. Passos Coelho ao dizer porque é que havia de recusar esse apoio, não recusa uma palavra simpática, não era isto, mas de quem o quisesse apoiar, eu acho que deixou as coisas e em todo o discurso que foi mantendo ao longo do tempo, de fim das linhas vermelhas, de que achava que o PSD devia agir de outra forma, etc. Acho que pelo menos em termos de qual é a convicção do que é que deveria ser o futuro da direita em Portugal, esse quadro está traçado. A partir daí, que se tirem as ilações que se quiserem. Para mim, com alguma surpresa, não o vejo a ser apoiante de Cotrim, porque de facto, durante muito tempo, Passos representava a esperança dos liberais em Portugal, digamos assim. Aliás, a IL nasce quando acaba o passismo, por causa disto. Portanto, o apoio que Passos Coelho tem dado a uma aproximação entre PSD e Chega é surpreendente desse ponto de vista, porque o Chega será tudo menos liberal. É um partido muito estatizante.
Eu acho extraordinário duas coisas. Primeiro, que Passos, ninguém o obriga, obviamente, a declarar apoio a seja quem for. Mas eu não sei até se esta declaração de Cotrim Figueiredo e esta proliferação de pessoas a citar Passos Coelho não terá que levar Passos Coelho a vir dizer qualquer coisinha, não digo a apoiar Marques Mendes ou dizer que apoia alguém, mas pelo menos a fazer um statement qualquer sobre isto, porque de repente toda a gente falou com Passos Coelho, porque toda a gente está a tentar capitalizar os apoiantes, que eu até acho que são muito mais do que os de Sá Carneiro, o eleitorado que ainda é saudoso de Passos Coelho, e eu acho que esse eleitorado existe. E portanto, Ventura não está a fazer isso só porque é presidenciais, ele faz isso em todas as campanhas, como ele também concorre a todas, faz isto em todas. E agora Cotrim Figueiredo decidiu jogar com as mesmas armas. Enfim, eu não estou a dizer que ele falou ou deixou de falar. O que eu estou a dizer é que há aqui uma tentativa de aproveitamento político. Por um lado, do ponto de vista de estratégia de campanha, eu tenho que dizer uma coisa que é feia de se dizer, mas é verdade, que é muito profissional por parte da campanha de Cotrim Figueiredo fazer isto, tal como é muito profissional por parte de André Ventura. Mas Passos Coelho, por muito que não goste de Marques Mendes, presumo que ainda seja do PSD e presumo que ainda goste do PSD. E portanto, o que estes dois candidatos estão a fazer não é apenas mal a Marques Mendes. Eles estão, na verdade, a fazer mal também ao partido, e estão a citar Passos Coelho para tentar daí tirar dividendos políticos. A não ser que Passos Coelho queira isso mesmo. E se é isso que Passos Coelho quer, então mais vale manter-se em silêncio.
Helena.
Em relação a Passos Coelho, eu diria que Passos Coelho não vai aparecer a apoiar ninguém, vai se manter em silêncio Acho que é do conhecimento geral que Passos Coelho não morre de amores por Marques Mendes. Tem um capital de caixa. Também não morria de amores por Marcelo Rebelo de Sousa, como se sabe.
Nem por Rui Rio e podíamos ficar aqui o resto da tarde.
Sim, é muita gente. É verdade, Rui Rio também. Quando falamos em candidatos presidenciais, eu não esperaria que ele quebrasse o silêncio. Não tenho tanta certeza assim que a escolha dele seja Ventura ou mesmo Cotrim. Eu nem sei se não poderia ser Gouveia e Melo. É tão fechado que é difícil perceber qual é que é, de fato, a preferência. Admito que ele não votará em Marques Mendes.
E uma palavra dele poderia ser demolidora ou definidora para-
Não sei se para Marques Mendes.
Para todos, neste caso. Ou evento qual apoio a algum deles.
Eu penso que Marques Mendes também tem defendido menos a herança de Passos Coelho. Aliás, o PSD não soube defender Passos Coelho. Soube melhor o PS defender José Sócrates, até não o defendendo, do que propriamente o PSD defender aquela que foi a política de Passos Coelho.
Eu acho que essa é a razão da mágoa de Passos Coelho e, portanto, da sua não amizade com Montenegro, Marques Mendes, Rui Rio, é porque sente que foi abandonado e renegado até por esse PSD.
Eles representam exatamente isso. Até porque Marques Mendes, como comentador, também não foi muito simpático nas fases mais difíceis da governação de Pedro Passos Coelho. E nesse contexto, eu diria que o PSD tinha de refazer algum do seu discurso para conseguir capitalizar um apoio de Passos Coelho. Mais facilmente, capitalizou esse apoio, quer Gouveia e Melo, quer André Ventura.
Vamos às notas para este arranque de campanha, porque ainda queria ir à Operação Marquês. Helena, tens notas?
Olha, eu dou um 10, porque uma campanha assim vai se tornar muito aborrecida. São 15 dias. Vamos estar a falar de Sá Carneiro, Passos Coelho, Troika.
A ver vamos.
Vai ser muito doloroso.
Eu quero dar uma nota aos herdeiros de Sá Carneiro, mas aos herdeiros mesmo, à família. Vou lhes dar um 15, só não dou mais porque depende deles aceitarem ou não esta minha ideia agora, que é: peçam royalties. Acabem com a brincadeira. Isto passa a ser um hit, é uma canção. Querem tocar a canção, querem usar a nossa marca registrada, paguem. Acho que vamos aparecer os herdeiros.
Grande ideia.
Olha, eu vou dar um oito a este arranque de campanha, porque eu, ao contrário do que aconteceu na altura dos debates, que achei que eles foram úteis, interessantes, não todos, naturalmente, mas também 28 era impossível que fossem todos bons, e foram esclarecedores, apesar de tudo, acho que este arranque de campanha está a ser uma coisa muito pobre. Mas enfim, estamos a fazer campanhas iguais há 30 ou 40 anos, portanto, não espero mais.
Ainda temos alguns minutos, Helena, mais um episódio na Operação Marquês. Vou tentar resumir isto rapidamente. O advogado de Sócrates-
Resumir o processo Marquês rapidamente. Vão te contratar.
Não, eu consigo. Está doente, está internado no Hospital de Santa Maria. Hoje houve sessão, a juíza chamou uma advogada que disse que não, declarou objeção de consciência, porque é militante do Chega e já foi militante do PS, mais ou menos durante 30 anos, e veio uma outra senhora advogada, entretanto suspenderam o julgamento até dia 13. E esta senhora advogada disse que nem vai se dar ao trabalho de consultar o processo, porque nem vale a pena, nem conseguiu falar com o arguido. Ora, tudo isto é legal, tudo isto está nas regras, por aí. Continuamos a olhar pra isto como se estivéssemos a ver uma série, não é?
Exatamente. Nós corremos o risco de nós próprios sermos uma série de perplexidades sucessivas. Porque este julgamento é, de fato, sem dúvida, um guião de como arrastar um julgamento. É um guião perfeito. Tudo acontece, agora o advogado está doente e não há maneira de arranjar outro advogado. É sempre capaz de nos surpreender. Eu pensei que, neste momento, isto já está a atingir um patamar tal, que eu sei que nós já estamos quase incapazes de nos indignarmos com o que se está a passar. Mas valia a pena não desistirmos.
Não perdermos a indignação, a capacidade de nos indignarmos.
A capacidade de nos indignarmos, porque isto, neste momento, já é o regime que está a ser ridicularizado. Eu espero que juízes, advogados, legisladores, que são os deputados, gostem de se ver ao espelho, neste momento, a serem ridicularizados pela incapacidade que foram tendo ao longo dos tempos de tornar eficaz um julgamento destes e de serem usados desta maneira, de o sistema ser usado desta maneira.
Helena.
Eu acho que isto aproxima-se do que poderia ser uma sitcom, se não fosse uma coisa tão deprimente e tão triste.
Tragicomico.
Acho, sobretudo, na linha do que dizia a Helena, acho que este governo ou outros qualquer, alguém neste país, pelo amor da santa, tenha coragem para reformar a Justiça. Eu não sei por onde é, eu não sou especialista na matéria, mas há uma coisa que não é preciso ser especialista pra se saber, é que como está, não dá Nos Estados Unidos, Maduro vai ser julgado por um juiz com 92 anos. Também tem problemas, os juízes também se reformam. Mas eles encontraram soluções. Há um juiz com 92 anos que vai julgar Nicolás Maduro. Em Portugal, nós não conseguimos encontrar um advogado para um arguido. Não sei por onde começar, mas nós tivemos um presidente da República 10 anos a fazer discursos na abertura do ano judicial, a pedir reformas na justiça e pactos para a justiça. E toda a gente assobiou pro lado. Há aqui uma responsabilidade objetiva dos partidos políticos em fazer qualquer coisa, e eles não fazem. Se não fazem, eu acho que o eleitorado tem que exigir que façam qualquer coisa, a não ser que queiram que o país seja a república das bananas.
Sim, vale a pena lembrar que, neste momento, eu gosto desses 15 minutos de fama que algumas dessas pessoas vão tendo, neste caso, a senhora chama-se Ana Velho, esta nova advogada oficiosa do José Sócrates. É o sexto advogado que o José Sócrates vai ter neste processo. Tivemos João Araújo, que morreu. Pedro Dellio, que saiu pelas razões conhecidas. Tivemos durante 24 horas ou pouco mais o oficioso José Santos, que ainda tentou, coitado, ainda se quis interessar por aquilo, mas José Sócrates nem quis falar com ele. Tivemos José Preto, que já não deve ter sido fácil de encontrar, porque quem é que tem anos de vida à sua frente pra ler o processo? José Preto, que tinha casos super polêmicos no seu currículo, agora está doente, internado no Santa Maria, portanto tentou novamente suspender o julgamento. É a juíza, isto também está a acontecer, parece-me, já por impaciência da juíza, que está a tentar que isto não pare. Ela quer continuar. Como quer continuar, chama mais uma oficiosa, que é esta senhora Inês Louro, desta manhã, que calha ser do CHEGA. Não sabia que era do PS, fiquei agora a saber por ti, Ricardo.
31 anos militante do PS.
Soube que chegou a ser vereadora do CHEGA na Azambuja, mas também recusou o cargo. Vai recusando uma coisa por isto, recusando a outra por aquilo. Pronto, tudo bem. Caiu nas mãos desta senhora Ana Velho, que tentou dizer: "Não, eu não tenho nenhuma incompatibilidade, eu simplesmente não quero." E a juíza disse: "Não, desculpe, é a sua obrigação, vá ver se tem tempo ou não tem, isto fica assim." E pronto, agora temos mais umas semanas de espera pra este assunto. Vale a pena também dizer que hoje teria o reatar do processo, depois da saída de Pedro Dellio. O que ia acontecer hoje se alguma coisa tivesse acontecido? Íamos ouvir a reprodução dos depoimentos de três testemunhas que já faleceram. António Pinto de Sousa, tio do José Sócrates, José Castela, que era do GES, e o empresário José Guilherme. Vai morrer toda a gente. Isto vai chegar a um momento que já não resta ninguém pra contar esta história. E já alguém disse isto daqui, eu já não sei se foi mesmo a Helena aqui há umas semanas. Este processo pode ter uma vantagem muito boa. É o manual pra fazer a reforma da justiça em Portugal. Deve haver uma imagem melhor do que esta, mas são o que eu acho que são os testes de estanqueidade ou algo que existe quando há uma fuga ou de gás ou d'água. Então manda-se a água lá pra cima que é pra ver exatamente por onde é que ela está a sair. Está aqui, justiça em Portugal, onde é que estão os problemas? Estão aqui os buracos todos à vista neste caso. Portanto, resolveu o Zé agora. Ok, não pode haver não sei quantos advogados, não pode ficar doente isto ou aquilo, não pode haver recursos pra aqui e pra ali. São todos estes os erros que têm que ser corrigidos, estão aqui.
Obrigado. E o Vencedor É regressa amanhã, depois das 08h30 da manhã, nas manhãs 360.