Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

E o vencedor é: na Rádio Observador. Hoje, à Judite França juntam-se a Helena Garrido e o Pedro Benovides e vamos falar de saúde, porque a Ministra da Saúde vai reunir-se, ainda não sabemos quando, com a associação recém-criada de tarefeiros. A IGAS, a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde, fez um verdadeiro raid a vários hospitais para tentar perceber se há mais casos semelhantes àquele do dermatologista do Santa Maria. E há também um inquérito, um estudo de opinião que foi hoje divulgado, que revela vários dados. Um deles indica que menos de metade dos portugueses, 47%, sabem onde se dirigir se precisarem de serviços médicos. Helena Garrido, estes pontos, que são diferentes, acabam todos por estar, infelizmente, ligados. É isso?

Exatamente. E a revelarem o trabalho hercúleo que há para fazer no Serviço Nacional de Saúde. Eu começava pela ministra. Diria que depois da tempestade vem a reunião. A Ministra da Saúde confirmou que vai reunir com a recém-criada associação. Tudo indicava que não iria reunir.

Uma associação criada em tempo recorde também. Assim que houve um interesse e começou a ser questionado.

Convinha até, se calhar, irmos confirmar que foi mesmo criada, porque eu não sei se se consegue criar uma associação assim tão rapidamente, mas está tudo cheio de vontade.

É a associação Na Hora, Helena.

Deve ser. Está tudo como teve vontade de pacificar os ânimos. E eu penso que a ministra acabou por ganhar margem na sequência daquela precipitação dos tarefeiros de ameaçarem com uma espécie de greve ou paralisação. Houve uma onda de críticas aos tarefeiros e isto levou-os a recuar e a ministra acabou por ganhar, nem que seja margem no espaço público, para criar algum entendimento. Mas repare-se o paradoxo da situação que é o governo quase reconhecer, hoje de manhã falava-se um pouco disso, até penso que foi o Pedro Brinca que falou um pouco disso, que é o governo reconhecer que tem uma situação ilegal nos hospitais. Porque institucionalizou tarefeiros. Na altura que o António Costa tomou posse era os precários. Eles são médicos, não são precários, são tarefeiros ou prestadores de serviço. É interessante também o que disse a ministra Ana Paula Martins, que hoje esteve na Convenção Nacional de Saúde, a justificar este encontro, dizer: "Falamos com todos, dialogamos com todos, mas nunca sob pressão mediática ou de qualquer grupo." E antecipou ainda mais dificuldades para si própria. Vamos ver o que é que ainda nos espera, porque o que ela diz é: toda a gente quer mudanças, mas quando chega a hora de mudar, vêm as tempestades, vêm as oposições e ninguém quer, e penso que ela também devia saber isso. Uma das coisas que diz é que nós fazemos política com planeamento e não política por impulso. Qual é o problema? É que neste momento a imagem que ela tem é que faz política por impulso, não é política com planeamento e talvez valha a pena, se é de facto, está a fazer as mudanças que pretende, que vá por aí. Mais umas notas para o estudo sobre a saúde, como disseste.

Já vamos ao estudo. Deixa-me só ouvir o Pedro Benovides aqui ainda sobre a ministra, porque, no fundo, esta questão dos tarefeiros dá à ministra a possibilidade de virar a mesa, porque a ministra tem sido muito atacada, tem estado debaixo de fogo. Aqui esta possibilidade de paragem dos tarefeiros caiu muito mal na opinião pública e a ministra aparece como alguém que quer resolver este problema. Isso poderia ser aqui um sopro de vida para Ana Paula Martins.

Eu tenho algumas dúvidas por uma razão. Em termos de pensamento, eu acho que a ministra está certa. A política de saúde tem de se resolver com planeamento e não por impulso. Mas, nesse caso concreto, aquilo que eu acho que a maior parte das pessoas, sobretudo as que são utentes do Serviço Nacional de Saúde, ouviram foi: se estes médicos fizerem greve, eu não vou ter ninguém para me atender. Se eu já espero 19 horas ou 18 horas no hospital, eu vou esperar 36 horas para ser atendido por alguém. Vai ser o caos dentro do caos que já lá está instalado. É a minha convicção. Eu que sou utente do Serviço Nacional de Saúde.

Por isso não reúne o apoio da população, não é?

Não sei. É um bocadinho como os pilotos a fazerem greve. Os pilotos têm uma vida, comparativamente com a maior parte dos cidadãos, privilegiada. No entanto, se os pilotos não estiverem contentes, quem anda de avião fica um bocadinho aflito. E, portanto, pensa: bom, deem lá o que eles querem, que eu quero é chegar ao ponto A ou ponto B com vida, porque isto ainda por cima vai para o ar e eu não percebo nada de voar. Eu não tenho a certeza de que os tarefeiros sejam uma arma que a ministra pode usar. Dito isto, é um problema e toda a gente já o identificou. É um problema que foi criado por quê? Por uma questão de impulso, porque não houve verdadeiramente planeamento e porque estas medidas são tomadas muitas vezes por impulso. São medidas que são tomadas, que vão ficando, que vão deixando lastro e cultura e depois, naturalmente, quem lá está vai aproveitando como pode aquilo que existe. E, portanto, eu diria que acho que a ministra está a pensar bem. Acho que esta reunião Está a ganhar tempo, talvez. Não tenho a certeza de que vão conseguir chegar a bom porto, honestamente, mas não tenho a certeza de que ela tenha tido este sopro de vida que eventualmente o caso poderia ter deixado.

Edite.

Eu acho que vai ser muito difícil chegarem a qualquer tipo de acordo, porque o governo quer baixar o valor por hora e os médicos tarefeiros não vão deixar. E como prestam serviço em que a esmagadora maioria é absolutamente necessário para se conseguir fazer uma escala.

Não há alternativa.

Não, e as escalas já são a contar com os médicos tarefeiros. Não é um anofo.

Sim, há hospitais que é 60% dos atendimentos.

Exatamente. O governo quer cortar. Sim, e então? Mas qual é a alternativa?

A alternativa, neste momento, não existe.

A alternativa negocial do governo, não é?

Sim. Ou seja, o governo tem muita dificuldade em fazer aqui um braço de ferro, porque tem muito pouco do seu lado pra conseguir fazer esse tipo de negociação. Eu acho que se Luís Montenegro pensa mudar esta ministra, esta é uma boa oportunidade pra continuar a queimá-la, porque este tema queima muito. Portanto, o próximo ministro era bom que não viesse já com isto em cima dos ombros e que as negociações decorressem, sobretudo, com estes médicos. É evidente que há várias alterações legislativas que o governo pode fazer, que de alguma forma prejudicam estes médicos. Por exemplo, não permitir que eles saiam do curso logo imediatamente para médicos tarefeiros, obrigá-los a fazer mais uns anos de especialidade. É que depois estes médicos são médicos que não têm especialidade, que não estudaram mais do que os outros, muito pelo contrário, porque são lançados normalmente em tarefas e não têm um diretor de serviço que os acompanha, etc. Estou a citar vários médicos que ainda ontem diziam exatamente isto, que recebem mais, mas não sabem mais do que os outros.

Há vários casos. Também há especialistas.

Há especialistas. O problema é a quantidade de médicos que já saem das faculdades diretamente pra aqui.

Vamos também olhar para o estudo que hoje foi divulgado, Helena, e tem esse dado curioso ou não. Eu confesso que me incluo neste valor, que menos metade dos portugueses sabem onde se dirigir quando precisam de um serviço médico.

É que a maioria não sabe onde se dirigir. Isto foi um inquérito feito pela Convenção Nacional da Saúde, é a conferência que decorreu hoje e onde a ministra falou. Embora o inquérito tenha sido obtido só 457 respostas.

Não é muito.

Exato. Eu gosto sempre de ver qual é que foi o universo, porque às vezes precipitamo-nos a dar grande importância. Tem a sua importância quando nós temos pessoas que tomaram a iniciativa até de responder, que mais de metade, a maioria das pessoas que responderam, dizem que não sabe onde se deve dirigir em caso de necessidade médica e só 39% considera que é fácil marcar exames, tratamentos ou consultas. Nós estamos perante uma situação que diria bastante preocupante, com tantas aplicações, tanto barulho à volta da saúde e afinal, boa parte das pessoas nem sequer sabe o que há de fazer quando precisa de cuidados de saúde. E isto é mais uma tarefa para o Ministério da Saúde ir revelar bem como é que tudo isto se desestruturou, como todo o sistema de saúde está completamente desestruturado. Eu penso que vocês ainda têm a memória de saber onde se dirigirem, ao centro de saúde e ao hospitalzinho, que havia sempre os hospitais mais pequeninos.

Hoje em dia ligas primeiro.

Mas é uma forma de seres orientada pro teu cuidado de saúde necessário. É relativamente fácil, é uma coisa que se fala muito e aparentemente ainda há muita gente que não sabe.

Que não sabe.

Ricardo, também vamos falar do SNS24, se tiverem tempo.

Obrigado, Pedro. Eu estou a pensar em coisas às vezes mais óbvias.

Tu não sabes o SNS24? Tens o teu My SNS.

Tenho a aplicação, tenho isso tudo.

Não cuspo por isto, o Ricardo se desconfiou e agora vamos passar à frente.

Vamos falar das minhas análises, Helena. Agora, se é preciso uma análise ou um exame X ou Y, não sei bem.

No centro de saúde.

Tem de se ir ao centro de saúde e a maior parte das pessoas não sabe.

E isso é revelador.

Médico de família, por exemplo, tens médico de família?

Tenho médico de família.

Ok. Então há aí uma incapacidade qualquer que temos que averiguar no intervalo.

Pedro, o problema não é sistema, o problema é meu, claramente.

Não gostas de aplicações.

Adoro aplicações. Se eu era uma pessoa bem-informada e com aplicações, uso tudo isto. Agora, há uma série de coisas que nós não sabemos como é que funcionam.

É verdade. Uma pessoa se tiver uma urgência. Vamos aqui ao hospital. E quero ter mais dados, não quero estar a aborrecer as pessoas com dados e dados. Mas, por exemplo, uma das questões é: mesmo os doentes crônicos, que aparentemente deviam conhecer melhor o sistema, não o conhecem. Mesmo nesses casos. Portanto, passa-se aqui alguma coisa, o sistema está tão confuso que já até por essa via, é que não tem recursos.

E isto acaba por empurrar muito quem pode para o privado.

Ora bem.

Que é outra das conclusões.

Que é outra informação É outra informação que saiu hoje, que é mais de um terço dos portugueses tem dupla cobertura de saúde, o que significa que pagam os seus impostos normais e depois têm seguro de saúde ou um tipo de subsistema. E este valor é três vezes superior à média europeia.

É por isso que eu como maçãs todos os dias, porque a NAPLA da equipe do Doctor Way, como muitos vegetais, muitas verduras, sopa, como muita sopa e faço exercício físico com regularidade para me manter saudável. E já vamos voltar. Há lá melhor maneira do que uma pessoa estar presa no trânsito às 18h28.

A pensar nisso.

Saber os hábitos de saúde do Ricardo Conceição.

Do que estar a ouvir-

O homem que se sente perdido no labirinto de um hospital

...o "Ivenç Doré".

Não precisa de ir, está bem.

É isso.

Ainda bem.

Maçãs, caro ouvinte, maçãs. Já voltamos. Segunda parte de "Ivenç Doré", com Judite França, Helena Garrido e Pedro Benevides. Terminamos a primeira parte sem dar notas na questão da saúde. Pedro, para quem vai a tua nota?

Olha, a minha nota, Ricardo, vai para o teu otimismo.

Obrigado, Pedro. Finalmente.

Pronto, eu acho que é devido. E eu sou uma pessoa justa, tu sabes disso.

Andei aqui a apostar por este país.

Pronto, tu achavas que a ministra tinha ali uma bolsa de oxigénio. Podia eventualmente ter, eu discordei de ti, senti-me um bocadinho mal, mas acho que o teu otimismo deve merecer um bom 18.

Obrigado.

Sendo que, ainda agora eu estava aqui com a emissão, no caso das cinco notícias aqui mesmo à minha frente, onde tínhamos duas coisas interessantes. Uma: ministra não revela se pediu para deixar o cargo. Eu acho que isto é logo o sinal de que aquele oxigénio já se foi. Quando uma ministra está constantemente a dizer se pediu para deixar e se está a prazo, é uma ministra sem poder, efetivamente. Já tinha falado disso aqui uma vez. E depois houve uma citação da resposta da ministra onde ela diz: "Não sinto que tenha falhado." Com todo o respeito, mas é mesmo com todo o respeito pela ministra da Saúde, não me parece que este tipo de frases coladas a si própria sejam exatamente a definição daquilo que é uma pessoa com uma longa carreira de poder à sua frente a nível do ministério que tem nas mãos. Mas pronto, eu sou um pessimista e, portanto, Ricardo, eu estou do lado... Apesar de tudo, gosto das pessoas positivas, que veem o Toy Story, que vibram com o Toy Story e que têm confiança nas bolsas de oxigénio. Ricardo, um 18 pra ti.

Obrigado, Pedro. Judite?

Eu à hipótese de tarefeiros chegarem a alguma plataforma de entendimento minimamente lógica com a ministra, vou dar um 14.

Helena Garrido, também a tua nota, mas antes da nota ainda queres falar da IGAS?

Queria só sublinhar que a IGAS está a fazer um raid, aliás, disseste logo no início do "Vencedor", está a fazer um raid sobre hospitais de norte a sul do país desde dia 8 de setembro, a notícia é da CNN. E eu diria que esta é uma excelente ideia. Eu devia introduzir isto como uma rotina.

Falaste nisso ontem.

Exatamente, nós falámos aqui disto ontem, sem saber que isto já estava a acontecer e está a acontecer desde setembro. Com tudo isto, este embrulho todo que fizemos aqui da saúde, que todos os dias tem uma proliferação de notícias, eu mesmo assim dou um 12 à ministra, porque não tem passado contenção, é verdade, mas revela uma grande persistência, uma grande resistência e tem, de facto, um trabalho hercúleo em mãos. Eu tenho dúvidas que, caindo outra pessoa, pode eventualmente ter um bocadinho mais de jeito a falar publicamente, criar um bocadinho mais de empatia, eventualmente isso.

Lembras de como é que começou a ministra? A primeira coisa que chegou, quando chegou ao ministério, foi dizer que havia uma série de direções dos hospitais que eram incompetentes, chamada a entrada a pé juntos.

Exatamente. E o povo costuma dizer entradas de leão, saídas de centeio.

Exatamente.

E isto foi um bocadinho o que aconteceu, quer com a ministra, quer com o primeiro-ministro, que também prometeu resolver o problema da saúde. Eles subvalorizaram o problema, que é bastante mais grave. Mas mesmo assim, eu diria que vamos a um 12.

Um 12. Judite França e Mário Centeno.

Lembraste disso por causa das saídas de centeio? Ficou Centeno.

Eu não sou assim tão genial. Sou quase.

Isto não seja Centeno.

Era uma piada.

Não. Sabes que Judite é rainha de piada, Helena. Mário Centeno pode ir pra vice-presidente do Banco Central Europeu?

É verdade, pode andar a fazer um períclio.

Com o apoio fervoroso do governo português.

Epá, isso menos.

Ok, então conta lá a história.

Anda a fazer um périplo por várias capitais europeias a tentar mostrar que é a pessoa indicada para ocupar o lugar onde está o espanhol, também muito nosso conhecido, Luís de Guindos, que está na vice-presidência da autoridade bancária e, portanto, seria muito interessante se, de facto, Mário Centeno conseguisse o lugar. Entretanto, em Portugal, o governo português diz que é extemporâneo comprometer-se com nomes, mas não fecha a porta a um apoio. O que diz é: "Nós apoiamos todos os portugueses que queiram ser bem-sucedidos lá fora."

Não interessa. Helena, tem grandes hipóteses Mário Centeno ou não?

Já agora, não sei se sabem quem é um dos seus opositores, porque há três nomes que estão bem. Um deles é o nosso conhecido Olli Rehn.

Exatamente, o comissário europeu que dizia que nós nos portávamos muito mal financeiramente. Obviamente que a vontade de Mário Centeno é ir para vice-presidente do Banco Central Europeu. O governo ainda o tentou exportar para a Autoridade Bancária Europeia, que é uma coisa mais chata e com pouca notoriedade, mas ocupar o lugar de De Guindos é muito mais interessante, apresenta-se ao lado da presidente Lagarde nas conferências de imprensa e dá-lhe muito mais protagonismo. Claro, é a ambição de Centeno. Não tenho a certeza que vai conseguir, as contas que se têm vindo a fazer desde sempre que se sabe que é essa a ambição dele, é que nós tivemos há muito pouco tempo um vice-presidente, foi o caso do Vítor Constâncio, e portanto não tenho a certeza que vá conseguir. Ele vai fazer os possíveis e os impossíveis, é um lutador, como sabemos. Do lado do governo é irônico, porque eu diria que o governo adorava exportá-lo, mas também não o quer exportar para um sítio em que ele possa ter muito protagonismo e aborrecê-lo ainda mais do que iria aborrecer aquilo que está.

O homem que não quiseram para governador do Banco de Portugal, dar-lhe esse poder era uma coisa estranha.

Pode vir a dar muito mais protagonismo. Acaba por lhe dar mais protagonismo, e obviamente que o Centeno não perde oportunidades de ser protagonista e é, como bem sabemos, bastante vingativo. Que diga Carlos Costa. Ele não esquece. Aquilo fica ali. Mas vamos ver os próximos acontecimentos. Temos aqui um tema interessante.

Achas que o governo não tem outro remédio senão apoiar?

Não sei se os ouvintes que estão a ouvir, se notam a alegria na voz da Helena aqui a contar. Não se sentiu a mesma coisa quando estamos a falar dos problemas da saúde.

É um tema interessante. É um tema que me entusiasma ver os jogos que se vão fazendo, que o governo não pode dizer que não apoia.

A Helena já se está a preparar as pipocas. Não há outra hipótese ao governo senão apoiar Centeno, Pedro?

Seria estranho o governo fazer uma oposição pública a um nome de um português. Acho que isso também não vai acontecer. Mas acho que vão ser estas declarações um pouquinho mais vazias de conteúdo, mais simpáticas, mas vazias de conteúdo. Estava a ver também Luís Montenegro, agora também lhe perguntaram sobre isso e ele disse que o governo vai acompanhar com empenho e recato, que também é uma frase bonita e que alimenta-nos esta novela durante mais alguns dias. Vamos ver. Neste tipo de candidaturas, não se faz um estardalhaço, sob pena do governo sair humilhado porque ele é escolhido.

Claro, obviamente.

Dito isto, acho que nenhum de nós aqui está convencido que o governo esteja muito empenhado neste apoio e entusiasmado com este apoio. Estamos nós mais entusiasmados com a novela do que o governo com este apoio.

Daí a expressão recato. É muito usada em tipos de apoio.

Alguém quer dar alguma nota, Judite? Não.

Sai um 16 para Centeno, o homem que não desiste, que vai a todas. É todos os cargos europeus, Eurogrupo, não sei o quê. Agora BCE, vamos a isso.

E Pedro Novitz, queres falar do julgamento da Operação Marquês?

Queria falar sobre o julgamento da Operação Marquês. Já falei aqui uma vez sobre isto, sobre a palhaçada em que este julgamento se tornou. Não sei se a palhaçada é a palavra técnica, mas que aquilo é um circo. Se tornou um circo, eu acho que tem sido bastante visível para todos. Curiosamente, é um circo que é feito dentro das regras do jogo, ou seja, aquilo que nós estamos a ver é que José Sócrates naturalmente usa este julgamento, que ele tentou evitar até ao limite, como um palco para se vitimizar, para se fazer de mártir face à perseguição política e perseguição do Ministério Público e perseguição do sistema judicial em Portugal. Nós já sabíamos isso. Ele está mais preocupado em fazer isso do que propriamente em mostrar-se inocente, porque acho que também já percebeu que dificilmente a opinião pública estará com ele nessa luta. E portanto, ele trava a luta que pode, e a luta que pode é tentar até ao máximo do que lhe for possível, evitar ser julgado ou evitar ser condenado ou evitar que os crimes pelos quais ele está acusado ainda existam em cima da mesa quando o julgamento chegar ao fim. E tem uma equipa de advogados que naturalmente está alinhada com ele e que tem participado neste circo com ações que nós nunca tínhamos visto, de forma a tratar a juíza, de forma a tratar o tribunal, de desrespeito completo, de criação de factos e de invenção de coisas que não fazem qualquer sentido para quem está a ver de fora, que pode até ser divertido nalgumas matérias, mas a verdade é que isto é um risco enorme para a nossa democracia. Aquilo que a juíza acabou por fazer, que foi dar tempo a José Sócrates para encontrar um novo advogado, fez, de acordo com as próprias palavras da juíza, com que alguns dos crimes agora possam chegar mesmo ao limite da prescrição, e isso é claramente um dos objetivos. E nós estamos aqui a ver uma equipa, e quando estou a falar de equipa, estou a falar advogados e José Sócrates, que estão conhecendo todas as brechas, todas as manhas que existem na lei, estão a explorá-las todas para que consigam sair impunes de um processo que é fulcral, sobretudo nos tempos de hoje, em que a corrupção passou a ser um slogan político de alguns partidos, que tenha ou não adesão à realidade, passou a ser um slogan político. E aquilo que este julgamento pode dar a impressão, e já está a dar essa impressão, é de que Portugal não é um país igual, que a justiça não é cega para todos, que fecha os olhos a uns e não fecha os olhos a outros, que um cidadão comum que não tem os recursos de José Sócrates não consegue pagar uma equipa de advogados para fazer este tipo de coisas que podem beneficiá-lo no final. E portanto, aquela ideia de que há uma justiça para ricos e uma justiça para pobres, uma justiça para os poderosos e uma justiça para os fracos, é um minar completo daquilo que é um pilar essencial da nossa democracia, o Estado de Direito em que nós nos assentamos e que nós temos de acreditar nele e nas suas instituições para acreditar que a nossa democracia funciona. Completamente minado por este espetáculo degradante que nós estamos a ver. E aquilo que eu pergunto é: ninguém está a ver isto? Somos só nós? Ninguém está a ver isto. Quem tem poder de decisão não está a ver. Não tem nenhuma palavra para dizer: é preciso acautelar a nossa democracia. Aquilo que se está a passar não pode passar-se. Nós ouvimos umas palavras tímidas da Ministra da Justiça a dizer: "Está a acontecer tudo aquilo que não deve acontecer". Então o que é que se faz perante isto? Não podemos legislar perante um caso concreto, mas acho que este caso não é o único, nem é a primeira vez que nós começamos a perceber que há uma série-

Há muitos anos que sabemos que há justiça para ricos e outra para pobres.

Exatamente.

Temos noção disso.

E este caso o que está a fazer é torná-lo evidente para toda a gente. E portanto, nos tempos que vivemos, que são tempos perigosos, isto que está a acontecer é muito perigoso. E acho que o nosso poder político, não estou a falar do governo especificamente, o nosso poder político, que passa até pelos candidatos presidenciais, que não os ouvi a falar sobre isto ainda, precisa de dar alguma tranquilidade aos nossos cidadãos, porque isto para mim inquieta muito.

E queres já dar a tua nota?

Com muito custo, porque eu tenho que me manter fiel àquela coisa de dar boas notas, mas os encenadores deste espetáculo, até agora, estão a ganhar em toda a linha, portanto, para eles um 17. Não vou dar mais.

Mas eu, por acaso, sou um bocadinho mais pessimista do que tu.

Achavas que eu estava a ser otimista ainda?

Não, acho que tu achas que é possível fazer alguma coisa agora para restaurar a confiança das pessoas no sistema da Justiça, e eu acho que isso vai demorar muitos anos.

Pois, eu também acho.

Mas alguma coisa que venha a ser feita.

Nem agora, nem nunca, porque aquilo a que nós estamos a assistir é que quem pode fazer começa a estar quase sequestrado pela Justiça, direta ou indiretamente, e ninguém se mexe. O problema é que, obviamente, não se pode legislar em cima do acontecimento. Isto é um estúpido caso de buracos na lei que permitem arrastar os processos.

É um bom caso para estudar onde é que se pode-

Exatamente, onde é que se deve alterar a lei. A minha questão é se algum dia haverá margem política para alterar essa lei.

Mas neste caso, por exemplo, da desistência do patrocínio por parte do advogado, há uma manobra aqui surpreendente, se eu dizer mesmo manobra, porque ninguém estava à espera.

Absolutamente nada, são muito criativos.

É um coelho tirado da cartola. Isso obviamente é que está previsto em algum lado. E está, e foi usado. Também não é possível prever tudo e ter tudo acautelado.

Até porque há coisas que não passaria pela cabeça de ninguém. A própria juíza disse que o advogado deveria ter ficado a garantir o processo enquanto-

Que é isso que está previsto.

Exatamente, mas ele não fez isso. Aqui a questão, ao mesmo tempo, é a impotência do próprio sistema, de reagir. É muito assustador.

Obrigado, Helena. Obrigado, Pedro e Judite. O Vencedor regressa amanhã, depois das 20h30, nas manhãs 360.